CROSSING INTO CHAOS
Autora: Emeraleyes
Tradutora: Schaala
Sinopse: Em um mundo em que Voldemort jamais foi derrotado, apenas puros-sangues, dinheiro e poder interessam. Tudo que Ginny Weasley queria era sobreviver nesse mundo pretensioso, mas ela acaba por cruzar uma linha e ir de encontro ao caótico mundo de Draco Malfoy.
Classificação: T
Status: Incompleta (a original possui até agora dezesseis capítulos)
Capítulo 4 – Acelerando o Jogo
"Eu não quero ouvir as suas desculpas," Draco Malfoy disse, sua voz calma ainda que fria, enquanto analisava o tabuleiro de xadrez em sua frente. Vincent Grabbe, seu oponente, acabara de tomar sua torre.
"Mas nós fizemos tudo que podíamos, tudo o que Pansy Parkinson nos disse para fazer, a nada disso funcionou!" O aterrorizado quintanista Sonserino, Simon Stanley, tentou explicar.
"Tudo que conseguimos pensar! Todos os truques clássicos – nós até mesmo conseguimos fazer com que Snape a expulsasse da aula por colar no teste, e fizemos ela ser banida do time da Grifinória! Ela simplesmente não desiste [1]!" Paul Green, um sextanista, concordou. Os dois garotos pararam em um silêncio constrangedor enquanto Draco continuava analisando o tabuleiro, antes de ordenar ao seu cavaleiro que atacasse a rainha de Grabbe.
"O que eu gostaria que vocês fizessem," Ele disse quando seu cavaleiro demoliu a rainha negra, arrancando zombarias de suas outras peças. "é que usassem o cérebro. Obviamente essa garota é diferente. Portanto, vocês apenas precisam ajustar suas táticas e encaixá-las nessa diferença."
O dois garotos mais novos olharam um para o outro em confusão; ambos não entendendo muito bem o que Malfoy sugeria.
"O que você quer dizer com isso? O que devemos fazer?" Simon perguntou nervosamente. Draco fixou seu olhar de aço nele, ignorando a exclamação triunfante de Grabbe ao dar o cheque-mate em seu rei. Ele se levantou, ficando de frente para os dois, os braços cruzados e um olhar perigosamente irritado em seu rosto.
"Se vocês esperam assumir o comando da escola depois que nos graduarmos, eu espero que vocês se atenham ao básico. Conheçam seu inimigo, rapazes. Essa garota é a típica Grifinória. O que é mais importante para os Grifinórios, o que eles mais valorizam? Digam-me," Ele alfinetou.
"Coragem, fazer a coisa certa, ajudar ao próximo, todas essas bobagens sobre moral elevada," Simon tagarelou.
"Eles não entenderam, Draco, você deveria considerá-los uma causa perdida," Goyle falou do canto mais reservado, de onde paquerava duas garotas, ocasionando eventuais explosões de risadinhas que perturbavam a quietude do bar.
"Honestamente, eu não sei o que eles ensinam a essas crianças hoje em dia," Grabbe lamentou, balançando a cabeça.
"Bem, eu espero, para o bem de vocês, que vocês consigam descobrir a resposta logo. Eu não vou tolerar outro fracasso," Draco disse impiedosamente. "Façam o que for preciso, mas amanhã, eu a quero fora da escola."
Os dois garotos correram para fora do lugar, ansiosos para se verem longe do perigo que era estar perto da tempestuosa natureza de Draco Malfoy. Depois que eles saíram, Draco virou-se para o tabuleiro, pronto para continuar o jogo.
"É a minha vez?" Perguntou a Grabbe, que balançou a cabeça e riu.
"Eu já dei o cheque-mate, parceiro [2]. Fim do jogo," Ele disse. Draco olhou para o tabuleiro por um minuto, avaliando a posição de seu rei e das peças de Grabbe. Depois de assegurar que Grabbe, de fato, vencera, ele segurou a borda do tabuleiro e virou-o para fora da mesa, espalhando as indignadas peças de xadrez pelo chão.
"Vamos jogar outra coisa, xadrez é uma ridícula perda de tempo," Ele disse, com uma carranca.
"O que você quer disser com ele deixou você ficar no campo de Quadribol?" Hermione perguntou com as sobrancelhas franzidas, enquanto limpava furiosamente a bancada.
"Bem, veja, é o lugar especial dele, e eu estava lá, perturbando o silêncio, e ele mandou que eu saísse. Mas eu acho que ele pensou que eu faria melhor uso do lugar, então ele saiu, deixando eu me esconder lá até o fim das aulas. Eu lhe disse que ele é diferente do resto dos Sonserinos bastardos," Ginny exclamou, seus olhos brilhando enquanto ela contava o único ponto alto do dia.
"Corrija-me se eu estiver errada, mas o campo não permite acesso a todos os estudantes? Não é o lugar dele, exatamente, e então, todos não deveriam ter o mesmo direito de estar lá quando não há treinos ou jogos?" Hermione perguntou com um traço de humor na voz. Ginny fez uma careta.
"É claro que todos têm o mesmo direito – na teoria. Mas se um setimanista Sonserino acha que o lugar é dele e não quer que uma sextanista Grifinóriainferior o incomode, para todos os efeitos, o lugar é dele e ele tem o direito de me mandar sair. É como funciona a hierarquia social em Hogwarts, Hermione," Ela explicou, colocando uma garrafa vazia de cerveja amanteigada numa caixa enquanto continuava a limpar o bar.
"Então, você está dizendo que Blaise Zabini – que você acredita ser diferente do resto deles – segue essa hierarquia social e ordena que você saia de uma área pública, onde todos os estudantes têm o direito de estar, por que ele pensa que o lugar é dele?" Hermione perguntou, uma mão no quadril e um olhar cético no rosto. Ginny parou, considerando as palavras dela, procurando desesperadamente por uma maneira de defender o garoto bonito e sua certeza de que ele era diferente do resto deles. Seu temperamento faiscou quando não encontrou nenhuma, e saiu pisando duro em direção ao depósito, procurando por outra caixa vazia onde poderia colocar o resto das garrafas sobre as mesas. Ela voltou um minuto depois com um sorriso triunfante.
