Temporada de Caça: Aberta - Sarah Mlynowski


Capítulo Três

Orgasmando


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- Oi, querida! Podemos ir andando? – pergunta Rosalie, pegando-me pelo braço.

- É claro. Só vamos levar oito minutos.

- Para que lado é?

Bobagem de Rosalie. Não que eu seja uma bússola ambulante (completamente o oposto, verdade seja dita), mas passo em frente ao bar pelo menos duas vezes por dia. Ela também. É verdade, Boston não é uma cidade fácil para circular; as ruas mudam de nome inexplicavelmente, de viela para avenida, de inverno para verão, e depois desaparecem completamente. Não me é estranho ter ataques de pânico porque me perdi (Jamais encontrarei o caminho de casa, acabarei numa vizinhança perigosa, serei roubada e morta, e ninguém irá notar a minha ausência por meses a fio, até encontrarem o meu corpo em decomposição ainda afivelado ao meu Chevy de sessenta anos no rio – pelo amor de Deus, por que eu não tenho um telefone celular como todo mundo?), mas Back Bay mais parece um entroncamento.

- Hoje à noite posso tomar três doses. – diz ela.

Sobriedade não é uma preocupação para Rose. Ela é, assumidamente, uma contadora de calorias obsessiva. Carrega um caderno amarelo de espiral com uvas na capa, uma caneta hidrográfica vermelha e um marcador fluorescente. Anota tudo o que come e destaca tudo aquilo que merece um "xô" (quem escolheu a palavra foi ela, não eu).

- Você sabe. – prossegue minha amiga. –, uma dose de vodca tem 62 calorias.

Não sei não. Não ligo. Pelo menos durante esta semana. Já acumulei 124 calorias. Ainda tenho zilhões pela frente.

Hoje, Rosalie não parece gorda. Sua aparência é a mesma de sempre – magra e alta. Bem, não muito, muito alta, mas alta em comparação a mim (qualquer um fica alto ao meu lado, já que tenho 1,60m). Rosalie provavelmente tem 1,75m, mas quando fica perto de mim, penso em Michael Jordan.

Na verdade, ela parece mais uma estrela de cinema, com seus cabelos loiros escovados. Embora nunca tenha admitido, de acordo com Alice, Rosalie fez uma visita ao Dr. Harvey Gold, um dos maiores especialistas em narizes de Boston; um presente de seus pais pelo seu aniversário e por ter se formado na escola secundária. A primeira vez que fui a sua casa em Beacon Hill, examinei cada fotografia, em busca de uma imagem mais antiga. Dos 35 porta-retratos espalhados por toda a sua gigantesca casa, não havia nenhum que a mostrasse antes dos 18 anos. Suspeito?

Rosalie se veste como a Buffy, da série de vampiros (de um jeito parecido, eu digo). Seu tubinho preto Dolce & Gabbana e suas calças vermelhas apertadas devem ter custado mais do que o meu aluguel. Felizmente, ela é o tipo de pessoa que pode usar tal traje – financeira e esteticamente falando. Quanto a mim, tendo a me camuflar em vez de brilhar.

Rose trabalha como voluntária em várias clínicas de saúde mental. No futuro, ela pretende fazer um mestrado em psicologia. Um dia, os mentalmente perturbados poderão procura-la em busca de ajuda. Aterrorizante. Até mesmo a mais remota possibilidade de que minha amiga consiga entrar num desses programas me apavora.

Oito minutos depois, como prometido, chegamos e vemos vinte pessoas inquietas enfileiradas em frente à porta, acotovelando-se sob a silhueta metálica da cabeça de uma mulher jogada para trás na mais pura entrega orgástica.

Rosalie segue na direção do começo da fila.

- Felix! – grita para o leão-de-chácara careca e assustador com seus dois metros de altura, cujos óculos escuros me lembram os do Exterminador do Futuro.

- E aí, gata. – responde o sujeito. Beijo, beijo. Beijo, beijo.

