My love, leave yourself behind.
(Meu amor negue-se a si mesmo.)
Beat inside me.
(Pulse dentro de mim.)
Leave you blind.
(Torne-se cego.)
Sia – My Love
Four: Surrender
Undisclosed Desires
Suoh Mikoto & Munakata Reisi
Era dia.
Mikoto soube disso apenas quando a fresta da janela exibiu os primeiros raios matinais. Perdido pelo despertar repentino, semicerrava os olhos, evitando que a claridade ferisse sua visão. E então suspirou, mais um daqueles suspiros de tédio, dedicados apenas a aqueles momentos em que estava totalmente disperso. Estranhamente sentia-se assim, perdido, confuso... Bastante confuso. Era como se não soubesse exatamente o que tinha feito e onde estava naquele instante.
Assimilou o pouco que sua mente conseguia captar ali. E reconheceu de imediato o recinto em questão.
Aquele não era o seu quarto.
O mundo parecia estar sobre suas costas. Poderia ser o peso de uma noite muito mal dormida, talvez. Ou certamente poderia ser o peso das lembranças do dia anterior, que voaram instantaneamente para sua mente, assim que pode avistar um pequeno adorno com o emblema da SCEPTER 4 sobre uma pequena cômoda próxima à cama – onde logo suas mãos começaram a tatear instintivamente à procura de alguma caixa de cigarros e um isqueiro. Seu braço aparentava pesar uma tonelada e mesmo assim, a necessidade de fumar era ainda maior que qualquer incômodo ali. Quando estava ao ponto que alcançar o que desejava, seus olhos viajaram para o chão do quarto.
Suas roupas.
— Merda... – Sibilou longamente, largando o braço estendido deixando-o ir de encontro ao chão. Realmente, o mundo parecia mesmo estar sobre suas costas – e não era só o peso de uma noite muito mal dormida. Mikoto entendia muito bem as causas daquilo.
Apenas optou por afundar o próprio rosto no travesseiro, evitando fazer qualquer outro tipo de movimento.
Sequer ousou olhar para o outro lado da cama.
—x—
Oito horas antes.
"Fique comigo esta noite, Munakata."
Apenas um convite. Confuso e impensado convite. E ali, naquele instante, o silêncio instalou-se brevemente, como se permitisse alguns ínfimos segundos de reflexão. Como tudo chegou naquela situação? Palavras desdenhosas, a indiferença, o declarado ódio entre ambos... Nada parecia ser o mesmo no momento. As mudanças ocorriam aos poucos e a tempestuosa relação não parecia ter o mesmo ardor de meses atrás. Tudo começou com um leve tragar de cigarros e algumas doses exageradas de álcool; e daquele momento em diante, a desenfreada rixa parecia romper-se pouco a pouco, dando lugar a outro tipo de sentimento.
Instinto?
Aparentemente não havia outra explicação para as atitudes – e pensamentos –, que rondavam as mentes dos dois vizinhos. Era o estúpido instinto que atraía ambos e prendia-os um ao outro por alguma ligação forte. O amor funcionava com o ódio e vice-versa, porque ambos tinham a mesma intensidade. Porém eram expressos de maneiras diferentes.
O desejo era o mesmo. A paixão e atração eram as mesmas.
Ah, sim. A atração.
Desde o primeiro encontro, ambos os ideais chocaram-se de maneira tão forte, que o os moradores do edifício passaram a imaginar uma possível guerra acontecendo ali mesmo. E não era preciso de canhões, bombas ou qualquer tipo de artefato perigoso para que todos soubessem que no momento em que Munakata Reisi e Suoh Mikoto se avistavam, o espetáculo que se iniciava era adoravelmente interessante de ser acompanhar. Reisi era irritantemente culto e discreto, enquanto Mikoto exibia sua personalidade relaxada e explosiva – também presunçosa e violenta¹, na opinião do pragmático moreno. O resultado já era o esperado e apimentado ainda mais pelo fato que ambos dividiam um dos andares do edifício.
Os encontros tornavam-se ainda mais frequentes, à medida que o tempo passava. E tudo pareceu ficar do avesso, quando aquilo aconteceu.
