Nota da Autora: Sinceras desculpas pela demora. Este capítulo foi praticamente um parto, e que parto. Huahuahua. Espero que gostem do que vão ler, aguardo reviews xD


Aviso: Este capítulo contém lemon. Portanto se você é cardiopata ou tem síndrome homofóbica, saia imediatamente desta página.


PS:. Dedicado a Dollua, principalmente as cenas 'chocantes', das quais ela participou ativamente, deixando-me com vontade de escrever certas coisas só para agradá-la. xD

Ei pentelha, não fique mal acostumada, não viu?

Hiuahia te amo baixinha!


O Peso do Destino

Parte Quatro - Dormindo com Fantasmas


Draco suspirou sentindo-se confortável com o topor suave que começava a se espalhar por seu corpo. Ao seu lado Harry Potter dormia pacificamente, um braço estendido sobre sua cintura, mantendo-o próximo.

Tinha que admitir que aqueles momentos após fazerem sexo eram os que mais apreciava. Era nestes instantes que ele se sentia mais confortável para degustar aquela sensação de bem estar que o dominava sempre que estava ao lado do grifinório, e o melhor era que podia fazer tudo isso sem ter que se sentir acanhado ou culpado.

Ter Harry entregue aos sonhos ali, ao seu alcance, passava-lhe uma segurança que nunca antes experimentara. Se em algum momento desejasse toca-lo, só precisava virar para o lado, e saber disso fazia com que ele nunca mais quisesse sair daquela cama.

Em uma semana completaria três meses desde que haviam começado com aquela rotina de encontros furtivos todas as sextas à noite. A princípio ele tentara se convencer de que aceitara o acordo por benefício próprio, visando no futuro ajudar Voldemort com algumas informações. Mas lá no fundo era apenas uma desculpa que gostava de repetir para si mesmo a fim de diminuir o sentimento de culpa que sentia.

A verdade era que a cada encontro com Potter, a vontade de estar ao lado do moreno crescia. Ele simplesmente não conseguia mais se ver sem a constante presença do grifinório, as conversas amenas durante a madrugada, os beijos, as carícias e toda aquela ternura que o fazia adormecer feliz no final da semana.

Alguns diriam que ele estava apaixonado, para ser mais preciso, perdidamente apaixonado, mas ele evitava admitir isso. Preferia classificar aquilo como uma obsessão passageira, algo que acabaria assim que ele encontrasse um companheiro mais interessante.

Mas ele sabia que estava mentindo para si mesmo. Ninguém nunca o cativara daquela forma, nunca uma pessoa conseguira prende-lo por mais de uma noite. E com Harry, ao inves de querer partir, queria era ficar para sempre.

Suspirando por causa do tom romântico que os próprios pensamentos assumiam, afundou ainda mais no colchão, começando achar que já passara da hora de dormir. Seus pensamentos começavam a lhe trair e ele deveria apagar antes que estes acabassem se tornando ainda mais levianos.

Soltando um longo bocejo, virou-se de lado passando a encarar a face tranqüila de Harry. Permaneceu alguns instantes observando o grifinório ressoar suavemente e não ficou nenhum pouco impressionante ao sentir a incrível paz que aquela visão lhe trazia.

Estendendo uma mão para afagar de leve algumas madeixas negras que caiam sobre a testa de Potter, mordeu o próprio o lábio para evitar que um sorriso se formasse em seu rosto. A cada dia que passava sentia-se enervado com o inesperado despertar de seu lado emocional, e achava ridículo saber que tudo isso era resultado de sua convivência com Harry. Tinha plena consciência de que agora era capaz de passar por qualquer coisa apenas para ficar ao lado do bruxo.

Enquanto o loiro continuava a divagar, Harry remexeu-se um pouco durante o sono, indo para frente como se procurasse se aproximar do calor que o corpo de Draco emitia. O gesto fez com que o sonserino sentisse uma lânguida satisfação e em pouco tempo sua própria respiração começou a amenizar, seus pensamentos sobre o moreno dando lugar a uma escuridão abençoada e cheia de promessas.


Draco acordou sentindo-se estranhamente frio.

Apalpando o lado esquerdo da cama e mantendo os olhos teimosamente fechados, ficou irritado ao perceber que estava sozinho.

Odiava admitir isso, mas não gostava nenhum pouco quando Harry acordava primeiro e o abandonava na cama.

Não que Potter simplesmente desaparecesse após passarem a noites juntos. O grifinório era apenas matinal demais, acordando bem cedo e aproveitando o tempo livre para zanzar pela casa ou ler algumas páginas do Profeta Diário.

Mas mesmo assim, mesmo sabendo que o rapaz não fora muito longe, Draco sentia-se incomodado por despertar sem o corpo quente ao seu lado. O que lhe dava medo, medo de que o houvesse perdido, de que tudo não tivesse sido mais que um sonho.

Chegava a ser egoísta da parte dele pensar assim, afinal, dos dois, ele era o que mais tinha o hábito de sumir logo após se encontrarem, abandonando Harry para trás, deixando-o enfrentar manhãs solitárias.

Não que fizesse de propósito. Para ele era arriscado demais manter estes encontros. Desde o início soubera disso e seu temor crescia a cada dia. Só de imaginar que se ele cometesse um pequeno deslize, qualquer que fosse, Voldemort facilmente conseguiria apanhar Harry, ficava louco de preocupação.

Isso o sufocava, o fazia despertar assustado a noite, apenas para olhar para o lado e ver Potter dormindo calmamente, um braço possessivo sobre sua cintura enquanto o rosto preservava uma expressão serena.

E era só contemplar essa visão pacífica que ele muitas vezes sentia aquele desespero de se afastar rapidamente, de cobrir de forma implacável os próprios passos e evitar ao máximo trazer algum perigo para o grifinório.

Mas durante todos aqueles meses juntos Harry nunca reclamara ou parecera ficar chateado ao não tê-lo por perto quando acordava.

Draco acreditava que o moreno, lá no fundo, o compreendia, só que isso não impedia que ele fosse meio estúpido com relação ao assunto, agindo como um idiota quando era ele quem acordava sozinho.

Ficando de barriga para cima e fitando o teto, espreguiçou-se por alguns instantes, tentando captar qualquer ruído vindo dos outros cômodos.

Harry provavelmente estava sentado confortavelmente no sofá, comendo alguma coisa enquanto passava os olhos pelas matérias do jornal bruxo.

Quantas vezes já não vira aquilo? Não era nenhuma novidade, pelo contrário, se pudesse ficaria por um bom tempo observando o moreno franzir o cenho delicadamente ao ler algo intrigante, ou quem sabe comprimir os lábios, irritado, ao ver algo que o chateava.

Há alguns meses atrás, pensar nessas coisas, conhecer esses pequenos detalhes o faria ter vontade de se suicidar. Afinal de contas ele era um Malfoy, um Malfoy que agora estava claramente cortejando o inimigo.

Mas agora sua posição era de quem não lutava mais contra isso, e ele nem tinha vontade de voltar atrás. Harry o conquistara, estava mais do que preso ao grifinório e seria capaz de tudo pelo rapaz.

Suspirando por conta dos pensamentos tolos que estava tendo, sentou-se na borda da cama, afastando os lençóis e procurando com os pés seu par de pantufas.

Bufou ao não encontrar nada para calçar.

Eles haviam desenvolvido uma rotina de passar a noite numa das antigas casas de veraneio pertencentes a família Malfoy, o lugar havia se tornado um dos locais de encontro mais utilizado por eles. Draco sentia-se confortável e seguro suficiente na casa para amanhecer ao lado do grifinório. E pelo visto Harry sentia-se igualmente em casa, já que desde os últimos encontros ali vinha desenvolvendo o terrível hábito de roubar suas pantufas pela manhã.

Draco já não conseguia mais combater a traquinagem. Odiava caminhar descalço pelo chão frio logo após acordar, e por isso sempre era cuidadoso em manter ao lado da cama algo para calçar pela manhã. Mas Harry adorava estragar seus planos.

Já tentara enfeitiçar as pantufas várias vezes e nada funcionara, o moreno de alguma forma ou de outra sempre escapava, obrigando-o a caminhar pela casa com os pés nus, sentindo o chão frio se chocar contra sua pele quente.

Ficando irritado, finalmente decidiu se erguer e enfrentar o dia com o pé esquerdo.

Saindo do reconfortante calor da cama e do tapete, cerrou os dentes quando sentiu um choque gelado contra as próprias solas. Se fosse capaz, estrangularia Potter por fazê-lo passar pela mesma coisa quase todas as manhãs em que acordavam juntos.

Caminhando a passos pesados dirigiu-se para sala.

Logo ao sair da passagem do corredor deparou-se com um Harry Potter muito bem relaxado, deitado no sofá enquanto parecia estar concentrado lendo o Profeta Diário.

- Tão cedo e você já está de mal humor, Draco? – o moreno perguntou ao sentir a presença do sonserino enquanto virava uma das páginas do jornal com a ponta dos dedos, sem se dar o trabalho de olhar na direção do loiro.

Malfoy bufou novamente.

- Porque você insiste em roubar as minhas pantufas todas às manhãs? – sua voz saiu em um tom rouco, de quem acabara de acordar.

Harry finalmente desviou os olhos do que lia para encará-lo, as íris verdes brilhando com muita intensidade por detrás dos óculos.

- Ah! Mas elas são tão quentinhas. – provocou, balançando os pés calçados que estavam comodamente apoiados num dos braços do sofá. – Fora que você fica simplesmente uma graça quando está bravo. – completou soltando uma leve risada, instigando Draco a fazer uma careta.

