IV

Cada um em sua sala, os gêmeos sabiam que não se encontrariam de maneira efetiva na saída. Que não haveria o beijo de depois do banho. Que não dormiriam juntos de noite, e talvez nunca mais. Ambos sentiam suas almas estilhaçadas, mas Saga relutava em ceder.

Com efeito, na saída, eles nem se falaram. Apenas foram pelo mesmo caminho até em casa. Juliana seguiu-os por uma parte do trajeto, tagarelando sem parar com Kanon. Quando se despediram, a italiana beijou-o no rosto e foi embora. Parecia bastante feliz.

Os irmãos continuaram sem se falar até chegarem em casa. Lá, só diziam o essencial um ao outro, como "Pegue seu casaco lá dentro" ou "deixe a comida esquentar mais um pouco no microondas". Após o banho rotineiro de Saga houve um vazio no dia, uma melancolia mal contida na casa, tão pequena para o sentimento triste.

Saga conseguia descarregar sua tristeza nos livros, estudando arduamente ou lendo. Mas Kanon precisava de movimento, ver gente. Assim que almoçou, saiu de casa. Saga apenas alertou-o para que não voltasse tarde. Era assim que os pais dos dois gostariam que fosse caso estivessem lá.

O gêmeo mais novo andou pelas ruas, pensando apenas em reaver a afeição de Saga. Que ao menos se amassem como dois irmãos, como faziam até dez dias antes! Porém, na verdade ele sabia: anteriormente, já se amavam dessa forma. Apenas foram descobrir mais tardiamente.

- E aí, sumidão? Onde andou? Com as suas "namoradinhas de outra cidade"?

O rapaz olhou. Viu o bando com o qual andava antes. Reconheceram Kanon por seu jeito de andar, mais displicente que o do irmão.

- A semana passada foi toda de provas – ele respondeu – Tive de estudar, por isso sumi.

- Kanon estudando? Que milagre! Isso não seria coisa do Saga?

- Meu irmão me ajudou a passar nos exames.

- Ah, é? E agora que as provas acabaram, não vai beijar uma garota daqui? A promessa, lembra?

- Que promessa? Não prometi nada pra ninguém!

- Então é maricas mesmo! Cadê o seu irmão, que na semana passada estava do seu lado o tempo todo? Parou de ficar ao lado dele só porque não tem mais provas pra fazer?

- Não interessa o que se passa entre mim e Saga!

- Vai ver foi o próprio Saga quem deixou de andar com o irmão! Por ele ser um ma-ri-cas! Hahahahaha!

- Vá pro inferno!

O que mais doía em Kanon era saber que o que os rapazes diziam era verdade, de certa forma. Saga chamara-o de pervertido, e tais duras palavras ecoavam em seu interior, machucando-o de uma maneira como nada fizera antes.

- Já chega!

A voz de Juliana foi ouvida a uma certa distância.

- Ah, então a lambisgóia gringa veio defender o maricão! Pois é, ambas dão ótimas "amiguinhas"!

- Não fale assim dele! – continuou a garota – Pode até me chamar de lambisgóia gringa, mas Kanon não é um maricas de jeito nenhum! Ele... ele até tem uma namorada!

- A da "cidade da mãe dele"! Sei! Mentiu pra você também, não?

- Não é mentira! Kanon gosta de garotas!

- Tem de provar então.

- Ele vai provar! – disse ela – Vai me beijar agora. Na frente de vocês!

Juliana tomou o rosto do gêmeo de Saga e tentou beijar sua boca, mas ele se esquivou. O bando explodiu em riso.

- Viram? Até com a menina correndo pra beijar, ele não vai! Maricas!

Juliana fica estarrecida:

- Por que fez isso, Kanon?

- Já disse. Ainda tenho um compromisso, e não posso trair minha namorada.

Ela o contempla, admirada:

- Ele é nobre, diferente de vocês.

Outro garoto do grupinho interfere:

- É, a gente não é estranho igual a ele. Ainda bem!

- Vamos embora, Kanon! – interpelou a italiana - Esse pessoal não merece nossa atenção.

Eles foram, ouvindo brados de "moçoilas!" e coisas piores, até se distanciarem.

- Kanon... desculpe por tentar beijá-lo de novo – começou a moça – É que... não pensava que você desse tanto valor a esse tipo de coisa. Você é um homem de verdade; não eles.