E novamente ressaltava-se a pergunta: Como tudo chegou naquela situação?
Um choque de divagações. Aquele convite fizera sua mente interromper qualquer outro processo, para apenasse dedicar a refletir aquelas palavras soltas. Largadas ao vazio como um pedido de socorro, Reisi ponderou em achar que Mikoto estava no seu mais completo estado de loucura. O moreno meditou por alguns segundos – porém aquele pequeno tempo aparentou durar uma eternidade, pois os olhos dourados sobre os seus, parecia subjugar qualquer movimento que pensasse em fazer. Passou a estudar o estado em que se encontrava no momento. As vezes Mikoto lhe observava curiosamente e tão logo desviava o olhar para um ponto qualquer em seu rosto – talvez fitando seus lábios. E rapidamente tornava a manter o contato visual de novo; aquele contato único entre ambos os olhos, como se pudesse abdicar qualquer reação de Munakata Reisi.
Não era questão de raciocínio ali.
Era instinto.
Era o instinto de compaixão, que minutos antes levara os braços de Munakata a enlaçarem-se possessivamente ao redor do outro, na tentativa de contê-lo de alguma forma. Era o instinto que destruía qualquer ideia recriminadora de Mikoto, abrindo espaço para o conforto que os braços do vizinho lhe ofereciam. Era o instinto gritando emalto e bom som, o quanto Suoh necessitava daquilo.
E o mesmo instinto se fizera presente mais uma vez...
Naquele convite.
Render-se ao instinto era mais que necessidade.
Reisi passara a entender muito bem o significado de rendição assim que Mikoto se aproximara de seu rosto, diminuindo ainda mais a distância entre os dois. Podia sentir precisamente a respiração alheia misturar-se com a sua. Não era a primeira vez que elefazia aquele tipo de coisa – estudava as hipóteses loucas que rondavam a mente mal intencionada ruivo, mas achou que era perda de tempo pensar naquilo, pois o ruivo era imprevisível demais. Sem controle dos próprios atos e apenas alimentando o estúpido desejo que crescia cada vez mais em si, seus braços apertavam o cerco que mantinha ao redor do pescoço de Suoh, trazendo-o ainda mais perto.
Mesmo sabendo das consequências dos próprios atos, parecia que nada importava naquele instante.
Talvez não fosse nada de mais – teoricamente falando, pois transar com o vizinho que detesta não lá algo muito normal... Por assim dizer.
Diante das inúmeras desculpas que sua mente teimava em dar, encarava a conveniência como a melhor. De maneira alguma Munakata Reisi diria que no fundo de sua consciência desejasse mais de Mikoto. Seria apenas algo para esquecer o fatídico dia que vivera; dos sentimentos confusos que sentira quando teve que lidar com Suoh e todo o martírio mental que sofrera ao pensar em cada reação do ruivo. Começou a achar que estava louco. Nunca agira de tal forma em alguma circunstância que envolvia seu trabalho. Quem dirá com relação ao vizinho detestável.
E agora estava ali, aproveitando a tortuosa e suave carícia que os lábios de Suoh faziam nos seus. Munakata sabia onde aquilo iria acabar.
Seria apenas algo conveniente.
Render-se ao instinto era mais que necessidade.
Qualquer pensamento fora dissipado da mente, quando Suoh pressionou rudemente seus lábios, usando de certa violência para logo aprofundar um beijo. Invadiu sua boca, explorando-a de forma tão hábil e instigante, que pensou não saber acompanhar aquilo. Reisi sabia que Mikoto era extremamente rude – e ali, naquela ocasião, nada seria diferente.
O ruivo movia-se pelo ímpeto de esquecer tudo – problemas, consequências e toda e qualquer baboseira que comumente surgia em sua mente –, continuavam inimigos declarados e aquela noite serviria apenas para apaziguar os ânimos de ambos.
Para Mikoto, não havia sentimento algum ali. Absolutamente nenhum.
Seria apenas satisfação de instinto.
Render-se ao instinto era mais que necessidade.