Harry revirou os olhos ao ver o gesto do companheiro e se sentou, fechando o jornal e depositado-o prontamente em uma mesinha próxima ao sofá.

- Ah vem cá, crianção. – chamou carinhoso, estendendo uma das mãos na direção do loiro.

Malfoy, erguendo o queixo de forma orgulhosa, fez um barulho de indignação com o gesto. Recusava-se a aceitar o convite, mesmo que ir de encontro ao grifinório fosse a coisa que mais quisesse fazer.

Harry mordeu o lábio diante da cena, sentindo o próprio peito encher-se de um estranho calor. Amava cada instante que passava junto de Draco, mesmo aqueles nos quais o sonserino insistia em agir como uma criança.

- Incrível como você fica charmoso até mesmo quando está se comportando como uma criança teimosa. – murmurou divertido, uma expressão matreira se formando em seu rosto.

Draco apertou os lábios com o meio elogio, sentindo-se tentado a retrucar as palavras do grifinório.

Tentando ignorar as provocações e encontrar outra coisa para ocupar a mente, ficou satisfeito ao passar os olhos por uma caneca negra na mesinha próxima ao sofá.

- O que tem ali? – perguntou subitamente interessado enquanto caminhava na direção de Harry.

O moreno franziu o cenho com a pergunta, respondendo logo em seguida notando o que Draco se referia.

- Ah, isso? – perguntou pegando a caneca com uma das mãos e sorrindo. – É café, fiz um pouco para a gente logo após acordar.

Malfoy ignorando solenemente as explicações do bruxo, sentou-se ao seu lado no sofá e com um movimento rápido tomou o recipiente de sua mão.

- Ei! – Harry protestou, investindo rapidamente na direção da mão que lhe tomara a caneca. – Isso é meu, Draco, devolva! Se você quer tanto uma xícara de café vá na cozinha pegar.

O loiro sorriu com o inesperado ultraje do grifinório e muito satisfeito virou o rosto para o lado, aproximando rapidamente a caneca da boca.

- Correção, Harry, era seu. – disse sentindo-se com um humor renovado, tomando logo em seguida um gole de café como se fosse para reforçar o que dizia.

Potter observou de forma indignada enquanto seu precioso líquido negro era devorado por Draco.

- Enxergue isso como um ato de vingança. – Malfoy exclamou afastando a caneca dos lábios, soltando um suspiro satisfeito com a suave quentura que o líquido começava a proporcionar ao seu corpo.

Harry ao ouvir o que ele dissera começou a rir descontroladamente. Draco fez uma careta ao ver isso.

- Você é tão bobo às vezes. – o moreno disse ainda sorrindo, apanhando o rosto de Draco com destreza entre as mãos, depositando um beijo terno sobre seus lábios.

- Harry! – Malfoy ralhou, afastando-se em um impulso brusco enquanto levava uma das mãos para limpar a boca.

- O que é agora? – Potter perguntou revirando os olhos.

- Eu acabei de beber café, por Merlim. – Draco respondeu como se fosse à coisa mais óbvia do mundo, mas claramente para Harry não havia nada de óbvio na situação.

- O que há de errado em te beijar logo após você ter bebido café? Eu também bebi café. – e como que para enfatizar o que dizia, o grifinório tornou a puxar o loiro pela nuca, agora depositando um beijo mais firme sobre os lábios pálidos.

Draco ficou sem reação por alguns instantes, tentado não corresponder, mas logo se afastou novamente, fazendo uma careta.

- Demônios, isso é nojento, seu idiota. – exclamou, esquecendo-se que tinha uma caneca com café em uma das mãos, quase derramando o líquido pelo chão quando começou a gesticular sem pensar. – Fora que eu ainda nem escovei os dentes.

Harry começou a rir com força, recostando-se no sofá.

- Meu deus, é por causa disso que você está surtando?

Draco trincou os dentes, exasperado.

- Eu não estou surtando, Potter!

Harry rapidamente identificou o tom defensivo e ferido do companheiro, parando de rir de imediato, substituindo sua expressão divertida por uma repleta de carinho.

- Malfoy – respondeu fazendo questão de usar o sobrenome como uma resposta à utilização do seu. – Quero você o suficiente para te beijar estando você com ou sem bafo de dragão.

Draco fez uma cara de horror ao ouvir isso.

- Eu não tenho bafo de dragão!

O moreno não pode evitar, começando a rir novamente, abraçando a própria barriga enquanto fechava os olhos e inclinava a cabeça para trás.

Draco o observou revoltado, não via qual era a graça daquilo tudo. E tentando bloquear o som das gargalhadas de Harry que começavam a ecoar pela sala, apanhou o jornal que havia sido esquecido em um dos cantos, folheando-o desinteressado.

Sua atenção foi subitamente atraída quando seus olhos repousaram sobre uma foto de Blaise Zabini. Comprimindo os lábios diante do que via, começou rapidamente a ler a notícia, desligando-se por algum tempo enquanto raciocinava furiosamente.

Blaise Zabini, Culpado ou Inocente?

Blaise Zabini, um dos últimos remanescentes de uma das famílias bruxas mais poderosas da Inglaterra, foi capturado semana passada em um pequeno condado no norte da França.

As autoridades marcaram nesta quarta-feira a data para o julgamento do criminoso, estando entre as pautas de discussão o envolvimento de Zabini com Comensais da Morte, sua possível aliança com o temido Você-Sabe-Quem e acusações de roubo, estelionato, tortura e assassinato.

Dentre as personalidades ilustres convidadas para testemunhar se encontra Harry Potter, o menino-que-sobreviveu. Para a surpresa de muitos, o famoso auror comparecerá ao julgamento como um convidado da defesa, demonstrando publicamente sua disposição em ajudar o acusado.

Ainda não se sabe ao certo a razão para Harry Potter estar ao lado de Zabini, mas muitos bruxos se encontram estupefatos com a situação, não compreendendo os motivos para o estranho apoio.

Há muitos rumores se espalhando pela comunidade e um deles afirma que Blaise Zabini teria sido um aliado da luz, um espião. Mas tudo isso só poderá ser realmente confirmado hoje à noite.

A sessão será liderada pelo excelentíssimo Magno Krovtz, que fazendo jus as nossas tradições, realizará o evento no Ministério da Magia às 20 horas.

Tudo indica que o Ministério será complacente e dará a Blaise Zabini o benefício da dúvida antes de envia-lo direto para Azkaban...

Draco continuaria lendo a ladainha elaborada pelo Profeta Diário se Harry ao seu lado não tivesse ficado subitamente silencioso e se uma incrível sensação de revolta não tivesse começado a dominá-lo.

- Zabini, espião... – murmurou sem saber exatamente como vociferar o que se passava por sua mente. Olhava incrédulo para o jornal, tentando distinguir com exatidão o que deveria sentir ou pensar.

Potter neste instante parecera ter ficado incrivelmente contemplativo, concordando com um gesto de cabeça ao ouvir o que o loiro dissera.

Draco imaginava como Voldemort, que com certeza já lera aquela notícia, ficara no mínimo furioso, principalmente por causa do estranho apoio que Blaise conquistara para o julgamento. Ter Harry Potter como testemunha de defesa em meio àquela guerra era um trunfo muito valioso.

- Você irá realmente testemunhar a favor dele? – o sonserino perguntou em um tom perplexo, fazendo muito esforço para controlar o bolo que começava a se formar no fundo de sua garganta.

Por que o grifinório estava tão disposto a ajudar o ex-comensal? Zabini era assim tão digno de confiança? O que o bruxo teria feito para conquistar aquela simpatia cega de Harry?

- Outros membros da Ordem poderiam ir no meu lugar, mas acreditam que a minha... hum... fama, possa vir a ajudar Blaise, amenizando um pouco a pena. – Harry comentou dando de ombros, encarando Draco com seriedade.

O loiro ergueu uma de suas finas sobrancelhas, estando agora claramente enervado. Ver o nome de nascença daquele traidor deslizar pela língua de Harry era mais do que ele podia suportar calado.

- Certo, Blaise? Desde quando vocês dois são tão íntimos?

A pergunta apanhou o grifinório de surpresa, que abriu e fechou a boca várias vezes seguidas, como se fosse um peixe fora d'água.

- Me desculpe, Draco, mas eu não sabia que era proibido chamar as pessoas pelo primeiro nome. – comentou exaltado, achando ridícula toda aquela situação.

- Claro, muito natural – o loiro provocou, fechando bruscamente o jornal e jogando-o em um canto qualquer. – Para você é comum ser tão amigo e ter tanta intimidade com comensais da morte, não é mesmo? Porque será que isso me dá uma sensação de dejá vu?

- Merlim, Draco, eu não acredito no que você acabou de insinuar. – Harry exclamou, chocado, levantando-se de supetão e observando que o loiro desviara o rosto para evitar encara-lo, fechando com força os punhos.

- Quem não acredita no que acabou de ler fui eu. – o sonserino murmurou entre dentes, esforçando-se para controlar uma onda de raiva que começava a fazer com que cada músculo de seu corpo estremecesse.

Ele estava com ciúmes, e não era algo pacífico e controlado, era um enorme tufão recheado com revolta e raiva, algo que se ele não controlasse acabaria fazendo com que tomasse atitudes impensadas e drásticas.

Harry que até aquele instante estivera muito tenso com toda a explosão do loiro, subitamente relaxou.

- Draco, isso tudo é porque você está com ciúmes? – perguntou da forma mais suave possível, vendo um leve tique nervoso acender o canto da boca do loiro.

