Capítulo 3
Desde que aquele livro veio parar em minhas mãos, eu não paro de pensar na dona dele. E em um jeito de devolvê-lo a ela. Na mesma noite, no jantar, perguntei aos meus pais se eles conheciam os Swan ou alguém que os conhecessem.
- Não, querido. Sinto muito. Por quê? É um novo amigo da escola?
- Não, mãe. Eu só queria saber.
No dia seguinte, na escola, perguntei a Frederick e Peter se eles conheciam alguma Bella Swan.
- Bella? É esse o nome? Bella Swan? – Frederick fez cara de quem estava pensando – Não – e seu rosto se iluminou – Ela é bonita? É sua amiga? Apresenta-me!
Ignorei totalmente as últimas frases e olhei para Peter.
- Desculpa, Edward.
Ainda no mesmo dia, no jogo de basebol, depois da aula, perguntei a todos que estavam presente e ninguém nunca tinha ouvido falar em nenhuma Swan. Achei isso realmente muito estranho. Tudo bem que Chicago era a segunda maior cidade dos Estados Unidos e que tinha mais de um milhão de habitantes, mas ela devia morar por perto, pois estudava na escola católica a duas ruas daqui e por esses lados não se vê muita gente andando na rua que more longe. Estava pensando nisso quando Peter me perguntou:
- O que você tem, Edward? Não conseguiu arremessar nem uma bola decente.
- Sinto muito, Peter. Perdemos feio, não foi? Eu estava pensando na Bella Swan.
- O que tem ela, Edward? Por acaso estás a gostar dela?
- O quê? Não! – respondi rapidamente - É só que ontem, quando estava voltando para casa, depois da sorveteria, eu esbarrei com ela no caminho e acabei ficando por engano com um livro que ela deixou cair no chão e quero devolvê-lo.
- Sei... Por que você não volta lá amanhã para ver se ela passa de novo no mesmo lugar? Eu e Fred vamos com você! Aproveitamos e conversamos mais sobre aquele outro assunto.
- Sim. Tens razão. Amanhã, então, nos vemos. Tchau. Tchau Fred! – falei um pouco mais alto para Fred que estava mais distante.
Depois que cheguei em casa e jantei, fui para o meu quarto e peguei o livro para ver se não tinha mais nada dentro dele. Não tinha. Mas continuei olhando o livro e quando dei por mim, já estava lendo suas páginas. A estória era boa. Mostrava todas as futilidades da sociedade inglesa da época, o preconceito contra as profissões liberais e tantas outras coisas. Estava quase na metade do livro quando adormeci e enquanto dormia tive uma ideia.
Desde então, eu saí todos os dias mais cedo de casa para poder passar em frente a escola dela e talvez vê-la. E depois da aula eu ia à sorveteria com Fred e Peter com o mesmo objetivo além de ainda organizar nossos planos de ir para a guerra.
Quase uma semana depois que esbarrei com Bella Swan, eu estava quase perdendo as esperanças de encontrá-la. Afinal, quais eram as chances se eu ainda não a havia encontrado ou se ninguém que eu conhecia a conhecia? Acordei um pouco mais tarde naquele dia e não pude ficar muito tempo em frente a escola católica pois estava atrasado para a primeira aula.
O dia estava sendo tão interessante como sempre era. Aulas de biologia, física, literatura, almoço, literatura de novo e dois horários de história. O tempo costuma passar tão lentamente quando você quer que ele passe rápido. Time is money.
Quando finalmente a aula de história acaba, eu fui me juntar com Fred e Pete no portão da escola e seguimos o caminho que já estava tornando-se rotina nesta semana. Continuamos nosso caminho ruma à sorveteria da outra rua, perto de onde esbarrei com Bella Swan. Eu olhava para todos os lados em busca de alguma garota com a farda da escola católica. Uma que fosse pálida e que tivesse cabelo castanho. Não olhei ninguém semelhante.
Chegamos à sorveteria. O atendente já nos conhecia pelos nomes, por causa da freqüência absurda com que fomos lá nesta semana: todos os dias. Não tinha muita gente, apenas um grupo de meninas que pareciam risonhas demais. Pedimos os sabores de sempre e sentamos-nos na mesa de costume.
- Então, Edward, o que mais temos para organizar antes de partirmos? – Pete perguntou.
- A data. Estava pensando em partirmos na primavera do ano que vem. Até lá, já teremos todos dezessete anos e será menos fácil alguém perceber que somos jovens demais. – falei baixo, me aproximado deles enquanto falava. Não era algo que queríamos que alguém soubesse.
- Primavera? – Fred falou – Um ano, então? Teremos que esperar um ano? E se a guerra já tiver terminado até lá?
