Chapter Three – Big Little Things

De certa forma, a promessa de um bom ano se cumpriu para Albus. Tirando o fato de que James mal falava com ele, e fazia questão absoluta de tornar a vida dele um inferno sempre que possível, as coisas iam bem.

Claro que havia problemas. Alguns slytherins, de famílias que eram ligadas a Voldemort faziam o possível para tentar atrapalhar Albus. E eles teriam conseguido.

Se não fosse por Scorpius.

Era assustador o prestígio que ele carregava dentro de Slytherin. O menino tinha amizade com quase todas as pessoas que realmente importavam dentro da Casa, desde Aeon Zabini, filho do Professor de Poções, até Ralph Goyle – que depois Albus veio a descobrir que era o garoto grande sentado ao lado de Scorpius no primeiro dia, Julienne Nott, filha de Pansy Parkinson, agora Pansy Nott e Theodore Nott. A princípio, Albus teve extrema dificuldade de se relacionar com eles: primeiro pelo ego, depois pelas convicções e por último por causa dos preconceitos. Mas pouco a pouco, com um empurrãozinho de Scorpius, Albus conseguiu se sair bem.

Era interessante ver como estar debaixo da asa de um Malfoy podia mudar as coisas. Albus certamente seria vítima em Slytherin, ou pelo menos seria até conseguir mostrar alguma força. Com Scorpius, porém, ele não precisava se esforçar tanto assim. De alguma forma ele era "o garoto do Scorpius" e isso parecia bastar para algumas coisas. Com menos pressão, Albus conseguia agir e se comportar melhor.

Foi uma questão de tempo e oportunidade Albus ganhar respeito por quem ele era. Além de ser um aluno muito bom e conquistar pontos para Slytherin durante as aulas, Albus tinha herdado dos pais o talento para o Quadribol. Tanto ele quanto Scorpius já eram apontados como futuros jogadores do time Slytherin no ano seguinte, quando alguns alunos do time se formariam e deixariam vagas.

A reação de Harry em relação à seleção de Albus foi bem tranqüila. Ele parabenizou o filho e fez uma lista de recomendações que incluíam feitiços de proteção e manter-se sempre alerta, não comer nada da mão de ninguém e correr para um professor sempre que ele tivesse um problema. Qualquer problema. Harry inclusive enviara um cordão com um pingente com as iniciais A e S, onde o "S" era uma serpente, para o filho com dezenas de feitiços de proteção, antifurto, antiperda e de localização. Assim Harry saberia onde o filho estava, como estava e se precisava de ajuda. Albus achou um tremendo exagero, mas Scorpius tinha dito que o cordão era muito bonito, então Al o usava.

Ginny e Lilly também pouco se importaram com a seleção de Al. A irmã mais nova até mesmo arriscara um "Eu já esperava por isso", que para Al, era apenas uma tentativa boba dela parecer inteligente. Ele sabia que ela tinha ficado tão surpresa com a seleção de Al quanto James.

A diferença é que ela não azarava Al as escondidas, não fazia piadinhas e continuava falando com ele normalmente.

Os dias, semanas e meses foram passando tão rápido que para Al foi uma surpresa quando o feriado de Natal chegou.

Albus estava terminando de por as últimas peças de roupa dentro do malão, enquanto os outros dois meninos com quem ele e Scorpius dividiam o dormitório – Anthony Gamp e Thor Bulstrode – ainda recolhiam a maioria de seus pertences. Ele terminou de jogar as últimas camisas dobradas dentro do malão, deu uma última olhada em volta e fechou-o.

-- Como você consegue ser tão organizado, Al? – perguntou Thor, jogando de qualquer modo algo que Albus tinha a impressão de ser uma camisa do lado avesso. – Nem parece que você mora nesse dormitório! Eu te invejo.

Albus riu e olhou em volta. Scorpius já deveria ter voltado da detenção – fora uma péssima idéia tentar sabotar a poção das meninas Hufflepuff. O Prof. Zabini vira tudo e trocara as poções sem que Scorpius percebesse. O resultado foi uma explosão, Scorpius com o cabelo roxo e duas semanas de detenção "por não saber armar uma brincadeira sem ser pego".

Albus riu quando se lembrou da cara escandalizada de Scorpius por ter sido pego e ter levado uma detenção. Era ainda mais engraçado o pergaminho que o pai de Scorpius enviara, chamando atenção para o descuido dele: que da próxima vez, ele, por favor, se certificasse de que o professor não estivesse vendo.