- Obrigado. Você foi muito corajosa ao tentar me defender. As pessoas não costumam fazer esse tipo de coisa...

- Ah, o que é isso. Eu nem tenho amigos pra perder, então não me importo...

- Claro que tem amigos! E não pra perder. Tem a mim. Saga também gosta de você.

- Puxa, muito obrigada...

A alguma distância, Saga se aproximava.

- Kanon, vamos pra casa. Aquele pessoal não presta pra você; já disse mil vezes!

- Saga! Você viu o que aconteceu?

- Uma parte. Olá, Juliana. Obrigado por ter se importado com meu irmão. Ms é melhor que ele não se meta mais com esse tipo de gente.

- Olá, Saga. Bem... eu acho que já vou indo. Minha mãe vai precisar de minha ajuda hoje. Eu moro logo ali, se um dia quiserem visitar minha casa... Tchau.

Ao chegarem em sua própria residência, Saga dá mais um sermão em Kanon:

- Se fosse pra se meter com aquela corja, era melhor nem ter saído.

- Não fui atrás deles! Eles que vieram atrás de mim, me provocar!

- Kanon, não sei mais o que fazer com você. Só dá problema!

- Então sou um problema? É isso, sou um problema pra você?

- Não! Mas... parece não fazer nada direito! Escute, por... por que não sossega?

- Como assim, sossegar?

- Por que não pode fazer coisas mais úteis na vida?

- Na semana passada eu estava fazendo coisas muito úteis. Estudava com você todos os dias, me esforçava nos exames... e não me envolvi um único dia com aquele bandinho ridículo!

- Sei. Por que não pode ser assim sempre então?

- Porque você está me ignorando como se eu fosse o maior dos patifes, será que não deu pra perceber ainda?

Saga andou pela sala, as mãos na cabeça.

- É um incesto que tem de guiar a sua vida, Kanon? Vamos, onde estamos chegando?

- Incesto é o nome que os homens dão. Não consigo tocar minha vida com você me ignorando desse jeito, Saga!

- Escute. Não podemos prosseguir com aquilo, está bem? Se você me prometer que vamos parar de nos beijar e todo o resto, posso ser seu amigo novamente. Olhe... veja a Juliana! Torne-se namorado dela, vale muito mais a pena. Diga que terminou o "namoro" que inventou, qualquer coisa, mas dê uma chance a ela.

Kanon estava sério.

- Não se importa mesmo? De eu e ela... juntos?

- Não, se isso acabar com a besteira que iniciamos.

O mais novo ficou quieto. Uma lágrima se formava em seu olho esquerdo.

- Diz que não vai mais deixar de falar comigo...

- Tudo bem, Kanon, se você abandonar isso tudo. Está bem?

O mais novo abraçou o outro.

- Posso até abandonar. Mas a sua amizade, que foi a maior que já tive...

- A amizade permanecerá, se a gente tomar um rumo bom na vida.

Kanon chorou mais um pouco, e então olhou com um sorriso esmaecido ao irmão.

- Como soube que briguei com os rapazes?

- Quando você saiu de casa, olhei a direção que pegou. E o segui.

- Por que foi atrás de mim?

- Porque sei que sempre se mete em furada, e sempre precisa de alguém pra livrar a sua cara! Se não fosse Juliana...

Os dois riram.

- Ela é uma menina legal... – disse Kanon.

- Então. Não vai perder nada se tentar algo com ela.

O mais displicente assentiu, e eles sorriram um pro outro.

- Agora vem fazer a lição, pra não se meter mais em encrenca!

Kanon se sentia bem mais aliviado ao ter Saga consigo outra vez, mesmo que apenas como irmão. Era muito bom ouvir a voz dele de forma amigável. E, de fato, eles retomaram parte de suas atividades rotineiras com bastante naturalidade e fraternidade. Apenas quando iam trocar de roupa, por exemplo, é que se separavam, para não atiçar os impulsos que sabiam ter em relação um ao outro. Na hora de dormir também se separaram.

Na manhã seguinte, a moça que limparia a casa apareceu. Os gêmeos foram juntos para a escola e deixaram uma cópia da chave com ela.

No intervalo, Saga incentivou o irmão a ficar um tempo sozinho com Juliana. Kanon não queria nada com ela além da amizade, no fundo. Mas para agradar o irmão, foi procurá-la.