- Um ano não é muito tempo. Além disso, você pensa que do jeito que as coisas estão, a guerra vai terminar tão cedo? Em um ano, vão estar tão envolvidos com a guerra e tão necessitados de soldados, que não se importarão de levar gente nova demais. Só para o caso de eles perceberem a nossa idade.
Fiquei calado apenas observando as expressões deles, tentando adivinhar o que eles estavam pensando. Pareciam estar analisando a questão, imaginado na prática, tudo o que acabei de falar. Pete foi o primeiro a interromper o silêncio:
- Edward, seu malandro! Você é mesmo um gênio! Pensou em tudo, hum. Está oficialmente comprovado: você é realmente ótimo em tudo o que faz! – Pete estava bem empolgado, mas eu fiquei um pouco encabulado pelos elogios. Não era algo tão difícil de imaginar todas essas coisas. E eu não era ótimo em tudo o que fazia, apenas me esforçava mais do que julgavam necessário.
Continuamos a discutir outros detalhes mais silenciosamente, enquanto saboreávamos nosso sorvete, quando Fred nos interrompeu:
- Pete, Edward! Olhem lá!
Era um grupo de garotas que pareciam ter chegado há pouco tempo. Estavam sentadas no lado oposto ao qual estávamos. Soltei um suspiro resignado, ia começar tudo de novo.
Fred sempre gostou de correr atrás das garotas. Já havia perdido as contas de quantas vezes ele foi estapeado. Não importando quantas vezes, todos eles foram tapas bem merecidos.
- Vamos lá cumprimentar as senhoritas.
Fred se levantou e Pete foi junto. Eu permaneci sentado, terminado com meu sorvete. Além disso, falar com garotas não era bem a minha especialidade. Estava apenas prestando meia atenção neles quando algo me despertou:
-... ela gosta que a chamem de Bella, Bella Swan.
Levantei de imediato. "Bella Swan"? Era uma daquelas meninas? Reparei melhor no grupo, rapidamente a identifiquei: pele clara, cabelo castanho, hoje preso apenas com uma fita, e jeito tímido.
- Bella Swan? – falei. Todos se assustaram, não pareciam ter percebido a minha aproximação.
- Sim. – finalmente conheci seu rosto. Não era o mais bonito já tinha visto, mas mesmo assim me surpreendi com a regularidade de seus traços. Dei um sorriso aliviado por ser realmente a dona do livro que estava em minha posse.
- Finalmente te encontrei! – falei sorrindo. Era engraçado o modo como ela estava vermelha. Era bonito. E seus olhos eram tão transparentes, dava para ver tudo por aquele castanho. Ela estava confusa.
- Perdão, você estava a minha procura?
- Sim. Eu estava. – mais uma vez sorrindo ao notar sua expressão. Ela estava ficando cada vez mais vermelha. No entanto, lembrando de que ela não me conhecia e percebendo a minha falta de modos, parei de sorrir e acrescentei imediatamente – Desculpe-me, não me apresentei. Sou Edward Masen, estou com algo que lhe pertence.
- Você está com algo meu? – ela perguntou com sua voz baixa, parecia ser típica dela. – Nós nos conhecemos?
- Não exatamente. – ela pareceu um pouco mais confusa – Nos esbarramos na rua, aqui perto, há quase uma semana, e na confusão eu acabei ficando com um livro seu por engano, Pride & Prejudice de Jane Austen? – ela parecia ter entendido tudo e algo que eu não soube identificar se acendeu nos olhos dela.
- Você está com meu livro? Sério? Pensei que estivesse perdido para sempre, que nunca mais o veria. Você está com ele aí? Pode entregá-lo agora?
Apesar da voz baixa de sempre, ela parecia muito feliz e um pouco desesperada. Ela gostava tanto assim do livro? Geralmente garotas não gostam tanto de ler quanto gostam de viver romances.
- Claro! Está dentro de minha mochila. Eu vou pegá-lo. – levava sempre o livro comigo, dentro da mochila. Fui até a mesa em que estava antes e abri a mochila que estava numa cadeira ao lado de onde estava sentado. O livro não estava lá. Olhei em todos os bolsos e nada. Foi quando lembrei. Hoje saí apressado de casa, pois tinha acordado tarde, e devo ter esquecido o livro em cima do criado mudo ao lado da cama onde o deixei depois de lê-lo mais uma vez. Já estava voltando quando a ouvi perguntar bem atrás de mim:
- Então? Onde está o livro? – ela tentava olhar atrás de mim, como se eu estivesse escondendo o livro. Por que eu faria isso?
- Desculpe-me, srta. Swan. Devo ter esquecido o livro em meu quarto esta manhã.
