Capítulo 3 – Apenas Um Passo Para a Perdição
O Sol brilhava forte. O vento batia nas copas verdes das grandes árvores, mais antigas e resistentes que os mais antigos dos anciões élficos. Os humanos ainda estavam maravilhados com as terras na qual foram acolhidos. Céu azul, água corrente límpida, campos de grama verde de horizonte a horizonte. Mas o que mais maravilhava os humanos era a habilidade de alguns elfos em artes mágicas. Todas as manhãs, magos élficos se posicionavam no centro da capital e faziam um pequeno espetáculo. Mas a estrela de todos os espetáculos, aquela que todos esperavam para ver, era a pequena Dizzy, uma jovem elfa que criava os encantos mais belos e os feitiços mais alegres. Mesmo entre os elfos de sangue mágico, Dizzy era considerada um prodígio, e de uma beleza estonteante, de olhos verdes brilhantes, longos cabelos loiros, lábios e curvas bem definidas. Seus pais haviam sido mortos em batalha, e ela criada por um ancião da raça élfica, um grande mago. Ele a ensinou tudo o que sabia, e com apenas 17 anos, Dizzy já era capaz de encantos complexos, que magos experientes não ousavam.
Uma bela manhã, linda como qualquer outra nas terras da Luz, Dizzy abriu os olhos e bocejou. Havia dormido muito bem durante a noite. Estava empolgada. Naquela manhã ela passaria por sua prova de fim de treinamento, uma missão simples de resgate de itens. Queria se formar logo para poder se juntar aos outros elfos e humanos nas fronteiras. Queria lutar contra os vail, aquela raça de elfos enegrecidos pelas sombras, e contra os nordein, aquela raça de aberrações. Queria matá-los e vê-los sofrer pelo que fizeram aos seus pais... Por terem-na feita órfã desde criança. Foi correndo o mais rápido que pode para os aposentos de seu tutor, um dos magos mais sábios que pisaram sobre a terra. Ela não quis comer, não se preocupou em vestir armaduras. Só queria provar que estava pronta. Quando entrou no grande salão de treinamento dos magos, só havia seu tutor, um elfo imponente de longos cabelos loiros esbranquiçados. Quando entrou, o grande Mago olhou para ela, seu rosto expressava um misto de pesar e preocupação. Ela percebeu isso.
- Dizzy minha querida, você conhece a história de como as Deusas de Teos se formaram? – Perguntou o elfo lentamente.
- Claro mestre. Uma nasceu do amor e da devoção de Proton. A outra nasceu do ódio e do desejo de vingança de Eustatin.
- Exato. Você entende que estes sentimentos são as armas mais poderosas das Deusas não é? Por um fio de ódio, a Deusa da Fúria pode conduzir às trevas até mesmo o coração mais brilhante. E por uma pontada de amor, a Deusa da Luz pode purificar até mesmo a alma mais obscura.
- Não entendo o que isso tem a ver com meu treinamento mestre. – disse Dizzy estreitando os olhos.
Um ar de paciência se formou no semblante do grande mago, seu suspiro não pode ser contido. Seu rosto expressava tristeza. A jovem notou que havia algo errado.
- O que houve mestre?
- Não há um modo fácil de dizer isso... Vou ser direto. Não posso permitir que se forme no treinamento. Não ainda.
Espantada com as palavras do mago, a jovem aprendiz ficou estática... Uma palavra martelava sua cabeça, e ela permitiu que escapasse por seus lábios.
- Por quê?
- Você sempre foi minha aluna mais aplicada. A criei como uma filha. Mas você precisa entender, você guarda muito ódio dentro de si! Ódio é a arma mais poderosa da Deusa da Fúria. Ela abrirá uma brecha em seu espírito a partir do ódio em seu coração. Abstraia. A guerra nunca traz coisas boas, mas precisa ser forte para agüentar as ruins. Enquanto não entender isso, não posso deixar você se envolver em lutas.
