Capítulo 4 – O Sexto Aniversário de Paul
Confiando no disfarce de Paul e em sua habilidade de localizar o Caldeirão Furado, eles visitaram o distrito mágico do Beco Diagonal e adquiriram alguns livros para conhecer melhor o mundo mágico, utilizando as detalhadas instruções de Petúnia para localizar o que precisavam. Os três ficaram desapontados com o que descobriram. A sociedade mágica era retrógada, elitista, discriminatória, preguiçosa... É curioso como as dificuldades da vida tendem a extrair o melhor da raça humana, enquanto não ter problemas, ao invés de facilitar o desenvolvimento das potencialidades individuais, comumente levava à preguiça e ao hedonismo.
As crianças ficaram motivadas por essa descoberta e realizaram uma ampla pesquisa biográfica, encontrando um padrão similar. Elas logo descobriram que os grandes nomes da ciência, negócios, cultura e artes tinham em geral lutado contra muitas dificuldades em suas vidas, algumas tão estressantes que era um milagre terem tido sucesso, enquanto seus filhos, crescendo sob a fama e riqueza dos pais, contentaram-se com uma vida normal ou mesmo medíocre. As exceções eram devidas a pais rigorosos em seus valores morais, que não deixaram os filhos apenas usufruir, obrigando suas crianças a se tornarem as melhores pessoas que podiam ser.
Este estudo teve um grande impacto sobre o pequeno casal, reforçando o compromisso deles em também esforçarem-se por serem as melhores pessoas que pudessem ser. Serviu também para convencê-los de que quaisquer alterações que quisessem produzir no mundo seria mais facilmente alcançada se eles pudessem influenciar pessoas ainda em sua infância, para evitar que já estivessem corrompidas por más influências e hábitos, ideologias políticas ou religiosas, anos de submissão forçada nas escolas e tantas outras desvantagens que a 'vida normal' poderia causar.
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Os livros sobre teoria mágica eram inúteis. A sociedade mágica nunca desenvolvera algo semelhante ao método científico. As assim chamadas 'leis da Magia' eram uma coleção desestruturada de afirmações obtidas por alguns experimentos de 'tentativa-e-erro' ou a mera opinião dos autores, sustentada apenas pela fé em sua autoridade e ausência de contraexemplos, que de modo algum eram ativamente buscados, sem uma teoria real para explicar seus resultados ou dar-lhes um mínimo de unificação, apenas algumas especulações infundadas para deixar as coisas ainda mais obscuras.
Os primeiros meses tentando estudar a habilidade mágica de Paul foram frustrantes, o menino era jovem demais e despreparado para executar magia à vontade. Mas com a prática as coisas começaram a mudar. Paul começou a consistentemente ser capaz de atrair pequenos objetos para si, e quanto mais ele praticava mais fácil ficava.
Por fim, Bete começou a explicar às crianças em detalhes como o mundo físico realmente funcionava, e aquilo facilitou muito. Conhecendo sobre a estrutura atômica da matéria, as partículas subatômicas e suas interações, energia e suas fontes e transformações, mesmo que apenas de uma forma qualitativa, ajudaram sobremaneira ao garoto compreender os detalhes do que ele estava fazendo, e permitiu a eles realizarem duas importantes descobertas que muito contribuíram para acelerar o domínio de Paul sobre sua mágica.
A primeira descoberta que fizeram ocorreu quando Paul sentiu seu poder faltar enquanto fazia um livro flutuar. Querendo manter o livro flutuando para que Bete pudesse terminar uma medida, ele lembrou o que havia aprendido sobre energia e tentou usar alguma da lareira acesa para facilitar seu trabalho. E ele teve sucesso, e contou a Bete o que fizera. Bete ficou muito orgulhosa dele por ter colocado seu conhecimento sobre transformações de energia na conversão do calor em energia mágica. Isso abriu uma ampla gama de novas possibilidades para eles, contornando o problema das reservas de magia ainda baixas do menino.