"Se ele realmente concordasse com o que seus amigos estavam fazendo, ele não teria me deixado sozinha! Ele teria pensando em alguma maneira de me torturar! E isso prova que ele é diferente!" Ginny exclamou, com um olhar afiado à sua inteligente amiga. Hermione era alguém difícil de se provar errada, e toda a vez que Ginny conseguia isso, ela considerava uma grande vitória.
"Mas ele não necessariamente protestou contra as ações deles ou tentou pará-los, tampouco," Hermione disse num tom suave. Com isso, Ginny largou a caixa de garrafas vazias e encarou a amiga com extrema exasperação.
"Você, Hermione Granger, é racional demais para servir de qualquer ajuda quando o assunto envolve romance. Você não tem um ossinho romântico nesse seu corpo insensível! Está na hora de você olhar para o mundo com algo além do seu cérebro de vez em quando," Ginny exclamou.
"Você vai ter que me desculpar se eu não acho que um garoto popular decidindo não a maltratar é o epítome de um romance," Hermione replicou, pegando a vassoura e começando a varrer. Ginny franziu a testa e se sentiu levemente derrotada. Agora que Hermione efetivamente acabara com sua pequena ilusão, todos os efeitos do dia pareceram atingi-la em um único golpe. Ela estava exausta, dolorida nos muitos lugares onde colidira ou fora empurrada, e a bola de medo que se formara em seu estômago quando abrira o Berrador tornou-se mais forte, lembrando-a de sua situação atual.
"Talvez você esteja certa," Ginny disse brandamente. "Mas é bom pensar que há alguém que, apesar de não estar do meu lado, ao menos não está contra mim, como todos os outros naquela maldita escola. Eu não fazia ideia da quantidade de pessoas que me odiava até o dia de hoje, já que eles sempre me deixavam em paz."
"Você está falando daquela Pansy? Ela e as seguidoras barulhentas e descerebradas dela estiveram aqui alguns dias atrás. Fizeram uma baita bagunça e não deixaram galeões suficientes para cobrir a conta, e quando eu as confrontei quanto a isso antes que elas saíssem, Parkinson gritou com Madame Rosmerta como eu nunca ouvira antes, dizendo que a culpa era toda minha," Hermione resmungou. "É melhor você tomar cuidado com ela, Ginny. Eu me preocuparia mais com ela do que com o tal Malfoy."
"Com a Pansy eu me viro. Ela só está braba porque eu virei o centro das atenções, mesmo nessas circunstâncias. Depois que todos cansarem de mim, ela voltará a me ignorar." Ginny disse secamente. Ela olhou em volta, suspirando pela quantidade de trabalho que as duas garotas ainda teriam pela frente antes que o turno da noite terminasse. Fora um dia bem agitado, e o resto dos funcionários as haviam deixado para fechar. Hermione olhou para a amiga, que parecia ter perdido a energia de quando estivera contando os detalhes sobre sua interação com Blaise Zabini, e suspirou.
"Ginny, por que você não sai mais cedo? Eu posso terminar aqui, e você terá um dia e tanto amanhã," Hermione ofereceu. Ginny sorriu, mas negou com a cabeça.
"Obrigada, mas não vai demorar tanto com nós duas trabalhando. E amanhã... bem, amanhã é amanhã, independente do que eu faça hoje, não há razão para me esconder disso," Ela disse sombriamente, pegando sua toalha de mesa e voltando ao trabalho.
O segundo dia foi exatamente como o primeiro. Ao final dele, Ginny estava desgrenhada, cansada, levemente machucada e com um péssimo humor. Por causa das conspirações dos colegas, ela fora expulsa de três aulas, recebera quatro detenções, e todos na escola pareciam ter ouvido sobre o acidente com a gosma verde, e tentaram empurrá-la contra a planta toda vez em que passava por ela – exatas cinco vezes no dia. Mas, como Hermione previra, ela começou a ser capaz de antecipar as táticas deles, e conseguiu escapar das mais vis tentativas de torturá-la. Ao fim do dia, apesar de aguentar um dia inteiro de perseguições, Ginny sentia-se um tanto melhor. Não fora fácil, mas não ficara pior do que o dia anterior, e ela começou a pensar que talvez já houvesse sobrevivido ao pior daquilo.
Depois de cumprir a detenção de Snape, em que ele a fizera extrair e estocar dezessete jarras de Stinksap enquanto a observava com um sorriso cruel (ele obviamente ouvira sobre o acidente), ela se sentia bastante entusiasmada. Estava livre daquele inferno até a manhã seguinte, e os corredores estavam quietos e vazios, então ela poderia abaixar a guarda, enquanto descia pelas escadas, sua mente ocupada com pensamentos sobre voos. Havia uma nova manobra que ela queria tentar com sua vassoura no caminho até Hogsmeade. Ela sabia que, assim que as coisas voltassem ao normal, o time a chamaria de volta – ela era uma das melhores jogadoras do time, e eles precisavam dela se queriam ter chances de ganhar a Taça. Não havia muitos Grifinórios na escola, então o leque de talentos era bem pequeno, especialmente quando comparado com outras Casas, como Corvinal e Sonserina.
Estava tão distraída pensando em sua vassoura que foi pega de surpresa quando alguém a seurou por trás. Braços fortes prenderam seu corpo, imobilizando-lhe as mãos quando tentou alcançar a varinha. Outra mão tapou-lhe a boca antes que pudesse gritar. Ela começou a chutar e tentar girar o corpo e se soltar, mas o agressor era forte demais.
"Rápido, pegue as pernas dela!" O garoto que deu a ordem e mais outro emergiram das sombras e hesitantemente tentaram segurar as pernas de Ginny, que se debatia e chutava contra eles. Ela reconheceu um deles – Paul Green, um quintanista Sonserino. Ele deu um jeito de prender suas pernas entre os braços, mesmo que ainda lutasse, tentando gritar contra a mão pressionada contra sua boca. E então Ginny sentiu que eles a erguiam e carregavam aos empurrões pelo corredor.
Ela lutou contra o aperto em torno de seus braços, sabendo que sua varinha estava no bolso das vestes, a apenas alguns centímetros de distância. Pôde ver o garoto que segurava suas pernas chutar e abrir uma porta, e eles a carregaram para dentro da sala vazia e escura, largando-a no chão uma vez que estavam dentro e a porta estava trancada. Ela caiu pesadamente, batendo a cabeça, o que fez com que sua visão vacilasse e seus olhos se enchessem de lágrimas de dor.