Munakata deixou escapar o suspiro de dor. Os atos rudes de Suoh contra seus lábios revelavam mais que violência, como se pudessem descarregar toda frustração que sentia, usando qualquer método apenas para esquecer tudo que tentava o atingir. Suspirava descontroladamente a cada invadida brutal da língua de Mikoto em sua boca, explorando-a de forma lasciva. O calor começara a se intensificar, sentindo o leve acalentar do corpo de Suoh, assim que ele prendera furtivamente seu próprio corpo contra o dele – e a pressão do braço alheio contra sua cintura era quase incomoda.
O calor ali estava insuportável. E as coisas pareciam tender-se ao completo fogo. Deixando-se levar pela irritação, Munakata levou os dedos aos fios de cabelos ruivos, puxando-os brutalmente para trás. Seu olhar recaiu para o par de olhos dourados que lhe fitava desejosamente.
— O que foi? – Embargado pela tensão, o tom de voz de Mikoto exibia-se perversamente rouco. Transpareceu um meio sorriso pelos lábios finos, coloridos pelo beijo sôfrego de segundos atrás.
— Seja mais gentil, bárbaro.
— Gentileza não combina com você, Munakata. – Reisi pareceu estar pronto para retrucar algo, quando sentiu seus lábios serem tomados de forma ainda mais violenta. Desta vez não deixaria barato, pois a presunção de Suoh era deveras irritante para que esperasse um pouco mais de cordialidade por parte dele. Aprisionou o lábio inferior conta o seu, sugando-o dolorosamente e apenas observando o estreitar dos olhos do ruivo.
Não havia ternura ali. Precisavam apenas... Esquecer.
Não havia sentimento algum além de aversão. Irritação. Dor.
Ódio.
Amor e ódio são divididos por uma linha tênue e, no final, não passam de sentimentos parecidos. Ocasiona o mesmo torpor, instinto, paixão... Desejo. A diferença só está na maneira em que são demonstrados.
Ah, claro. Acima de tudo, eles se odiavam...
Reisi sentiu seu corpo ser empurrado para o sofá, deixando-se cair largamente sobre ele. O coração palpitava desenfreado, parecendo ter esquecido o dom do controle. Ascendeu o olhar para a expressão doentia que Suoh exibia na face. Fria e indiferente, como que se não quisesse transparecer nada de sentimental. Observou-o levar as mãos para a jaqueta preta que trajava, escorregando-a livremente pelos braços e indo de encontro ao chão frio da sala de estar. O silêncio ainda pairava intocável até Reisi resolver quebrá-lo.
— Por que você quer fazer isso? – Apoiou as mãos sobre o sofá, impondo seu peso sobre elas. Esquivou-se do olhar confuso de Mikoto. — Por que nós queremos fazer isso?
— Não estamos fazendo nada de mais, Munakata. Isso não tem significado algum. Pelo menos pra mim.
A apatia emanada na voz do vizinho parecia querer rasgar seu peito. Nunca se sentira assim diante de alguma declaração e aquele momento não estava sendo perfeitamente propício para aquela descoberta. Ao sentir-se afetado por aquelas palavras, sua mente trouxera significados muito além dos esperados. Entendia aquilo como algo casual, desprovido de sentimentos... Mas sua consciência teimava em dizer justamente o contrário.
Reisi suspirou longamente, acalmando-se. Ele poderia muito bem dar um basta naquilo, perder a compostura, dizer-lhe alguns impropérios e simplesmente coloca-lo para fora do apartamento. Mas por que faria aquilo, se não havia nada em troca? Seria apenas aquela noite e nenhuma lembrança daquilo seria guardada. Sem sentimento algum.
Não havia significado. Ah, é... Era a tal da conveniência.
Mas... Munakata Reisi, ainda inconscientemente, esperava mais.
Mordera os lábios instintivamente ao ver Mikoto erguer os braços, deixando a camiseta branca que trajava passar livremente por eles, exibindo o corpo extremamente perfeito para o seu deleite. A pele levemente dourada brilhava por conta do calor intenso e aquilo certamente atraiu bastante o a atenção do moreno, que mal esboçava alguma coisa. Reisi subiu o olhar um pouco mais, dedicando-se a encarar a face gélida de Suoh. Por alguns segundos, ambos os olhares se encontraram mais uma vez. Não transpareciam coisa alguma – apenas se analisavam curiosos. Munakata, naquele instante pareceu entender um pouco do poder que Mikoto estava exercendo sobre seu corpo, pois durante alguns milésimos, sentiu-se estupidamente entregue a aquele olhar.