Malfoy odiou saber o quão Harry ficara bom em captar tudo o que se passava por sua mente. E preferia morrer ao inves de admitir que estava morrendo de ciúmes daquela inesperada proximidade do moreno com Blaise.

Ler aquela notícia e saber que Harry iria testemunhar a favor do rapaz não deveria ter sido tão chocante quanto fora, mas a simples menção do sonserino fizera com que sua mente rapidamente recordasse alguns eventos ocorridos há vários meses atrás, onde em uma disputa de Legimância ele houvera captado na mente do moreno uma lembrança muito suspeita envolvendo Zabini.

- Draco – Harry voltou a chamá-lo, dessa vez sentando-se novamente ao seu lado e tocando-o com cuidado no braço.

O sonserino levantou-se num salto, sentindo-se frágil e estúpido. Sabia que muito do que estava pensando era ridículo, mas não conseguia controlar aquela repentina irritação e sentimento de possessividade que começava a assolá-lo.

- Acho que já passou da hora de eu ir embora. – comentou da forma mais fria que conseguiu, começando a caminhar na direção do quarto para trocar de roupa.

Harry o observou se afastar, permanecendo imóvel por alguns instantes, bastante surpreso com o que acabara de acontecer. Sabia que o loiro ficara magoado e que estava se remoendo de ciúmes, e embora isso fizesse com que seu coração desse pequenos solavancos de felicidade, a situação era bizarra demais para que ele pudesse digeri-la tão rápido.

Despertando do topor por causa dos barulhos bruscos vindos do quarto, ele rapidamente se ergueu indo procurar por Draco. Não podia deixar que o loiro saísse dali daquela forma, era tudo um desentendimento idiota e eles precisavam conversar.

Parando na porta a tempo de ver um sapato voando na direção de uma das paredes, ele viu Draco se sentar na borda da cama, os pés já calçados com meias, a calça ainda por fechar e a camisa que iria vestir esquecida sobre um dos travesseiros.

O sonserino encontrava-se completamente desgrenhado, os cabelos loiros caindo por sobre a testa enquanto ele escondia o rosto entre as mãos e tentava respirar com mais calma.

Harry sabia que Draco tomara consciência de sua presença no quarto e o fato de permanecer quieto era um bom sinal. Escolhendo não falar nada, aproximou-se do loiro, mordendo o lábio inferior de forma insegura enquanto estendia as mãos para erguer o rosto pálido.

- Ei, não é nada disso que você está pensando. – sussurrou em tom ameno, tentando interpretar o intenso brilho que se formara nas íris acinzentadas.

Draco desviou os olhos teimosamente, evitando olhar para o rosto moreno, mas isso não o impediu de falar.

- Não, é? – questionou em tom de escárnio.

- Draco... – Harry advertiu em uma voz doce, acariciando uma das bochechas pálidas do loiro.

O sonserino suspirou parecendo finalmente parar de lutar contra alguma coisa dentro de si.

- Olha, Harry, a questão é que... Eu não consigo entender como você pode... ser tão próximo dele. E se eu tento, eu me lembro de nós dois e eu não consigo deixar de pensar que...

Harry ergueu uma sobrancelha de forma especulativa, compreendendo a linha de pensamento do sonserino.

Escolhendo gesticular o que pensava ao inves de falar, inclinou-se para frente beijando-o nos lábios, mantendo os olhos abertos para observar cada pequena reação que o sonserino pudesse ter.

Draco fechou os olhos por alguns instantes, sendo que no segundo seguinte puxou Harry para si com possessividade, deixando-se perder no súbito desejo que sentia pelo grifinório.

Potter deixou-se ser girado e deitado sobre a cama, tendo Draco sobre si, beijando-o apaixonadamente de uma forma exigente e desesperada.

Malfoy depois de um longo tempo travando uma batalha com a boca do moreno, se afastou para respirar, repousando a testa sobre o queixo de Harry, fechando os olhos enquanto pensava no quanto estava sendo estúpido.

Potter o abraçou com ternura, puxando-o mais para si, adivinhando o que se passava na mente do homem.

- Eu nunca tive nada com Blaise, Draco, e mesmo que tivesse tido, hoje estou com você e só com você.

O moreno observou os músculos das costas do sonserino relaxarem consideravelmente ao ouvir isso, e sorriu ao notar que começava a apaziguar o ciúme do bruxo.

- Então posso supor que seu trabalho na ordem não é sair por ai seduzindo comensais? – Draco perguntou em um tom meio sério e ao mesmo tempo brincalhão.

Harry riu com gosto ao ouvir isso, passeando agora uma das mãos sobre os fios platinados que emolduravam as bochechas pálidas de Draco.

- Isso seria impossível, sabe, eu seduzindo você. Que eu saiba você me conquistou primeiro e não o contrário.

Draco ergueu o rosto para encará-lo e por alguns minutos eles ficaram se olhando e se avaliando.

- Porque você o está ajudando? – o loiro perguntou por fim, sabendo que não aceitaria como resposta nada mais do que a verdade ou algo muito convincente.

Harry suspirou pensando seriamente no assunto, não sabendo exatamente como explicar aquilo para Draco.

- Ele se tornou um membro da Ordem da Fênix, é um dos nossos espiões. Não poderíamos abandoná-lo para que o Ministério o usasse como uma campanha de publicidade. – Harry respondeu sinceramente, e ouvir isso da boca do moreno fez com que Draco fizesse uma careta.

- Um futuro muito gentil para um traidor. – Malfoy sibilou, o rosto se contraindo em uma expressão de repulsa.

Harry franziu o cenho diante da afirmação de Draco, não sabendo exatamente como argumentar.

- Draco, traidor ou não, ele merece um julgamento justo e é por isso que aceitei o convite. – Harry justificou com simplicidade, tentando transmitir o que pensava.

O loiro subitamente soltou uma gargalhada fria, assustando o grifinório com a quantidade de cinismo que havia no gesto.

- Julgamento justo, Harry? Você se esqueceu do que viu, do que leu ou do que ouviu? Blaise Zabini é um assassino como qualquer outro comensal da morte, e agora, só porque ele resolveu convenientemente mudar de lado você diz que ele merece um julgamento justo? Você acha que as vítimas dele tiveram alguma espécie de justiça antes de morrer?

A voz de Draco estava carregada de veneno, provocando alguns arrepios em Harry, que nunca o vira falar de uma forma tão raivosa e obstinada.

- Eu não estou falando que ele não é culpado pelo o que fez, nem defendendo as atitudes que ele tomou no passado – comentou meio perplexo, não compreendendo o que se passava pela mente do sonserino.

Draco se afastou dele, ficando novamente de pé, começando a caminhar de um lado para o outro com uma expressão indecifrável.

- Então, o que demônios você está fazendo? Você sabe o que ele fez, tem consciência disso, e está disposto a ajudá-lo a se safar da punição. O que é isso? Dó? Piedade?

Harry ficou rígido ao ouvir isso, não sabendo identificar da onde Draco estava tirando toda aquela amargura.

- Porque você tem tanta certeza que eu estou errado em defendê-lo? Blaise não mudou convenientemente de lado, ou você acha que é seguro aceitar a missão de ser um espião?

Draco fez uma careta, parecendo não estar muito convencido ou comovido com o que Harry dissera.

- Ele é um traidor. Ele passou anos defendendo uma causa para depois virar a casaca, isso para mim é imperdoável.

- Trair uma causa, Draco? – Harry vociferou. – E o que ele acredita não interessa? Você nunca imaginou que uma pessoa, nessa guerra, pode começar a enxergar as coisas de uma forma diferente? A querer lutar do outro lado?

- Só um idiota cairia nessa, Harry. É por causa dessa sua convicção besta de que as pessoas mudam da água para o vinho, de que todo mundo é capaz de em uma noite ser um assassino e na outra virar um santo, que te faz ser cego e inocente demais. Como você pode ter tanta certeza de que Zabini não está te usando, hum? Que ele não está com medo de sofrer uma represália e que tudo isso não passa de um teatrinho para sair ileso?

O moreno balançou a cabeça com um sorriso descrente.

- O que você acha que é pior, trair Voldemort ou a Ordem da Fênix? Ele escolheu o caminho mais difícil, mesmo que vir para o nosso lado signifique uma pena menor, isso não o livra da vingança dos comensais. Ele arriscou muita coisa para ficar do nosso lado e você sabe disso. Não acho que trair Voldemort seja uma tentativa de se dar bem no final das contas.

- Zabini assim como eu passou a vida toda seguindo os passos dos pais, fazendo tudo para honrar o próprio sangue. Essa é a nossa sina, agir da forma que ele agiu, não interessa o motivo, é uma traição e é imperdoável.

Harry sentiu uma fúria dominá-lo por causa do que acabara de ouvir e por isso nem sequer percebeu que começara a gritar.

- Sangue? Herança? É só nisso no que você pensa, Draco? Você não tem idéias próprias? Vontades? Você é apenas uma marionete criada pelo seu pai e Voldemort?

Draco o encarou, as pupilas muito contraídas enquanto em sua face se formava uma expressão fria.

- Eu tenho um legado para carregar, Potter e não acho que você seja capaz de compreender isso.

Dessa vez foi Harry que riu com escárnio.

- Legado? Isso não significa nada comparado ao quanto de sangue que você já derramou ou o quanto de sofrimento que causou para defender este estúpido legado. Eu estou do lado de Blaise porque ao contrário de você ele enxergou isso, ele viu além dessa visão preconceituosa e superior que a maioria dos sangues-puros carregam.