"Você acha que alguém nos viu?" Um deles perguntou. Na pouca luz, Ginny mal conseguia divisar o rosto dele, mas apesar de não saber o nome dele, ela o reconheceu como um sextanista Sonserino quando ele espiou o corredor, checando se havia alguém lá. Paul Green encolheu os ombros e olhou para Ginny. Mesmo na semi-escuridão, ela pôde distinguir nele um olhar que fez seu coração acelerar em pânico.
Ginny tentou levantar, puxando a varinha de dentro do bolso, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, eles estavam em cima dela de novo. O grande sextanista segurou seu pulso, apertando-o com força até que ela soltasse uma exclamação dolorida e largasse a varinha, por medo que ele lhe quebrasse um osso. A outra mão dele segurou-a pelo ombro e ele usou seu peso para empurrá-la de volta para o chão. Ela novamente tentou se soltar, mas antes que seu pequeno esforço tivesse algum sucesso, ele prendeu seus braços contra o chão acima de sua cabeça, e os joelhos dele prenderam-lhe a cintura. Aterrorizada, o pânico de Ginny fez com que ela chutasse selvagemmente em busca de liberdade.
"Paul, segure as pernas dela!" Quem a segurava ordenou. O outro garoto se aproximou com pressa e tentou conter suas pernas. Ela deu um bom chute no rosto dele antes que ele conseguisse.
"Acabe com isso logo, Simon," Ele disse. O que a prendia contra o chão olhou-a com um sorriso, a mão livre dele segurando seu rosto e mantendo-a parada para que não tivesse outra escolha que não olhá-lo.
"Você deveria ter ido embora ontem, sua vadia estúpida! Você causou isso a si mesma," Ele grunhiu. Sem nem mesmo pensar, sem nem mesmo considerar as conseqüências, Ginny replicou da única maneira que podia – cuspindo no rosto dele.
"Vadia!" Ele exclamou, atingindo-a no rosto, a face púrpura de raiva. Dor explodiu em sua bochecha, e ela gritou. O leve gosto metálico encheu sua boca, e ela concluiu que o golpe dele provavelmente rasgara seu lábio, assim como um zumbido estonteante preencheu suas orelhas. A mão dele segurou sua blusa, e ela ouviu o nauseante som de tecido rasgando quando uma voz de algum lugar na sala parou as ações deles.
"O que está acontecendo aqui?" Alguém perguntou com uma voz cheia de plácida autoridade. Os atacantes congelaram, virando os rostos para o canto da sala de aula. Ginny torceu o pescoço para ver quem era e sentiu uma onda de alívio ao ver Blaise Zabini, sentado causalmente com suas pernas escoradas em cima da mesa, um livro em mãos. Os olhos dele alternaram-se do rosto de Ginny para os dois garotos a segurando contra o chão, e ele suspirou pesadamente, levantando-se.
"Deixem-na ir," Ele ordenou.
"Mas foi Malfoy quem mandou!" Paul Green protestou. Blaise, que agora estava parado perto deles com os braços cruzados de maneira ameaçadora, olhou para ele, seus olhos negros praticamente brilhando de raiva.
"Eu disse deixem-na ir." Ele exclamou. Pulando de medo, os atacantes de Ginny a soltaram e dispararam para a porta.
Finalmente livre, a adrenalina correndo por suas veias fez com que seu corpo tremesse e Ginny lutou para se sentar. Ela olhou para a blusa, notando que três botões haviam sido arrancados e que a manga estava levemente rasgada. Virando-se para longe de Blaise, que se ajoelhara em frente a ela, olhando-a com olhos negros, ela puxou o tecido, tentando cobrir os danos e resgatar um pouco de sua dignidade. Só então, ao perceber o quão ridículo esse pensamento era em comparação com o que poderia ter acontecido, o peso do medo e do pânico finalmente a alcançaram ao passo que a adrenalina diminuía. Seus olhos arderam com lágrimas não derramadas, e suas mãos tremeram fortemente.
Ainda que estivesse chorando baixinho, desejando que ele fosse embora para que pudesse chorar livremente, pôde sentir o peso do olhar dele. Respirando fundo, ela tentou se recompor antes de olhá-lo e agradecê-lo por tê-los parado, por estar ali, por tê-la salvado. Mas, quando seus olhos encontraram o olhar sério dele, as palavras se engasgaram com suas lágrimas e apenas um soluço escapou, mesmo tentando sufocá-lo, cobrindo a boca com a mão. Ele desviou o olhar para o livro que tinha em mãos.
"Havia um time praticando no campo hoje," Ele disse com um encolher de ombros, seus olhos encontrando os dela. Com isso, ele se levantou e começou a andar para a saída.
"Obrigada," Ela balbuciou, seus rosto ardendo, embaraçada sem saber exatamente por quê. Ele parou e suspirou.
"Não entenda errado," [3] Ele disse num tom baixo, antes de sair da sala, a porta fechando atrás dele com um baque surdo.
Hermione Granger estava colocando os ajustes finais em sua detalhada dissertação sobre como transfigurar ratos em protetores de ouvido, lançando olhares para o relógio e se perguntando se teria tempo suficiente para adicionar mais algumas linhas antes que tivesse que ir ao correio, para mandar o trabalho ao professor, e então retornar ao seu expediente no Três Vassouras, quando houve uma batida na porta. Curiosa quanto a quem seria, ela largou a pena e andou os poucos metros de seu apartamento até a porta. Abrindo-a, soltou uma exclamação de alarme.
"Ginny! O que aconteceu com você?" Ela perguntou, pegando a garota mais nova pelo braço e guiando-a para dentro. Um lado do rosto dela estava levemente machucado e inchado, e havia um pouco de sangue seco no local onde o lábio inferior abrira, os olhos estavam vermelhos de choro, e mesmo que o suéter do uniforme dela estivesse fechado, Hermione pôde ver que a blusa estava rasgada.
Mais tarde, Hermione ofereceu uma xícara de chá à amiga, sua dissertação e expediente completamente esquecidos. De banho tomado e enrolada firmemente em um roupão fofo de Hermione, Ginny pegou agradecida a xícara. Hermione sentou-se de frente para ela, os olhos escuros de preocupação.
