Alguns minutos se passaram e eles ficaram assim, parados, segurando as mãos, olhando um para o outro, se decorando, se contemplando. Eles não precisavam de palavras para conversar. Seus olhos diziam tudo o que sentiam. Jensen estava mais tenso. Ele sentia muito medo de falar algo e estragar o que parecia perfeito, estava com medo de começar a pensar e se dar conta de que tinha encontrado amor num homem. É um pecado imperdoável! Vou arder no inferno! Meus pais vão me odiar mais! Meus amigos! O que estou pensando? O que estou sentindo? Jensen não teve dúvidas. Aquele garoto era a pessoa que ele sempre procurou. Ele se lembrou dele. Mas de onde? Estou enlouquecendo! Não faz nem 1 hora que vi este garoto, nem ouvi sua voz, e estou sentindo amor? Paixão? Tão rápido? Não. Jensen soltou as mãos de Jared e antes que pudesse dizer qualquer coisa, teve sua linha de pensamentos interrompida por Mrs. Margareth que ainda estava no quarto observando tudo.
- O amor nunca é pecado. Não devemos deixar de viver o amor por medo dos outros. Pecado é não viver o amor, não é mesmo, garoto? – Ela disse, olhando em direção à Jared.
-Com certeza. "O amor não se vê com os olhos. Mas com o coração," como diria Shakespeare. – Jared disse isso e sorriu, todo covinhas. Sim, estou sonhando, ele pensou.
Jensen corou. Como ela sabia o que ele estava pensando? E como aquele garoto poderia ter um sorriso tão lindo? E voz tão suave? Jensen corou mais ainda ao ter estes pensamentos.
- Q-qua-qual se-u nome? Jensen perguntou, gaguejando e corando mais ainda.
Jared achou engraçada a cara de assustado do outro. Eu conheço ele, tenho certeza. Por isso estou reproduzindo tudo em sonho. Igual quando eu era criança. Devo ter desmaiado de novo...
-Qual seu nome? Jensen repetiu, com mais firmeza na voz, desta vez.
-Jared, mas pode me chamar de Jay, se você quiser. E você, quem é?
-Sou Jensen. Muito prazer. – Jensen lhe estendeu a mão. Jared soltou uma gargalhada perante tanta educação do outro.
- Qual é a graça? – Jensen perguntou sem graça, corando, com o coração na boca.
-Me desculpe. Sou um idiota às vezes. O prazer é todo meu, Jen.
Jen? Porque o outro o estava chamando de Jen? Eles mal se conheciam... apesar de Jensen ter certeza absoluta que conhecia o outro... mas de onde?
-Estou sonhando, certo? – Jared disse, inseguro.
- Você não está sonhando querido. Você está mesmo aqui, conosco. – disse Mrs, Margareth tranquilamente.
-Ah sim, estou num filme dos anos 50, certo? – Jared riu com desdém.
Jensen estava extremamente preocupado. Meu Deus, acho que ele bateu muito forte com a cabeça! O que eu fiz? Ele pensou, e disse em seguida:
-Escute Jared, eu te atropelei, está uma tremenda confusão nas ruas por conta das celebrações do tão esperado dia da vitória da guerra e...
-Como assim? Não fiquei sabendo de nenhuma festa pra celebrar o fim da guerra, e pelo amor de Deus, isso aconteceu a tanto tempo e, ok, sou patriota e acho que devemos honrar os heróis de nosso país, mas...
Jared parou de falar ao olhar ao redor. As roupas deles, a maneira diferente de falar...
-Que dia é hoje? –Ele perguntou com medo na voz.
- 7 de setembro – Jensen respondeu.
-De qual ano?
- 7 de setembro de 1945. Você está confuso, pois provavelmente bateu com a cabeça quando eu te atropelei. – Jensen respirava com dificuldade novamente. – Mas vamos lhe ajudar, eu prometo.
- Eu falei sobre o dia de hoje com meus alunos...eu... falei...eu estou sonhando com uma data histórica...eu...minha cabeça...não consigo...