E então ele sorriu.
Reisi odiou aquilo. Pois era aquela face vulgar² – na sua opinião – que Mikoto tinha, atiçava bastante sua raiva.
E ironicamente... Fizera-o perder o dom da réplica.
— E você, Munakata... – Mikoto curvou-se levemente sobre Reisi. Instintivamente, o moreno afastou a cabeça para trás, recostando-se inteiramente no sofá. Aproveitando-se da baixa guarda do moreno e apoiando suas mãos aos joelhos alheios, Suoh sustentou seu corpo ali. Encarou brevemente o olhar perturbado do vizinho. – Isso terá algum significado pra você?
Reisi vacilou o olhar, quebrando o contato visual. Mikoto emanava um calor intenso, fazendo seu próprio corpo atrair-se por aquela temperatura. E assim o fez.
Render-se ao instinto era mais que necessidade.
Aquilo não tinha significado algum?
Quem sabe...
— Não pergunte bobagens, Suoh. Você sabe muito bem que não espero nada de você. É isso que me irrita. – Aproximou as mãos da pele quente que o pescoço do vizinho exibia, acariciando-a com seus dedos. – Você me irrita.
Os dedos subiram de forma curiosa, alcançando a nuca e segurando com vontade os fios avermelhados que ali se encontravam. Sorriu pela visão que lhe fora oferecida – os lábios de Mikoto entreabertos... Extremamente convidativos.
— Você é indiscutivelmente vulgar. Eu te odeio.
Suoh pareceu extasiado por alguns segundos. Seus lábios exibiam um sorriso torto, enquanto aproveitava-se da pressão insana que Munakata fazia em sua nuca. Era um fato incontestável: Estar com Reisi era a principal porta para deixar todo e qualquer problema de lado. E por achar que o ar de sarcasmo que o vizinho emanava era deveras irritante, apagou qualquer expressão vitoriosa de Reisi ao descer seus lábios para o pescoço do moreno. Suspirou elevado, ao sentir a pele arrepiar-se contra sua boca, dando-lhe a garantia que Munakata estava realmente entregue.
— Você fala demais.
O suave soprar do hálito quente do ruivo e o mínimo de autocontrole que permanecia em Reisi fora brutalmente tragado. Desde aquela noite em que passaram dos limites e acabaram beijando-se no meio do corredor, Munakata descobrira que Mikoto era realmente seu ponto fraco.
Em todos os sentidos.
E isso, para ele, era mais uma característica perfeitamente odiável.
Suoh parecia abdicar-se de qualquer demonstração de carinho, pois a cada investida de seus lábios na pele de Reisi, era uma marca arroxeada que se fazia presente. Distribuía beijos e chupões pela pele alva, marcando-a. Os dedos de Reisi apertaram ainda mais seus cabelos, sentindo uma dor aguda que prontamente ignorou. Raspou os dentes na pele da clavícula, abrindo espaço entre a gola da camisa incomoda. E então ouviu o primeiro suspiro alto de Reisi.
Ponto para si.
— Parece que está gostando.
Munakata soltou um muxoxo irritado. Mal conseguia formular alguma resposta desdenhosa que pudesse diminuir a presunção de Suoh, pois a carícia do ruivo estava o tirando do sério. E se estivesse realmente gostando? Pois, de fato, o vizinho não estava o obrigando a nada. Estava ali por livre e espontânea vontade, aproveitando-se das investidas loucas e da tensão sexual que se formara entre eles.
Mikoto parecia atrapalhado, pois começou a bufar irritado quando os botões de sua camisa pareciam um grande quebra-cabeça impossível. E por puro reflexo, quase acertou o rosto de Suoh, quando este – usando um pouco de delicadeza, ironicamente dizendo – acabou por retalhar a camisa branca que usava. Rasgou de cima a baixo, mordendo o lábio inferior ao ver aquela pele exposta. O arfar de Munakata era intenso, buscando incessantemente oxigênio. Sorriu mais uma vez ao fitar o olhar anuviado – e enraivecido– de Reisi.