"Ginny, você precisa contar a alguém o que aconteceu! Não importa o tipo de hierarquia social que existe na sua escola, isso é completamente imperdoável, e nenhum Diretor digno de seu posto permitiria que isso continuasse!" Ela exclamou subitamente, como se isso estivesse na ponta de sua língua há um bom tempo e finalmente irrompera por vontade própria. Ginny sorriu e olhou para sua xícara.
"Eu sei. Mas se eu contar, meus pais descobrirão. E se eles descobrirem, farão com que eu deixe a escola," Ela murmurou.
"Talvez isso seja o melhor. Eu não sei por que você quer voltar lá depois do que aconteceu," Hermione fungou. Ginny balançou a cabeça.
"Você não vê, Hermione? Se eu sair – se eu recuar com meu maldito rabo entre as pernas, eles ganharão. Se eu desisto, o bastardo do Malfoy ganha, e isso só significa que ele pode continuar a fazer isso com outras pessoas. Eu tenho que voltar, senão ele ganha," Ela repetiu, mais para si mesma, com os olhos desfocados. Hermione suspirou e balançou a cabeça.
"Mas Ginny! Não é seguro para você lá!" Ela protestou.
"Eu só tenho que ter mais cuidado. Eu baixei minha guarda hoje porque não havia ninguém por perto, e eu pensei que não tinha problema porque as aulas já haviam acabado. Eu só tenho que ter mais cuidado, tentar atrair menos atenção. Sentar no fundo nas aulas, certificar-me de não andar em nenhum corredor deserto," Ginny disse, determinada.
"Mas você não deveria precisar fazer essas coisas! Não numa escola, pelo amor de Merlin! Isso não é justo!" Hermione exclamou.
"Hermione, há muitas coisas nesse mundo que não estão certas," Ela disse, sua voz baixa e serena. "Você cresceu no mundo Trouxa, então você sabe como as coisas são diferentes para os bruxos. Mas enquanto Voldemort estiver no poder, nós temos que viver dessa maneira. Os poderosos, os nobres, os puro-sangue, os ricos – eles ditam as regras, e qualquer um que não as segue é esmagado. Não é justo – não é justo que eu seja a única entre meus irmãos que tenha permissão para estudar em Hogwarts, não é justo que eu tenha que viver tão longe da minha família, não é justo que meus pais trabalhem dia e noite por um salário patético que mal paga minha educação, não é justo que um garota brilhante como você possa fazer apenas cursos mágicos por correspondência, quando há idiotas como Pansy Parkinson frequentando a melhor escola de magia da Europa. Nada disso é justo, mas é o modo como esse mundo funciona, e eu não tenho outra escolha que não tentar sobreviver nele."
"Ginny..." Disse Hermione, os olhos brilhando. Ginny sorriu fracamente para ela.
"Se você deixar toda essa injustiça esmagá-la, eles ganham. Weasleys podem ser pobres, mas não são perdedores," Ginny disse. Hermione inclinou-se para frente, abraçando a amiga e derrubando o chá quente no colo dela no processo, e Ginny sentiu certo grau de satisfação por Hermione, enfim, ter comprado seu ato de bravura, apesar do fato de que seu lábio inferior inchado tremera ao longo de todo o discurso.
"Blaise! Você realmente veio!" Grabbe exclamou surpreso, quando Blaise Zabini entrou na sala privada do Cabeça de Javali, onde muitos Sonserinos se encontravam. Draco Malfoy levantou o olhar e acenou para que o amigo se sentasse onde ele, Grabbe, Goyle, Pansy e Millicent Bulstrode estavam sentados. Blaise assentiu e, depois de trocar alguns cumprimentos com as garotas que o pararam para conversar, ele atravessou o lugar e sentou-se de frente para Draco.
"Pensei que esse não era o seu tipo de lugar," Goyle comentou enquanto lançava olhares para uma bela loira do outro lado da sala.
"Eu senti vontade de sair essa noite, e vocês estão todos aqui," Blaise disse, dando de ombros casualmente. Draco sorriu, e depois de levar o copo aos lábios, esvaziando seu conteúdo e batendo-o de volta sobre a mesa – o que foi acompanhado de um coro de oohs de Pansy e Millicent – ele olhou para o melhor amigo.
"É bom que você esteja aqui, Blaise. Nós estávamos ainda agora discutindo o que fazer sobre aquela maldita garota Weasley. Eu não posso mais deixar isso para os nossos seguidores incompetentes, eles continuam estragando tudo. É hora de eu assumir pessoalmente esse assunto," Draco disse, lançando um olhar irritado para dois garotos acovardados em um canto.
"Por quanto tempo você planeja continuar com isso?" Blaise perguntou com a voz neutra, mas Draco notou uma seriedade nos olhos dele que lhe chamou a atenção. Ele franziu a testa e parou, pensando sobre o assunto.
"Eu não acho que ela vá desistir. Ela é, obviamente, muito teimosa, do contrário não teria durado dois dias inteiros. Se ela não vai desistir, eu quero vê-la destruída, eu quero que o orgulho dela seja arrancado de alguma forma," Ele disse, com um sorriso falso no rosto. "Eu vou parar com isso quando... quando conseguimos fazê-la chorar."
"Então você já atingiu seu objetivo," Blaise disse, recostando-se à cadeira e cruzando os braços. Draco encarou-o perplexo.
"Quando isso aconteceu?" Perguntou, subitamente irritado.
"Logo depois que seus dois capangas arrastaram-na para uma sala vazia, prenderam-na no chão e tentaram arrancar as roupas dela." Blaise disse, sua voz ainda calma e centrada. O rosto de Draco congelou, pego de surpresa pela informação.
"Eles fizeram o quê?" Ele perguntou depois de uma longa pausa, sua voz baixa e perigosa.
"Eles a empurraram para dentro de uma sala e tentaram arrancar a blusa dela. E eles bateram nela com bastante força também, antes que eu os parasse. Deixaram o lábio dela sangrando," Blaise disse, inclinado-se para a frente. Os olhos de Draco escureceram e sua mandíbula travou.
"Mas ela é uma garota. Eles bateram numa garota..." Ele murmurou, lançando um olhar perigoso para Paul Green e Simon Stanley.
"Olha, Draco, eu posso concordar com os seus planos enquanto eles são inofensivos. Brincadeiras estúpidas e piadinhas não são grande coisa, porque eu sei que ela lhe insultou e tudo o mais. Mas você e eu," Blaise disse, inclinando-se para mais perto – tentando excluir Pansy Parkinson, cujos ouvidos se esforçavam para ouvir cada palavra – e diminuindo o tom de voz. "Você e eu sempre dissemos que a nossa geração faria as coisas de modo diferente."
