- Edo... – comecei. O que diabos estávamos fazendo ali? Por que ele me trouxe para aquele lugar? Por que ele era tão misterioso e estranho? Eu tinha milhões de perguntas. E nenhuma resposta.
- Lembra de quando nós éramos pequenos? – ele me perguntou de repente – Era sempre para esse lugar que a gente vinha.
- É claro que eu me lembro – e como eu iria esquecer? ¬¬ - Mas você ainda não me disse...
- Chega de perguntas – ele colocou o dedo em meus lábios, fazendo com que eu parasse de falar. ISSO sim foi estranho – Eu ainda não vou lhe responder alguma delas.
Tirei a mão dele dali com um tapa.
- Você não é o Edo que eu conheço. – estava me irritando – Desde quando você é tão quieto, tão misterioso e estranho? GROSSO você SEMPRE foi comigo quando eu queria ajudar, mas, não era tão assim!
Ele parou.
- Win...
-Sem essa! – nem deixei ele terminar de falar. – Qual é o seu problema? O que seria tão sinistro a ponto de fazer o tão orgulhoso, confiante e esquentado Edward Elric se tornar uma pessoa fechada, triste e grossa? Uma coisa dessas simplesmente não existe.
Lá estava eu, com olhos cheios de lágrimas. De novo. Isso era tão irritante, eu nunca conseguiria ser séria quando precisasse?
- Existe sim. – como é que é? Pensei que era mentira, mas seus olhos sinceros apenas diziam a verdade naquele momento – Não é nada bom, Winry. E você sempre quer que as pessoas estejam do jeito que você ache agradável. E sempre quer saber o que não deve se meter. Isso irrita e me deixa preocupado, sabia?
Lá vem o não-Edo de novo. Cada vez mais estranho, triste e qualquer outra coisa. Sempre dizendo que não é da minha conta. E, sempre me botando pra baixo. Coisa mais agradável ¬¬
- Ei! – protestei. – Eu apenas me preocupo com vocês dois. Todos os dias eu acordo pensando se vocês se meteram em confusões, se morreram.
- Eu não morreria tão facilmente assim ^^
- Não fale o que não sabe – agora as lágrimas caíam – Eu apenas quero que você volte a ser o que era antes! Eu apenas quero que você pare de se meter em perigos, eu quero... eu quero que você...
Como eu me odeio! Sempre choro quando não devo. Não consegui terminar de falar sem começar a soluçar. Mas eu não agüentava mais aquilo. Eu apenas queria que ele voltasse.
Para minha surpresa, senti os braços de Edo me envolvendo. Me abraçando. Ainda menos Edo do que nunca, pensei.
- Desculpe por te preocupar, Winry. – Ele agora tinha a cabeça apoiada em meu ombro – E por te fazer chorar de novo.
Parei de pensar que ele não era o Edo. Eu ainda sabia que ele estava muito diferente, principalmente depois disso, mas, esse problema parecia estar fazendo ele amadurecer. Mesmo assim, eu queria que ele parasse de andar para um lado e para o outro cabisbaixo e falando apenas quando se dirigiam a ele. Eu queria que ele apenas amadurecesse e, não importando a tal gravidade do problema, que ele não mudasse completamente. Agora, nesse mesmo momento ele me abraçava. Desde que crescemos, ele não fazia algo tão próximo. Por estar apenas com roupas curtas para dormir eu estava com frio até aquele momento. Era tão reconfortante, quente e de certa forma... triste.
- Não foi nada ^^ - dei um sorrisinho em meio às lágrimas. Eu não queria preocupá-lo mais que o problema – Eu apenas quero que o Edo de antes volte. Volte para o seu irmão, porque ele está se sentindo bem mal por você. Volte para mim também.
Ele me abraçou ainda mais apertado.
- Eu prometo.
Como podia ser verdade? Ele sempre foi tão... carinhoso? Claro que não... Mas, de certa forma era bom. Me senti sonolenta; cheguei a quase dormir nos braços dele.
- Vamos voltar – ele percebeu que eu estava quase dormindo.
- Está bom aqui ^^ - eu não queria voltar ainda.
Ele não discutiu, então, fiquei olhando as estrelas, absorvendo a 'noção do que estava acontecendo': Edo não tinha me falado o que estava lhe incomodando, mas deixou claro que realmente não era nada bom. Isso me preocupou ainda mais.
Ele também estava estranho. Ainda mais estranho do que nunca. Edward Elric nunca foi de agir assim: além de admitir algumas coisas ele estava... tão amável que iriam achar que eu estava louca se contasse.
Se bem que eu me vi mais satisfeita com isso do que deveria ficar? Corei pensando nisso.
- Ahm... Edo? Eu vou voltar para casa – eu estava realmente com sono – Era isso que você ia me falar ou tinha mais?
- Era isso ^^ eu vou também – ele se levantou e me acompanhou.
Voltamos sem se falar. Para minha surpresa, ele me levou até o meu quarto, mesmo que o dele fosse bem antes.
- Até amanhã, Edo.
- Ok – ele sorriu. Eu fiquei pasma. Fazia um bom tempo que eu não o via sorrindo. Dois meses e um dia inteiro, para ser mais precisa. Foi o tempo que eu mais fiquei sem poder ver o sorriso sincero e caloroso dele. Novamente me vi pensando demais e parei.
Voltei para a cama. Agora além de pensar nessa noite, eu começava a me lembrar da minha infância ao lado dos irmãos. Era tão bom. Foi aí que me veio na cabeça uma lembrança distante; o primeiro – e único abraço que eu recebi de Edward Elric.
Realmente fazia tempo. Eu tinha mais ou menos 4 anos. Quase ri. Não porque era engraçado – de engraçado não tinha nada – mas pelo fato de ser tão distante. E hoje, justamente em tempos de acontecimentos estranhos e reações exageradas, veio o segundo abraço. E, pela quarta vez naquela madrugada eu me vi pensando demais.
Antes de dormir fiquei me perguntando se eu realmente devia fugir de meus próprios desejos. Por que isso agora? A cada lembrança, eu ia gostando um pouco mais. Agora, eu queria, do fundo do meu coração, muito mais coisas: queria que seus dois melhores amigos conseguissem seus corpos de volta, queria que eles ficassem para que ela tivesse certeza se estavam bem. E, agora, uma nova vontade começava a existir: queria ajudar, consolar, conversar e passar mais tempo com o mais velho. Eu sempre me preocupei mais do que devia com ele, sempre tive uma admiração maior por ele, mesmo que não admitisse. Talvez eu nem ao menos tivesse me dado conta dessa admiração. Agora eu consigo saber: Edo não estava diferente, e sim, abalado demais com um problema. Tal problema começava a substituir sua imaturidade por uma personalidade menos orgulhosa? Provavelmente, mas, uma coisa eu estava mais ou menos com certeza: ele era o único que conseguia me fazer ficar perdida em pensamentos quatro vezes em uma só madrugada. Estaria eu me apaixonando? Provavelmente.