Al sacudiu a cabeça. Era tudo tão diferente ali e, ao mesmo tempo, era simplesmente magnífico. Ele simplesmente não conseguia compreender porque tivera tanto medo de Slytherin no início. As lições que ele aprendia ali dentro ultrapassavam e muito os limites da sala de aula.

-- Onde está o Scorpius? – perguntou Anthony, sentando-se em cima do malão que se recusava a se fechar. Pela forma com a qual Thony tinha jogado todas as suas coisas, não era de se admirar que o malão não fechasse.

-- Eu não sei. – respondeu Al. – Ele já devia estar de volta. A detenção terminava às dez.

Anthony franziu o cenho e murmurou um feitiço de Tempus. No mesmo instante, números verdes se formaram no ar indicando que já eram dez e meia da noite.

-- Talvez ele tenha aprontado algo na detenção e esteja cumprindo um extra. – sugeriu Thor com um ar feliz. Thor gostava de Scorpius, mas gostava muito mais de ver as pessoas se dando mal. Um hábito divertido de se fazer voltar contra ele mesmo, pensou Al, como ele fizera diversas vezes.

-- Duvido muito. – rebateu Anthony. – O Professor Zabini sabe que nós partimos amanhã. Ele não o seguraria um momento a mais do que o necessário. Ele mesmo disse que queria que todos nós estivéssemos com nossas malas prontas e na cama antes de meia noite.

Albus assentiu. Zabini era o Diretor de Slytherin e um líder cuidadoso. Ele olhava por seus alunos com uma preocupação paternal e isso não se devia majoritariamente ao fato de que seu próprio filho estava atendendo Hogwarts. Ele simplesmente cuidava de cada criança ali como sua. Algo que Albus uma vez tinha escutado de um dos alunos mais velhos, ter a ver com o período de Guerra e não querer que velhos erros se repitam.

O menino se levantou e andou até a porta. Talvez fosse melhor ele ir atrás de Scorpius saber o que tinha acontecido.

-- Vai atrás dele? – perguntou Anthony. De todos, ele é o que tinha a personalidade mais compatível com a de Al: calado e taciturno, ele preferia observar a agir. Ao contrário de Thor, com quem ele era mais ligado. Ironicamente, era a mesma situação com Albus e Scorpius: o jovem Malfoy agia, enquanto o jovem Potter raciocinava.

-- Vou até o escritório do Professor Zabini. Scorpius ainda nem começou a arrumar as coisas dele, e tem troço dele espalhado até embaixo da minha cama.

Anthony riu e foi ajudar Thor que agora se jogava em cima do malão, numa tentativa de fechá-lo.

Albus passou pela Sala Comunal Slytherin, cumprimentando alguns conhecidos no processo. Goyle acenou para ele, assim como Nott. Ele prosseguiu e tomou o caminho para a sala do Professor Zabini. Algo estava errado. Ele podia sentir, uma sensação inquietante que parecia pulsar em sua cabeça, arrastar-se pela sua pele. Algo não estava certo.

Ele acelerou o passo, desejando chegar logo até a sala. Estava virando o corredor quase correndo.

-- Fica quieto, moleque!

-- Me sol- Ai!

Albus parou de chofre. Scorpius. Ele reconheceria aquela voz até no inferno. Scorpius estava com problemas.

Albus tirou a varinha de dentro das vestes e caminhou silenciosamente, encostado na parede até o fim do corredor em forma de "L". Abaixou-se e espiou pela quina da parede.

Scorpius estava imobilizado com cordas mágicas, jogado no chão, se debatendo com tudo o que tinha. Pasmo, Albus viu quando Henry chutou Scorpius e pôs o pé em cima das costas dele, deixando-o prensado contra o chão. O slytherin gemeu de dor e tentou se esquivar, mas acabou sendo pressionado com mais força.

-- Fica quieta, sua cobrinha imunda. – exclamou uma voz que Albus reconheceu como sendo a de Jonathan. Ele não podia vê-lo de onde estava, mas sabia que ele devia estar um ou dois passos mais atrás que Henry e Scorpius.

-- Hey, o que faremos agora? A gente o pendura no Salgueiro Lutador, o jogamos no lago ou prendemos ele a uma vassoura e fazemos ela voar na direção da Floresta Proibida?