Um silêncio mortal caiu sobre a mesa, ao passo que seus amigos olhavam nervosamente de um para o outro, a atmosfera tornando-se bastante tensa. Alguém acabara de fazer a mera sugestão de que algo que Draco fizera era errado, um fato que nunca antes acontecera, mesmo da parte de um de seus melhores amigos. Eles estavam todos ansiosos para saber como Draco reagiria a isso.
Seu rosto estava impassível quando ele concordou lentamente com as palavras de Blaise, mas havia um brilho duro em suas íris. Draco apoiou as costas na cadeira, pegando outro copo e virando seu conteúdo, enquanto seus amigos observavam suas reações, tensos e em silêncio. Ele baixou o copo, olhando-o por alguns segundos. Finalmente, ergueu o olhar e notou todos os olhos sobre si, e, com um sorriso, deu de ombros.
"Eu só dou as ordens. Não é problema meu como eles as interpretam," Ele disse ameno, e seus amigos suspiraram e voltaram a conversar, uma crise em potencial evitada. Apenas Blaise Zabini, sentado diretamente de frente para Draco, notou a raiva mal contida nos olhos do amigo e soube que aquelas palavras serviram apenas para disfarçar os planos completamente diferentes que já tinha em mente para os dois Sonserinos que haviam interpretado suas ordens de forma tão gravemente errada.
Ginny adentrou no Salão Principal, agradecida por já ter-se passado meia hora do horário de almoço, e a maioria dos estudantes estar ocupada demais comendo ou fofocando para notar sua entrada. Ela rapidamente passou os olhos pelos rostos da multidão, e sorriu ao perceber que o lugar estava quase vazio de Sonserinos. Sabendo disso, ela encontrou uma mesa vazia perto dos fundos do salão e lá se sentou, deixando a tensão em seu corpo diminuir. Largou o pesado livro-texto que carregava, um rolo de pergaminho com a lista de questões que Snape passara como uma 'compensação' pelo teste no qual ela falhara, e um espesso envelope contendo uma carta de casa que ela encontrara em sua porta naquela manhã.
Olhou para o envelope, debatendo consigo mesma se deveria abri-lo ou não. Era raro receber duas cartas na mesma semana, então deveria ser importante e deveria abri-la imediatamente. Mas, ela já recebera uma carta, apenas alguns dias atrás, e sua mãe sabia sobre sua tendência em saborear as cartas, lendo-as lentamente para que a pequena conexão que ela tinha com a família durasse mais, e teria indicado que era importante e deveria ser lida o quanto antes. Deveria guardá-la, considerando como as coisas estavam indo, para que quando realmente precisasse do conforto da caligrafia familiar da mãe e das instruções sem sentido que sempre enchiam as cartas maternas. Contudo, seus pais estavam para visitá-la em breve, como sua mãe mencionara na última carta. No final da próxima semana, ela teria algumas horas preciosas com eles, então abrir a carta e lê-la por inteiro certamente não seria um desperdício completo.
E depois da semana que estava tendo, ela merecia. Logo depois de chegar à escola, um pouco atrasada para a aula de Snape (e este foi, ela resmungou consigo mesma, o motivo para ele ter lhe mandado escrever todos os ingredientes e procedimentos para a produção de 134 poções como compensação pelo teste), ela se deparou com um grupo de quintanistas Sonserinos amontoados no corredor. Ginny congelou ao reconhecer Simon Stanley; um dos garotos que a atacaram no dia anterior. Assustada, ela rapidamente pegou sua varinha e segurou-a firmemente na mão enquanto passava por eles, mal se atrevendo a olhar na direção dele.
Mas a coisa mais estranha acontecera. Ao passar por Stanley e o grupo de Sonserinos em volta dele, todos eles se calaram e paralisaram enquanto Ginny passava. Sentindo-se vulnerável, ela virou a cabeça para olhá-los, e Stanley soltou um barulho muito parecido com um ganido e disparou para longe. Mas antes que ele pudesse desaparecer dobrando para outro corredor, ela entrou em choque ao ver que o grande e intimidante garoto estava com um olho roxo, o braço esquerdo enfaixado e pendurado por uma tipoia, e parecia caminhar com um ligeiro coxear. Ela parou em seu caminho pensando no que deveria ter acontecido com ele, mas, ao lembrar-se do medo que a torturava desde o dia anterior, decidiu que ele merecera o que quer que tivesse ocorrido, e isso era tudo que ela precisava saber.
Quando ela chegou à aula de Snape, ele a cumprimentou com a usual carranca e informou que a Professora McGonagall desejava vê-la no início do horário de almoço. McGonagall, apesar de ser desprezada pela maioria dos Sonserinos e qualquer um associado ao atual governo, era largamente reconhecida como uma das melhores Transfiguracionistas [4] do mundo. Ela era tolerada como professora, contanto que seus alunos continuassem a aprender e ela se mantivesse neutra em todos os assuntos políticos, pois, apesar de não haver nenhuma prova, não era segredo de que ela fora um dos mais importantes membros da oposição, ao lado de Dumbledore, antes que este desaparecesse. Agora, ela era a Diretora da Grifinória, a diminuta casa que nenhum outro professor queria, porém Ginny tinha grande respeito pela professora. Ela era, decididamente, o epítome de todo o Grifinório – uma mulher muito corajosa. Entretanto, ela era o mais austera possível, e uma professora extremamente exigente que conhecia os pais de Ginny muito bem e que com frequência mandava a eles relatórios personalizados informando o quanto o desempenho de Ginny melhoraria em Hogwarts caso ela parasse de provocar o professor Snape. Pressupondo que McGonagall iria querer discutir suas recentes notas baixas, Ginny suspirara resignada. Ela já se sentia bastante estúpida por tudo que estava acontecendo, e qualquer que fosse o assunto que McGonagall queria discutir, não poderia machucá-la mais do que já estava machucada.
Mas fora muito pior do que ela antecipara. Ao entrar timidamente na sala, a professora de rosto severo simplesmente acenou para que ela sentasse na cadeira, e a deixou sentada em silêncio por dez minutos enquanto lia um longo pedaço de pergaminho.