Mal sabia ele que Saga o incentivava com o coração sangrando, reprimindo a própria vontade.

Com efeito, a estrangeira ficou felicíssima ao vê-lo.

- Kanon! Que bom que está aqui! E então, já está melhor com Saga?

- Já, sim. Foi só besteira.

- Eu não disse? Olha, eu tenho uma novidade pra te contar!

- Qual?

- Vai ter uma festa com o pessoal do colégio no próximo fim de semana! Na casa da Lilien.

- É? Puxa, ouvi falar que a casa dela é enorme!

- É uma das meninas mais "pop" da escola. Vamos?

- Ahn... eu ando tão deslocado ultimamente...

- Que é isso, bobo! Leva seu irmão e ficamos os três lá, dane-se o resto do pessoal! Que tal? Faz tempo que não vou a uma festa.

- Tudo bem... eu converso com o Saga e a gente vê.

- Vamos beber água? Estou com uma sede...

- Vamos sim.

- Eu... posso pegar na sua mão? Amigos fazem isso...

- OK.

Kanon passou o resto do intervalo de mãos dadas com Juliana. Já havia até quem começasse a dizer que estavam namorando. Mas para ele, pegar na mão dela não passava de um toque. Apenas o olhar que direcionava a Saga era muito mais poderoso, e mexia muito mais consigo. Definitivamente, ele estava forçando uma barra.

Quando o sinal bateu, ela o beijou no rosto e o abraçou forte. Kanon foi pra classe pensando em o quão errado estava sendo em tentar enganar aquela pobre garota. Assim que a aula acabou, ela acompanhou os dois até a mesma parte do trajeto que fazia e se despediu calorosamente de Kanon, ao passo que com Saga foi apenas gentil. Logo que ela se foi, o mais velho decidiu saber como andavam as coisas:

- E então, como foi com a garota?

Kanon ia dizer a verdade, mas decidiu mentir pra ver a reação do outro:

- Ah, muito bom. Ela é realmente linda!

- E quando pegou na mão dela, o que sentiu?

- Não é possível! Você andou nos espionando, é?

- Precisava saber se ia mesmo atrás dela.

- Hunf!

- Mas e aí, como foi?

- Foi ótimo. Nunca senti isso com outra pessoa antes.

- Nem... comigo?

- Claro que não! Somos irmãos, esqueceu?

- E... o que aconteceu... antes entre nós?

- Ah, aquilo tudo foi uma grande bobagem! Esqueça, OK?

- OK...

Saga estava feliz e ao mesmo tempo apreensivo. Feliz, porque Kanon parecia estar reagindo bem apenas dois dias após a "interrupção" das relações entre eles. E apreensivo porque não podia deixar de sentir ciúmes daquilo tudo. E se Kanon estivesse mesmo se apaixonando por ela? Seria horrível; sua alma se partiria em dois, por menos que quisesse!

E Kanon sentiu seu ciúme no ar. Ficou feliz por saber que Saga na verdade o queria. Só precisava de um estímulo, talvez...

OoOoOoOoOoOoOoO

Bom gente, aqui está mais um capítulo da "Muito mais que paixão". Tenho de confessar: essa foi a primeira fic yaoi que escrevi na vida... sim, eu também escrevo com outras vertentes... "Gemini Yaoi" é apenas a ponta do Iceberg, rs...

Anginha, pode ter certeza de que em breve eles vão voltar, e com tudo... espere e verá!

Yume Vy, querida! Já deu para ver por esse capítulo que Saga tenta se abdicar, mas conseguir que é bom... rs, loguinho ele vai dar valor ao Kanon!

Kalli Cyr Charlott, sim moça... quem mais está sofrendo com isso é o pobre Saga... ele vai se dividir em dois, exatamente como o do anime! T.T Mas é como eu disse à Yume, ele logo vai ter uma "quedinha" maior! .

Nuriko-Riki, muito obrigada pela review, aqui e na "Divino Amor"! Não costumo usar linguagem pesada nas fics, mesmo quando o tema é difícil; apenas a deixarei mais melancólica na fic "Triângulo Dourado", que comecei há bem pouco tempo. Mas essa fic, UA, em colégio... linguagem mais triste não cairia mto bem mesmo. :)

Enfim, muito obrigada aos que estão lendo!