- Ah...
Ela estava triste. Eu não conseguia ver uma garota triste. Fiquei um pouco desesperado por isso. Olhei para os outros, que estavam conversando na mesa do lado oposto, procurando alguma ajuda.
- Não fique assim, por favor. Eu posso trazê-lo amanhã neste mesmo horário para você. – olhou para mim, o rosto que já havia ficado da cor normal, estava voltando ao vermelho – Ou... Eu posso trazê-lo agora mesmo para você. Eu não moro muito longe, sabe?
- Não? Então eu posso ir com você? – ela falou tão baixo que tive dificuldades para ter certeza do que ela havia perguntado. – Eu sei que está um pouco tarde e que pode ser um pouco incômodo, mas é que eu gosto muito desse livro em particular.
- Claro, eu entendo. Tenho certeza que não será incômodo algum. – não é costume eu levar garotas para minha casa, aliás, não é costume eu levar garotas para canto algum, mas o que mais eu poderia fazer? – Então é melhor irmos logo. Tudo bem para você?
- Sim. Vou apenas avisar para as minhas amigas.
- Tudo bem.
Fomos até o grupo que continuava a conversar alheio ao que acontecia comigo e Bella.
- Mary, você pode passar na minha casa antes da sua e avisar a minha mãe que chegarei um pouco mais tarde? Por favor?
- Tudo bem, Bella. Pode ir tranquila. – Mary respondeu sorrindo e me lançando uma rápida olhada. Parecia que ela gostava do fato de Bella sair comigo.
- Até amanhã, Fred, Pete. Foi um prazer, senhoritas. – falei me despedindo de todos. – Por aqui, srta. Swan. – falei dizendo o caminho.
Saímos da sorveteria e fomos seguindo o caminho para minha casa. Agora ela parecia muito envergonhada por algo. Estava sempre com o rosto virado para o chão. Eu não gostava disso, era muito melhor olhá-la nos olhos.
- Então, srta. Swan, mora aqui por perto?
- Sim, só que no sentido oposto – disse apontando na direção contrária a que estávamos tomando. Foi quando eu percebi que ela tinha um pouco de sotaque.
- A senhorita não é de Chicago, não é?
- Oh, por favor, não me chame de senhorita. Eu me sinto estranha com essas formalidades todas. Chame-me apenas de Bella.
- Ok, Bella. – falei enfatizando o nome dela – Pode me chamar apenas de Edward, então. – falei sorrindo um pouco e repeti a pergunta - Você é de Chigado?
- Ok, então, Edward. – gostei do meu nome sendo falado por ela - Não, eu nasci em Atlanta, Geórgia. Moro em Chicago desde julho passado apenas.
Continuamos conversando pelo caminho. Bella tinha catorze anos, iria completar quinze em setembro, não gostava do frio de Chicago, preferia o calor escaldante de Atlanta. Quando perguntei por que então havia se mudado para Chicago, respondeu, com orgulho e com uma pitada de desafio na voz, que foi por causa de sua mãe, que havia se desquitado do pai dela há três anos e não queria mais morar perto do ex-marido. Não discuti quanto a isso, apesar de ter achado estranho ela ter os pais separados, não era algo comum, apesar de ficar cada vez mais constante.
Percebi, também, que ela não havia brincado quando disse que estava acostumada a tropeçar. Tive que segura-la umas três vezes no caminho, para não deixa-la cair. E em todas essas vezes ela se mostrava um tanto nervosa e envergonhada.
Nem havia percebido o quanto tínhamos andado, quando chegamos a minha casa. Conversar com Bella era tão fácil.
- Chegamos.
O sol estava quase se pondo quando passamos pela porta de entrada.
- Edward, querido! Que bom que está bem. Estava começando a ficar preocupada. Por que demorou tanto? – minha mãe é muito precipitada. – E... Quem é essa linda jovem? – perguntou olhando para Bella e sorrindo. Reparei que meu pai estava bem atrás dela.
- Oh! – falei me apressando – Mãe, pai, está é Bella Swan. Bella, estes são meus pais Elizabeth e Edward Masen.
- É um prazer, minha jovem! – pai falou beijando-lhe levemente a mão. Notei que Bella ficou levemente vermelha por isso. Ela fica vermelha por tudo?
- Claro! É sempre um prazer quando Edward traz um amigo.
- Ela veio buscar um livro que me emprestou. Está lá em cima, eu vou buscá-lo.
- Esqueça o livro, Edward. Por que não convida Bella para jantar conosco? Está quase na hora.
Eu já estava quase na escada. É claro. Que falta de cortesia a minha. No entanto, Bella foi mais rápida em falar algo.