"Bem, Srta. Weasley, eu recém analisei todos os comentários de seus professores dos últimos dois dias. Parece que você vem causando alguns tumultos nas aulas. Importa-se de explicar?" Ela perguntou num tom gelado. Ginny paralisou, incerta de como responder. Se ela revelasse toda a verdade, que ela estava sendo vitimizada e atacada por colegas de aula por ter cometido o grave crime de defender uma amiga, não havia dúvidas de que McGonagall mandaria, no instante em que deixasse a sala, uma coruja para seus pais avisando sobre o que estava acontecendo com a filha caçula deles. Mas ao mesmo tempo, McGonagall era uma das responsáveis por sua bolsa de estudos – se ela achasse, por um instante sequer, que Ginny não estava levando as aulas a sério, ela não hesitaria em retirar-lhe o suporte. Ginny encarou de volta o rosto firme da professora, lutando para encontrar uma solução.
"Eu também soube que você recebeu a bastante perturbadora acusação de trapacear na aula do professor Snape, que você falhou num teste de Feitiços, que recebeu quatros detenções nos dois últimos dias e que foi expulsa de três aulas," Ela continuou, sua voz dura e afiada. Ginny fez uma careta, mordendo os lábios e esperando pelo sermão, mas decidiu primeiro tentar alguma explicação.
"Professora, eu sei que tudo isso parece bastante ruim, mas eu lhe asseguro que há uma explicação," Disse, torcendo para que suas palavras soassem tão sinceras e arrependidas quanto possível. McGonagall ergueu uma sobrancelha, como se esperando pela explicação, e balançou a cabeça quando Ginny não encontrou nenhuma.
"Bem, Srta. Weasley, eu certamente adoraria ouvir a sua explicação de como, depois dos exaustivos avisos que você recebeu tanto de mim quanto de seus pais, você conseguiu ofender Draco Malfoy e seu grupo de malfeitores," Ginny olhou para a professora em choque.
"Como você soube?" Ela perguntou, a voz baixa em surpresa. McGonagall sorriu para a jovem estudante.
"Eu estive lecionando nessa escola por vários anos, e eu sei que um estudante capaz de manter-se longe de problemas – à exceção das aulas de certo professor, e eu espero, de verdade, que você pare de antagonizar com Snape – não decide de uma hora para a outra tornar-se indisciplinado e zerar ou trapacear em testes. Isso é obra de Sonserinos; disso, eu não tenho dúvidas. Entretanto, eu receio que isso a põe, em diversas maneiras, numa situação bastante complicada," McGonagall disse, o rosto alternando de um sorriso astuto para uma expressão grave.
"Isso coloca minha bolsa de estudos em risco," Ginny falou tristemente.
"Há mais do que isso," McGonagall disse, sua voz ficando mais séria ao inclinar-se conspiratoriamente para frente. "Você é a filha de Arthur Weasley, um homem com um grande número de inimigos e pouco de amigos no Ministério. Já vai ser bastante difícil para você depois que se graduar, mas se você tem qualquer desejo de nos ajudar a melhorar as coisas no futuro, é importante que permaneça invisível para eles, e que não seja vista, principalmente, como um inimigo."
"Eu não sou um inimigo; sou apenas um alvo," Ginny disse, amarga. Ela suspirou pesadamente, e desviou os olhos do rosto severo de McGonagall. "Eu fui aconselhada a me manter quieta, evitar chamar atenção, focar na escola, e a importância de tudo isso. Os últimos cinco anos não foram particularmente fáceis, ficando parada e apenas olhando todos os absurdos que aconteciam. Ninguém fica contra eles! Ninguém tem a coragem necessária, ou todos parecem apenas não ficar suficientemente irritados para se levantar e dizer que isso não está certo. Bem, eles estavam mexendo com minha amiga, e eu fiquei irritada, então eu disse a eles que parassem. Eu não vou me desculpar por fazer a coisa certa, mesmo que isso ponha em risco o meu futuro. Não que haja muito futuro para aqueles que não sejam partidários de Voldemort."
"Isso é bastante desapontador de se ouvir, Srta. Weasley. Eu sugiro que você reconsidere todos os sacrifícios que seus pais fazem para mantê-la aqui, caso você precise ser lembrada do quão importante isso é para eles," Ela disse enfaticamente, levantando-se e sinalizando que a conversa acabara.
E agora Ginny estava sentada no Salão Principal, quase ignorada por completo e sentindo-se bastante desanimada, olhando para o tentador envelope descansando sobre a mesa à sua frente. Depois de uma apressada olhada em volta para se certificar de que ninguém dera por sua presença, Ginny agarrou o envelope e o abriu, desdobrando o pergaminho.
"Querida Ginny,
Apenas uma rápida mensagem hoje, querida, pois estou praticamente correndo pela casa, tentando despachar todos os garotos para o trabalho, antes de sair para o meu. Eu estive adiando escrever isso por quase um dia inteiro, porque eu odeio desapontá-la, mas nossos horários da semana que vem mudaram, e seu pai e eu não poderemos passar em Hogsmeade. Seu pai será enviado a Berlim para investigar um novo dispositivo Trouxa, e eu me farei necessária no Ministério. Eles estão planejando um grande evento para todos os Ministros, e precisam de ajuda extra, e eu não pude deixá-los na mão.
Mas não se preocupe, nós nos encontraremos antes que o ano acabe, eu prometo. Seus irmãos mandam muito amor; e Fred e George mandaram-me avisá-la de que eles finalmente descobriram um feitiço que bloqueia a sua Bat Boogey Hex e querem uma nova disputa da próxima vez em que estivermos todos juntos. Eu gostaria que aqueles dois gastassem em coisas mais produtivas metade dos esforços usados nessas brincadeiras e feitiços.
Cuide-se, querida, e continue o bom trabalho!
Amor, mamãe."
Ginny largou a carta e piscou furiosamente, tentando impedir as lágrimas de caírem. Ela estava perdida em uma névoa de desapontamento, e apenas continuou sentada, encarando a tinta preta no pergaminho, sentindo-se completamente derrotada.
Ela estava tão consumida pela própria miséria que não notou que alguém parara perto, olhando-a de cima, e que todos os estudantes do Salão Principal também a encaravam. Foi apenas depois de alguns minutos de completo silêncio – o qual fez fez Ginny erguer o olhar, perguntando-se se teria ficado absorta por tanto tempo que perdera o início da próxima aula – que ela percebeu Draco Malfoy parado à sua frente, com os braços cruzados e os olhos cinza metálicos fixos sobre si.