A jovem elfa não podia acreditar. "É um teste, decididamente é um teste!" pensava ela. "Tenho as habilidades mais impressionantes. Sou poderosa! Porque não me deixa ir à guerra?" isso retumbava em sua cabeça como mil tambores de batalha. Mas ela não discutiu. Abaixou a cabeça em uma reverencia permitindo que seus cabelos lhe caíssem sobre o rosto e saiu. A raiva queimava o ar em seus pulmões, e ardia em seu coração. Mas as palavras do grande mago sempre surtiam efeito sobre ela. Decidida a entender a causa daquilo, foi para seus aposentos e se concentrou, se acalmou, e decidiu estudar e se aperfeiçoar. E assim os anos foram passando...
Muitos anos se passaram e, assim como os frutos das grandes árvores da floresta, Dizzy cresceu e amadureceu. Não era mais uma garotinha élfica, mas uma mulher das mais belas. Sua compreensão agora não era a mesma de quando era criança. Ela entendia como as forças das Deusas se balanceavam. Entendia o valor do Amor, e o poder do Ódio que ela precisava evitar e abstrair. Mas nunca havia sido promovida, ainda era aprendiz. Ela passava os dias entretendo os jovens aprendizes com feitiços belos, ensinando-os e guiando-os nos caminhos da natureza. Foi numa tarde como essa, ela brincando com algumas crianças humanas, que o grande ancião mago foi até ela.
- Dizzy minha filha, sua espera e seu treinamento mostraram amadurecimento. Sei o quanto você espera por isso. Vá amanhã pela manhã ao grande salão de cerimônias, e será finalmente iniciada em sua nova jornada, como mestre em magia e não como aprendiz.
A felicidade e a empolgação de Dizzy quase não a deixaram dormir. Assim que o sol nasceu naquela manhã ela pulou da cama, se vestiu com pressa, apanhou uma fruta e se dirigiu a passos rápidos para o salão. Poucos humanos estavam acordados, de modo que, diferente do costume, ninguém a parava pelo caminho e pedia para que fizesse algum feitiço. Chegou rapidamente. Muitos elfos magos já graduados estavam presentes, e alguns aprendizes também. Foi lhe dada uma tarefa simples de recuperação de uma relíquia perdida, a qual ela completou em alguns minutos o que os aprendizes levavam horas ou até dias. Mas não foi surpresa. Seus poderes já eram de conhecimento dos veteranos. Sua felicidade era incomparável ao receber seus trajes de Mestre em Magia. Agora ela era uma feiticeira graduada. Mas por mais orgulhoso que seu mestre e pai de criação pudesse parecer, ela o conhecia bem para notar seu verdadeiro rosto por trás do sorriso. Ele estava temeroso. Mas isso não a abalou, ela irradiava felicidade. E não havia tempo para comemorar, precisavam dela nas fronteiras! "Não vou sentindo ódio por eles, mas amor aos meus semelhantes, que vou me esforçar em proteger! Sendo assim, a Deusa não tocará em mim!" E assim ela partiu. Logo quando chegou à fronteira, alguns soldados humanos correram até ela.
- Salve Dizzy, graças a Deusa que está aqui! Estamos sendo pressionados a recuar. Nossos magos estão caindo graças aos ataques surpresa de assassinos. Sem os magos estamos ficando sem recursos para derrubá-los. Mas com seu enorme poder poderemos virar o combate ao nosso favor.
- Claro nobre lutador, me leve para onde estão nossos aliados, eu cuido do resto.
A esperança havia retornado ao rosto dos homens quando eles avistaram a elfa. E a excitação ao rosto dela ao ver de longe o fulgor da batalha. Vendo-a chegar, um defensor de alta classe, um comandante de infantaria, chamou-a.
- Lady Dizzy, fique na retaguarda, há entre eles um assassino que some em pleno ar. Ele tem transpassado nossas defesas e massacrado nossos magos. Não podemos correr o risco de perdê-la!