-- Me soltem, seus idiotas, ME SOLTEM! EU VOU ACABAR COM VOCÊS! ME SOLTEM!

-- Chega. Cala a boca!

Albus gelou da cabeça aos pés. James. Aquela voz, a que tinha executado o feitiço Silêncio era de James.

Uma fúria cega tomou conta de Al. Como o irmão dele podia estar participando de algo tão desprezível como prender um menino dois anos mais novo que eles, amarrá-lo e pensar em expô-lo ao perigo? Como ele podia fazer aquilo com um amigo seu? Aquilo ultrapassava todos os limites de uma brincadeira como as muitas que ele tinha suportado durante o ano. Isso superava todas as poções que iam misteriosamente parar na sua comida e o faziam passar mal, todas as vezes que James o fizera cair no corredor, todas as vezes que ele o azarara quando não estava esperando produzindo os mais diversos tipos de efeitos que na maioria das vezes eram dolorosos e o levava a enfermaria. Aquilo não era uma brincadeira, nem provocação. Aquilo era sério.

Com uma coragem que Albus raramente demonstrava com sua personalidade passiva e pensativa, ele se levantou e contornou o corredor, se expondo, a varinha empunhada firmemente nas mãos.

-- Soltem-no. – disse numa voz dura.

Os Gryffindors se assustaram, todos virando as varinhas na direção de Albus. O menino sequer se abalou, olhando a todos com deliberada calma, ainda que por dentro estivesse furioso. Sua vontade era de ir lá e acabar com cada um deles, mas por fora tinha uma máscara de indiferença perfeita.

Albus era, de fato, um Slytherin.

Ele viu a expressão de espanto no rosto de Scorpius, viu a raiva se formando em James, viu os outros dois amigos ponderando o que fazer. Ele estava pronto.

-- Solte Scorpius e vão embora. Agora. – disse Albus novamente, ainda parado onde estava, a varinha mirando James. Ele sabia que James estava liderando o grupo e sabia também que James era o que sucumbiria mais fácil a suas provocações. Era com ele que jogaria.

-- Seu traidorzinho! Eu sabia que você ia aparecer! Veio proteger seu amiguinho?

-- James. Solte o Scorpius.

James riu. Uma risada nervosa e furiosa.

-- Você acha que manda em mim? Seu traidor! TRAIDOR!

James apontou a varinha mais firmemente na direção de Albus. Jonathan e Henry apenas assistiam, atentos.

-- Traidor? Do que? Hein, James? Papai disse que estava tudo bem, mamãe também, só você fica com essa mania de que eu traí sabe-se lá Merlin o que!

James ficou vermelho, mas em momento algum afrouxou o aperto na varinha.

-- Tio Ron me contou tudo. Tudo! Você não sabe quem são esses Slytherins nojentos. Você não sabe o que eles fizeram ao nosso pai!

Albus ponderou. Ele não sabia. Mas duvidava que, o que quer que fosse, não estivesse superado. Seu pai tinha deixado bem claro que estava tudo bem e que nem todos os Slytherins eram maus.

E Albus via isso diariamente.

-- É, eu não sei mesmo. Mas o que eu sei é que já se passaram anos e nosso pai não me repreendeu em momento algum. Você não é ninguém para fazer isso. Solte o Scorpius.

-- Quer saber? Já que você gosta tanto das cobrinhas, você vai junto!

James sorriu de forma cruel e avançou.

Albus se manteve firme onde estava e pensou rápido. Ele só teria uma chance. Uma só. Era isso ou parar sabe-se Mordred onde.

Ele respirou fundo, pronto para agir, quando um clarão vermelho passou voando por cima de sua cabeça.

-- Olha o que temos aqui, amigos! – disse uma voz grave a suas costas. Albus se virou tão rápido que quase perdeu o equilíbrio. – Gryffindors! Em território Slytherin!

Ralph Goyle, Aeon Zabini e mais três quintanistas que Albus só conhecia de vista estavam parados, todos com varinhas na mão e expressões de puro deleite sádico na cara.

Albus viu Goyle piscar para ele e gesticular para que ele se aproximasse. Albus ponderou e no fim recuou até os Slytherins.

--- Você está bem? – perguntou Aeon, baixinho. Albus gostava de Aeon. Era um garoto arrogante e um pouquinho cruel, mas de uns tempos para cá tratava Albus com alguma gentileza, pelo menos dentro de um padrão muito Slytherin de ser.