- Jared! Jay! Oh Deus, não por favor! – Jensen estava apavorado. Assim como Mrs. Margareth e Alice.
2012
-E este paciente?
- Foi trazido hoje pela manhã. O nome dele é Jared Padalecki, segundo os documentos. Foi atropelado, quebrou um braço e 3 costelas. Tem algumas lacerações pelo corpo. Mas o que nos preocupa é o trauma na cabeça. A frequência cardíaca é normal, mas a pressão arterial está alta. E ele teve um traumatismo craniano, que lhe causou aumento do volume do cérebro. Estamos tentando diminuir o inchaço, mas agora só depende dele.
- Certo. Ele é paciente do Collins?
-Sim
- Vamos deixa-lo em coma induzido por mais 48 horas. E vemos como ele reage ao tratamento. Já entraram em contato com a família?
-Ao que parece ele não tem família. Mas achamos um número de emergência, parece que de um amigo próximo.
Os aparelhos que marcavam os sinais vitais do paciente começaram a mudar de frequência.
- A pressão dele está 19/10, batimentos cardíacos diminuindo.
- Certo, vamos começar a ressuscitação.
Assim que o médico colocou a mão no peito de Jared para fazer a massagem cardíaca, seus batimentos voltaram ao normal. Os enfermeiros da sala ficaram surpresos. E o médico sentiu uma onda de calor invadir seu peito. Uma emoção indescritível tomou conta de seu ser. Ele empalideceu, e sentiu as pernas bambearem.
-Dr. Ackles? O senhor está bem?
1945
Uma onda de calor invadiu o peito de Jared. De repente ele se sentiu vivo, seguro, em paz. A sensação do toque daquelas mãos em seu peito o fizeram voltar a consciência. Ao abrir os olhos, ainda enxergava tudo em preto e branco, mas o calor que percorria sua pele e enchia seu coração de paz e conforto, o fizeram questionar se de fato estava sonhando. Talvez eu deva ter batido muito forte com a cabeça. Mas e a data do calendário? Ao ver o ano, 1945, ele sentiu uma dor muito forte em sua cabeça e o ar escapou de seus pulmões. Algo estava errado. Ele sabia, ele sentia que estava no lugar certo, mas como isto era possível?
-Jared, você está bem? – Jensen o olhava com olhos assustados e não tirava as mãos de seu peito, de seu coração.
-Sim...Sim, estou melhor. Senti uma tontura, mas já passou.
-Você nos assustou. Ficou pálido de repente e perdeu os sentidos. Acho que é melhor leva-lo a um hospital e...
-Não, nada de hospitais. Estou melhor, foi só uma tontura, vai passar, tenho certeza. Por favor, não me leve para o hospital - Jared quase implorou.
-Não será necessário leva-lo a um hospital. – Mrs. Margareth interviu- tenho certeza de que Jared irá se recuperar logo.
Jensen assentiu ainda um pouco contrariado. Ele ainda mantinha as mãos sobre o peito de Jared. Conseguia sentir o coração do outro bater. Foi um gesto instintivo. Como se ele devesse fazer isso, toca-lo para trazê-lo de volta a consciência. Jensen estava muito confuso e assustado, mas ao olhar para os olhos de Jared sentiu uma paz invadir seu peito, e outras emoções que não pôde decifrar.
Jared olhou intensamente para Jensen. Tinha algo de muito familiar naquele olhar, apesar de não conseguir ver a cor dos olhos do outro, Jared via luz irradiar de lá. Paz. Sinceridade. Aquele olhar lhe trouxe a sensação de estar em casa. Mas ao mesmo tempo ele sentiu medo. Ele não sabe do que ou por que, mas sentiu muito medo.
E como se Jensen tivesse lido sua mente, ele disse:
-Não tenha medo. Tudo vai dar certo, você vai ficar bem. Eu prometo. Nós vamos ajuda-lo.