O aperto em seu pescoço pareceu estar ainda mais doloroso.
— O que v-você p-pens– – Calando qualquer demonstração de fúria do moreno, derrubou o corpo alheio sobre o sofá, colocando-se por cima. Reisi parecia absorto. O contato da pele de Mikoto com a sua, apresentando inúmeras sensações antes desconhecidas. Nunca se sentiu tão quente – e o calor em questão parecia ainda maior em seu baixo ventre. Detestou que sua pele tenha adequando-se muito bem – bem até demais– ao corpo dele.
Render-se ao instinto era mais que necessidade.
Mordeu os lábios em uma tentativa inútil de conter um gemido, quando os dedos de Mikoto passearam pelo seu corpo, como se quisesse marcar seu corpo com fogo. Era loucura como o ruivo parecia febril. Seu corpo reagiu completamente ao toque, sentindo uma dolorosa fisgada em seu baixo ventre, retraindo-se pelo instinto.
Mikoto riu.
— Não sei o que há de tão engraçado nisso? Você é ridículo. Preciso dizer novamente que te odeio?
Ouviu cada palavra de Reisi sendo pronunciada de um jeito extremamente rouco. Suspirou pesadamente, piscando algumas vezes até focalizar o rosto do moreno. Oportunidades como aqueles não podiam ser perdidas – de jeito nenhum. Era a hora perfeita para bagunçar os nervos de Munakata, pois se não fizesse isso, não estaria agindo como um perfeito vizinho odiável. Aproximou-se do ouvido alheio, ocultando o rosto em sua curva do pescoço.
Outro arrepio que não passou despercebido.
— Se me odiasse tanto, Munakata... Não estaria aqui comigo.
O que se sucedera fora rápido demais para o raciocínio nublado de Mikoto, que antes passara a querer dedicar a atenção para sua excitação que começava a incomodar. Sentiu suas costas baterem violentamente contra o chão e logo depois o leve peso de Reisi sobre seus quadris, apoiando uma perna de cada lado de seu corpo. O ângulo de Reisi era, sem dúvidas, perfeito. Os cabelos azulados levemente bagunçados, um meio sorriso perverso que serpenteava nos lábios e os costumeiros óculos que ainda faziam-se presente no rosto. A única novidade ali era alguns pontos vermelhos que coloriam a pele alva.
Seu oxigênio fizera bastante falta naquele instante.
— O que pensa estar fazendo? – Perguntou de maneira retórica. O tom de voz continuava arrastado, embargado pela dolorosa ereção que precisava de alívio.
— Odiando você.
Sua mente parou de trabalhar, entrando em estado de pura dormência. Em um lapso, lembrou-se de certo devaneio nada comum em um dia chuvoso. As mesmas palavras, quase as mesmas consequências.
Talvez aquilo realmente não fosse apenas uma conveniência.
Mikoto dissimulava. Muito mal, porém tentava reprimir qualquer emoção que tentasse transparecer. Nunca confessaria o quão afetado estava pela morte de Totsuka Tatara e quão se martirizava com o instinto de proteção que tinha com seu grupo.
Jamais diria que estava usando Munakata Reisi apenas para esquecer os problemas que lhe afligiam. Por mais que estar com ele, despertasse coisas antes imagináveis, o tempo em que passara divagando sobre o vizinho – e não foram poucos – eram apenas momentos ignoráveis. Era apenas instinto que perdurava ali.
Era assim que queria pensar.
Reisi estrategicamente sentado sobre sua excitação não estava sendo de grande ajuda. Munakata era bastante previsível e tais reações foram surpreendentes. Por pouco não achou que o outro ali presente não era o mesmo, apenas pelo sorriso ordinariamente sensual que exibia. Observou-o curvar-se sobre seu corpo, tocando seus lábios com os dedos, para logo depois selar um simples beijo. Fora diferente da ultima vez, um pouco mais delicado... Mais carinhoso? Mikoto não pensava em descrições, seu leve divagar abriu mais brechas para as investidas de Munakata Reisi. A língua ávida explorava sua boca de forma doce, fazendo-o deixar um suspiro escapar. Ambas as mãos de Reisi repousaram nos lados seu rosto, segurando-o delicadamente entre os dedos.