-- Estou ok, mas o Scorpius...

Aeon assentiu e voltou a sorrir.

-- Garotos, vejamos. Temos três terceiranistas Gryffindors metidos a besta no nosso território com um dos nossos amarrados. Hm, me corrijam se eu estiver errado, mas eles merecem um castigo, não merecem?

Sorrisos cada vez mais cruéis brotaram nos lábios dos Slytherins. Albus viu um pouco de medo nos olhos do irmão, mas também percebeu que ele não parecia disposto a arredar um pé dali.

-- Você realmente não presta, Albus! Você se bandeou pro lado deles! Você...!

-- Cala a boca, seu Gryffindorzinho metido a besta. – disse Aeon em um tom lento. Sua voz grave parecia preencher todo o corredor e Albus notou, com uma pontinha de satisfação, que James parecia ter se abalado. – Sabe o que eu acho? Eu acho que eu vou enfiar uma azaração tão potente nesse seu traseiro Gryffindor que você vai voar daqui até a sua Torre. O que acham, garotos?

Houve um murmúrio de aprovação e risos de escárnio.

Aeon avançou, varinha em punho, os outros Slytherins o seguiram, um pouco mais atrás, sorrindo como um bando de hienas. Jonathan e Henry recuaram na mesma proporção em que os Slytherins avançavam. James hesitou e aos poucos recuou também.

-- Finite Incantatem. – disse Aeon com um floreio da varinha. As cordas que prendiam Scorpius desapareceram no ar. James soltou uma exclamação de indignação, mas foi calado com um puxão na camisa de Henry e uma varinha apontada bem para seu peito por Goyle.

Albus estava com a respiração entalada na garganta. Ele tinha certeza, certeza de que aquilo ia acabar mal. Todo o alívio que sentira quando vira Aeon, Goyle e os outros chegarem desapareceu no momento em que ele percebeu as intenções dos garotos mais velhos.

Eles não iam apenas resgatar Scorpius.

Eles iam dar o troco.

Uma sensação de pânico começou a se insinuar pela mente de Albus. Ele podia estar enraivecido com James e ele certamente achava que o irmão merecia um belo corretivo. Mas ele tinha certeza de o que quer que os Slytherins fizessem não ia ser apenas um corretivo. Ia ser algo para machucar na mesma proporção que James e seu bando pretendiam fazer com Scorpius.

-- Albus! – a voz grave e profunda de Goyle tirou Al de seus devaneios. Ele se aproximou. – pega o Scorpius e tira ele daqui.

Albus passou a língua nos lábios e viu Scorpius se esforçando para ficar de pé. Ele não deixou de registrar o olhar enfurecido de James, que parecia prestes a avançar no loiro, sendo apenas impedido pelo braço de Henry envolto em sua cintura.

Ele se aproximou do loiro, vendo James tentar se desvencilhar do aperto de Henry. Ele não estava preocupado com isso, sabia que antes que James pudesse dar dois passos, ele seria atingido por cinco feitiços. Ele estava preocupado com o que fariam com o irmão.

Ele se abaixou, pegando Scorpius pelo braço. Havia marcas vermelhas por todo braço do menino, resultado das cordas.

-- Você está bem? – murmurou Al, enquanto ajudava o outro menino a se levantar. Ele balançou a cabeça positivamente, com uma careta de dor. Albus viu que as cordas também tinham envolvido o pescoço do garoto e que havia uma longa faixa avermelhada e esfolada na pele. Sentiu a raiva que o dominara antes voltar. Como seu irmão podia ser tão estúpido a ponto de machucar seu amigo daquela forma?

Scorpius e Al foram se afastando de novo na direção dos Slytherins, Scorpius meio jogado em cima de Albus, que o arrastava. Assim que os dois passaram pela parede de Slytherins, o clima mudou.

Eles iam duelar.

-- Aeon... Zabini! Por favor! – exclamou Albus. Ele largou Scorpius encostado na parede e correu na direção do Slytherin moreno. Ele não olhou para Albus, mas deu sinais de estar escutando. – Por favor, Zabini, deixe-os ir.

Goyle olhou Albus como se ele fosse completamente insano. Os outros Slytherins resmungaram coisas indelicadas a respeito do pedido de Albus.