A segunda descoberta veio logo depois da primeira, e foi uma consequência dela. Magia não era uma força única, mas duas! Havia uma espécie de divisão entre Poder e Controle. A primeira delas estava presente em todo lugar, embora em quantidades muito pequenas nos objetos inanimados em geral. Nos seres vivos, ela estava distribuída de uma forma desigual. Plantas tinham em geral menos que animais, mas eles encontraram umas poucas espécies de plantas com muita, mais do que em grandes animais como cavalos e vacas! Com as visitas ao Beco Diagonal, onde eles encontravam com facilidade outros seres mágicos, não apenas humanos, mas também duendes e animais e plantas mágicos, eles logo perceberam que essa energia definia o poder mágico das criaturas, daí chamarem-na magipoder. A outra força mágica era uma exclusividade dos seres mágicos, e sua presença determinava a habilidade do ente fazer magia, ou seja, utilizar e controlar a outra força para realizar feitos mágicos, e eles a batizaram magicontrole.
Adicionando o pouco que ela encontrou sobre a criação e uso de varinhas mágicas e a teoria dos feitiços e encantamentos ao que ela já havia aprendido, Bete construiu uma teoria preliminar da magia para guiar seus futuros experimentos. De acordo com essa teoria, todos os seres humanos possuíam alguma quantidade de Magipoder. Se uma pessoa tivesse suficiente Magicontrole, seria um mago ou bruxa; se nenhum, seria uma pessoa normal; se um valor intermediário entre nada e o mínimo para ser mago, seria o que o povo mágico chamava de 'aborto', mas que Bete preferiu chamar de 'semi-mago' por considerar o termo mágico ofensivo. Mesmo aqueles carentes de Magicontrole poderiam ainda encontrar formas alternativas de utilizar suas reservas de Magipoder para encontrar sucesso em outras áreas (como atletas, artistas, cientistas, militares ou qualquer outra área em que se dedicarem), ou simplesmente viverem suas vidas mais saudáveis e fortes que a pessoa média. Possuindo ambas as forças mágicas, uma pessoa poderia usar uma varinha para envelopar e moldar seu Magipoder com seu Magicontrole através de movimentos da varinha e uma encantação, e direcionar o 'pacote' assim formado através de sua varinha para um alvo onde o resultado desejado seria produzido.
Apesar do longo período de tempo que a sociedade mágica vinha estudando Magia, eles nunca perceberam o quanto eles estavam limitando a si mesmos usando apenas seu próprio Magipoder para realizar feitiços. Não apenas Magipoder estava disponível em todos os lugares, mas ele também podia ser obtido pela conversão de outras formas de energia, como Paul brilhantemente havia descoberto. Infelizmente, o mesmo não se aplicava ao Magicontrole, já que eles foram incapazes até o momento de transformar qualquer outra forma de energia em Magicontrole, ou deste para outra forma. Mas eles logo perceberam que isso não era uma limitação séria: pequenas quantidades de Magicontrole podiam realizar feitos incríveis se você tivesse o conhecimento para empregá-lo sabiamente, e foram seus experimentos de levitação que provaram isso para eles.
Na maneira usual de fazer um objeto flutuar no ar, lutando contra a gravidade, o Magipoder necessário é, como esperado, proporcional ao peso do objeto e à intensidade do campo gravitacional, e uma bola de boliche rapidamente exauria as reservas de Magipoder de Paul em poucos segundos. Mas, depois de uma extensa lição sobre a teoria moderna da gravitação, até mesmo incluindo detalhes sobre espaços curvos e grávitons (e pensar que Bete estava ensinado conceitos básicos da teoria da relatividade geral a crianças de seis e cinco anos!), Paul foi capaz de isolar completamente a bola da ação da gravidade, mantendo-a flutuando no ar por mais de meia hora sem cansar, já que a bola simplesmente deixara de ter peso.