- Eu não quero atrapalhar, sr. Masen. Eu...
- Você não vai atrapalhar, querida. – minha mãe falou – Edward, vá lavar as mãos e leve Bella para poder fazer o mesmo. Aqui, me dê sua mochila para eu poder guardá-la.
Minha mãe não esperou Bella para entregar-lhe a mochila, simplesmente foi tomando-lhe e guardando no armário de casacos perto da porta.
- Por aqui, Bella. – levei Bella até o lavabo, perto da sala de jantar.
- Seus pais parecem ser legais. Eles são sempre tão receptivos?
- Sim. Às vezes eles exageram um pouco. Desculpa, eu não queria te forçar a nada.
- Não. Tudo bem. É só que eu não queria chegar tarde em casa. Minha mãe vai ficar preocupada, mesmo eu tendo pedido para Mary avisá-la.
- Não se preocupe com isso. Posso levá-la para casa com a nossa carruagem. Vai ser rápido. Eu prometo.
O jantar foi algo extremamente agradável. Meus pais fizeram algumas perguntas para Bella. Eles pareciam fascinados com ela. Bella sabia cativar as pessoas. Mas dava para ver o quanto ela era tímida pelo jeito como curvava os ombros para frente e pelo jeito como sempre estava vermelha.
O jantar acabou com um insistente convite de meus pais para que ela voltasse no próximo fim-de-semana com a mãe dela também. Fizeram Bella prometer que voltaria.
Já estávamos conversando na carruagem, Bella com seu livro em mãos, quando ela me perguntou:
- Por que disse aos seus pais que eu havia emprestado o livro?
Essa me pegou de surpresa.
- Você viu como são meus pais. Eles iriam fazer perguntas um pouco inconvenientes.
- Certo. Ali é minha casa. – falou apontando para o local. – Não é tão grande.
E não era. Na verdade era bem pequena. Mas imagino que para Bella e a mãe dela devia bastar. Era quase oito horas quando chegamos à casa dela.
- Está entregue. Sã e salva. – falei saindo da carruagem e ajudando-a a descer. Foi uma ótima idéia, pois ela já estava quase caindo tentando sair sozinha. – Preste mais atenção onde põe o pé, Bella. – falei sorrindo.
- Não zomba de mim. Eu sou apenas um pouco distraída.
"Muito distraída" em minha opinião. Bella era tão pequena e frágil que dava vontade de colocá-la em uma redoma para protegê-la de tudo. Sorri com meu pensamento.
- Você quer conhecer a minha mãe?
- O que? – ainda estava distraído com meus pensamentos.
- Bom... Eu conheci seus pais e... Prometi que voltaria no próximo fim-de-semana. Seria legal se você já conhecesse minha mãe.
- Claro. Seria uma honra.
Renée, como gostava de ser chamada a mãe de Bella, era uma mulher um pouquinho extravagante. Não se preocupou muito com o fato de sua filha ter chegado de noite com um rapaz a porta de casa. Era jovem e alegre e falante. Tenho certeza que nos dez minutos em que trocamos palavras, ela falou mais do que Bella nas últimas duas horas. Ela aceitou o convite de meus pais e disse estar ansiosa pelo encontro. Bella me acompanhou até a porta na hora em que tive que partir.
- Por favor, não ache que minha mãe é louca ou algo do tipo.
- Não. Eu gostei dela.
Bella sorriu. Era lindo o sorriso dela.
- Eu posso convidá-la para dar um passeio comigo amanhã? – as palavras saíram de minha boca assim que pensei nelas, nem tive tempo de pensar melhor e refreá-las. – Para conversar. Eu gostei muito de conversar com você. – disse rapidamente depois de ver a expressão confusa e indecisa de Bella.
- Hum... Não sei. Eu...
- Por favor. – eu estava insistindo? Onde eu estava com minha cabeça? É claro que ela não vai aceitar. Conhecemos-nos há o quê? Três horas? Ela certamente não devia sair sozinhas com rapazes e...
- Ok! É sábado. Tenho certeza que minha mãe irá gostar que eu saia um pouco de casa.
Ela aceitou! Que alívio! Eu não conseguia parar de sorrir. E eu nem sabia direito o motivo.
- Certo. Então eu te pego aqui, amanhã, às três da tarde. Pode ser?
- Estarei esperando. – ela também estava sorrindo.
Naquela noite eu mal consegui dormir. Estava ansioso para ver Bella. Ela era diferente das meninas que eu já havia conhecido. Eu queria conhecê-la melhor. Não me arrependo das decisões que tomei. Apesar de ter estado cara a cara com a morte por causa delas, elas também me levaram a Bella.