-- Por que eu faria isso? – disse Aeon calmamente. – Eles estão no meu território e estavam com um dos nossos amarrados e iam acabar com ele sabe-se lá Merlin como. E até onde eu sei quem estava amarrado é o seuamigo. Me diga, Potter, por que eu pouparia esses caras?

-- Por que o James é meu irmão. – murmurou Albus.

-- Eu sei disso, Potter. A escola inteira sabe. – desdenhou Aeon, arrancando alguns risos dos companheiros. – O que eu ganho com isso?

Albus encarou Aeon de maneira tão intensa que Zabini foi obrigado a desviar o olhar. O garoto tinha força, isso ele não podia negar.

-- Qualquer coisa.

James xingou Albus de coisas que fariam sua mãe deixá-lo de castigo durante um mês. Albus ignorou completamente o irmão. Aeon sorriu enviesado ao ver o quão decidido Albus estava.

-- Vamos fazer o seguinte. Você não tem nada que eu queira, Potter. O único prejudicado aqui foi o Scorpius. Fica a cargo dele. Se o Scorpius disser que eles podem ir, bem, então eles podem ir. – Aeon deu de ombros. Os outros Slytherins pareciam visivelmente contrariados pela decisão de Aeon, mas nenhum deles disse nada.

Albus se virou na direção de Scorpius. Ele viu o garoto olhando-o com uma expressão vazia, ainda que seus olhos queimassem a pele de Albus. Ele estava sedento por vingança. Albus podia sentir isso.

Ele se aproximou do herdeiro Malfoy e se abaixou na altura de Scorpius, que estava sentado. Os dois se encararam por segundos a fio, numa disputa silenciosa.

Os segundos se esticaram, os olhos verdes implorando enquanto os azuis acinzentados negavam de novo e de novo e de novo. Nada era dito e o silêncio era sepulcral enquanto todos esperavam.

-- Por favor. – murmurou Albus baixinho, tão baixo que apenas Scorpius ouviu, apesar do silêncio.

O loiro ficou calado, ainda perfurando Albus com o olhar.

-- Você me deve uma, Al. Uma bem grande.

Albus soltou o ar que ele nem ao menos percebera que tinha prendido. Ele sorriu para Scorpius, um sorriso que fez o loiro corar sem motivo.

-- Obrigado.

Oh, Scorpius adorava quando ele agradecia.

No fim, Albus acabou salvando a pele de James. Os dois não se falavam em momento algum e mesmo em casa, os dois se evitavam ostensivamente. A situação foi se deteriorando até o limite. Apenas quando os dois se envolveram numa briga feia com chutes, socos, xingamentos e algum sangue, é que Harry interveio.

Os dois filhos mais velhos de Harry estavam sentados no sofá da casa onde moravam, meio ensangüentados, roxos e furiosos. Harry podia sentir a tensão crepitar pela sala.

-- Ok, chega. É natal, eu não estou a fim de brigas aqui dentro. James, olhe para mim quando eu estiver falando com você. – James, que estivera praticamente ignorando Harry olhando a lareira, encarou o pai. – Eu não acredito que vocês estão se espancando como dois animais só porque caíram em Casas diferentes! Eu não acredito nisso!

Albus se encolheu. A voz de Harry estava dura, fria. A mesma voz que, apesar dos meninos não saberem, que ele utilizava no trabalho.

-- Albus, eu achei que você seria minimamente civilizado e evitaria os arroubos de raiva de seu irmão, que está claro para mim, é incapaz de se comportar como um rapaz de 13 anos!

-- A culpa é d-

-- Quieto. – sibilou Harry, calando James assim que ele começou a responder. O menino se calou.

Albus encarava as próprias mãos machucadas de socar James. Apesar de menor e mais novo, ele tinha uma ampla experiência em brigas corporais. Cortesia de James, claro.

-- Eu quero que vocês resolvam isso agora. – a voz de Harry deixava claro que ele não admitiria discussões.

Aparentemente James tinha dificuldades em perceber o óbvio.

-- Pai, a culpa é dele!

-- James!

-- Ele está envolvido até o pescoço com aqueles Slytherins.

-- James, eu não vou pedir de novo.

-- Pai, ele está amiguinho de Scorpius MALFOY!

Silêncio.

Albus sentiu o coração falhar. Oh, droga, droga, droga! Talvez James estivesse certo. Talvez ele não estivesse autorizado a ser amigo de um Malfoy, talvez os Malfoys tivessem feito coisas ruins no passado. Ele mordeu o lábio e esperou pelos gritos.