- Ah claro, Santo Blaise Zabini, O Convertido. – Draco exclamou com ironia.

- Ele não é nenhum santo, Draco e muito menos um traidor como você diz. Eu vi quando ele decidiu vir para o nosso lado, vi o quanto ele sofreu por causa dos crimes que havia cometido. Blaise não veio a nós simplesmente porque estava com medo, ele estava cansado e arrependido. E eu admiro isso.

- Então, Potter, fique com a sua mais nova prova de humanidade e esperança, espero que você se divirta com o seu novo brinquedo, principalmente quando ele quebrar nas suas mãos. – Malfoy escarneceu, terminando de abotoar a calça e começando a procurar pela própria varinha para sumir dali.

- O que é agora? Vai fugir? Você vai simplesmente virar as costas para mim e ir embora?

O sonserino lançou um olhar mortal na direção do moreno enquanto continuava a andar pelo quarto.

- Porque você ficou tão agressivo com a idéia de que alguém é capaz de se redimir, hein? O que você tem de tão diferente e superior ao Blaise, hum? Você, assim como ele, é um Comensal. Como isso te dá o direito de julgá-lo?

Harry observou Draco parar muito rígido num dos cantos do quarto, e no instante seguinte o loiro estava sobre ele, empurrando-o na direção de uma das paredes, prensando-o e batendo um dos punhos ao lado de sua cabeça.

- Sim, Harry Potter! Eu sou Draco Malfoy, um Comensal, um assassino. Eu já torturei pessoas, as mutilei, dilacerei. – o sonserino gritava com fúria, observando de perto a expressão assustada de Harry, acompanhada de seus olhos arregalados por detrás da lente dos óculos. – E o que você vai fazer com relação a isso, hum? Me entregar para o Ministério? Me fazer de fantoche da Ordem da Fênix? Você acha que eu sou alguém como Zabini? Que irei rastejar para o seu lado, arrependido, chorando por causa do sangue que derramei?

O grifinório agora tremia, a dureza daquelas palavras faziam com que ele fraquejasse e se sentisse completamente exposto.

- Então, Potter? Estou esperando! Você teve inúmeras chances de me prender, matar, fazer o que bem quisesse. Mas não, você preferiu continuar este teatrinho pessoal, preferiu manter esses encontros escusos, essa imagem de que somos dois amantes proibidos de ficarem juntos. – Draco esmurrou mais uma vez a parede ao lado do bruxo, e o moreno deu um pequeno salto, abaixando a cabeça para evitar encara-lo. – Bem, Harry, eu tenho uma novidade para você, isso aqui não é um conto de fadas e eu não sou seu príncipe encantado. E acima de tudo não admito que você zombe a lealdade que tenho com relação a minha família e ao que fui destinado, porque eu sei que você tem consciência de todos os crimes que já cometi e até agora não moveu um dedo para me fazer pagar por eles.

A fúria de Draco começava a abrandar a medida que ele desabafava e em contraste ao seu estado, Harry afundava cada vez mais em uma tristeza sem precedentes.

- Você é um hipócrita, Potter.

O loiro finalmente se afastou dele, dando mais uma volta pelo quarto e encontrando o que procurava, a varinha.

- Você espera de mim mais do que eu sou capaz de oferecer. – começou a murmurar com uma voz que não demonstrava nada além de frieza. – Eu não sou como Zabini, sou um comensal e não morro de remorsos por isso. Simplesmente não me importo. Me treinaram desde pequeno para ser o que sou hoje e toda a minha vida girou em torno disso. Você não pode querer que agora, depois de tantos anos, eu simplesmente me arrependa e mude de lado por sua causa, ou talvez, que eu entenda alguém que fez isso.

Harry suspirou ao ouvir estas últimas palavras, levando uma das mãos a cabeça com uma expressão de dor, como se o que acabara de escutar o tivesse ferido profundamente.

- Eu não estou tentando molda-lo, ou... eu só... – o moreno tentou se justificar, sem saber explicar exatamente o que sentia ou o que se passava por sua mente.

- Não está? Então o que foi todo este sermão que você me deu hoje? O que foi aquela porcaria de 'Eu admiro o Blaise'? – Draco questionou, olhando para o grifinório com um sorriso azedo. - Faça-me um favor, Harry, pare de sonhar com um Draco Malfoy que eu nunca serei.

E com este último aviso seco e repleto de significado, ele aparatou, deixando Harry para trás, arrasado e dividido por muitos sentimentos, nenhum deles mais fortes do que o amor descomunal que continuava sentindo pelo loiro, mesmo após ouvir tudo aquilo.

Desde o início ele tivera plena consciência de aonde estava se metendo. Já ponderara várias vezes sobre tudo aquilo, mas simplesmente não conseguia abrir mão de Draco, era mais forte do que ele.

Ele estava, há muito tempo, condenado e não era pelos pecados que cometera, e sim por amar a pessoa que traria sua danação.


Draco chegou à Mansão Malfoy controlado o suficiente para arremessar e quebrar apenas umas poucas coisas. Não estava sendo fácil aceitar tudo o que estava sentindo e muito menos lidar com isso

Após a discussão com Harry, ele rapidamente começara a se remoer por dentro, não sabendo definir exatamente se estava arrependido pela briga ou furioso. Havia momentos, quando pensava no que o grifinório dissera, que se sentia ultrajado, até mesmo revoltado. Era como se o menino-que-sobreviveu quisesse moldá-lo, transformá-lo em algo apropriado, que se encaixasse nos novos padrões da sociedade bruxa.

E Draco sabia que, se não fosse por ele e os terríveis erros que vinha cometendo naqueles últimos tempos, não teria que se preocupar agora com isso, porque aquele relacionamento conturbado com o grifinório nunca teria começado a existir.

No princípio fora reconfortante a idéia de que seu destino talvez fosse acabar se envolvendo com o inimigo, e isso tudo era porque ele estava cansado, porque lá no fundo desejava sentir algo por alguém.

Mas as coisas estavam se descontrolando e agora havia também aquela necessidade, uma urgência esmagadora de possuir Harry somente para si.

Ah, e ele tinha ciúmes, muito ciúmes. Era como se qualquer coisa que afetasse Potter indireta ou diretamente fizesse com que um rio de lava o queimasse por dentro, fazendo-o ficar cego e instável.

Harry Potter agora era dele e nada no mundo mudaria isso. Ele aceitara o grifinório como ele era, sendo o que ele era, porque lá no fundo não havia muito que pudesse fazer, apenas se entregar ao que sentia.

Mas com a discussão daquela tarde, ser obrigado a ouvir Harry afirmando que admirava Zabini, o expurgo de tudo o que ele acreditava, isso doera, e não fora pouco. Era como ter levado uma surra, ficando incapaz de se mover ou sequer lidar com aquilo.

Desde pequeno, por mais que fosse desinteressado pelo legado da família, ele era incapaz de colocar de lado o orgulho que possuía. Ele era um Malfoy e este nome, esta imagem, eram seus tesouros, coisas sem as quais não conseguiria viver.

Mas Harry não conseguia enxergar isso, o via como um simples fruto de uma doutrina doentia, o vislumbrava como um fantoche de bruxos obcecados e xenofóbicos. E naquela manhã, pela primeira vez, Draco percebera o quanto o moreno desejava mudá-lo e por alguns instantes poderia jurar ter visto nos olhos de Harry a capacidade para isso.

Só que ele não permitiria, Potter teria que se contentar em tê-lo daquela forma ou ficar sem ele. Não havia negociação.

Fora por isso que ele gritara e se rebelara. Se era para alguém amá-lo naquele mundo amaldiçoado, que fosse pelo o que ele era e não para transformá-lo em algo diferente.

E esses pensamentos o acompanhavam aonde quer que ele fosse, corroendo-o por dentro, não deixando que ele se esquecesse de tudo o que dissera e ouvira naquele dia. Era como estar preso no inferno.

Com o passar das horas e o início da tarde, Draco começou a ficar mais calmo e duplamente aliviado pela falta de notícias sobre Voldemort.

Conhecendo a personalidade do Lord das Trevas, sabia que este provavelmente estaria descarregando a raiva em algum lugar de alguma forma malévola e sanguinária. Voldemort não deixaria passar em claro o que Zabini fizera. E Draco previa que logo, logo algo grandioso aconteceria, como uma vingança e um aviso para a Ordem da Fênix. Cheio de surpresas como era, Você-Sabe-Quem poderia muito bem encontrar alguma forma de capturar Blaise antes que este recebesse a própria pena e fosse remanejado para Azkaban. Ninguém simplesmente enganava um dos bruxos mais perigosos de todos os tempos e saía ileso.

E não era só Voldemort que queria a cabeça de Zabini, grande parte dos Comensais da Morte também não estavam nada contentes com a perspectiva do julgamento. Eles não eram tolos, sabiam que Blaise entregaria vários nomes e outras informações importantes na tentativa de ganhar prestígio com o júri.

Por isso, de certa forma, Draco agradecia o fato de estar afastado por algum tempo daquela tempestade e que ninguém até agora o houvesse convocado para fazer qualquer coisa. Já naquela altura do dia ele estava exausto e possesso, ficando eriçado de raiva apenas com a simples menção do sobrenome Zabini. Não tinha cabeça para mais nada, apenas para pensar em Harry e na discussão que haviam tido mais cedo.

E tudo aquilo poderia ter sido evitado se o nome de Zabini, aquele pequeno traidor imundo, não tivesse entrado em cena. Em resumo, mais do que nunca ele desprezava aquele tipinho.