Uma forma bem diferente de odiar alguém.
Mikoto sentiu-se confuso, só por achar que a conveniência não abria espaço para toques carinhosos e coisas afins. E lá estava Munakata sobre seus lábios, movendo-se suavemente, enquanto o seus próprios tentavam acompanhar. Ambos se descobriam lentamente, sentindo precisamente um ao outro. Era uma sensação inédita aos olhos dourados do ruivo.
Mikoto não estava acostumado a algo calmo. Sua vida inteira era um caos.
Talvez, estar com seus amigos era algo que trazia certa paz. Estar com sua protegida, Anna Kushina, certamente era algo que acalentava seu coração. Mas era aquele odioso vizinho que carregava todos os problemas para bem longe.
E Suoh Mikoto começava a descobrir isso pouco a pouco.
Movido pelo torpor do momento, levantou-se bruscamente, enlaçando a cintura de Reisi com um dos braços. Ele pareceu gemer contidamente – não imaginava Munakata esboçando nenhuma outra reação de excitação. Ele era discreto demais.
Apertou o corpo esguio contra o seu, enquanto sentia seu lábio ser levemente sugado novamente. Por pouco não perdeu as estribeiras, quase se entregando ao ímpeto de usar da violência e possui Reisi sem ressalvas. Mal aguentava a si mesmo e buscava algo para se aliviar. Seu peito movia-se incessantemente em busca de ar, acompanhando o arfar necessitado de Reisi, que escorregava levemente as mãos, que antes estavam em seu rosto, agora repousavam em seus ombros.
Sentindo uma necessidade única, Mikoto passou a observar melhor o olhar de Munakata. Levando as mãos ao rosto do mesmo, retirou as lentes corretivas, abandonando-as em um canto qualquer. Fitou o par de olhos azuis longamente, encontrando um brilho quase inexplicável neles.
Reisi o surpreendera novamente. Causando um arrepio em sua espinha, sentiu a mão alheia sobre seu baixo ventre – sendo mais preciso, sobre o botão de sua calça. Soltou um gemido extremamente rouco, apertando com violência as costelas do moreno. Este suspirou, em um pedido mudo para que tomasse mais cuidado, mas o ruivo pareceu ignorar, apertando ainda mais o braço ao redor de seu corpo. Mordeu o lábio inferior, avançando sobre os lábios de Reisi, aspirando ao viciante aroma que emanava. Retraia o corpo por cada onda intensa que invadia seu corpo, assim que os dedos de Munakata tocou seu sexo, estimulando-o lentamente. O moreno sorriu ao ver o estado do ruivo, observando-o jogar a cabeça para trás e gemer rouco. Levou um dos dedos ao topo da ereção, observando-o quase desmontar-se ali mesmo.
O mundo pareceu parar. Enquanto estreitava o olhar diante de Munakata, ouvia o mesmo quase perdendo a compostura. Era visível o estado em que se encontrava. Mas qualquer pensamento era sumariamente apagado de sua mente, por cada espasmo que seu corpo sentia. Mas ainda não era o bastante.
Mikoto precisava terminar com aquilo – e sua necessidade precisava ser cumprida naquele instante. Refreando a investida de Reisi, derrubou-o impetuosamente sobre o chão gélido, e brutalmente removeu-lhe as calças, jogando-as sobre o sofá. Reisi assustou-se, quase se levantando para provavelmente dizer algo, mas Suoh parecia estar em transe.
Era aquele lado obscuro e vermelho transparecendo.
Para Suoh Mikoto, estar no comando era uma coisa que não abdicaria. E tratando-se de Munakata, reforçar aquela frase era questão de honra.
Render-se ao instinto era mais que necessidade.
Levou a mão ao sexo alheio, estimulando-o paulatinamente. Munakata arqueou diante do primeiro espasmo, fechando a mão em punho, reprimindo qualquer manifestação. Nada parecia importar ali. Nem o fato de estar transando com o própriovizinho. Muito menos o desprezível fato que o vizinho era o odiado Suoh Mikoto.
Sua mente ainda buscava respostas.