- Felix, quero que você conheça Bella. Ela é uma das minhas melhores amigas.

- Oi. – respondo meigamente antes de disparar para o bar.

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- Como está o céu? – pergunta Rosalie, levantando a cabeça. Esta é a sua pergunta-código que significa "Estou com meleca no nariz?".

- Limpo. – respondo.

- E a rua? – esse é o código para "Tem alguma coisa nos meus dentes?". O que poderia haver nos seus dentes me escapa, considerando que ela não está comendo nada. Seu sorriso brilha do jeito que dentes brancos deveriam brilhar.

- Limpa. E quanto a minha? – pergunto como quem não quer nada. Opto pelo dois-em-um: sorrio e levanto a cabeça simultaneamente.

À nossa esquerda está o balcão para guardar os casacos. Fico grata porque a temperatura do final de setembro permitiu que eu saísse sem usar agasalho (preciso expor o máximo possível desde o começo; Rose, por outro lado, poderia usar um saco de aniagem e ainda assim deixar os homens ofegantes). À nossa direita está a pista de dança. Algumas mulheres pouco vestidas – meu Deus, será que estou parecida com elas? – rodopiam ao som de uma canção agitada a qual tenho dificuldade para decifrar: bum, bum, bum, piranha, bum, bum, bum, caia sobre mim. Que lindo.

- Vamos. – mais à frente está o bar. Desloco-me, manobrando em meio à multidão. Uma garçonete que mostra demais os peitos vem me perguntar o que eu quero.

Gostaria de ter o seu colo, penso mas não digo. Ela iria pensar que eu sou uma pervertida. Mas eu realmente gostaria de ter aquele par de seios. É verdade que preencho um tamanho médio da Victoria's Secret e Jacob, com certeza, parecia bastante satisfeito ("Mais do que um punhado..." diria ele). A tal garçonete não poderia estar usando um tamanho maior que o meu, mas, vejamos bem, eu precisaria de um verdadeiro sutiã maravilha para conseguir aquele visual. Mas é aí que vem a história: o que acontece quando você leva o sujeito para casa e o sutiã cai? Como alguém pode explicar isso com exatidão?

Peço duas vodcas com limão e tento me fixar no rosto da garçonete peituda. Adoro esse drinque – primeiro você lambe um limão coberto de açúcar, depois toma a vodca e por fim suga o limão. Muito divertido. É como comprar um bilhete de loteria no bingo; ele não só serve a sua finalidade, como se multiplica enquanto atividade*.

*?

- Pronto? – pergunto.

- Saúde. – diz Rosalie.

Uau! Vou ficar bêbada! Vou me divertir! Já estou me divertindo. Estou me divertindo tanto que praticamente já me esqueci daquele idiota.

Rosalie enfia a mão na bolsa e tira o seu caderno de calorias. Fico surpresa por ela não ter pedido adoçante para a sua vodca.

- Veja, lá está Edward Cullen! – diz ela, enquanto aponta para o outro lado do salão e acena.

Por favor, me diga, como é que eu posso esquecer Jacob quando seus colegas de Penn estão espalhados por toda parte? Especialmente aquele que praticamente nos uniu.

Edward acena de volta e vem em nossa direção.

- Estava achando que iria cruzar com você, querido. – afirma Rosalie. – Ouvi dizer que você estava na cidade. Estávamos falando de você.

Estávamos?

- O que estavam falando? – perguntou ele, enquanto a beijava delicadamente no rosto.

- O que estávamos falando? – me intrometi.

- De como você é sexy. – disse ela enquanto envolvia o pescoço do sujeito com os braços.

Rosalie é uma namoradeira inveterada. Pode não saber para onde aponta o norte, mas com certeza sabe se virar com a espécie masculina. Muito embora não seja exatamente a rainha da originalidade. Quem ainda usa a expressão "como você é sexy"? Mas, normalmente, os caras engolem qualquer coisa que a boa e velha Rose tem a oferecer. E neste instante eu não sei ao certo qual é a razão desse interesse todo por Edward, pois tentei jogá-la nos seus braços um porrilhão de vezes para que eu e Jake tivéssemos um casal para nos acompanhar. Correção: pudéssemos ter um casal para nos acompanhar. De qualquer maneira, Edward parecia relativamente disposto (não muito quanto eu achei que iria, mas...). Só que Rose alegara que ele não fazia o seu tipo. Bonitinho demais, dizia.