Sentado em uma poltrona na biblioteca da mansão, girando a varinha entre os dedos, continuou refletindo. Sentia-se inquieto. O horário do julgamento se aproximava, e por mais que odiasse admitir, ele tivera esperanças de que Harry tentasse contatá-lo antes de ir testemunhar a favor do maldito.

Ele se sentiria bem se escutasse um pedido de desculpas do moreno, mesmo que fosse por carta. Mas a quem ele queria enganar? Potter era tão orgulhoso quanto ele e Draco certamente o espetara com palavras bruscas naquele dia, dissera coisas capazes de ferir o amor próprio de qualquer pessoa.

E raciocinar sobre o que dissera pela centésima vez naquela tarde o fez grunhir, irritado. Ele fora duro, de certa forma injusto, mas Harry o provocara, exigira demais dele, não fora algo que pudesse ter controlado.

Mas isso não mudava o fato de que agora, lentamente, começava a crescer dentro de si um medo de perder o grifinório por causa daquelas pequenas coisas. Era uma sensação terrível e ridícula, e ele teve que soltar um suave rosnado por causa dos pensamentos absurdos que estava começando a ter.

Cansado de continuar sentado, começou a caminhar pelo recinto, os olhos indo de cinco em cinco minutos na direção de um grande relógio, averiguando as horas.

Quatro e meia.

Faltava pouco para o julgamento e ficar ali, sem nada para fazer o estava matando. O ócio rapidamente começou a dar-lhe idéias bizarras sobre o que fazer, estando entre elas ir assistir Harry testemunhar.

E ele sentira-se mais do que tentado a prosseguir com aquele plano, isso se no último instante não tivesse se recordado que agora era um comensal conhecido pelo público e que não poderia sair andando livremente por aí, não sem ser preso ou morto por aurores.

Isso voltou a desanimá-lo, e ele bufou, tornando a se sentar na confortável poltrona.

Permaneceu longos vinte minutos pensando em alguma solução para aquele tédio, mas sem admitir que a verdade era que a idéia de ir assistir ao julgamento o estava deixando obcecado.

Ele não se importava, certo?

Não mesmo!

Mas ele logo viu que era uma idéia muito irresistível e que em menos de três segundos já tinha uma solução perfeita para o fato de não poder aparecer em público.

Suspirando com um sentimento de derrota, ele não deu tempo para começar a ter arrependimentos com relação aquela idéia maluca, colocando-se rapidamente de pé, subitamente mais revigorado e com uma expressão determinada.

Se ele queria comparecer ao tribunal sem ser reconhecido precisava agir rápido. Se tudo desse certo ele assistiria o depoimento de Harry na primeira fileira, avaliando cuidadosamente o comportamento do moreno, e quem sabe descobrindo algumas coisas.

Apanhando um casaco no hall antes de sair, Draco não se surpreendeu com o olhar curioso de um dos elfos ao vê-lo andar praticamente correndo pelos corredores e escada abaixo.

Sem dar muita atenção a essa trivialidade, ele vestiu a capa que escolhera, empunhando com destreza a varinha na mão esquerda.

Antes mesmo que um dos elfos soltasse um pio, aparatou, indo em direção a solução dos pequenos problemas que teria para entrar no julgamento.


Draco fez uma careta diante da fumaça irritante que era lançada em sua direção pelo senhor que estava sentado ao seu lado. Não havia algo mais nojento do que aquele cheiro enjoativo de erva queimada, mas ele não tinha outras opções além de suportar a afronta, precisava se manter o mais ordinário possível para poder assistir em paz ao julgamento de Blaise Zabini.

Invocando uma paciência que não sabia possuir, aguardou pacientemente que todos os rituais que precediam à sessão fossem finalizados. Com o canto dos olhos, posicionado em uma das fileiras mais afastadas, observou atentamente o júri se sentar no lado mais oposto do salão.

Já era quase oito da noite e ele estava entediado. Chegara ao local com meia hora de antecedência, mas desde as cinco da tarde estivera ocupado tomando todo o cuidado necessário para não levantar suspeitas e ser capturado durante aquele pequeno capricho. E agora, sentado no meio daquele público eufórico, ele não passava de um inofensivo velhinho, irritado com a maldita fumaça do cachimbo que o companheiro de fileira insistia em exalar.

A primeira coisa que fizera ao chegar naquele local fora garantir que seu disfarce estava perfeito. Com a poção polissuco contrabandeada que conseguira mais cedo, juntamente com os fios de cabelo de um trouxa qualquer, ele agora assumira um corpo que não levantaria a menor suspeita dos aurores responsáveis pela segurança do julgamento. Mesmo que não admitisse, chegara a estremecer na porta de entrada do salão quando um auror pediu para examinar sua varinha, mas tudo correra bem e ele agora estava seguramente acomodado e infiltrado.

Tentando ignorar uma súbita coceira no nariz por causa do odor adocicado de fumaça que praticamente o sufocava, ele começou a passear cuidadosamente os olhos pela multidão, que lentamente ia se sentando nas inúmeras cadeiras espalhadas pelo salão. Apertando um pouco os olhos na direção do local onde ficariam as testemunhas, ele sentiu um pequeno solavanco na boca do estômago ao distinguir alguns fios negros bastante conhecidos.

Harry.

E a simples idéia de que o grifinório estava ali, tão próximo, fez com que seu coração disparasse, rendendo-lhe uma careta.

Por mais que não quisesse admitir, estava ansioso e a cada instante mais apreensivo. Imaginava como seria o testemunho de Harry. Perguntava-se se o grifinório faria um discurso apaixonado em defesa de Zabini, ou se simplesmente responderia com secura o que lhe fosse perguntado.

Desejava do fundo de sua alma que o moreno agisse com frieza, pelo bem dele e de sua sanidade.

Estremecendo de leve com a expectativa do que viria a seguir, ficou um pouco surpreso quando todos do salão se puseram de pé e um bruxo muito robusto, vestido com uma capa vermelha, adentrou o recinto e encaminhou-se para a porção central do lugar.

Draco não teve que se esforçar muito para adivinhar que aquele era Magno Krovtz, o juiz que presidiria àquela sessão, e foi com muito desgosto que sentiu uma imediata antipatia pela aparência desconfiada e severa do bruxo.

Todos tornaram a se sentar quando Krovtz se acomodou e imediatamente o julgamento foi iniciado, um silêncio sepulcral tomando conta de todos os presentes.

E ao contrário do que ele imaginara, o tédio rapidamente fez com que ele pescasse por já nos primeiros dez minutos de julgamento, suas pálpebras ficando incrivelmente pesadas a cada momento em que uma vítima das atrocidades de Blaise era convidada a testemunhar.

O homenzinho ao seu lado, ao contrário de si, parecia muito entretido com tudo o que era dito. Draco imaginava se esse ânimo não era devido a nenhum composto maligno naquela erva fedorenta que ele fumava, mas a verdade era que nada daquilo que estava sendo relatado impressionava Draco. Tudo parecia ser mais um teatro, cheio de tragédias e atrocidades, para atrair a atenção do público do que um julgamento de verdade.

Mais de uma hora se passou quando a atenção do sonserino finalmente foi desviada dos pensamentos sonolentos que ele estava tendo. Blaise Zabini fora convidado a se apresentar no tribunal e em menos de um segundo Draco pôde ver a figura magra e alta do bruxo surgir de uma das inúmeras portas do salão.

Três aurores acompanhavam o criminoso, todos com as varinhas firmemente apontadas na direção do bruxo. Draco sentiu-se tentado a rir de escárnio da imagem acabada do ex-comensal, mas se segurou. Seria bizarro demais que ele começasse a ter um acesso humorístico no meio do tribunal.

Por longos minutos o juiz se concentrou em fazer perguntas ao réu, tudo isso sendo intercalado por algumas dúvidas vindas dos jurados. Draco novamente se viu tragado de volta para o tédio, e foi com descaso que captou algumas das afirmações feitas por Zabini, contentando-se apenas em revirar os olhos, enojado, por causa das várias mentiras que o bruxo contava na tentativa de conquistar alguma simpatia dos presentes.

Depois de suportar aquela situação por horas, finalmente o que ele viera para ver teve início. Em meio a um silêncio prenhe da multidão de expectadores, o nome Harry Potter foi pronunciado. E foi com avidez que Draco se inclinou para frente observando, através de expectadores, a figura esguia do grifinório caminhando até uma cadeira que lhe fora oferecida.

Pela primeira vez naquela noite Draco se sentou completamente ereto, os ouvidos bastante aguçados, preocupado em captar até mesmo a respiração de Harry.

Um dos assistentes do juiz lançou sobre Potter um feitiço para aumentar o volume de sua voz, pedindo-o para testar se dera certo, e Malfoy observou as reações do moreno, achando graça de como Harry coçara a própria nuca sentindo-se completamente encurralado e acanhado diante daquela multidão.

- Harry James Potter. Testemunha de defesa. – Magno Krovtz fingiu ler estas palavras em uma das folhas que tinha diante de si, mas Draco sabia que o juiz já sabia tudo aquilo de cor.

O grifinório fez um gesto com a cabeça ao ouvir o reconhecimento solene de sua presença. Grande parte do júri se empertigou nos assentos, bastante excitados com o que viria.

- Espero que esteja claro, senhor Potter, que nesta sessão só será admitida a verdade e fatos concretos, entendido? – Krovtz questionou, assumindo uma expressão assustadoramente séria.