Que nunca vieram.

-- Eu ainda não entendi o que isso tem a ver com você e Albus se espancarem até quase a morte, James. – disse Harry num tom tão calmo que James se assustou. – Albus pode ser amigo de quem ele bem entender.

-- O quê?

-- Eu acho que você me ouviu.

-- Pai...

Harry cortou James com um olhar fulminante. O garoto gaguejou, ficou vermelho e saiu correndo da sala. Harry o deixou ir.

Albus ficou estático onde estava. Ele encarou o pai, um pouco confuso.

-- Hm, pai...

Harry gesticulou para Albus chegar mais perto. O menino se levantou do sofá e sentou no chão, recostado na poltrona do pai. Harry pôs-se a mexer nos cabelos negros.

-- Albus, você pode ser amigo de quem você bem entender, ouviu?

Albus assentiu. Mas não era esse o problema. Harry sabia disso.

-- E eu não vou penalizar Scorpius pelo o que o pai dele fez no passado. Eu não vou fazer isso com nenhum dos seus amigos, muitos dos quais as famílias eram, de fato, de Comensais.

Albus ficou tão pálido que umas poucas sardas que o menino tinha – quase imperceptíveis na pele um pouco mais morena do garoto –, herança de Ginny, ficaram visíveis.

-- Então o pai do Scorpius realmente fez coisas ruins no passado?

Harry se remexeu desconfortável na poltrona. Aquele não era o tipo de conversa que Harry queria ter com Albus. Entre tantas, ele queria fugir daquilo. Em parte porque ele detestava dar detalhes do passado pretensamente heróico que tivera aos filhos: eles já o idolatravam o suficiente, obrigado, ele não queria ser o Herói do Mundo Mágico para os filhos também. Ele só queria ser um exemplo. Ser pai.

E em parte porque falar de Draco machucava. Harry não o via a pelo menos um mês, desde que os dois se encontraram no flat tempos depois do encontro no dia do embarque. A rotina sexo sem conversa ou envolvimento se manteve impecável como sempre... Mas estava começando a cansar. E a falhar.

Ele pressionou os olhos com as palmas das mãos. Albus interpretou o gesto como dor pelo passado, pelo que o Sr. Malfoy tinha feito a ele.

Aquilo magoou Al além do que era possível.

Ele se levantou e abraçou o pai. Quando falou, a voz estava embargada pelas lágrimas que ele estava prendendo.

-- Desculpa, pai, eu não sabia, eu... Se eu soubesse... Me desculpe! O Scorpius foi tão legal e... Eu... Me desculpe, eu prometo... – Al não conseguiu conter um soluço. A idéia de se afastar do único amigo de verdade que tinha feito era dolorosa, mas se aquilo feria seu pai, se aquilo o incomodava... – Eu prometo me afastar, pai, só me desculpe.

Harry ficou assustado. A voz de Albus estava tão carregada de tristeza que aquilo partiu o coração do auror. Ele sabia que devia doer para Albus dizer aquilo e doía pensar que ele tinha de algum modo machucado Harry. Albus era doce demais para o próprio bem.

-- Al, isso não tem nada a ver com Scorpius. Al, olha pra mim.

Ele empurrou gentilmente Al, tirando os braços do menino de seu pescoço. O garoto escondeu o rosto. Ainda assim, Harry podia ver que ele estava vermelho e em algum ponto, ele tinha sentido as lágrimas do pequeno molhando sua pele.

-- Al, eu não tenho nada contra os Malfoys. Nada. Você pode ser amigo do Scorpius tanto quanto quiser. Eu nunca impediria você disso.

-- Mas o Sr. Malfoy-

-- A família Malfoy foi inocentada de todas as acusações que recaíam sobre ela perante o Wizengamot.

Albus enfim olhou Harry. Como o pai tinha percebido, ele estava chorando livremente.

-- Eles foram?

-- Foram. De todos os crimes.

-- Mas eles eram inocentes?

Harry ponderou. Depois de alguns segundos ele finalmente falou.

-- Narcissa Malfoy salvou minha vida uma vez, Al. Acho que isso resume muita coisa.

Albus ficou ali, parado, algumas lágrimas ainda escapando do rosto bonito e infantil. Harry secou as bochechas do filho com o polegar.

-- Está tudo bem, Al. Eu confio em você.