Aquilo era fantástico! O pequeno Paul conseguira um feito que poucos magos adultos poderiam duplicar. Expandir o conhecimento do menino sobre o mundo físico poderia coloca-lo em um nível em que ele poderia fazer mais do que os mais poderosos magos e bruxas, sem varinha e sem encantamentos, e sem cansar-se. Aquilo trouxe uma nova dimensão ao problema de aceitar ou não um convite para Hogwarts, se um chegasse algum dia. Até então, Paul aprenderia o suficiente para proteger-se de qualquer ameaça, mas teria ainda Hogwarts algo importante a ensinar para ele?
Mas agora, com Paul usando magia frequentemente, eles tinham um novo problema para solucionar. Magia interferia muito com aparelhos elétricos e eletrônicos, queimando-os completamente às vezes. Mas Bete tinha certeza de que, com alguma pesquisa, logo encontraria uma solução.
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Se a forma como as crianças haviam conectado um ao outro no início era impressionante, a forma como eles estavam agora era simplesmente inacreditável. Eles não só eram fisicamente inseparáveis, mas também mentalmente. Uma forte conexão mental cresceu entre eles, permanentemente ativa, e eles compartilhavam seus pensamentos livremente, sem segredos. Desde que Bete ouviu sobre isso, logo após terem se mudado para Edimburgo, ela ficou preocupada que eles ficassem tão envolvidos um com o outro ao ponto de perderem a capacidade de relacionar-se com outras pessoas, especialmente àquelas de mesma idade, já que eles estavam avançando tão rápido.
De novo, ela convocou uma reunião para discutir o assunto. Bete estava realmente esforçando-se para envolver os dois em todas as decisões que afetassem suas vidas. Mesmo eles sendo tão jovens, ela realmente acreditava na capacidade deles em fazer boas escolhas, e o forte comprometimento que vinha da participação deles na tomada de decisões era um bônus importante. Ela sabia que tirania só levaria à rebelião.
Eles optaram por continuar a educação em casa, mas também adicionar algumas atividades extras para manter contato com outras pessoas. Para o primeiro ano que passaram em Edimburgo eles apenas fizeram passeios frequentes a parques de diversão, piscinas públicas, parques zoológicos e museus, tentando sempre fazer amizade com as crianças que encontravam. No ano seguinte, iniciaram algumas classes em piano e guitarra, aikido, ioga, francês e ginástica.
Apenas um ponto lançava uma sombra negra sobre a vida feliz que viviam: a cicatriz de Paul. Com a conexão mental entre as crianças, Lisa rapidamente percebeu que havia algo diabólico escondido na cicatriz, e nenhuma quantidade de pesquisa trouxe qualquer dica sobre o que pudesse ser. Com a incapacidade de Bete descobrir o que era aquilo, Lisa tomou a responsabilidade de achar uma cura para o seu amado irmão. Com auxílio de alguns livros adquiridos no Beco Diagonal, ela estava visitando vários centros mágicos ao redor do mundo, procurando por algo ou alguém que pudesse ajuda-los. A cicatriz não incomodava Paul no momento, mas era algo que eles preferiam resolver antes que aquele mal pudesse mostrar sua face feia.
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Não sabendo a data correta do aniversário de Paul (Bete nunca perguntara a Petúnia e esta não informou nada nos cadernos que entregou), somente lembrando que o menino tinha por volta de quinze meses de idade quando foi abandonado na rua dos Alfeneiros, ela escolhera a data de quatro de agosto para o registro. Com Lisa nascida em quatro de fevereiro, aquilo os deixava com exatos seis meses de diferença. Ótimo que eles estivessem estudando em casa, já que seria difícil explicar dois irmãos com uma diferença de idade tão pequena!
O que havia começado de uma forma incerta e improvisada, Bete contando a eles a estória do Universo, logo se tornou uma paixão para a pesquisadora, e com um pouco mais de trabalho, logo se transformaria em um livro que ela pretendia publicar, com o propósito de tanto estimular quanto educar outras crianças como as dela. Uma crescente sensação que ela tinha ao ver o progresso do pequeno casal e comparar com o que ela sabia sobre outras crianças e sua própria infância, era a de fracasso da humanidade em alimentar a curiosidade e a capacidade destes seres maravilhosos ao seu pleno potencial.