Ela se sobressaltou de leve e olhou cautelosamente para ele. Ele parecia encarar o lado de seu rosto que estava levemente inchado e ferido pelo golpe que recebera no dia anterior de um dos seguidores dele, o que a fez se remexer desconfortável na cadeira. Agora não, pensou, por favor... agora não. Eu não tenho energias para lidar com isso. Ela o encarou de volta, tentando manter uma expressão desafiadora, e os olhos dele caíram na carta em frente a ela. Ele se inclinou, colocando as mãos sobre a mesa para que seus olhos ficassem no mesmo nível e seus rostos, a apenas alguns centímetros de distância.
"O que temos aqui, pequena weasel [5]? Ele perguntou, a voz regada com ironia. Os mais próximos que o ouviram começaram a rir, e Ginny soube que, a partir daquele dia, ela não seria mais conhecida por Ginny Weasley, mas como Weasel. Ela se eriçou e tentou tirar o pergaminho das vistas dele, mas a mão dele estava no caminho, prendendo-o no lugar. Ele sorriu – um sorriso satisfeito e presunçoso.
"É algo reconfortante saber que até mesmo o lixo do mundo bruxo, como a sua mãe, sabe ao menos ler e escrever," Ele disse, a voz alta ecoando pelo silencioso salão. "Já que temos que aguentar a sua presença, contaminando nossa sociedade, é um pequeno conforto saber que há algum tipo de educação nas classes mais baixas,"
Ginny ouviu o conhecido som dos risos dispersos pelo salão, e sentiu a face arder com os insultos à sua mãe. Suas mãos fecharam-se em punhos e ela olhou para Malfoy, ódio puro percorrendo suas veias.
"E é preciso reconhecer o esforço que você fez para tentar se aperfeiçoar. Você tentou se educar, melhorar seu status, se encaixar nas classes superiores, mas é uma perda de tempo. Eu sei," Ele disse, casualmente pegando a carta sobre a mesa. "Eu sei porque eu sou um dos seus superiores, e como alguém melhor do que você, eu posso lhe assegurar que nunca vai funcionar. Você nunca poderá se tornar um de nós."
Alguns alunos aplaudiram e Ginny pôde ver, pelo canto do olho, Pansy Parkinson rindo junto com seus seguidores idiotas. O tom condescendente na voz de Malfoy deixou-a extremamente zangada, mas, mordendo os lábios para impedir-se de retrucar aos gritos tudo o que queria dizer há tanto tempo, uma dor aguda lembrou-a do quão perigoso era confrontar Draco Malfoy ao sem querer piorar o machucado no lábio. A bola de medo, esquecida enquanto ela lamentava seu recente infortúnio, retornou e contorceu seu estômago – ele estava a apenas alguns centímetros de distância, ele tinha o dobro de seu tamanho e ele estava sempre cercado de pessoas que fariam qualquer coisa que ele ordenasse.
"Quem disse que eu quero virar alguém como vocês?" Ela murmurou, desviando o olhar. As poucas pessoas em volta dela, que ouviram o que falara, ofegaram em choque. Malfoy, que já estava quase indo embora, parou. Ginny amaldiçoou sua língua ao ver um brilho de raiva nos olhos cinza e uma tênue cor avermelhada manchar as bochechas pálidas dele.
"Você não pode evitar. Alguém com a sua existência patética? É apenas natural que você cobice a grandeza," Ele disse, suas palavras cortantes respingando arrogância. Ele ergueu a carta, virando-a devagar para que todos no Salão Principal pudessem vê-la, e ao virar de volta para Ginny, rasgou-a lentamente até o centro, arrancando uma exclamação de protesto da ruiva. Seus olhos se encontraram, e ele sorriu para ela – um sorriso torto que era parte triunfo, parte presunção – e continuou rasgando-a em vários pedaços, que se espalharam pelo chão. "Mas com a sua realidade, você nunca poderá tê-la."
"Aww, parece que a Weasel está prestes a chorar!" A voz estridente de Pansy anunciou, zombando, enquanto Ginny ajoelhava-se no chão, tentando reunir os pedaços do que fora a carta de sua mãe, e Draco Malfoy afastava-se com um passo confiante, satisfeito por ter sido capaz de esmagar outro estudante.
Suas mãos tremiam de raiva ao abaixar-se, os dedos roçando nos pedaços do pergaminho. Ela ficou ajoelhada lá, sentindo todos aqueles olhos sobre si, ouvindo as risadas e as vaias dos estudantes, e olhando para as palavras dispersas que sua mãe escrevera. Palavras corriam por sua mente; palavras de advertência que ouvira de McGonagall e palavras de convencida superioridade de Draco Malfoy. Se você tem qualquer desejo de nos ajudar a melhorar as coisas no futuro..., McGonagall advertira. Eu sei porque eu sou um de seus superiores, e como alguém melhor do que você, eu posso lhe assegurar que nunca vai funcionar, ele dissera. As palavras dele reverberavam em sua mente, repetindo-se uma vez após a outra, competindo com as zombarias dos outros estudantes e com as advertências de bom senso da Diretora da Grifinória, tudo aumentando até um volume cacofônico em sua mente.
Até que um súbito solavanco desceu por sua espinha, e Ginny ergueu a cabeça, realização atingindo-a como um balaço, eletrocutando cada nervo de seu corpo. Olhando para as costas de Malfoy enquanto ele se afastava, arrogância presente em cada movimento, ela, graças às palavras dele, já não sentia mais medo.
"Espere aí um pouco," Ela ordenou em voz alta e um ofego coletivo de choque indicou que todos a haviam escutado. Um silêncio tenso caiu sobre o salão, enquanto Draco Malfoy virava-se lentamente, o rosto marcado pela surpresa. Ginny levantou-se e andou até ele, determinação empurrando-a para frente.
"Você não teve o suficiente, Weasley?" Ele perguntou irritado. Ela sorriu, balançando a cabeça.