- Bella! – disse ele se livrando dos braços de Rosalie. – Não sabia que você estava em Boston.

Oh, Deus, oh, Deus. Isso quer dizer que Jake não fala sobre mim para os seus amigos! Aparentemente, sou tão insignificante em sua vida que nem sequer mereço ser mencionada. Que burra.

Ou talvez Edward e Jacob não estejam mais se falando. Sim. Gosto mais dessa possibilidade. Eles não se falam mais.

Edward até que parece um pouco com Jake na altura. Ambos são bem altos (eu sei, eu sei, todo mundo é alto perto de mim). Sim, é isso. Jake faz mais o tipo "desleixado" de Ethan Hawke, enquanto Edward possui uma beleza mais clara, típica do vizinho bonitinho que mora ao lado. Típico? Bonitinho? Quem eu quero enganar? Ele era lindo.

O cabelo de Jacob é negro e o de Edward é de um castanho-acobreado incomum. E os olhos de Edward são verde-esmeraldinos. E têm uma coloração cativante, embora não possuam aquela sensação quente dos olhos pretos de Jacob. Tudo bem, Edward não se parece em nada com Jake*, mas ambos costumavam sair juntos, por isso um me lembra o outro, ok?

*Graças a Deus!

- Descolei um emprego por aqui. – respondi.

- Onde? Quando você se mudou?

- Na Cupid. Há alguns meses.

- Sério? Você está escrevendo?

- Não. Revisando.

- Legal. Já conheceu o Demetri?

Não sei por que todo mundo me faz essa pergunta sempre que menciono que trabalho na Cupid.

- Não, ainda não o encontrei. Não tenho muita ligação com o pessoal que cuida das capas. E o que você está fazendo?

- Estava trabalhando em Nova York durante os últimos anos e agora estou fazendo meu MBA.

- Sério? Onde?

- Harvard. – respondeu ele, tentando esconder seu sorriso de um jeito eu-adoro-poder-dizer-que-vou-a-Harvard-mas-não-quero-parecer-exibido.

Ah. Isso explica o súbito interesse de Rosalie.

- Isso é fantástico. – digo elogiando-o.

- É muito incrível, Eddie. – diz Rosalie num tom meigo, colocando a mão sobre o ombro do sujeito. Eddie? Desde quando ele é Eddie?

- Obrigado. Vocês, moças, querem um drinque?

A atenção de Rosalie é subitamente desviada. Um cara alto usando um terno Armani acena do outro lado do bar.

- Volto daqui um minuto, ok? – e lá vai ela.

- Isso parece um plano. – afirmo. Enquanto voltamos para o bar, fico na dúvida se devo lhe perguntar sobre Jacob. Não, péssima ideia. Embora esteja convencida de que os dois não estão mais se falando, o que acontecerá se ele disser para Jake que eu quis saber notícias dele e parecia patética?

A Sra. Peituda pergunta a Edward o que ele quer. Os olhos do moço se voltam para aquela carne exposta e depois me fitam novamente.

- Qual é o seu drinque preferido?

Não vou perguntar sobre Jacob. Não vou perguntar sobre Jacob. Não irei sequer mencionar seu nome.

- Que tal uma vodca com limão?

- A dama decidiu. – afirmou ele, colocando o seu cartão de consumo no balcão.

Dama?

- Quanto foi? – pergunto.

- Deixa que eu pago.

- Obrigada. – isso me soa bem.

- Está pronto?

- Mas é claro.

Açúcar... vodca... limão... mmm.

- Pronto? – pergunta ele novamente.

- Sim.

Açúcar... vodca... limão... mmm.