- Não deixarei meus aliados morrerem nas mãos daqueles vermes! Não ficarei aqui sem fazer nada! Se quiserem participar da batalha, sugiro atacarmos agora. Se demorarem um pouco, não sobrará nenhum para vocês!
Dito isso, partiu em correria intensa para o campo de batalha. Alguns soldados a seguiram, cheios de confiança. Nem mesmo os gritos do comandante podiam detê-la.
- Esta é apenas sua primeira batalha! Você está indo empolgada demais! Volte, recue imediatamente!
A empolgação, a excitação e a ansiedade cresciam exponencialmente dentro dela. Seu coração batia tão rápido que sairia pelo seu peito a qualquer momento. Sua respiração era tão rápida que ela quase não respirava mais. Queria chegar até eles. Queria olhar seus inimigos nos olhos.
De repente, uma lâmina em forma de garra surgiu do meio do ar em sua frente. Ela quase não teve tempo de desviar. Um assassino acabava de aparecer do meio das sombras e partia atacando. Ela recuou o mais rápido que seus pés permitiam. Um dos lutadores que a tinham recebido na entrada da fronteira posicionou sua espada ao antebraço, e, se jogando para frente, deu uma grande investida contra o assassino. Mas o inimigo era esperto, e ao ver o lutador chegando, se esquivou para o lado, e a ferroada do lutador passou longe. O assassino continuou a perseguição atrás de Dizzy, mas ela havia conseguido um segundo de distração, o que foi suficiente para lançar uma esfera de energia. Sem tempo de reação, o assassino foi arremessado pela magia dela, e caiu a alguns metros do grupo. Outro lutador saltou com a espada em punho, tentando atingir o assassino caído. Mas seu ataque foi surpreendido pelo vail que se pôs de pé numa velocidade inacreditável. Fazendo uma finta lateral, saiu da reta do salto do lutador, e aproveitando o momento em que este caiu e perdeu momentaneamente o equilíbrio, cravou suas garras entre as costelas do lutador, que desabou imóvel. Dizzy não conseguiu entender. Ela não queria acreditar. Mal chegara ao campo de batalha e seus aliados já caíam. E agora diante dela. Ela paralisou. Um prato cheio para o assassino, que saltou rápido e rasteiro em direção a ela. Mas foi interceptado por uma flecha de um arqueiro elfo que já tentava fazer mira há algum tempo. A flecha penetrou atrás da orelha do vail. Morte instantânea. Ele caiu aos pés de Dizzy, que só assistiu a cena. O sangue vermelho escarlate, brilhante como rubi em brasa, escorria pelo chão. A garganta de Dizzy ficou seca. Sua visão ficou turva. Sua boca ficou amarga. Ela se apoiou em seu cajado para que não caísse. Um brado de guerra a chamou de volta a realidade. Um pelotão de soldados da Fúria partia agora em direção ao pequeno esquadrão da Luz.
- Monstros! Como se atrevem a isto! Vão ter o que merecem! Vão todos ter o que merecem!
Uma pontada de raiva marcava sua voz. E a raiva rapidamente se tornou ira, e a ira se tornou ódio antes que ela se desse conta. Tudo pareceu em câmera lenta. Ela viu os guerreiros e assassinos das trevas correndo em sua direção. Os lutadores e arqueiros da Luz se preparando para o contato. Ela ergueu as mãos para o céu, e falando num idioma antigo, concentrou toda sua força e poder. O céu escureceu. O chão tremeu. E então uma chuva de rochas flamejantes se abateu sobre a terra. Fulminante. A cada meteoro caído, a cada explosão, mais pedaços de corpos mutilados voavam sobre o campo de batalha. Não apenas dos soldados da Fúria, mas os soldados da Luz também estavam sendo atingidos e mortos.
- Lady Dizzy, precisa interromper este feitiço! Nossos inimigos já estão mortos! Você está matando nossos aliados! Pare com isso!