Após duas semanas da 'História do Universo', onde ela explicou às crianças, em termos gerais, sobre a origem do universo em geral, a formação das galáxias e o nascimento e morte das primeiras estrelas, com alguns detalhes sobre a explosão supernova que criou o material do qual o sistema solar foi feito, Bete fez uma detalhada exibição sobre a formação do sistema solar, dando especial atenção ao sistema Sol-Terra-Lua, para então iniciar a nova seção do livro: a 'História da Terra'.
Da cosmologia eles havia ido para a astrofísica, então a geologia e finalmente a biologia. Dez bilhões de anos, dois terços da idade do Universo, foram cobertos em duas semanas; outros dois bilhões de anos tomaram três dias, mas agora o progresso era substancialmente mais lento, se bem que ainda medido em milhões de anos. A variedade das formas vivas foi apresentada às crianças através de sua luta por sobreviver e evoluir: os organismos unicelulares, os primeiros pluricelulares, todo tipo de vida marinha até o surgimento dos primeiros anfíbios e plantas terrestres, os répteis em toda sua diversidade, e nesse ponto ela teve que entrar em muito mais detalhes do que havia planejado. Garotos e seus dinossauros! Paul simplesmente não pôde aceitar o rápido movimento que Bete usara com as outras formas de vida; ele queria saber mais sobre os maiores predadores da história.
Eventualmente eles puderam deixar os dinossauros para trás, especialmente depois que Bete mencionou o Smylodon que ela gostaria de discutir na próxima aula. O famoso tigre dentes-de-sabre capturou a atenção do menino e finalmente, após relatar a aparição dos primeiros antropoides, eles estavam atingindo o ponto decisivo da jornada, o ponto no qual seus estudos sofreriam uma grande ramificação. Nesses últimos dias eles tinham focado principalmente na biologia, com algumas noções de geologia para entender como a forma da Terra esteve mudando concorrentemente com as mudanças dos seres vivos, muitas vezes direcionando o rumo da evolução da vida. Agora era a hora de a humanidade fazer sua aparição em cena, e com isso, uma grande quantidade de novas disciplinas seria incluída: antropologia, sociologia, linguística, história, economia, política, psicologia... A lista era enorme, assim como a complexidade envolvida em apresentar tudo aquilo às crianças de uma forma coerente e compreensível.
Bete não podia estar mais orgulhosa de suas crianças. Era fantástico o quanto e quão rápido eles aprenderam nos últimos meses. Claro que houve muito trabalho até que Paul pudesse finalmente começar a fazer alguma magia, mas ela não esperava por muito, e ela sabia através de Petúnia que as crianças mágicas só começavam Hogwarts aos onze anos por uma razão. De qualquer modo, eles agora sabiam porque e quão errada a sociedade mágica estava no assunto.
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Bete estava usando a mesa da cozinha para tentar entender um importante ramo da teoria mágica tradicional: conjuntos de runas. Livros abertos cobriam toda a superfície da mesa, mostrando diferentes exemplos desses conjuntos. Ela tinha acabado de exaurir as possibilidades de análise linguística sem obter nenhum resultado. Simplesmente não fazia senso algum! Cada runa tinha vários significados diferentes, e o pessoal mágico parecia adorar misturar símbolos de diferentes épocas, lugares e culturas como se eles fossem parte de um único gigantesco alfabeto!
O conjunto imediatamente à sua frente era um exemplo claro daquela bagunça. Um hieróglifo egípcio seguido por uma runa escandinava, um símbolo cuneiforme sumério e assim por diante... Era exasperante tentar dar um significado para tão louca combinação de símbolos em termos linguísticos apenas, por isso ela parou para buscar uma forma diferente de atacar o problema.