Por que se rendeu ao pedido?
O ar escapava descontroladamente de seus pulmões, fazendo respirar de forma descompassada. Gemeu rouco quando um longo dedo invadiu sua entrada, causando-lhe uma dor aguda. O incomodo era claro; Munakata não conseguia esboçar reação alguma, diante da brutal investida de Mikoto em si, ignorando qualquer tentativa de reclamação que tentasse fazer. Um. Dois. Três dedos. Entrava e saída de forma brusca, mordendo os lábios de forma de conter o desejo. Sorriu tortuosamente ao segurar furtivamente as pernas de Reisi, posicionando-se entre elas e invadindo-o cruelmente.
Suoh preferiu não ter percebido a única lágrima displicente que saíra dos olhos azuis.
O cheiro inconfundível de sangue se fizera presente, deixando Mikoto estático por alguns segundos. Reisi parecia perdido, mantinha os punhos cerrados e a feição mortalmente gélida. O aroma pesaroso pareceu instalar-se no local, acompanhando o enfadonho silêncio.
— Me desculpe. – O pedido soara disperso em meio a atmosfera densa. Munakata permaneceu calado – e inexplicavelmente, aquele silêncio doía em Mikoto. Curvando-se sobre o corpo de Reisi, deixou ambas as peles entrarem em contato, acalmando-se de imediato. Procurou-lhe os lábios mais uma vez e de forma leve, tocou-os com os seus. Reisi correspondeu, enlaçando os braços em sua nuca.
— Munakata... – gemeu – Posso continuar?
— Faça o que quiser.
Três palavras que foram ditas de forma indiferente. Mikoto procurou ignorá-la, apenas dedicando-se a forçar sua primeira investida de maneira lenta – estupidamente preocupado com algo que pudesse acontecer. As estocadas tornavam-se rápidas à medida que o respirar de Reisi ao pé de seu ouvido se intensificava, deixando-o louco. Levou sua mão livre à excitação do moreno, enquanto a outra mão sustentava seu próprio corpo Mais forte. Fundo. Intenso. Sua mente não processava coisa alguma, apenas ouvia o sibilar de Reisi em seu ouvido, contendo toda e qualquer demonstração de prazer. O movimentar era brutal, quase animalesco.
Ambos não pronunciavam absolutamente nada.
Palavras ali pareciam desnecessárias. Afinal, tudo resumira em instinto econveniência. Ainda não se toleravam – de qualquer forma.
Mikoto forçou uma última investida, antes de desabar o corpo sobre Munakata. Derramou-se inteiramente. Seu corpo amoleceu devido ao exercício, deixando a cabeça descansar livremente nos ombros do vizinho.
O silencio ainda pairava ali. E inquietamente, Mikoto passou a divagar novamente.
Logo se deixou levar pelo repentino sono.
—x—
Levantou a cabeça de forma brusca, mas desta vez virando-a para o lado oposto ao seu. Não havia ninguém ali. Achou que estava louco, quando percebeu realmente que ali não era seu quarto. Procurou respostas para o que estava acontecendo, quando ouviu o ressoar grave da tão conhecida voz.
— Achei que iria acabar morando aqui.
E rapidamente começou a se lembrar novamente do que fizera na noite anterior.
— Não mesmo. – Respondeu preguiçosamente, sentindo seu corpo dolorido por conta do extremo esforço de horas atrás.
— Vá para o seu apartamento. Agora.
— Não seja tão irritante, Munakata.
Reisi aproximou-se de Mikoto e envolvendo a cabeleira ruiva entre seus dedos, puxou-a para que pudesse encarar seu rosto.
— Já estou satisfeito com sua presença. Por favor, saia.
— Parece que acordou irritado. – Rebateu ironicamente. Sentiu a pressão dos dedos alheios abandonar seus cabelos e então prosseguiu:
— Se não quisesse ter feito, apenas deveria ter dito não.
Reisi ponderou inúmeras vezes. E por querer ocultar qualquer sentimento que rondava sua mente, preferiu adequar-se as circunstancias.
O que ele poderia esperar, afinal?
— Foi apenas uma conveniência, Suoh. Nada mais.
Quem sabe...