Scorpius passara o Natal da mesma forma que passava todos os anos desde que tinha consciência de si mesmo: a ceia de Natal era feita em casa, na propriedade Malfoy. E no dia vinte e cinco ele era obrigado a participar de uma grande festa de Natal para a alta sociedade bruxa.

Scorpius detestava as festas.

Ainda assim, quando sua avó muito delicadamente foi ajeitar os botões de prata das vestes que Scorpius usava e perguntar se ele estava gostando, o menino respondeu que sim.

Mas não estava.

Ele mal vira o pai durante o feriado de Natal. Draco nunca estava em casa e quando chegava, Scorpius em geral já estava dormindo. Quando ele acordava, Draco já tinha saído. Ele não entendia que negócios podiam ser tratados em pleno feriado, mas quando questionou a mãe sobre isso, tudo o que ouviu foi um cala a boca e foi mandado para o quarto.

De certa forma, era um alívio estar na festa. Ao menos ele não tinha que passar metade do dia dentro do quarto, morrendo de tédio, fugindo da mãe. As refeições já eram ruins o bastante com Cecile ignorando completamente sua presença.

Pelo menos na festa ele podia ver o pai. Draco estava impecavelmente vestido, mais belo do que nunca, conversando com um grupo de bruxos mais velhos. Scorpius adorava observar o pai, sua elegância, a maneira com ele conversava com as pessoas dando a impressão de estar atento a tudo que lhe era dito e ao mesmo tempo ostentando uma distância que fazia parecer que ele era intocável. Inalcançável.

Scorpius desejava com todas as forças se tornar assim um dia.

O garoto continuou no seu canto, observando a mãe se aproximar de Draco, mais linda do que ele se recordava. Ela estava tão encantadora nas vestes azul turquesa, os cabelos loiros soltos cascateando pelos ombros pálidos. Ele a viu sorrir polidamente, viu os olhares todos se voltarem para a figura esguia e elegante. Viu ela se apoiar languidamente no braço de Draco e seu pai sorrir e continuar a conversar. Sua mãe era tão linda...

Scorpius nunca entenderia porque ela o odiava tanto.

Para o garoto, era normal pensar que sua própria mãe o detestava. Sequer era difícil admitir essa verdade quando ela geralmente jogava isso na cara dele – nunca com palavras diretas, mas com gestos, frases truncadas. Mas o herdeiro Malfoy não se importava realmente com isso. Cecile poderia dizer o quanto quisesse que Scorpius era insuportável.

No fundo, quem tinha a atenção de Draco no fim era ele.

O menino estendeu a mão para a bandeja de canapés e o colocou na boca. Ele queria falar com o pai, contar a ele o que houvera no corredor no último dia de aula. Falar de Albus. Em nenhuma das cartas, Scorpius tinha se lembrado realmente de mencionar Albus nominalmente. Agora, porém, isso parecia vital. Era um esquecimento tolo, de uma criança deslumbrada e que estava acostumada a falar de si, de ter para si as atenções.

De algum modo, Albus parecia quase tão importante quanto falar de si mesmo.

Ele assistiu o pai se desvencilhar de sua mãe e se afastar dos homens com quem conversavam. Viu o olhar ofendido de Cecile. Ele queria que o pai afinal demonstrasse mais atenção pela mãe. Se ele desse, talvez ela gostasse mais de Scorpius?

O menino se encaminhou até o pai, se desviando dos pares que dançavam ao som da orquestra e dos grupos que conversavam. Draco estava virando uma taça de champanhe rápido demais para alguém que sempre tinha seus atos medidos.

-- Oi, pai.

Draco quase se assustou. A única demonstração externa, porém, foi um leve franzir de sobrancelhas.

-- Scorpius. Eu não sabia que você estava aqui. Cecile não me disse que você vinha.

Scorpius encolheu os ombros. Ah, então a sua mãe sequer tinha avisado ao pai que ele estava vindo?

Draco observou o filho por alguns momentos. Ele passou a mão pelos cabelos finos do menino, ajeitando algumas mechas bagunçadas.

-- Está tudo bem?

Scorpius assentiu. Draco não se convenceu.

Draco sabia que a situação entre Scorpius e Cecile ia cada vez pior. Por algum motivo, Cecile sentia um prazer sádico em descontar em Scorpius o desprezo de Draco. Ele detestava isso. Detestava ser, de algum modo co-responsável pelo olhar triste de Scorpius. Cecile era uma víbora, mas que ela não prejudicasse o seu filho pelos motivos mesquinhos dela.