- Sim, meritíssimo. – Harry respondeu complacente, sua expressão séria ficando ainda mais determinada.

Draco mordeu a parte interna da bochecha para não rir diante desta cena, achando muita graça a forma como aquele juiz miúdo parecia tentar assumir uma pose de autoridade diante do tão aclamado menino-que-sobreviveu.

Alguns breves minutos foram gastos com Harry respondendo algumas perguntas formais e finalmente o julgamento seguiu o curso que a maioria dos presentes ansiavam por testemunhar.

- Há quanto tempo o senhor conhece Blaise Zabini?

- Desde Hogwarts, pertencíamos ao mesmo ano. Ele era da sonserina. – Harry respondeu de forma sucinta, e Draco sentiu em suas palavras uma clara pitada de treinamento. Alguém andara dando aulas para Potter de como ele deveria se comportar em um julgamento.

- Quando que o senhor tomou conhecimento da identidade de Zabini como um comensal? – Magno questionou, não parecendo realmente interessado na possível resposta.

- Um ano após terminarmos Hogwarts, seis meses depois que foi declarada abertamente a guerra contra Voldemort.

- Você já chegou alguma vez a se deparar com o réu em alguma batalha?

- Três vezes. – Harry respondeu imediatamente, tudo o que deveria falar já na ponta da língua. – Uma vez durante um ataque a Hogsmead e as outras duas durante alguns confrontos na Londres trouxa.

Neste instante um dos júris abertamente soltou um muxoxo de desgosto, e Magno imediatamente tomou a liberdade de repassar a palavra ao homem.

- Senhor Potter, você acaba de deixar claro que conhece todas as atividades criminosas do réu, e acredito que eu, assim como os meus colegas, estamos curiosos para saber por que, mesmo assim, você decidiu testemunhar a favor dele.

Muitos companheiros do homem concordaram com a cabeça, aprovando as palavras do bruxo, e Draco se divertiu vendo o quanto aquilo deixara Harry meio sem jeito.

- Não vim aqui provar a inocência de Blaise, senhores. – o moreno respondeu em uma voz bastante respeitosa. – Tive a chance de conhecer o acusado nos anos em que ele finalmente aceitou a missão de atuar como espião, e meu objetivo aqui é pedir clemência em sua pena, e não sua abolição.

Os júris começaram a cochichar entre si parecendo impressionados com o que acabaram de ouvir.

- Senhor Potter, mesmo concordando com todas as acusações feitas, o senhor acredita que o réu mereça alguma diminuição em sua pena? – Krovtz começou a questionar, já deixando claro que não fora tocado nenhum pouco pelas tentativas de defesa do acusado e que estava bastante surpreso com as intenções do menino-que-sobreviveu.

- O que acredito, meritíssimo, é que Blaise cometeu diversos crimes e que deve pagar por eles, mas que sua intenção de redenção deve ser reconhecida e de certa forma recompensada. – Harry respondeu com simplicidade, fazendo surgir uma inesperada balbúrdia no salão.

Draco não pôde evitar um franzir de cenho, achando muito estranho o que o grifinório acabara de dizer. Se Harry realmente desejava ajudar Zabini, com certeza estava tomando o caminho errado. Ele não pedira por perdão, afirmara que o réu era acusado e mesmo assim lutava por alguma espécie de pena mais leve?

Malfoy não sabia se achava graça de tudo àquilo ou se sentia furioso pela briga que tivera com Potter por causa de toda aquela estupidez. Certamente o grifinório não estava batendo bem da cabeça, porque se apresentar diante daquela multidão falando tamanha estapafurdia não era uma atitude nada inteligente.

Um dos júris tornou a falar dessa vez, a voz carregada com um leve tom de cólera.

- Senhor Potter, o senhor tem consciência do que está pedindo? Blaise Zabini é um Comensal da Morte, um assassino. O senhor realmente acredita que ele mereça alguma espécie de chance?

- Ex-comensal, senhor. – Harry respondeu, os olhos verdes agora flamejando com uma inesperada determinação. – E não preciso que ninguém me diga o que Blaise fez durante todos os anos em que esteve a serviço de Voldemort, tenho conhecimento de tudo isso.

O eco provocado pelo nome do Lord das Trevas fez com que o salão caísse em um silêncio mortal, e Potter tomou esta oportunidade para continuar a dizer o que queria.

- Não sei se muitos de vocês estão realmente familiarizados com a vida daqueles que se tornam Comensais, mas garanto que há vários deles que seguem este caminho por obrigação, e não por vontade própria. Não afirmo que Zabini tenha tido o direito de fazer o que fez, mas as pessoas quando coagidas e ameaçadas escolhem se entregar para não morrer.

- Não temos nenhum conhecimento de que Zabini foi de alguma forma obrigado por Você-Sabe-Quem a cometer os crimes que cometeu. – Magno observou, parecendo agora travar uma batalha com Harry. – Pelo contrário, a família do réu sempre foi conhecida por se aliar com adoradores das artes das trevas.

- Meritíssimo, Zabini perdeu os pais desde muito pequeno, restando vivo apenas o avô materno, que anos atrás foi morto em um ataque de comensais. O senhor acredita mesmo que alguém assim teve alguma influência para seguir voluntariamente o Lord das Trevas?

Uma mulher do júri soltou um rugido de escárnio.

- Um parente morto por comensais não prova nada. O réu Zabini sempre teve escolhas, não seguir o Lord das Trevas era uma delas. Ele obviamente resolveu apoiar a causa de Você-Sabe-Quem e agora deve ser julgado adequadamente por isso.

Draco sentiu uma pequena gratidão à bruxa que pronunciara aquelas palavras, porque era exatamente naquilo que acreditava.

- Senhora – Harry disse com um suspiro cansado. – O que você acha que se passa pela cabeça de um órfão de dezessete anos quando é ameaçado pelo bruxo mais temido de todos os tempos? A senhora seria capaz de fazer a escolha que considera certa nessa situação? Mesmo sendo alguém tão jovem?

- Ele poderia ter procurado por aurores, o ministério. – um outro membro do júri comentou, recebendo a aprovação imediata dos companheiros.

Harry ao ouvir isso não conteve uma pequena risada amarga. Draco achou o gesto muito ousado da parte do grifinório e de certa forma admirou a forma como Potter estava enfrentando todo aquele pelotão pronto para crucificá-lo juntamente com o acusado.

- Por favor, senhores, vocês realmente querem que eu relembre a todos o que se passava na sociedade bruxa nesta época? De como o ministério negava qualquer existência do Lord das Trevas e como combatia de forma rígida qualquer pessoa que dissesse o contrário?

Este comentário calou todos os presentes e implantou no semblante de grande parte dos jurados uma expressão de reflexão. Até mesmo o juiz pareceu se abalar com o comentário de Harry.

Draco revirou os olhos diante da reação que Potter arrancara dos presentes com aquelas palavras, que provavelmente tinham sido ensaiadas, e sentiu-se desgostoso porque sabia que o grifinório ganhara vários pontos a favor de Zabini com todo aquele discurso compreensivo.

Ele não vira Harry defender Blaise de uma forma exatamente apaixonada, mas mesmo assim fora uma atitude sem pestanejar, como se o moreno realmente acreditasse que o ex-comensal merecesse uma segunda chance. Aquilo o irritava profundamente.

Malfoy mal conseguiu prestar atenção no restante da sessão devido aos inúmeros impropérios que começavam a se forma em sua mente. Ele estava com raiva de Harry. Tivera uma estúpida esperança de que o grifinório fosse frustrado em sua tentativa de ajudar Zabini, mas ver que estava acontecendo exatamente o contrário fez com que ele se sentisse fraco e enciumado.

Várias outras perguntas foram feitas a Harry envolvendo detalhes do comprometimento de Blaise em espionar comensais e ajudar a prevenir diversos ataques, e o testemunho enveredou para assuntos mais técnicos, como datas e horários.

Draco permitiu-se nestes instantes se perder em meio aos próprios pensamentos, mantendo os olhos fixos na expressão transparente de Harry, apertando inconscientemente os punhos e tendo ganas de socar alguma coisa.

Talvez ir ali não tivera sido uma boa idéia. Acabara que no final estava ainda mais possesso, frustrado e irritado com Potter, e agora tinha certeza de que Zabini se safaria de uma pena cruel por causa do santo menino-que-sobreviveu.

Permaneceu neste estado de desgosto por mais quinze minutos até que finalmente Magno Krovtz se deu por satisfeito com o testemunho de Harry e o liberou.

Draco observou Potter se levantar e começar a se encaminhar de volta para o lugar que estivera ocupando, abrindo um sorriso na direção de alguém que provavelmente o estava acompanhando.

Aquilo fez com que Draco cavasse buracos na cabeça do moreno devido a intensidade e ódio com que o acompanhava com o olhar, e internamente ele agradeceu muitíssimo pelo salão estar tão lotado, assim o grifinório nunca notaria sua atenção quase assassina.

Foi com um alívio imenso que ouviu que seria feita uma pausa e que o julgamento continuaria daqui a meia hora.

Praticamente saltando do banco, conseguiu fazer com que o senhor do cachimbo que se sentara ao seu lado derrubasse a preciosa erva que estivera queimando desde o início da sessão. Permitindo-se alguns minutos de pobre satisfação, ele nem se preocupou em olhar para o bruxo ou sentir-se culpado, ficando concentrado em procurar o caminho mais rápido na direção da saída.

Resmungando irritado pela dificuldade que estava tendo para chegar até a porta, teve o prazer de empurrar várias pessoas que haviam tomado à liberdade de simplesmente parar no meio dos corredores para conversar.

