As ruas estavam vazias e escuras àquela hora, principalmente depois dos últimos ataques sofridos pelos trouxas e da insistente chuva que caía sobre a cidade de Londres. O grupo formado pelos membros da Ordem havia desaparatado perto de seu destino. Dividiram-se em dois grupos menores e tomaram caminhos diferentes para não serem surpreendidos.
Remus, Sirius, James e Lílian vigiavam a entrada do prédio, enquanto o outro grupo, que era maior, se preparava para invadi-lo. Não havia sinal aparente de que os Comensais estavam na dianteira, mas todo cuidado era pouco. Vagarosamente eles entraram no prédio. A chuva se intensificara, as capas dos quatro já estavam encharcadas, quando o terceiro andar da construção se iluminou com feixes colorido. Definitivamente, os Comensais já estavam a espreita. James sugeriu que eles se colocassem numa posição mais estratégica afim de que evitassem a evasão de qualquer um que tentasse fugir, e com um assentimento de todos, se dividiram.
James e Lílian ocuparam a esquina da direita, enquanto Remus e Sirius se dirigiram para outra extremidade do quarteirão. Não houve o sinal combinado para que eles também entrassem no prédio, e com isso, tudo o que podiam fazer era aguardar. De repente as luzes cessaram e não mais voltaram a brilhar no interior do prédio. A tensão entre eles cresceu, era óbvio que algo estava errado, mas um deslize deles tudo poderia, literalmente, se perder.
A visão que Remus e Sirius tinham da entrada do prédio era parcial, e a que deviam ter de seus companheiros, inexistente, devido a forte chuva que agora caía sobre eles. Sem conseguir se manter mais em posição de cobertura, Sirius deslizou pela parede ao seu lado até a entrada do prédio, deixando Lupin sozinho escondido na penumbra da esquina. Colocou de leve a cabeça no beiral da porta e olhou para dentro. O escuro era intenso e quase não se podia perceber a escada que levava ao andar de cima, pelo menos ali não havia ninguém. Pé ante pé ele se esgueirou até escada e olhou para cima, ainda nem sinal de alguma alma. Com cuidado posou o pé no primeiro degrau, não houve barulho, e prosseguiu.
Alcançou sem maiores dificuldades o segundo nível do prédio. Os olhos cinza vasculharam o corredor a sua frente, acostumados a escuridão e atentos a qualquer movimento. Estava pronto para subir mais um lance de escada quando um leve farfalhar de tecido o fez virar na direção oposta de onde se encontrava. Algum ratinho se esgueirandopara longe da ratoeira – pensou enquanto descia suavemente o corredor sem fazer barulho. Um sorriso brincava em seu rosto ao pensar o quanto o inimigo estaria amedrontado, podia quase sentir a tensão contraindo cada músculo de seu oponente. Os olhos cinza analisavam cada reentrância da parede, cada cômodo decrépito que surgia a sua frente, todos vasculhados com cuidado, mas só havia as imensas vidraças, que de tão encardidas, nem revelavam a pesada chuva que caía lá fora. Sirius continuou avançando em silêncio, o ruído cessara totalmente, mas ele tinha certeza que o "ratinho" continuava ali, acuado.
Só restava mais uma porta no final do corredor escuro e estava fechada. O sorriso em seus lábios aflorou mais ainda, atrás daquela porta sua presa estava completamente indefesa. Mantendo a varinha em posição de ataque, ele abriu cuidadosamente com a outra mão a porta. Apesar de velha ela não rangeu, e ele olhou para dentro desconfiado, não havia ninguém. Mas como? – pensou enquanto um trovão rugia dentro da noite. Nesse momento alguma coisa passou correndo as suas costas e sem pensar duas vezes, Sirius saiu em seu encalço, era seu ratinho.