Mas os gritos do soldado não chegaram aos seus ouvidos. Sua mente estava turva de cólera e intenções assassinas. Ela queria causar dor. Os poucos sobreviventes que se escondiam das rochas em chamas que caíam dos céus sentiram um arrepio ao ver o rosto da elfa. Era um sorriso deformado, olhos injetados, feições de pura insanidade. Ela queria vingança, sempre quis! Não podia mais tentar se enganar. Mesmo passando os anos estudando, não podia negar o que sentia de verdade. E então uma voz, suave e bela, tocou em falou em sua mente.
- Minha querida, porque você guarda tanta raiva dentro de si?
- Todos eles merecem pagar! A dor que me causaram merece ser justiçada! – rosnou a elfa.
- E como pretende fazer justiça?
- Matando todos eles!
- Então mate! Mate todos! Mas e quanto aos soldados da Luz que você matou? Você será julgada como traidora, e será condenada a morte.
- Aqueles que se levantarem contra mim eu matarei também! Ninguém me impedirá mais de acabar com esta escória!
- Mate-os. Mate todos eles. Antes que eles te matem com a desculpa de te proteger de si mesma! – A voz doce falava em meio a risadinhas.
Então, virando a cabeça de modo aleatório, Dizzy começou a fazer encantos poderosos e a fulminar todos os soldados da Luz que via. Os esquadrões da Luz e da Fúria que vinham chegando não acreditavam no que viam. O defensor comandante da infantaria investiu contra Dizzy, mas não foi páreo para a fúria enlouquecida da maga. Com um grande raio certeiro que caiu do céu, o defensor foi jogado metros para trás, e caiu no chão carbonizado. Alguns soldados fugiram, outros atacaram. E foram todos mortos pelos feitiços mais complexos e letais que poderiam imaginar. Quando o frenesi em sua mente começou a passar, ela tomou consciência do que havia acabado de fazer. "Eu matei meus companheiros..." Sua respiração começou a falhar, sentiu um bolo na garganta, estava hiperventilando, a bela voz tocou seu coração novamente.
- Não se culpe, não se culpe! Você viu que eles te atacaram! Você apenas se defendeu! Era você ou eles.
- Não, eu comecei isso! – Lágrimas correram as faces de Dizzy.
- Está errada, você recorreu a forças que eles não compreendiam para vencer o combate, e algumas baixas colaterais aconteceram! É normal numa batalha. Mas eles não aceitaram isso e te atacaram. Erga a cabeça. – A voz doce era poderosa, e sua firmeza era persuasiva.
- Mas e agora, o que eu faço? Não tenho para onde ir.
- Esta errada novamente minha querida. Junte-se aos meus. Será bem recebida ma Fúria. Seu poder e seu conhecimento me serão muito útil.
Ela finalmente reconheceu a voz em sua mente. Engoliu o choro, parou e pensou. Mas o vazio em sua alma era pesado, olhar ao redor lhe causava dor. Muita dor. Então, vencida, ela se entregou.
- Que assim seja, minha senhora.
Naquele momento, coração e alma dela foram jogados no fogo da Fúria, e a Deusa das trevas ficou contente. "Esta será de grande valia. Quando chegar o momento, já sei o que fazer com ela." Dizzy abraçou a escuridão. Sua pele, antes clara como a neve e seu cabelo loiro como o sol escureceram. Seus olhos antes verdes brilhantes agora eram opacos e vermelhos. Ela se encaminhou ao pelotão de soldados da Fúria, se misturou a eles, e juntos recuaram até as cidades da União. Abandonou seus trajes de Mestre Feiticeira, e assumiu a armadura de uma pagã. E finalmente se sentiu viva. Estava feliz. Todo o peso em seu peito que a havia pressionado por todos esses anos havia sumido. Ela não mais tentava esconder toda a raiva que sentia. Não reprimia a vontade de vingança. Ela estava livre. E os soldados da Fúria ganharam uma poderosa aliada. E durante alguns anos a batalha nas fronteiras foi pontuada por massacres mágicos que nem mesmo os mais poderosos magos da Luz explicavam. O segundo passo do plano da Deusa havia saído como ela queria.