Quando finalmente alcançou o lado de fora do salão, observou com destreza que a multidão agora se dispersara em diversas direções, vários grupos se formando tendo como principal assunto os acontecimentos do julgamento.

Decidido que já tivera o suficiente, sabia que estava na hora de ir embora antes que cometesse alguma loucura, ou simplesmente pirasse. Enfiando uma das mãos no bolso da capa, fechou os dedos contra a própria varinha, começando a caminhar em direção a saída.

Passando por uma das diversas portas espelhadas que davam para outros lugares do prédio, ele captou com o canto dos olhos um flash platinado vindo de sua figura. Parando bruscamente no meio do corredor e olhando com mais atenção para a superfície, observou horrorizado que a poção polissuco começara a perder o efeito.

Olhando rapidamente para os lados para verificar se alguém percebera o que estava acontecendo, sentiu o coração parar na garganta quando seus olhos pousaram por breves minutos na figura de Harry Potter, conversando compenetrado com dois aurores.

Permitiu-se observar por alguns instantes o rapaz e quase engasgou quando viu que Potter desviara o olhar por míseros segundos na sua direção. Não compreendeu realmente o que acontecera, mas viu que o grifinório a princípio não lhe dera muita atenção, provavelmente acostumado a ter pessoas estranhas o encarando, mas que logo em seguida voltou a olhá-lo, agora com mais cuidado e de forma discreta, não deixando de continuar a conversa com os companheiros.

Draco engoliu em seco e desviou os olhos. As íris de Harry lhe provocaram uma sensação de nudez, como se o moreno tivesse conseguido enxergar através dele, vendo tudo o que ele estava escondendo.

Tentando ignorar isso, voltou a se preocupar com o fim do efeito da poção e escondendo agora as mãos, antes envelhecidas e agora joviais e pálidas, no bolso da capa, pôs-se a caminhar rapidamente na direção oposta a Potter, mantendo a cabeça bem baixa.

Rapidamente ele alcançou um corredor praticamente deserto, seguindo sempre em frente, em direção a qualquer área aparatável ou quem sabe até encontrar alguma lareira.

Já estava se sentindo mais confiante e seguro de que escapara, quando uma mão forte o puxou pelo antebraço, empurrando-o com certa brutalidade contra uma parede.

Ele soltou uma exclamação abafada.

- Que merda você pensa que está fazendo vindo aqui? – Draco notou, surpreso, a brutalidade daquela voz conhecida, sentindo uma respiração acelerada se chocar contra seu pescoço enquanto sua mente tentava digerir o que estava acontecendo.

O sonserino conseguiu apenas pensar em abrir a boca, nenhuma palavra escapando de seus lábios enquanto observava Harry agora muito próximo de si, bastante irritado.

O moreno notando que não teria uma resposta rápida puxou algo do bolso com a mão livre, e Draco no fundo de sua mente reconheceu a varinha do bruxo e o feitiço de ilusão que ele conjurara, provavelmente uma precaução caso alguém se aproximasse.

- Potter, como você... – Malfoy finalmente começou a dizer, tentando retomar a própria compostura enquanto lutava para ficar ereto.

- Seus cabelos, Draco. Não sei se mais alguém foi capaz de notar, mas eles já estão praticamente loiros.

Draco franziu o cenho diante daquela justificativa, parecendo ainda estar surpreso demais para captar qualquer coisa.

- Muitas pessoas têm cabelos loiros, Potter. – finalmente retrucou com um certo tom de sarcasmo.

- Não como os seus. – Harry respondeu depressa, o semblante agora passando de bravo para algo mais suave. – O que você está fazendo aqui?

Draco querendo a todo custo evitar a pergunta, simplesmente puxou o braço da mão de Potter, tentando endireitar a própria capa que agora estava muito larga devido à retomada de seu corpo magro, muito diferente do robusto velhote que ele usara como disfarce.

O sonserino notou um suspiro escapar dos lábios do moreno ao não conseguir nenhuma resposta, e sentiu-se levemente satisfeito em não realizar os desejos do grifinório.

- Tome. – de repente Harry tornou a falar, apanhando algo em um dos bolsos internos da capa, capturando uma das mãos de Draco e depositando o objeto nela. – Saia daqui antes que alguém te veja, mais tarde conversamos.

Malfoy ergueu uma sobrancelha com desgosto ao se deparar com o já conhecido pomo de ouro. Nem sobre ameaça de morte ele iria para a casa de Potter, não quando estava brigado com o grifinório e nenhum pouco disposto a fazer as pazes.

- Potter, eu não irei usar isso, pode pegar...

- Draco – Harry rapidamente o interrompeu, pressionando-o agora contra a parede. – Não discuta comigo. – disse bastante firme, fazendo com que o loiro mordesse a língua de raiva.

O sonserino estava mais do que disposto a continuar aquela discussão quando passos puderam ser ouvidos mais adiante no corredor. Harry lançou um olhar apreensivo na direção do som e Draco sentiu um arrepio percorrer o próprio corpo.

- Vá - o moreno murmurou agora bem baixo, obrigando Draco a fechar a mão sobre o pomo, sem tocar no objeto.

Malfoy tentou protestar uma última vez, mas Harry foi mais rápido, murmurando muito próximo a sua bochecha a palavra exata para ativar a chave portal.

- Maldito! – foi à última coisa que Draco conseguiu exclamar antes de sentir um puxão sobre o próprio umbigo, sendo inundado pela sensação desconfortável de estar sendo transportado para outro lugar.


Draco não soube exatamente como ele ficou tão bêbado. De certa forma o fato de Harry praticamente tê-lo obrigado a voltar uma outra vez para aquela casa havia contribuído, mas não se resumia somente a isso.

A princípio, sozinho naquele lugar, sendo invadido por diversas lembranças igualmente desagradáveis e prazerosas, ele sentiu-se tentado a fugir, mas logo pôs a idéia de lado.

Passou vários instantes passeando por cada cômodo, sentindo-se fraco e até mesmo submisso diante de tudo o que Harry Potter fazia. Cada vez mais tinha a sensação de que deixava o grifinório se safar com qualquer coisa, e que naquela noite isso se repetiria.

Pensar nisso o fez ter vontade de esquecer tudo, de ao menos naquela noite não ser Draco Malfoy na casa de Harry Potter, um comensal morrendo de vontade de simplesmente chutar o traseiro do menino-que-sobreviveu, mas ao mesmo tempo dividido entre beijá-lo e se perder em meio ao seu cheiro.

Ele era a contradição em pessoa. Queria passar raiva no moreno até ouvi-lo gritar, mas também queria senti-lo suspirando, quem sabe gemendo diante de um gesto carinhoso.

E saber que teria que escolher entre estas duas opções naquela noite era extremamente difícil para ele. Foi por isso que quando encontrou na dispensa de Harry uma garrafa de firewhisky, ele não pensou duas vezes antes de abri-la e começar a beber diretamente do gargalo.

Draco teria rido se Potter algum dia lhe dissesse que chegara em casa e o encontrara jogado na sala na mais profunda penumbra, a capa que estivera vestindo deixada de qualquer jeito em um canto, metade dos botões da blusa abertos enquanto mantinha-se recostado contra o sofá, suas mãos presas firmemente a uma garrafa cheia até a metade.

Mas aquilo de fato acontecera, e Draco estivera bêbado demais para guardar na memória cada detalhe daquele fiasco.

De início Harry apenas piscou confuso quando o viu, não acreditando no que estava diante de si. E o loiro simplesmente erguera o rosto ao se dar conta de sua presença, encarando-o, as íris cinzentas brilhando magicamente na escuridão.

O grifinório resolveu por fim desfazer a própria expressão de surpresa, desabotoando a capa que vestia, jogando-a no mesmo lugar na qual a de Draco fora abandonada.

- Espero que não se importe, Harry – O sonserino murmurou neste exato instante, erguendo a garrafa de firewhisky enquanto observava o outro bruxo se aproximar. – Achei em um armário, acho que vocês chamam de... – e parou alguns instantes, contemplativo, tentando lembrar a palavra.

Harry suspirou com isso, fazendo uma pequena careta ao alcançar o loiro, sentando-se ao seu lado e sendo atingido pelo cheiro pungente de álcool.

- Dispensa – ele ofereceu em um tom baixo, observando Draco apenas olhar para frente e concordar, levando a garrafa mais uma vez em direção a boca, tomando um pequeno gole.

O moreno continuou olhando-o naquele estado, reparando no modo como os fios platinados estavam presos a testa de Draco e em como a testa pálida estava coberta por uma fina camada de suor.

- Zabini – Malfoy de repente murmurou, falando de forma lenta, como se tivesse certa dificuldade em formar as palavras. – Quanto tempo você conseguiu para ele? – completou, voltando-se para encarar Harry, que continuava olhando-o, avaliando o estrago que o álcool fizera.

- Dez anos – o moreno respondeu sem modificar a expressão neutra que tinha no rosto, não querendo demonstrar o que se passava em sua mente.

Draco soltou uma pequena risada, inclinando a cabeça um pouco para frente enquanto estendia a mão que segurava a garrafa na direção de Harry e pressionava-a contra seu peito.

- Tome, acho que você precisa disso mais do que eu agora. – completou por fim, parando de rir, inclinando a cabeça para trás e passando a observar Potter, enquanto este olhava de forma duvidosa para o que lhe era oferecido, provavelmente pensando se deveria ou não aceitar.