Ele encontra duas cadeiras vazias no bar.

Não vou perguntar se ele tem notícias de Jacob. Não vou perguntar se ele tem notícias de Jacob. Não vou perguntar se ele tem notícias de Jacob.

Nos sentamos.

- E aí, quais são as novidades? – pergunta ele.

- Não muitas. – respondo. – Você tem notícia de Jacob? – droga!

- Não desde que ele foi para a Tailândia. Vocês ainda estão juntos?

Oh, não. De repente, lágrimas começaram a gotejar na minha boca e sinto uma estranha mistura de limão, açúcar, vodca e sal. Jamais irei mencionar o nome de Jacob novamente. Se eu tiver que pensar nele, usarei um símbolo abstrato, como o Prince fez. De agora em diante, ele é o "arroba".

Cubro meus olhos com as mãos para que Edward, talvez, não perceba que estou chorando. Sinto-me como aquele garoto do segundo grau que costumava cobrir o nariz com uma mão e enfiava a outra na narina. A diferença é que todos sabiam o que estava acontecendo.

Edward evidentemente sabe o que está acontecendo. Ele me envolve com seu braço e eu começo a chorar sobre seu peito. Provavelmente estou deixando uma enorme mancha molhada em sua camisa cinzenta, enquanto o rímel escorre pelo meu rosto, fazendo com que eu pareça estar no meio das provas, sem dormir há semanas, tirando apenas cochilos periódicos na biblioteca em meio a várias xícaras de café.

Seu peito é incrivelmente largo e duro.

Ok, ele não é nenhum Ethan Hawke, mas é mais bonito. Um MBA em Harvard fará com que ele fique ainda mais atraente. Eu poderia seduzi-lo hoje à noite e com isso faríamos um sexo selvagem, apaixonado e animal, para depois acabarmos um nos braços do outro, tomarmos café da manhã e passearmos de mãos dadas pelo rio.

Ele cheira muito, mas muito bem.

Ele cheira como arroba.

Não há a menor condição de ter um caso tórrido com alguém que usa a mesma colônia de arroba. Veja, tudo se resume a estar com alguém que não me faça lembrar de arroba, que me faça esquecê-lo. Por algum tempo, pelo menos. O plano é o seguinte: arroba ficará tão arrasado por eu ter me apaixonado por outra pessoa que perceberá que sou seu grande amor e pedirá para voltarmos. E depois viveremos felizes para sempre.*

*Nos braços do Edward e sonhando em viver feliz pra sempre com o drogado do Jacob ¬¬'

Não tinha que pensar isso em voz alta, será?

Sei que deveria querer encontrar uma outra pessoa com a qual pudesse ter uma relação saudável, mas ficaria satisfeita em usá-la para fazer com que Jacob me quisesse de volta.

Suspiro. Eu sei. Estou desesperada.

Afasto-me de Edward.

- Sinto muito. Acho que preciso me recompor. – dá para ver uma mancha molhada bem no meio da sua camisa.

- Não tem problema. – ele escreve algo num caderninho. – Ligue para mim se você quiser conversar, ok?

- Obrigada. – estou ficando cada vez mais aflita por causa dessa experiência.

Que sujeito bacana.

Abro a porta do banheiro e vejo dez mulheres se arrumando, sem nenhuma vergonha, em frente aos espelhos suspensos. Não sei o que acontece nos toaletes femininos em bares, mas as mulheres se tornam animais. Ficam ajeitando os seios e os sapatos, e colocam a maquiagem como se fosse munição em cima da pia. Um exemplo: uma dona, que usa uma minissaia curtíssima de pele de cobra, tira uma nécessaire cheia de cosméticos da bolsa, a esvazia em cima da pia, e retira seu encrespador de cílio.

Olho-me no espelho. Em vez de parecerem sombreados, meus olhos copiados da Cosmo parecem os de alguém sobre os quais esvaziaram um cinzeiro sujo.

- Com licença. – pergunta para a mulher-cobra. – Há alguma chance de você ter um removedor de maquiagem?

