Silêncio e chuva

IV

***

Sim, Shaka, eu também tenho presságios. Conte-me teus sonhos e eu contarei os meus...

***

— Não sei se tenho o que contar, Áries. — falou o virginiano — Eu não consigo decifrar os códigos que minha terceira visão me envia.

— Então estamos da mesma forma. Talvez, devêssemos procurar Athena...

— Não creio que seja necessário alarmar a Deusa. — falou Shaka, mas pensava interiormente que seus sonhos e presságios se devessem a outra coisa e não queria conversar sobre seus sentimentos íntimos nem com a deusa e nem com ninguém.

— Qual o problema, Shaka de Virgem? — Mu era tão sensível quando Shaka, por isso, lia claramente a aflição que a postura plácida e indiferente do virginiano escondia.

— Nenhum...

— Não permita que seus sentimentos pessoais...

— Não mencione meus sentimentos novamente, cavaleiro de Áries. — a voz mesmo suave e inabalável, soou como uma advertência perigosa e Mu recuou.

— Lembre-se apenas que devemos estar prontos...

— Estavas pronto ontem a noite, enquanto se entregava ao deleite na casa de touro? — o indiano perguntou, irritado.

Mu o mirou de queixo erguido, os olhos verdes deixando transparecer a irritação tão rara, mas perigosa.

— Estava pronto, como sempre estive, mesmo na torre de Jamiel. E se não deseja que suas atitudes pessoais sejam questionadas, não faça o mesmo com as minhas. Enquanto cumprir minhas obrigações como cavaleiro, nem mesmo Athena tem o direito de interferir em minha vida pessoal.

— Acabaste de obter a resposta que queria, cavaleiro. — sorriu temperante o virginiano.

Mu corou sabendo que Shaka tinha razão. Talvez, a apreensão que sentia, fizesse que imaginasse coisas. Sentira o cosmo perturbado de Aiolia na casa de virgem no dia anterior e já criara fantasias a respeito do relacionamento dos dois. Sabia que o leonino gostava do loiro, mas ao menos em público, tudo o que Shaka demonstrava por ele, era indiferença; se na calada da noite, eram amantes, isso não lhe dizia respeito. Sabia que ambos eram valorosos cavaleiros e que não deixariam de cumprir suas obrigações por isso.

— Perdão, cavaleiro, não vim aqui para falar de nossas vidas pessoais. Vim para falar desse presságio estranho que nós dois sentimos.

— Caso consiga compreender as imagens que aparecem em meus sonhos e durante minha meditação, eu o informarei, cavaleiro.

Mu assentiu com a cabeça e deixou a casa de virgem.

***

Estranho. Era dessa forma que o indiano via as atitudes do garoto. Muitas vezes, após treinar seus discípulos ia para a arena vê-lo treinar com os cavaleiros de bronze e alguns garotos aspirantes que almejavam as armaduras de prata dos cavaleiros mortos. Ele era uma mistura estranha de dedicação, irritação e introspecção. Ao mesmo tempo em que gritava o tempo todo com os companheiros e aprendizes, possuíam uma facilidade incrível em ensinar com precisão cada golpe e defesa. Quando deixava um rapaz aos cuidados de outro dos cavaleiros de bronze, se afastava do grupo e parecia se trancar mais uma vez em seu mundo impenetrável. Nem mesmo Shun, o adorado irmão, parecia ser capaz de penetrar aquela couraça, inclusive, muitas vezes, era afastado e voltava para perto do grupo com uma expressão entristecida.

O virginiano, vez por outra, passava horas nessa tarefa. Muitas vezes, sorrisos apossavam-se de seus lábios ao ver a atitude descortês do rapaz com todos a sua volta, isso incluía cavaleiros de ouro e até mesmo a deusa. Ele era insolente, impulsivo, determinado; um guerreiro frio e estrategista; um homem quente e apaixonado...

Corava sempre que fazia essas observações. Não queria pensar em Ikki, pensar em Ikki confundia seus pensamentos e aquecia em demasiado sua alma. Preferia pensar em Fênix, o cavaleiro que lhe ensinara lições valiosas como guerreiro, o cavaleiro que queria ajudar a superar seus limites e desenvolver suas habilidades. Não, não queria pensar no homem insolente, arrogante e dono da verdade que, muitas vezes, pisoteava as certezas do sábio.

E assim os dias se passavam, quando o Cavaleiro de Fênix não o procurava em seu templo, para conversas sem fim, era ele a ir a arena ficar observando o seu treinamento.