Para desespero de seu oponente, ninguém era páreo em corrida para Sirius Black. Os músculos rijos da juventude em pouco menos de cinco passos alcançavam sua presa derrubando-a de encontro ao chão empoeirado. Ao colidir com o piso de madeira a varinha rolou par longe e a presa soltou um grunhido baixo. Black aproveitou momento e imobilizou-o com seu corpo que caíra por cima do dele. O Comensal se debateu enquanto Black o fazia virar e baixava o capuz, e na luta, arranhara o seu braço. Sentindo a dor provocada pelo machucado, ele soltou um palavrão e prendeu as mãos do Comensal acima de sua cabeça. Só nesse momento que Sirius reparou que seu oponente era uma mulher e que conhecia muito bem aquele brilho castanho no olhar dela. Eles se encararam por alguns segundos antes de Sirius tomar a palavra.
- O que pensa que está fazendo? – perguntou ríspido.
- O meu trabalho – respondeu calma.
- Foi isso que aprendeu com meu irmão? - seu tom agora era cruel. O corpo dela arfava de encontro ao seu, e Sirius tentou não pensar nisso impondo-se controle.
- Eu não lhe devo satisfações, Sirius – rebateu irônica.
- Tem razão, Anne, e eu não devo poupar sua vida – retrucou irritado.
- Vá em frente – encorajou-o, os olhos castanhos invadindo os cinza sem permissão – Mate-me!
Ele a fitou atentamente, lembrou-se de como desejara beijá-la ardentemente quando se encontraram no Beco, e debruçando seu corpo sobre o dela, beijou-a profundamente. Anne tentou resisti, mas a quentura daqueles lábios de encontro aos seus a impediam de pensar e tudo o que conseguiu fazer foi entregar-se totalmente a eles. Sirius soltou as mãos dela, deixando a dele livre para alcançar-lhe a nuca, mantendo-a presa àquele beijo apaixonado. Anne por sua vez enlaçara seu pescoço e devolvia-lhe o carinho. As bocas se deliciaram com o gosto que há anos não provavam, insistentes, sensuais, desejosas.
Foram arrancados daquele momento pelos passos que avisavam a chegada de mais pessoas. Com os corpos ainda arfando pelo desejo que consumia suas entranhas, eles se levantaram num só movimento, e se colocaram a postos atrás da porta aberta. Sirius a protegia com seu corpo, a varinha empunhada na mão direita a outra na de Anne, enquanto ela o imitava. Uma voz chamou baixinho, quase num sussurro:
- Sirius? – disse Lupin.
Sentindo um certo alívio por reconhecer a voz, saiu da penumbra, colocando-se na frente do amigo. Remus sorriu ao vê-lo e imediatamente avisou-o:
- Vamos, parece que os pegamos de surpresa, não sobrou um – disse animado – Não era um grupo grande, na verdade, uns três ou quatro – continuou agitado -, mas nós tivemos uma baixa só.
- Isso é realmente muito bom – anuiu sentindo a mão presa a de Anne ser apertada com força. Ele fez um leve carinho com o polegar sobre a pele da mão dela e deslizou a sua para longe, deixando-a. Firme ele completou - Aqui não há nada, já vasculhei o andar inteiro. É melhor nos juntarmos aos outros.
Pouco tempo depois o grupo da Ordem deixava o prédio silenciosamente. Sirius ia com coração pesado, apertado contra o peito. Que raios ela pensa que estava fazendo? – esbravejava consigo mesmo – Merda!
Não muito longe do local de onde eles aparataram, um vulto se misturou a noite.
Te vejo errando e isso não é pecadoExceto quando faz outra pessoa sangrar
Te vejo sonhando e isso dá medo
Perdido num mundo que não dá pra entrar
Você está saindo da minha vida
E parece que vai demorar
Se não souber voltar ao menos mande notícia
Cê acha que eu sou louco
Mas tudo vai se encaixar
Tô aproveitando cada segundo
Antes que isso aqui vire uma tragédia
E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu
E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu
Você tá sempre indo e vindo, tudo bem
Dessa vez eu já vesti minha armadura
E mesmo que nada funcione
Eu estarei de pé, de queixo erguido
Depois você me vê vermelho e acha graça
Mas eu não ficaria bem na sua estante
Tô aproveitando cada segundo
Antes que isso aqui vire uma tragédia
E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu
E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu
Só por hoje não quero mais te ver
Só por hoje não vou tomar minha dose de você
Cansei de chorar feridas que não se fecham, não se curam
E essa abstinência uma hora vai passar...
( Na sua estante – Pitty )