Foi então que as crianças entraram, certamente com alguma outra dúvida para que ela explicasse. Eles estavam estudando o poderoso conceito de simetria; Bete tinha usado o interesse deles no tópico para introduzi-los a uma das ideias fundamentais da ciência moderna: a Teoria de Grupos. Ela estava orgulhosa pela forma como eles estavam avançando bem com uma tal poderosa ferramenta matemática, e aplicando-a a ramos tão distintos quanto Artes, Química e Biologia.
Mas, antes que eles pudessem questioná-la, a atenção de Paul caiu sobre os livros dispersos sobre a mesa.
"Que é isso?" ele perguntou, a dúvida momentaneamente esquecida. "Algum tipo de circuito... magitrônico?"
E ali estava a solução! Em seu modo engenhoso mas ingênuo, Paul dera a Bete a dica de que ela necessitava para fazer progressos com as runas. Ela rapidamente confirmou a suspeita do garoto, respondeu as questões deles e retornou para as runas com renovado vigor.
Levou o resto do dia e toda a noite mas, quando as crianças terminaram o desjejum, ela limpou a mesa e colocou ali um pequeno bloco de granito onde ela cavara um intrincado desenho. Aquilo não eram runas de modo algum. Não era um conjunto de símbolos isolados, mas uma figura única, parecida com as mandalas que as crianças viram em suas viagens à Índia.
As crianças ouviram atentamente as instruções de Bete, e os três posicionaram-se a uma distância segura (pela opinião de Bete). Paul então usou sua mão esquerda para criar e controlar um escudo mágico, enquanto seu dedo indicador da mão direita foi apontado para o estranho desenho, no ponto que Bete chamara de 'área de entrada'. Ele então permitiu que um fluxo de magia seguisse para essa área de entrada, lentamente aumentando a quantidade até que todo o desenho começou a brilhar...
"Funcionou!" exclamou Bete, feliz com o sucesso de seu pequeno experimento quando uma luz azul contínua, similar ao feixe de um laser, saiu por uma extremidade pontuda do lado oposto da área de entrada. "Oh, isto vai ser tão útil! Eu sabia que aqueles bruxos malucos estavam errados ao tratar runas como uma forma de linguagem! Toda aquela confusão com símbolos de diferentes origens, e as explicações sem pé nem cabeça sobre porque os símbolos eram usados de um jeito aqui, mas de outro jeito lá! Tudo complicações desnecessárias porque eles nunca realmente entenderam com o que estavam realmente lidando! É geometria, Paul, e fluxo! Não significados ou símbolos linguísticos difíceis de traduzir."
"Então, todo o tempo que eles perdem aprendendo essas linguagens antigas... é tudo uma perda de tempo?" o menino perguntou.
"Quer dizer que teria sido mais fácil se eles tivessem focado apenas nas figuras, mãe?" perguntou Lisa.
"Exatamente! Você não imagina o tipo de pensamento tortuoso que eles usam para satisfazer suas ideias erradas sobre runas, só porque alguém não sei quanto séculos atrás achou que o poder delas estava no significado delas, e não nas figuras, e isso permaneceu assim até hoje sem que ninguém checasse se era esse realmente o caso, todo mundo reclamando do quão difícil era aprender a usar runas mas ninguém tentando achar outra forma de lidar com elas."
"Conjuntos rúnicos são análogos a circuitos eletrônicos. Em eletrônica, temos algumas peças básicas, como resistores, capacitores e indutores, que podemos ligar para construir alguns circuitos simples, como filtros, amplificadores e retificadores, com os quais então construímos qualquer tipo de circuito mais complexo, como rádios, televisores e computadores."
Bete então chamou as crianças para perto de seu conjunto de runas e apontou para diferentes partes dele enquanto explicava suas funções.