- É claro, querida. – responde ela. – Tome esse cotonete para ajudar, meu doce.

- Obrigada. – fico treinando o meu sorriso em frente ao espelho. Sorrio mais e mais até que ele pareça falso e maligno. Talvez me torne uma piranha. Os homens adoram uma piranha.

Sigo novamente até a porta e volto para o bar.

- Vê um Sex on the Beach, por favor. – sentada num banquinho, tento me conter para não ficar me virando para a frente e para trás, dando pinta de que estou contrariada.

Uma loura que se penteou com um secador de mão balança o cabelo e se curva, de modo que o cara que a está cortejando possa olhar por dentro de sua blusa.

Os três homens do outro lado gritam números, dando notas para as mulheres que passam. Um sujeito com a pele toda esburacada dá um nove e meio em voz alta para a morena que está sentada a quatro bancos de distância. Ela usa uma saia longa com uma fenda que vai até a axila. O rosto do pilantra parece uma uva estragada e seus olhos são como passas. Quando ele diz oito, acho que pode estar se referindo a mim. Gostaria de derramar meu drinque na sua cabeça, de um jeito bem dramático, mas opto por fita-lo. Afinal de contas, um drinque é um drinque, não deve ser desperdiçado e sim nos deixar bêbadas. Fico olhando para o cara até sua pele se transformar em pontos marrons e depois em manchas alaranjadas, como se eu tivesse sentada bem perto da TV.

Por que estou aqui? Por que não estou em casa vendo TV? São quase onze horas e eu poderia estar vendo L and O com Allie. As risadinhas da loura de cabelo armado parecem como aquelas gargalhadas pré-gravadas de comédia de televisão. Detesto o Orgasmo, detesto Boston e detesto Rosalie. Onde está Rosalie?

Espera aí.

Aquele ali é quem estou pensando?

James Gradinger?

O tesudo do James Gradinger?

O tesudo do James Grandinger que cresceu em Danbury e fez o papel de Danny Zukoe na montagem de Grease que fizeram no ginásio, quando ele era um veterano tesudo e eu uma caloura ansiosa. Fiquei sentada na primeira fila três noites seguidas porque ele era um gato. Colei a foto de James Grandinger, recortada do programa da peça, na parte interna do meu armário, bem ao lado do meu pôster de Kirk Cameron. Meu fichário de cinco divisões estava cheio de rabiscos onde podia-se ler Bella Gradinger, Isabella Gradinger, Marie Gradinger, Isabella Marie Gradinger e Isabella Marie Swan Gradinger.

Eu sabia o horário de James de cor e costumava andar atrás dele, na escada do quarto andar, entre o segundo e o terceiro período, enquanto ele ia da aula de química para a de trigonometria. E se a minha aula de inglês fosse no porão? Graças aos céus ele era bastante distraído para notar uma tiete maluca que vivia no seu encalço.

Está ficando quente por aqui. Meus calafrios estão se multiplicando! As letras das canções de Grease giram na minha cabeça. Dou um gole no meu Sex on the Beach e penso em relâmpagos.

De costas se parece com ele. Está usando uma camisa abotoada até a gola que se parece com o tipo de camisa que James Gradinger, o tesudo, usaria. Eu conheceria aquela nuca em qualquer lugar.

Ele só precisa virar um pouco mais para a esquerda... um pouco mais... só um pouquinho... por que aquela piranha o está distraindo? Ele está se afastando! Pare! Pare!

Tento lhe enviar mensagens telepáticas.

- Vire-se. Vire-se agora. Vire-se agora, James Gradinger tesudo. Apaixone-se loucamente por mim.

Minha telepatia não está funcionando. Isso requer medidas drásticas. Acidentalmente deixo meu copo cair. É melhor perder um drinque do que uma oportunidade.

Quebrou.

É ele. É aquele gato do James Gradinger dos tempos em que eu era caloura e ele veterano! E está olhando para mim! Está olhando bem para mim!