-Obrigado...é...bem... acho que você já pode tirar a mão do meu peito agora – Jared disse, dando um sorriso sereno.
Jensen mais uma vez corou e relutantemente tirou as mãos do peito de Jared. Apesar de não ver as cores, Jared pode notar que o outro havia corado pela expressão em seu rosto. Ele deu um sorriso para Jensen, como que dizendo que estava tudo bem. O outro entendeu e ficou mais calmo.
Chris entrou no quarto, acompanhado de Jacob, que não parecia muito a vontade em entrar sem ser convidado, ainda mais quando sua mãe estava lá. Mas Chris estava muito ansioso e preocupado com a demora, e ele tinha ouvido Jensen chamar por alguém, com voz alterada.
-Está tudo bem? – Chris perguntou, timidamente, enquanto encarava Jared.
-Sim, está tudo certo. Vamos sair e deixar Jared descansar. Ele precisa de repouso agora.
Jensen não se moveu. Ele não conseguia ficar longe de Jared. Ele não queria deixa-lo sozinho. De repente um sentimento de medo se formou em seu coração. E se quando ele voltasse, Jared não estivesse mais lá? E se ele resolvesse ir embora? Jensen não entendia de onde vinha estes pensamentos, este medo, está sensação de vazio só de imaginar que Jared poderia ir embora. Mas ele vai embora! Ele tem a casa dele! Jensen começou a ficar nervoso e negando com a cabeça, disse:
-Vou ficar aqui com ele, para o caso dele precisar de algo.
Mrs Margareth sabia que ele iria dizer isto. Ela sabia que Jensen estava reencontrando aquilo que lhe foi negado pelo destino. Mas ela também sabia que algo estava muito errado. Que não era para as coisas acontecerem desta forma. Ela olhou para seus filhos, e com o olhar ordenou que todos saíssem do quarto. Alice se virou para Jared e deu um amplo sorriso pra ele, dizendo:
-Descanse bem, Sunshine.
Jared sorriu de volta e piscou para a garota. Sunshine... ele achou bonitinho o fato da garotinha chama-lo assim, lhe pareceu tão familiar.
Jensen tremeu e um arrepio percorreu sua espinha. Como ela sabia? Foi a primeira palavra que veio a mente de Jensen assim que ele viu os olhos de Jared. Sunshine. Como se fosse o jeito correto de chamar o outro. Jensen estava um turbilhão de emoções, seus pensamentos a mil, seu coração parecia que iria sair por sua boca. E ao ver-se sozinho com Jared no quarto, ele não soube como agir. Resolveu ficar em silêncio, observando o outro, tentando descobrir de onde ele o conhecia.
Só que o que Jensen não sabia, era que devia ser perguntar de quando ele conhecia Jared, não de onde.
Os dois ficaram assim, se olhando, até que Jared fechou os olhos e relaxou. Jensen imaginou que ele estivesse dormindo, mas na verdade Jared estava pensando no que estava lhe acontecendo. Ele sabia que estava vivendo em outra época, e que via tudo em preto e branco, mas sabia também que aquilo não era um sonho. Ou será que era? Não. Ele não estava sonhando. Ele podia sentir. Quando Jensen o olhou nos olhos, quando Jensen tocou em seu peito. Ele o conhecia. Mas de onde? Será que ele estava morto? Jared pensou que talvez tivesse morrido e que o céu era um lugar que reproduzimos em nossa mente. 1945 era o ano que Jared mais gostava. E Billie Holiday ainda estaria viva... e ele havia falado do dia de hoje com seus alunos... e Jensen deveria ser seu anjo da guarda. Ele era muito bonito, e tinha aquele rosto conhecido. Não. Ele não era um anjo, era muito mais do que isso. Jared sabia, e resolveu que iria tentar descobrir o que estava acontecendo sem se apavorar. Jensen está aqui comigo. Vai ficar tudo bem. E após pensar isso, Jared adormeceu. E Jensen, que estava sentando em uma cadeira ao lado da cama, também adormeceu, segurando a mão do outro.