De vez em quanto, aconteciam àqueles momentos estranhos onde olhos se encontravam e sorriso iluminavam semblantes fechados e endurecidos, transformando tudo em fábula. Na mágica de minutos imemoriais... Instantes povoados de estrelas em plena claridade do dia... Mas, isso se dava em segundos tão rápidos que nem mesmo os detentores de movimentos à "velocidade da luz" eram capazes de reparar. Logo os rostos adquiriam suas expressões de sempre — dura — contemplativa — E tudo se seguia como todos os dias no santuário. Treinos, sangue, lágrimas, dor...

***

Anoiteceu, silêncio e chuva levavam negrume as ruínas do santuário. Shaka já estava a algumas horas em meditação, tentando decifrar as mensagens do seu inconsciente. Mas as imagens do passado sempre o afastavam da compreensão. Sobretudo numa noite chuvosa...

Um trovão explodiu no céu e ele abriu os olhos. O coração aos pulos; sentia o cosmo quente de outro cavaleiro queimando sob a chuva abundante. Ergueu-se e deixou sua casa. A água escorria pelas paredes externas dos templos por onde ele seguia meio perturbado, concentrado naquela dor, naquele cosmo...

Desceu rápido e estava tão concentrado no cosmo que emanava na entrada das doze casas, que só percebeu a presença de outro cosmo quando foi seguro pelo braço. Emudeceu sem reação, piscando os olhos arregalados, estavam na casa de gêmeos e um novo relâmpago clareou o templo e ele pode ver o rosto sério e levemente perturbado do cavaleiro de Fênix.

— Cavaleiro, se arrisca me surpreendendo assim! — falou sem jeito, envergonhado por ser surpreendido.

— Para mim, é estranho que você esteja fora da sua casa nesse horário. Devo crer que também sentiu o cosmo...

— Sim, e fiquei preocupado. — falou.

— Eu também....

— Devo crer que não estava dormindo...

— Assim como você. — seus olhos se encontraram na escuridão e o leonino percebeu que ainda tinha o braço do cavaleiro de virgem entre as mãos. O soltou delicadamente enquanto outro trovão clareava a casa de gêmeos.

— Vamos. — disse e seguiram descendo até alcançar o final das doze casas. Seguiram em direção a um bosque e encontraram a origem daquele aterrador e desesperado cosmo. Outro Cavaleiro...

— Milo...

O escorpiano pareceu ficar confuso com a intromissão do seu momento de dor solitária. Ergueu-se (pois estava de joelhos até então) e tentou a todo custo não demonstrar que estivera chorando.

— Cavaleiros, por Zeus! O que fazem aqui? — perguntou atormentado.

— Desculpe-nos, sentimos o cosmo e achamos se tratar de alguma ameaça. — falou Shaka o mais alto que pôde, porque a chuva e os trovões atrapalhavam e muito, um diálogo.

— Sinto se os acordei, eu... eu não tinha idéia... — ele tentou se explicar extremamente embaraçado por não ter conseguido controlar a perturbação do seu cosmo.

— Mas, Milo...

— Vamos, Ikki, já vimos que não é nada... — Shaka tomou o braço do moreno e o puxou para si; deixou o escorpiano parado sob a chuva com um olhar meio desolado, apático, bem diferente do seu habitual.

Quando já estavam dentro das doze casas, Ikki puxou o braço, das mãos de Shaka e segurou o virginiano pelos ombros o encarando. Shaka empalideceu com aquele olhar furioso e não entendeu o motivo, que logo foi explicado:

— Como você consegue ser tão frio? — a voz do cavaleiro de fênix soou terrivelmente irritada e decepcionada — É um companheiro, é um amigo como você mesmo me disse!

— Agradeceria se você me soltasse. — sua voz não se alterou, contudo a força do outro cavaleiro e o atrito da roupa molhada, machucavam sua pele.

— Não! Não vou soltá-lo! — falou Ikki — Explique-me primeiro como alguém que deveria ser uma alma elevada e amorosa consegue se tornar tão indiferente quanto você?!

Silêncio. Trovões a iluminar rostos tensos...

— Não devo satisfações de minhas ações... — disse Shaka e prendeu a respiração quando o outro cavaleiro o ergueu do chão pelos ombros, empurrando seu corpo sem delicadeza contra uma parede, deixando-o quase que prensado ao dele. Os corpos molhados queimaram...

— Eu não quero satisfação, eu só quero entender como alguém que diz deter em si todo o amor pela humanidade, a alma do mundo; pode não se compadecer por um companheiro que sofre tão intensa e tão profundamente quanto Milo?!

— Ikki, eu não quero brigar com você. — a voz do loiro não se alterou, embora seu coração disparasse — Mas, devo lhe dizer que seus dedos me machucam e que se não me soltar, terei que tomar alguma atitude...