"A mesma coisa acontece com runas. Temos alguns elementos básicos como junções, onde diferentes linhas se conectam; ramificações, onde uma linha simples dividisse em várias outras; cavidades, onde a magia pode ser acumulada como em um capacitor; ressonâncias, onde a proximidade e sentido dos fluxos mágicos interferem um com o outro; e assim por diante. Com essas formas básicas podemos construir circuitos básicos para concentrar, filtrar, amplificar, armazenar ou fazer algumas outras operações básicas com a magia, e então direcioná-la para algum propósito específico. Sabendo o objetivo do circuito que queremos desenhar e os tipos de alimentação que ele pode receber, estabelecemos quais mudanças a entrada precisa receber para produzir a saída desejada. Depois é só traduzir esses passos nos circuitos básicos apropriados e pronto! Ciência ao invés de Arte, cálculo direto ao invés de tentativa e erro."
"Então, você pode fazer qualquer coisa com isso?" perguntou Paul.
"Eu não diria qualquer coisa, mas tenho certeza que logo serei capaz de fazer qualquer coisa que os bruxos são capazes de fazer com runas, e de um jeito que é ao mesmo tempo mais simples e mais eficiente, porque não vai conter nada além do necessário, sem linhas imperfeitas ou desnecessárias que poderiam causar perda de eficiência."
"Mesmo assim, não vai ser tão simples, não é?" perguntou Lisa. "Quero dizer, eu acho que vai ser tão difícil quanto projetar circuitos eletrônicos."
"Este é o preço a pagar pela utilidade e generalidade do método, querida. Se fosse muito simples, como ele poderia ser útil? Nós estaríamos muito limitados com o que poderíamos fazer com ele. Mas eu te asseguro que será mais simples e útil que a disciplina de Runas Antigas ensinada em Hogwarts jamais será. Tenho certeza de que com um ano de estudo vocês serão capazes de fazer mais do que um aluno concluindo a matéria em Hogwarts."
Paul estava concentrado, ela pode notar. Bete achou que ele pudesse estar sonhando acordado com a perspectiva de ser mais hábil em Runas Antigas do que os estudantes dos últimos anos, mas o rapaz a surpreendeu uma vez mais com o caminho mais sério e produtivo que seus pensamentos haviam tomado, quando ele finalmente falou.
"Eu acho que estou vendo um padrão aqui, mas eu não sei como expressá-lo... De qualquer modo... Falando de palavras, elas são construídas com duas dúzias de letras diferentes e, com alguns sinais de pontuação, nós podemos escrever todo tipo de texto com elas. Ou... lembra quando você explicou para nós o código genético, quatro bases diferentes agrupadas em conjuntos de três formando alguns códigos diferentes para representar os diferente aminoácidos, juntas formando um segmento de ADN codificando uma proteína. Ou então... quarks formando prótons e nêutrons que, com os elétrons, em diferentes proporções, constroem os elementos com os quais todo tipo de moléculas podem ser criadas... Você começa com alguns blocos básicos e então os junta de um jeito específico para construir um novo nível de coisas, que podem então ser agrupadas para formar um novo nível, e assim por diante... Faz algum sentido?"
"Paul, isso faz tanto sentido! Você simplesmente resumiu a forma como a complexidade surge no Universo! De todas as ideias científicas essa é provavelmente a mais bela, poderosa e importante! Como obter complexidade a partir da simplicidade, como construir um Universo inteiro e vivo com uns poucos elementos básicos, convenientemente agrupados para dar origem a níveis crescentes de complexidade ao ponto em que, quando olhamos para os níveis mais complexos, perdemos o ponto inicial e parece incrível que tenhamos chegado tão longe tendo partido de tão pouco!"
Bete abraçou Paul emocionada. Pensar no tipo de vida que aquele brilhante menino teria vivendo com... com aqueles monstros! Com Lisa juntando-se ao abraço, ela maravilhou-se uma vez mais com o orgulho que sentia por suas crianças. Nem uma gota de ciúme no comportamento de Lisa. Era claro que ela sentia-se tão feliz e orgulhosa de Paul quanto Bete, feliz por compartilhar tudo com eles, da mesma forma que eles eram felizes por compartilhar tudo com ela.