Ambos ficaram em silêncio por alguns instantes até Harry finalmente fechar os dedos sobre o gargalo, erguendo a garrafa em direção aos lábios, começando a sorver um pouco de firewhisky.

Draco deixou cair a mão que estivera segurando a garrafa, mal notando que esta acabara parando sobre uma das coxas do grifinório.

Harry o olhou sem virar a cabeça, sentindo a suave pressão sobre a base da perna enquanto saboreava o efeito imediato da bebida forte.

O loiro piscou, comprimindo os olhos enquanto erguia um pouco o queixo, permitindo que Harry tivesse uma visão melhor de seu rosto através da meia luz que vinha do corredor.

O grifinório, por algum tempo, pareceu ficar encantado com o que via, observando o discreto rubor sobre as bochechas de Draco e a forma como seus lábios pareciam mais vermelhos e úmidos do que o normal.

Continuaram assim até Harry sentir-se levemente desconfortável, desviando o olhar e continuando a beber.

Draco interpretou o gesto como uma afronta, movendo-se imediatamente para frente, a mão sobre a coxa de Harry indo desajeitadamente para seu ombro enquanto em uma velocidade surpreendente para uma pessoa alcoolizada ele subia no colo do moreno, passando um braço por detrás de seu pescoço, mantendo a bochecha de ambos lado a lado, sem encosta-las.

A respiração de Potter ficou presa em sua garganta por alguns instantes e somente após ele ouvir o expirar suave de Draco em seu ouvido é que ele permitiu que seus pulmões captassem ar.

O loiro ignorando a falta de resposta do moreno simplesmente começou a beijá-lo no pescoço, os lábios quentes se demorando sobre a pele, os dentes roçando-o de leve, sendo acompanhados por sua língua.

Harry fechou os olhos por um longo instante, inclinando a cabeça bem de leve para o lado, dando mais espaço para a boca de Draco, fazendo com que os fios platinados tocassem sua têmpora, provocando-lhe uma breve sensação de cócegas.

O grifinório tornou a beber da garrafa, agora em um gole longo e demorado e Draco sentiu o movimento mesmo tendo os olhos fechados, passando a pressionar os joelhos dos dois lados do quadril do bruxo, mantendo-se firme no lugar enquanto suas mãos afundavam no cabelo de Harry e sua boca continuava a sugá-lo na curvatura do ombro esquerdo com o pescoço.

Potter não conseguiu evitar um gemido quando recebeu uma pequena mordida e fez menção de tomar mais um pouco de firewhisky, sendo prontamente interrompido por Draco, que empurrou seu braço com o lado do corpo, uma das mãos indo parar na base de seu rosto, erguendo de leve a face morena enquanto assumia uma postura mais ereta e passava a encara-lo de cima.

Eles se mantiveram nesta postura por um minuto inteiro, nenhum deles ousando se mexer ou falar qualquer coisa. Harry observava impressionado o brilho que imaginava ser os olhos de Draco, e o loiro por sua vez via claramente como as íris verdes estavam fixas em si, cheias de uma inexplicável vitalidade, desafiando-o.

A garrafa escapou das mãos de Harry quebrando o silêncio, permitindo que Malfoy quebrasse o contato visual, sentando-se sobre o colo do moreno enquanto desviava o olhar para seus lábios e passava a morder seu queixo devagar.

Potter fechou os olhos, mantendo com o abandono, os braços do lado do corpo, sentindo o calor de Draco inunda-lo enquanto o firewhisky começava rapidamente a fazer efeito.

- Eu te odeio - Draco sibilou entredentes, movendo um pouco os quadris para frente, mordendo o lábio inferior de Harry e puxando-o de leve para cima. O moreno gemeu baixinho com a súbita sensação de fricção entre eles, uma onda de calor fazendo-o queimar por dentro. - Eu te amo – acrescentou em um novo sussurro, não conseguindo controlar mais o que estava pensando, falando ou fazendo.

A declaração fez com que Harry despertasse, ficando rígido em menos de um segundo, obrigando Draco a parar. O loiro não ousou se mexer ou encara-lo, o grifinório agora respirava pesadamente, exalando o ar pelos lábios entreabertos, ambos ainda muito próximos.

Malfoy fez um pequeno gesto, firmando os joelhos no chão, ameaçando se levantar, mas Harry foi mais rápido, relaxando imediatamente, erguendo uma das mãos e agarrando os cabelos platinados de Draco, puxando-o para baixo e de encontro a sua boca.

O loiro pego de surpresa perdeu o equilíbrio, apoiando-se com uma mão no sofá. Harry aproveitou a inclinação para girá-los, fazendo-os cair, as costas de Draco se chocando contra o chão.

- Você adora me jogar no chão da sala, admita? – o loiro conseguiu comentar após um leve gemido de dor, tentando quebrar o silêncio que ele mesmo ajudara a construir.

Harry prontamente ignorou o que ele disse, deitado agora por cima de Draco, apertando-o com o próprio corpo, observando o loiro começar a ofegar, lançando de leve a cabeça para trás.

- Repete o que você disse. – deixou escapar em um murmúrio, ouvindo como a respiração de Malfoy começava a se acelerar enquanto com as mãos o sonserino buscava algo no qual se agarrar.

- Não – Draco respondeu com firmeza, estremecendo com um súbito movimento de quadris feito por Harry, que se posicionara entre suas pernas e agora segurava sua cabeça com uma das mãos ainda afundada em seus cabelos, tentando insistentemente fazer com que os olhares deles se encontrassem.

- Draco – Potter disse mais uma vez, agora em tom de súplica, fazendo o loiro fechar os olhos para não correr o risco de encarar as íris verdes.

Harry suspirou com isso e apoiou ambas as mãos ao lado de sua cabeça, começando a beijá-lo na testa, abaixo dos olhos e finalmente sobre seus lábios, murmurando de leve enquanto isso.

- Eu também te amo. – a voz do moreno era um mero sopro, mas Draco conseguia ouvi-la muito alto, muito claramente, como se estivesse dentro de sua cabeça.

Antes que pudesse evitar deixou escapar um soluço.

Harry o abraçou, mergulhando o rosto na curva de seu pescoço.

Com mãos trêmulas Draco o enlaçou. Potter sorriu, sentindo algo quente cair lentamente sobre sua têmpora, molhando sua pele e pingando em direção ao chão.


Naquela noite Draco mais uma vez abandonou a cama que compartilhara com Harry, deixando o moreno para trás, para acordar sozinho. Ele estava agindo e se movendo como em sonhos, seus pensamentos, gestos e pés o guiando rapidamente até Hogwarts antes mesmo que ele tivesse chance de se arrepender.

Passara longas horas pensando naquilo, longas horas sentido aquele aperto no coração, lutando contra seus próprios demônios, observando Harry adormecido e se decidindo. E às quatro da manhã ele finalmente bateu na porta da frente do castelo, sendo recebido minutos depois por um Filch bastante mal humorado.

Seu pedido para ver Dumbledore demorou a ser atendido, mas no mesmo instante que o diretor ficou sabendo de sua presença, ele imediatamente foi guiado até a gárgula que levaria ao seu escritório.

Não foi com nenhuma surpresa que Draco encontrou Snape parado ao lado da mesa de Albus, observando-o de forma contemplativa, quase curiosa. Muito menos precisou que ele se esforçasse para saber que os dois bruxos tinham uma breve noção do motivo de sua visita.

Mesmo assim não fora nada fácil para Draco dizer o que estivera em sua mente a noite toda, mas aquilo não impediu que ele notasse quase que triste o suave sorriso que começara a se formar no rosto de Dumbledore ao ouvi-lo, muito menos a expressão orgulhosa e preocupada que Severus passara assumir.

- Bem vindo a Ordem, Draco. – foi à única coisa que conseguiu realmente registrar daquele encontro, isso e a forma como sua garganta estava embargada enquanto ele tentava se segurar para não chorar como uma criança.

Ele já não sabia se estava traindo ou não o próprio destino, não sabia o que era e a onde pertencia. Só tinha certeza de que fazia aquilo por Harry, somente por ele e por ninguém mais.


Aviso 2: Caso o embaralhe algum trecho da história como algumas vezes ele faz, por favor me avisem que eu prontamente arrumarei. Enquanto isso tentem sobreviver aos meus erros, logo, logo a Dollua irá dar uma passada aqui para dar uma revisada no capítulo.

Notas de Fim de Capítulo:

Gente, quero agradecer muito a quem vem lendo e me enviando comentários, isso faz com que eu me sinta cada vez mais motivada a continuar escrevendo, mas desta vez irei me resumir a citar os nomes das pessoas maravilhosas que me deixaram reviews, estou quase que literalmente morta depois de escrever este capítulo e nunca pensei que seria tão difícil escrever estas cenas. Por esse desleixo já peço desculpas.

Portanto, um obrigada enorme a: Jibril, Marjarie(errar o password 3x, né? Adeim! Ahuiahiuaha), Lithos (sempre muito delicada e educada. Bjo bjo.), SOPHIE BLACK 30 e tsuzuki yami.

Agradeço também a todos aqueles que leram e foram tímidos demais para comentar. Huahau, espero que este capítulo tenha cumprido com as expectativas de vocês.

Reviews xD

Bjos!


Yoyoy: Hai hai, dollua novamente passou por aqui. Eu ja falei q eu amo essa fic?! . Esse draquito é tão fofo. E pô, porque eu não me acustumaria dona bunequinha? Eu posso me acustumar... hum?! Num sei porque, mas algumas cenas me foram nostálgicas! rolleyes Amei¹²³³ So that's it... beijinhus