Ok, eu sei. Todos estão olhando para mim. Acho que o olhos-de-passa fez com que minha nota caísse para um seis.

- Você está bem? – perguntou a garçonete peituda.

- Sim. Desculpe. Não sei como isso aconteceu. – Sei sim. Sei exatamente como isso aconteceu. E sei que deu certo, pois James Gradinger está vindo na minha direção.

Ah, meu Deus. Ele está vindo.

Na verdade, nunca falei com James Gradinger.

O que posso dizer para James Gradinger?

Preciso de um drinque. Cadê o meu drinque?

Ah, sim. Droga.

Respire. Calma. Merda. Pense em coisas tranquilas. Um banho quente com bolhas que cheiram a baunilha. A massagem de duas horas que eu costumava receber de Iris e trocar por dois dólares em moedas (veja só quanto isso dá em pratinhas!). Um sofá, meu edredom, o chhhhhhiado da TV ao fundo...

Mmm. Estou ficando... mmm... sonolenta.

- Ei. – uma voz muito tesuda se interpõe agradavelmente no meu devaneio. – Estou te reconhecendo. Você não é de Danbury?

James Gradinger está falando comigo.

James Gradinger está falando comigo.

James Gradinger está falando comigo.

James Gradinger está falando comigo.

Angela não vai acreditar nisso.

Calma, eu posso fazer isso.

- Shfjkd sjsydhd jhsav jasdadgaj dghykg.

- Perdão? – pergunta ele, o que é perfeitamente lógico, considerando que eu não tenho a menor ideia do que acabei de dizer.

- Oi. – uma sílaba de cada vez. Não tem problema. – Sim. – Veja só, já disse duas palavras para James Gradinger. Agora tenho algo para contar aos meus netos.

- Você não estudou na Stapley? – pergunta ele.

Mais? Oh, meu Deus... Ele quer conversar.

- Sim. – aceno com a cabeça. Estou conseguindo! Estou conversando!

- Você era do meu ano? – ele passa a mão naquele cabelo cheio e deslumbrante (que agora era, de fato, mais ralo). O que aconteceu com aquele cabelo cheio e deslumbrante?

- Na-verdade-eu-estava-alguns-anos-atrás-de-você. – se eu não pensar e simplesmente dizer tudo o que quero de uma vez só, droga, acho que consigo sobreviver a isso.

- Espera um segundo. – diz ele com aquele seu sorriso que ainda é muito gostoso. – Eu me lembro de você. Você não era aquela garota que vivia me seguindo? Bella não sei o quê?

Oh. Meu. Deus. Ele sabe o meu nome. Danny Zukoe sabe o meu nome.

Balanço a cabeça. Não consigo falar. Minha língua parece que foi costurada no céu da boca.

- Você quer um drinque? – pergunta ele.

James Gradinger está se oferecendo para me pagar um drinque. Balanço a cabeça novamente. De fato, acho que não parei de balançar a cabeça. Não que eu espere soar subitamente como um personagem eloquente e articulado de Dawson's Creek, mas isso está ficando repetitivo.

- Parece – ele olha o chão. – que você gosta de um Sex on the Beach.

- Especialmente se for com você. – retruco. Foi brincadeira, eu realmente não disse isso. Continuo a acenar com a cabeça.

- Então, o que você está achando de Boston?

- Agora que estou falando com você, estou gostando bastante. – Espera aí... dessa vez eu realmente falei. Não devia ter dito isso em voz alta. Mas o que aconteceu? Ele está rindo! Acha que estou tentando ser engraçada e pensa que estou flertando com ele. Eu estou flertando com James Gradinger. – Na verdade, eu gosto disto aqui. – comento seriamente. – E você?

Ok, talvez não seja uma resposta sexy ou espirituosa, mas são duas frases completas, e uma delas requer uma resposta. Calma aí.

- Já estou aqui há algum tempo. Gosto daqui. Já me acostumei.

- Quando foi que você se mudou? – com essa são duas perguntas; estou me soltando.