Fênix reparou que erguia o indiano a ponto de só as pontas dos seus pés tocarem o chão. Corou, não se dera conta disso até aquele momento. Lentamente foi afrouxando os dedos até soltá-lo. Shaka se afastou dele, massageando os locais em que suas mãos estiveram.

— Desculpe-me... — o indiano disse e ele o mirou sem entender. Não deveria ser ele a se desculpar?

— Eu devo desculpas... — claro como água, eram assim seus pensamentos para Shaka, ele conseguia ler aquela alma como se fosse a sua própria — Eu acho que minhas atitudes o confundiram...

— Muito... — respondeu sinceramente.

— A questão não é frieza, Fênix, você não conhece Milo, como eu. Você não tem idéia do tamanho do orgulho daquele escorpiano. Para ele, melhor seria morrer que demonstrar fraqueza. Ele com certeza não nos queria ali, ele não precisava do nosso apoio, precisava da solidão somente para se entregar a dor que tenta esconder o tempo todo. Invadimos um momento que era dele.

Ikki corou com as palavras do hindu. Fora precipitado e imaturo em julgar as atitudes do loiro.

— Eu...

— Não precisa dizer nada. Apenas entenda.

— Sim, Shaka, eu entendi.

— Então, vamos voltar para nossos quartos e tentar dormir.

— E dormiremos em paz, Shaka de Virgem?

O loiro o encarou sem entender o que ele queria dizer com aquilo. Mirou o próprio corpo onde a túnica branca e molhada deixava a mostra todos os músculos, dando detalhes obscenos aos olhos do outro. Corou e não respondeu, se adiantando em subir a escadaria.

— Shaka! — ele chamou novamente e o virginiano parou. O loiro se voltou e o encarou, sua expressão tinha algo nervoso.

— Cavaleiro?

— Amanhã, estarei em seu templo.

O indiano não soube por que estremeceu com aquela afirmação, mas tentou sorrir como sempre.

— Será bem recebido como sempre. Boa noite. — disse e voltou para a casa de virgem, tanto por seus pensamentos ficarem incrivelmente confusos na presença do leonino, quanto por estar novamente na casa de gêmeos. Não gostava daquela casa.

***

Os pássaros cantaram espantando o último vestígio de chuva na manhã grega. Os cavaleiros já percorriam as ruínas e a arena em treinamentos violentos. Ouvia-se o riso e os gemidos das crianças que se atreviam a desejar aquela dura vida.

O santuário era a moderna Esparta onde sangue jorrava e lágrimas não eram permitidas. Ainda assim, vários eram os infantes que sonhavam em se tornar cavaleiros.

Ikki treinou os meninos por todo o dia praticamente. Não se cansava, embora tivesse pouca paciência com eles, era uma forma de esquecer suas próprias inquietações e os sonhos dos quais nunca conseguia se lembrar quando amanhecia.

Observou por um tempo o treino de Shiryu e Seiya, eles também se tornavam mais fortes a cada dia, assim como Hyoga e Shun. Ah, aqueles dois o preocupava; o irmão estava cada vez mais triste e o russo cada vez mais obstinado em sua decisão de se refugiar na gelada Sibéria.

— Shun, preste atenção! — ele pediu ao ver o irmão parado enquanto um aprendiz o encarava esperando a ordem do que deveria fazer.

— Ah, desculpe! — pediu Andrômeda sem jeito, corando, voltando a treinar. Hyoga que o observava de longe, se aproximou e eles começaram a conversar.

Ikki balançou a cabeça; o amor era capaz de derrotar até os cavaleiros de Athena. Seus pensamentos se prenderam no guardião da sexta casa e seu coração apertou numa dor incompreensível. Precisava compreender...

Solitário como sua constelação, não gostava de manter laços reais com ninguém, além dos amigos já conhecidos. Não precisava de envolvimentos, não precisava. Então por que aquela necessidade? Por que gostava tanto da voz blasé e do jeito tranqüilo de Shaka de Virgem?

Compreender eis a questão...

***

A tarde já pintava o horizonte de vermelho fogo quando ele entrou no templo do virgem, chegava da arena e esperava como de costume encontrá-lo meditando em seu trono, após treinar seus discípulos. Mas não, ele estava parado mirando a janela. Vestia um sári branco e a forma que o envolveu ao corpo, deixava seu dorso magro e definido quase que completamente a mostra. Ele se virou ao sentir o cosmo do cavaleiro de fênix.

— Olá. — disse — Espero que o treinamento não tenha sido muito rigoroso, você parece cansado.

— Isso porque não dormi a noite toda. — respondeu o encarando profundamente.

— Isso não é bom, um cavaleiro precisa de boa noite de sono para estar bem para o combate se preciso.