-- Vamos à biblioteca. Deve estar mais silencioso lá. – disse Draco.

Scorpius olhou para o pai, confuso.

-- Mas e a festa?

Draco se inclinou na direção do filho, murmurando baixinho.

-- Eu acho que nós dois já tivemos o suficiente dela, não acha?

Scorpius riu e procurou instintivamente a mão do pai. Ele a segurou e esperou que Draco guiasse o caminho.

O Malfoy mais velho encarou o filho por alguns segundos. Aquele pequeno gesto, de segurar as mãos, demonstrava a insegurança de Scorpius.

O quanto às ações dele penalizavam Scorpius? O quanto mais seu filho sofreria por causa dele?

Draco apertou a mão de Scorpius e o guiou para a biblioteca.

Os dois entraram no amplo aposento. Apesar da madeira escura, a lareira e as paredes revestidas de livros, o lugar tinha um ar frio que sempre remetia Draco a sua infância. Ele olhou Scorpius. Será que ele também se sentia assim?

Draco se acomodou numa das duas poltronas que ficavam de frente para a mesa de mogno antigo. Ele evitou deliberadamente a cadeira de espaldar alto e de acolchoamento em couro vermelho que ficava do outro lado da mesa. Ele sempre se lembrava de Lucius, ali, imponente, frio e indiferente. Quantas vezes Draco tinha encarado o pai sentado ali? Quantas lembranças ruins ela suscitava?

Scorpius sentou-se na outra poltrona, que ficava ao lado da de Draco. Ele encarava o pai num misto de ansiedade e pura admiração.

Finalmente ele tinha o pai pra si, nem que fosse apenas um pouco.

-- E então? – começou Draco, com um sorriso sincero. – Como foram os últimos dias de aula?

Scorpius engatou uma longa descrição das aulas e do que tinha feito, da detenção. Draco ouvia deliciado ao relato do filho.

Até claro que ele disse as palavras mágicas.

-- Se não fosse por Albus eu teria me dado mal depois da detenção, pai. Uns Gryffindors me pegaram e-

-- Quem, Scorpius?

Scorpius levou um tempo para assimilar. Ele não estava esperando que Draco o interrompesse.

-- Gryffindors. Eles me cercaram e me amar-

-- Não foi isso que eu perguntei. Eu perguntei quem apareceu.

Scorpius sorriu. Oh, era isso?

-- Albus, pai. Eu já falei dele antes, é o meu parceiro em Poções.

Draco engoliu seco.

-- Albus o quê, Scorpius?

Scorpius sorriu.

-- Desculpe, pai, que cabeça a minha. Albus Severus Potter, pai.

Draco parou por dois segundos para raciocinar. Ok, então o filho dele estava andando com o garoto do Potter. Justamente com o filho do meio e ridiculamente parecido com o pai. Justamente o filho preferido do testa-rachada, ainda que ele negasse veementemente ter preferências quanto aos filhos, mas o que era claro para Draco, já que o quatro-olhos só falava do garoto quando eles estavam juntos.

Scorpius era amigo de um Potter.

Um senso de hilaridade quase fez Draco ter um acesso de risos. Era tão irônico que seu filho tivesse conseguido o que ele, anos atrás tinha falhado em conseguir, tão naturalmente, que Draco mal podia contar as gargalhadas. No fim, ele somente deu um sorriso enviesado típico.

-- Você é amigo do garoto Potter?

Scorpius assentiu.

-- Mas eu detesto o irmão dele. James. O garoto é insuportável, pai. Está em Gryffindor – Draco sorriu ao ouvir o desprezo na voz de Scorpius ao falar da Casa do irmão de Albus – ele me amarrou, pai. Me pegou desprevenido com mais dois. Se não fosse por Albus e depois por Ralph e Aeon aparecerem, eu estaria perdido.

Draco não prestou a devida atenção a essa parte. Se tivesse prestado, provavelmente iria até o salão de festas, chamaria Zabini num canto e o azararia de trinta maneiras diferentes. Ele tinha pedido que o amigo mantivesse um olho no filho e seu filho quase tinha sido seqüestrado por um bando de Gryffindors malucos. Mas não. Draco sequer ouviu. Sua mente estava longe.

Ele alisou inconscientemente o anel de ouro na sua mão esquerda.