- Há cerca de oito anos.

- Você já é praticamente um brâmane. – outra piada!

Ele ri. Uau!

- Nem tanto. Ainda não me mudei totalmente para Beacon Hill.

Pausa. Intervalo de um segundo. Intervalo de dois segundos. A-hã. O que eu faço agora? Espera aí. Tenho uma ideia.

- Então, o que você está fazendo em Boston? – a perfeita animadora de auditório... dando aos homens a oportunidade de falarem sobre si próprios.

- Sou médico.

Sééééério?

- Que tipo de médico? – um pediatra? Um residente? Um cirurgião cardiologista?

- Um podólogo.

- O quê?

- Um médico que cuida dos pés.

Eu sei disso. Sou uma revisora. Alguém que se importa a cuida do pé humano.

- Isso deve ser... interessante.

Ora vamos, o que mais eu podia dizer? Que tal um pé-de-atleta? Pelo menos eu tenho pés bonitos... são tamanho 37 e muito bem-feitos, modéstia à parte. Minha pedicure chega a dizer que é um prazer trabalhar neles, embora ela só fique me bajulando para ver se consegue ganhar umas gorjetas, o que é ridículo, pois ela é a dona do seu próprio salão. Não se deve dar gorjetas para o dono de um estabelecimento, todo mundo sabe disso, mas uma vez vi uma esnobe com unhas postiças deixar uma gorjeta de quatro dólares para uma manicure que cobrava vinte, e me senti obrigada a deixar quatro dólares também. Agora, toda vez que eu vou lá tenho que deixar vinte e quatro dólares em vez de vinte. Na minha opinião, ela deveria dizer: "Não seja boba! Pegue seus quatro dólares! Você está me insultando! Sou a dona." Em vez disso, ela aceita qualquer trocado. Isso é um absurdo.

Mas deixa pra lá.

- Então imagino que você tenha frequentado a escola de medicina por aqui.

- Cheguei até a me formar. E você?

- Sou revisora de textos.

- Sério? Onde?

- Na Cupid.

- Cupid?

- Publicamos romances.

- Ah, a minha mãe os lê! Você conhece o Demetri?

Dou minha risadinha 'oh-que-pergunta-inteligente-e-original' para flertes (já sou amiga da Rose há bastante tempo) e dou uns tapinhas no seu ombro.

- Infelizmente não. E você?

- Ele é, na verdade, um paciente meu. E possui pés realmente bonitos.

- Você está brincando, certo?

- Certo. Mas você sabe o que dizem sobre as pessoas de pés bonitos?

- O quê?

- Belos sapatos.

Será que aguento piadas sobre pés? Dou aquela risada novamente.

- Você está usando um belo par de sapatos. – diz ele, olhando para baixo.

- Obrigada. Foi uma compra recente. Botas para solteiras.

- Por que isso?

- Porque são botas olhem-para-mim.

- Estou olhando.

Ele está olhando?

- Que bom. – sorrio acanhada.

- Você com certeza cresceu um bocado.

- E você não me vê desde que eu usava suspensórios rosa e cabelos encaracolados.

- Você está ótima, Bella.

- Obrigada. Você também. – você é um tesão. Um gato da cabeça aos pés com um pouco menos de cabelo e uns pneuzinhos a mais... mas ainda assim muito, muito gostoso.

- Você não está saindo com ninguém? – pergunta ele.

É isso que eu estava tentando lhe dizer, querido.

- Não. Você?

- Solteirinho da Silva. – de repente, sua mão estava sobre o meu ombro. Espera aí.

- Bella! Bella! – gritava Rose lá do fundo. Não sei como consigo escutá-la em meio ao bum, bum, vamos transar, bum, bum, mas eu consigo. E isso me distrai muito. Ela já está com as mãos na cabeça.

- Posso pegar seu telefone? – até que enfim. As palavras mágicas saíram dos seus lábios.