— E do que um homem precisa, Shaka? — ele perguntou com certa ironia; mas o indiano não se intimidou.

— O homem sábio precisa de paz de espírito antes de qualquer coisa.

— E hoje, você tem essa paz?

— Hoje? O que você quer dizer com hoje?

Ikki respirou fundo e demonstrou-se um tanto cansado.

— Quando olha pra mim, você sente essa paz?

— O que quer dizer com isso? — perguntou com certo incômodo.

— É somente uma pergunta.

— Somos muito francos, Ikki de Fênix, e não gostaria de deixar de ser. Não. Você consegue aniquilar cada resquício de paz da minha alma.

Silêncio, ele sempre tão imortal entre eles.

— Desculpe por isso. — falou Ikki e se afastaria. Mas uma vez, hesitou e se voltou para o loiro que continuava parado, se aproximou dele e então percebeu as marcas roxas em seus braços logo abaixo dos ombros — Eu o machuquei?

— Sinto que você nunca me machucaria, Fênix... — Shaka sorriu e se afastou dele — Bem, agora preciso meditar...

— E eu descansar...

Eles, porém, permaneceram no mesmo lugar, seus olhos se encontraram...

Ikki sentiu seu coração acelerar; aquele olhar, ele conhecia, sim, ele conhecia aqueles olhos, aqueles olhos já estiveram nele antes, tão amorosos quanto agora...

...Ele deixou a escuridão da caverna e protegeu os olhos porque algo reluzia ao sol. Algo que se movimentava em sua direção.

Era um garoto, um garoto pouco mais velho que ele, mas que vestia uma armadura dourada.

Menino! — o recém-chegado falou abrindo os olhos e uma ventania se apossou do local, fazendo seus longos cabelos esvoaçar. Ikki arregalou os olhos porque seu coração disparou e ele pode ver uma transfiguração no visitante; repentinamente sua pele tornou-se azul e um pássaro gigante apareceu aos seus pés. Em questão de segundos tudo sumiu.

Você não é o Jango, é? — o menino loiro perguntou — Não enviariam um Cavaleiro de ouro para matar uma criança!

Cavaleiro de ouro?

Os olhos azuis do menino de armadura pousaram sobre ele, placidamente. E o menino de armadura lhe estendeu a mão que ele segurou com força...

— Fênix! — Shaka o chamou e Ikki piscou se libertando daquilo que ele não soube se eram lembranças ou fantasia — O que houve?

— Nada, eu... eu estava pensando...

— Você disse que precisava descansar...

— E você meditar. — Ikki assentiu com a cabeça e começou a deixar a casa de virgem, ainda mais perturbado. Quando chegou ao templo da deusa, encontrou-a mirando o horizonte com expressão pensativa. Os demais cavaleiros de bronze lhe faziam companhia, mas parecia que ela não lhes dava atenção, até que ele chegou.

— Ikki! — Saori exclamou e caminhou até ele com olhos aflitos.

O cavaleiro de Fênix não entendeu toda aquela angústia da Deusa.

— Sim, Saori?

— Você encontrou o Shaka?

— Sim, o que tem isso?

— Ele falou alguma coisa para você? Alguma coisa importante?

— O que você quer saber, Saori? — perguntou irritado e a menina deusa se afastou dele e tentou sorrir. Nem mesmo os deuses eram capazes de interferir nas decisões daquelas que ditava todos os caminhos. Ela nada poderia dizer.

— Nada, Ikki, eu só estou um pouco preocupada com vocês. Sabe que me preocupo com todos os meus cavaleiros.

O mais velho dos cavaleiros de bronze observou os demais que demonstravam claramente não entender onde a deusa queria chegar. Saori, muito embaraçada com a situação, pediu licença e deixou o salão indo se refugiar em seu quarto.

Olhou mais uma vez para o horizonte...

"Zeus protegei a todos nós..."

Continua...

N/A: Bem, nessa fic eu já avisei, misturarei tudo, acontecimentos do Anime e Mangá com mitologia e com coisas minhas. Então favor não vir com aquela de "Isso não aconteceu assim no mangá"! Ora, se fosse para reescrever o mangá ou escrever o anime, isso não se chamaria fanfiction, não é?

Perdão, mas estou meio sem paciência para patrulhamento.

Adoro sugestões e críticas construtivas, mas "patrulhamento" enche o saco. Beijos a todos que leram em especial aos que estão deixando reviews!

Kira Key, Arcueid, Danieru, Suellen-san, Kojican, Amamiya fã, Amaterasu Sonne,

A vocês meus grandes incentivadores, muito obrigada.

Abraços!

Sion Neblina