"Eu gostaria de saber o que lhe faz pensar que tem algum direito de soltar todas essas baboseiras sobre ser superior a mim. Você, cujo poder e influência vêm de seus pais e não de algo que tenha feito por si mesmo," Ela disse, avançando. "O que há de tão grandioso em ser rico? Você nunca trabalhou na sua vida, sempre teve tudo que quis em mãos e o único motivo pelo qual todos agem como se tivessem medo de você é porque na verdade eles apenas têm medo de que, se o chatearem, você vá correndo chorar para o seu pai!"
O rosto de Draco Malfoy começava a adquirir um profundo tom arroxeado, o que normalmente seria assustador de se ver, mas isso antes da realização de Ginny. Ela podia ouvir os murmúrios por todo lugar, mas seu corpo zumbia com energia e todo o resto caíra por terra, até mesmo o fato de que os olhos cinza-metálicos estavam presos nela, com uma expressão de completo ódio.
"Você nem ao menos é capaz de fazer o seu próprio trabalho sujo, precisa mandar seus lacaios incompetentes no seu lugar! Você pode pensar que é muito elevado, mandando dois garotos com o dobro do meu tamanho me atacarem, mas para mim, isso apenas significa que você é um covarde! Então, adivinha, Draco Malfoy? Eu não tenho medo de você, porque eu acho que você vale menos do que um fedelho inútil e mimado com um inflado senso de auto-importância," Ela exclamou desafiadora. Os olhos de Malfoy estreitaram, e ele avançou alguns passos, parando a apenas alguns centímetros de Ginny, inclinando-se sobre ela, tentando intimidá-la com sua altura. Ela olhou para cima, cheia de confiança e bravura.
"Palavras corajosas, Weasley. Eu mal posso esperar para ver quanto tempo vai demorar até que você volte aqui, implorando pelo meu perdão por tê-las dito. Porque eu vou fazer você se arrepender delas, eu posso te prometer," Ele disse, cuspindo as palavras nela. A mão direita de Ginny fechou-se num punho e ela se lembrou de dobrar o polegar, exatamente como seus irmãos a haviam ensinado.
"Oh, me poupe! [6]" Ela gritou, jogando todo o peso contra o punho, mirando-o em Malfoy. Ela sentiu um raio de dor atravessar-lhe o braço ao ouvir o satisfatório baque do punho atingindo o rosto, junto com os ecos dos gritos que os estudantes soltaram assim que Malfoy cambaleou para trás, caindo no chão.
Após balançar a mão por alguns segundos para aliviar um pouco a dor latejante, Ginny avançou alguns passos, olhando triunfante para Draco Malfoy, ainda caído, parecendo atordoado e chocado, e com um filete de sangue escorrendo do nariz.
"O que quer que você tente fazer comigo, vá em frente, porque eu não vou mais me esconder, não vou mais sentir medo de alguém tão covarde quanto você! Venha com tudo o que tiver, porque eu estou declarando GUERRA contra você e seus seguidores acéfalos! Se você me atacar, eu vou atacar de volta. Então, é melhor dar o seu melhor!" Gritou. Ela tirou a varinha do bolso e, com um último olhar satisfeito em Draco Malfoy, lançou um feitiço. Entre os gritos e as exclamações histéricas das garotas da Sonserina, correndo na direção de Malfoy, Ginny caminhou para longe, sentindo como se caminhasse sobre nuvens. Ela calmamente pegou o livro sobre a mesa onde estivera sentada e deixou o Salão Principal e a visão de Draco Malfoy, o aluno mais temido e idolatrado de Hogwarts, gritando e se contorcendo no chão sob os efeitos de sua particularmente potente Bat Boogey Hex [7].
[1] No original "She just won't break!" – Eu achei que ficaria estranho colocar quebrar, então coloquei desistir.
[2] No original "mate" – eu fiquei um tempão tentando me decidir, até que escolhi parceiro.
[3] No original "Don't get de wrong ideia" – Aquela foi a melhor tradução que encontrei, mas em inglês parece fazer mais sentido.
[4] No original "Transfigurationists" – Eu traduzi, apesar de ter ficado meio bizarro.
[5] Como todos vocês sabem, Weasel significa doninha. Vou deixar no original, porque se eu traduzisse perderia o trocadilho com o nome.
[6] No original "Oh, cut the crap!" – Não consegui lembrar de nenhuma expressão boa em português que tivesse o mesmo efeito.
[7] Resolvi deixar no original também, até porque a tradução oficial, que colocaram nos livros, é "Azaração para Rebater Bicho-Papão", e eu acho um nome muito nada a ver, tirado do além.
Qualquer sugestão de melhorias na tradução, especialmente nessas que eu destaco aqui, por favor, me notifiquem nas reviews. :)
Nota da autora: Eu espero para escrever esse momento desde que comecei a fic! Obrigada a todo mundo que tem tido tempo de comentar, e a todo mundo que vêm lendo. Eu nunca pensei que alguém fosse ler minha CRACK UA fic pirada, então estou muito excitada com alguns comentários que recebi!
Nota da tradutora: Eu queria agradecer pelo retorno que estou tendo. Obrigada mesmo a quem comenta, faz toda a diferença.
Eu adoro esse capítulo, mas até hoje não entendo como o Blaise estava lendo numa sala mal-iluminada, ou por que ele demorou tanto para interceder. Só se ele estava dormindo na sala, rs.
Queria agradecer à Vira-Tempo por ter betado esse capítulo para mim. :*
Juliana GM (obrigada, querida. É verdade, parei para pensar nisso só depois que você falou, hauhauaia! Mas tirar o Harry da jogada ficou interessante dá uma perspectiva completamente nova de como as coisas teriam acontecido!), Sissi (É, não é? Eu amo essa fanfic, e também sinto falta de novas fics DG de boa qualidade. Logo, logo as coisas vão começar a mudar, mas o processo é gradual, o Draco não vira um príncipe de uma hora para a outra, rs.), Nathasha (Não vou comentar muito do Blaise para não dar spoiler, rs, mas ele é o melhor nesse início! Eu também não sei se aguentaria no lugar da Ginny, ela sofre nesse início de fic, nossa! Bjs!), D (É mesmo muito boa, né? Eu AMO! Obrigada quanto ao comentário sobre minhas fics, rs.), poke (Oie, querida! Bastante tempo. Ai, você tb tem lido yaoi? Eu amo yaoi, slash, essas coisas! Mas DG ainda tá no peito, rs! Que bom que está lendo!), Tuty Frutty (Oi, querida! Obrigada! Leu no original? Sei que vai amar :D).
R E V I E W S !