- Claro. – sinto-me um pouco como a Cinderela, embora minhas botas de solteira recém-compradas sejam mais originais do que sapatinhos de cristal. Embora eu sempre tenha desejado um par deles. Peço à Sra. Peituda que me dê uma caixa de fósforos e enfio a mão na bolsa em busca de uma caneta. Ela me desfere um olhar demoníaco, mas nada de fósforos.

Ele, por sua vez, tira a caneta da minha mão, e começo a sentir pequenas picadas – como se fossem formigas, não das vermelhas e venenosas e sim das pretas – me pinicando o braço.

- Manda.

Começo a ditar o número do meu telefone e, meu bom Deus, ele o anota na mão.

- Bella! Bella! Bella!

- Tenho que ir. – digo, enquanto sigo na direção de Rosalie. Ele a vê. Isso é bom. Dá a impressão de que tenho amigas.

- Ótimo. – diz o gato. – Eu te ligo.

Por favor, faça isso.

Passo o resto da noite sendo apresentada a qualquer um que é alguém, mas na maior parte do tempo fico posando para que James Gradinger possa ver como sou sexy. Também fico observando-o cuidadosamente para que não venha a borrar o meu número, privilegiando quaisquer rivais em potencial. Preste atenção, estou sendo bastante discreta, chega de ficar caçando namorados em público.

Será que ele vai ligar? Hoje é sexta-feira, talvez ele ligue amanhã. Quem sabe hoje à noite? Talvez me ligue assim que chegar em casa. Talvez acabe dizendo que não pode dormir sem ouvir o som suave e convidativo da minha voz.

- Divertindo-se? – sussurra Rosalie, tanto quanto alguém pode sussurrar no meio daquela música alta.

Sentamo-nos numa mesa com o sujeito do terno Armani e três dos seus amigos. Um deles fica conversando comigo com um forte sotaque francês. Fico acenando com a cabeça, sem entender nada do que ele diz. As únicas palavras que consigo decifrar são:

- Mais um drinque?

Definitivamente sim. Que noite maravilhosa. Terei o namorado mais perfeito do mundo. Ele vai querer se casar e, como é médico, provavelmente não terei que começar com aquela história de Não querido, isso aí não é o clitóris, ele irá querer se casar, é brilhante, o resto da minha turma do ginásio irá se matar de inveja em toda essa fantasia. Hummm... a nojenta Victoria Burns achava que ele era demais. Oh, olhe para mim, sou a única caloura legal o bastante para me apresentar como a dama de rosa; oh, olhe para mim, sou tão bonita; oh, olhe para mim, vou usar meu paletozinho rosa todo dia.

Mal posso esperar para que ela saiba de nós. Estou certa de que aquela perua tinha uma queda pelo meu James, mas o que importa? Posso ficar acima de tudo isso. Talvez ligue para ela hoje à noite e lhe fale do meu compromisso*, embora eu não tenha a menor ideia de onde mora. Talvez devesse planejar uma reunião, já faz mais ou menos oito anos que nos formamos. Só vou deixar vazar uma coisa: "Irei com o meu noivo. Você deve se lembrar dele, James Gradinger." Talvez eu use rosa.

*Acho que já perceberam sobre a parte da Bells ser meio bitolada à qual me referi antes, não? =D

Ou talvez pudesse mandar uma foto nossa para o site dos formandos da Stapley. Só vou ter que me lembrar de levar uma câmera no nosso encontro.

Gosto mais dessa ideia.

- Amanhã nós vamos no Ponto G, tudo bem? – diz Rosalie, segurando a minha mão. Suponho que ela esteja falando de um bar.

- Parece uma boa ideia. – respondo, enquanto me pergunto se posso sair novamente com essa roupa.


Muito obrigada por todas as reviews *-* É bom saber que alguém está acompanhando essa loucura rs.

Para quem perguntou: O livro tem 19 capítulos e 346 páginas. E, sim, eu estou digitando tudo porque não achei o e-book e nem é assim tão ruim escrever tudo de novo (:

Beijos e até a próxima sexta. Bom fim de semana! \õ/