CAPÍTULO TRÊS – O INÍCIO DO ANO LETIVO
"Acorde, preguiçosa! Está na hora! Está na hora!".
Um forte tapa acabou com o ruído infernal do despertador na casa do jovem casal Potter. Resmungando e praguejando contra o inventor dos relógios de despertar, Ginny espreguiçou-se. A seu lado, seu esposo repousava sossegado. Apoiando-se num dos cotovelos, a ruiva pôs-se a olhar seu amado. Harry tinha uma fisionomia relaxada e seus cabelos rebeldes davam-lhe a aparência de um menino.
Beijando levemente os lábios entreabertos para não acordá-lo, a jovem bruxa saiu da cama e dirigiu-se ao banheiro, a fim de se preparar para seu primeiro dia de trabalho. As aulas em Hogwarts iriam começar no dia seguinte, porém naquela noite haveria o jantar solene, com o sorteio do Chapéu Seletor e a apresentação dos professores. Com isso, Ginny teria que ir cedo para escola, deixar tudo pronto para a aula da manhã seguinte e participar da tradicional refeição.
Enquanto a água morna escorria por sua pele, Ginny pensava no marido. Não queria deixá-lo sozinho o dia inteiro. Gostaria de poder voltar mais cedo, porém os jantares de início do ano letivo costumavam terminar meio tarde na época deles de escola e, provavelmente, continuariam assim. Pelo menos, Harry teria Ron e Dobby como companhias ou poderia ir jantar com os outros Weasley na Toca.
"Ia me deixar perder a hora, é?". Ginny se assustou quando ouviu a voz de Harry ali no banheiro.
"Você estava dormindo tão tranqüilamente que fiquei com pena de acordá-lo", ela respondeu quando ele juntou-se a ela no chuveiro.
"Nem um beijinho de bom dia você me deu...", Harry fez um muxoxo.
Ginny riu. "Isso nós podemos resolver... Bom dia, meu amor...", disse ela, abraçando-o carinhosamente. Os dois trocaram um beijo longo e apaixonado, esquentando o clima no banho.
Muito tempo depois, os dois desciam para a cozinha, onde encontraram Dobby preparando o café da manhã.
"Harry Potter, meu senhor! Senhora Ginny! Bom dia!", disse o elfo, com sua animada voz esganiçada.
O casal cumprimentou o simpático ser e enquanto comiam a refeição matinal, discutiam o que teriam que fazer naquela manhã de primeiro de setembro. Harry era esperado no estádio dos Cannons para retomar os treinos, depois de uma semana de licença. Ginny, por seu lado, passaria o dia inteiro em Hogwarts.
Antes de se despedirem, combinaram que se encontrariam após o jantar da escola no Três Vassouras. Apesar da insistência da esposa em dizer que não precisava buscá-la, Harry fazia questão de esperá-la para voltarem juntos para casa.
* * *
O corre-corre dos elfos domésticos no intuito de dar os últimos retoques para receber os alunos junto com a ansiedade dos fantasmas, em especial Pirraça que estava com saudades de atazanar alguém que não fosse o Filch e Madame Morris, movimentavam o castelo, mas ainda assim, Ginny sentiu que havia algo de diferente em sua ex-escola. O lugar não tinha aquele antigo aspecto sombrio, muito pelo contrário. As paredes pareciam irradiar vivacidade, como se até os quadros estivessem ansiosos pelo reinício das aulas.
Depois de conversar um pouco com os outros colegas de trabalho, Ginny seguiu para sua nova sala, a fim de aprontar tudo. Quando estivera ali pela primeira vez, resolvera não se desfazer do material de Filius Flitwick, o falecido professor de Feitiços. Havia muitos livros, pergaminhos e anotações de grande interesse para a jovem e que também poderiam ajudar no decorrer do ano letivo. De tão absorvida no serviço, Ginny só reparou que o tempo havia passado quando uma voz irritante soou da porta da sala.
"Ora, ora... Veja só o que temos aqui. O projeto de professora!".
Levantando a cabeça, a ruiva deparou-se com a última pessoa no mundo que desejava ver naquele momento: Draco Malfoy. Sentindo que a temperatura do cômodo diminuía consideravelmente, Ginny sentiu um arrepio de nojo descer-lhe pela espinha.
"Malfoy", ela disse o nome do loiro com esforço. "O que está fazendo aqui?".
Ignorando a pergunta, Draco entrou e pôs-se a avaliar a sala. Passou um dedo longo e fino por uma estante e fez uma cara de asco. "Se aquela praga que você chama de família não estivesse ocupando cargos tão importantes no Ministério, você nem estaria aqui, sabia disso?", falou ele, enquanto limpava uma poeira inexistente na sua capa.
Perto do ponto de explodir de ódio, Ginny levantou-se. "Diga logo o que quer e vá embora".
Aproximando-se dela o suficiente para que fosse possível ver os riscos pretos de sua íris acinzentada, Draco a encarou. "Estou aqui como conselheiro educacional. É minha obrigação zelar para que os alunos de Hogwarts recebam a melhor educação da Europa". Depois de tudo o que acontecera na escola há dois anos, Ginny pensara que Draco poderia se tornar um homem diferente, mas estava redondamente enganada. O filho de Lucius Malfoy, assim como o pai, jamais seria capaz de mudar, apesar da bela aparência.
Draco havia se tornado um homem charmoso, não havia como negar. Os cabelos loiros quase brancos foram cortados na altura do maxilar. Ele os usava repartidos no meio, de modo que as mechas emolduravam seu rosto anguloso. Os olhos de um tom de azul-acinzentado seriam bonitos se não fossem gélidos, incapazes de expressar algum sentimento. Ele era um pouco mais alto e mais magro que Harry, mas vestia-se com as melhores marcas e grifes do mundo bruxo. O contraste do preto da capa com a tez pálida era, sem dúvida nenhuma, friamente calculado para causar boa impressão.
Mas Ginny não se sentia tocada por aqueles artifícios de moda e beleza. Sentia-se sim enjoada por estar no mesmo ambiente que o descendente de seu maior inimigo. Durante a guerra contra Voldemort, Lucius Malfoy a seqüestrara como isca para atrair Harry, Ron e Hermione. O Comensal da Morte usara várias vezes a maldição Crucio nela, deixando-a na beira da morte, para então jogá-la aos dementadores. Inacreditavelmente, quem ajudara Harry a salvá-la foi Draco. Os dois se uniram para encontrar o esconderijo do patriarca da família Malfoy e libertaram a garota antes que os bizarros seres sem face aplicassem seu beijo nela. No entanto, a filha de Arthur Weasley não se sentia nenhum pouco grata por essa ajuda, pois o slytherin deixara bem claro que só estava lá para se vingar do pai. E com o decorrer do tempo, o comportamento dele só fez aumentar a certeza dela de que se não fosse por Harry, Draco a teria deixado morrer.
"Se não fosse por seu odioso pai, você também não estaria aqui, Malfoy", respondeu ela, fuzilando-o com o olhar. "Você não fez nada para merecer seu lugar no Conselho, apenas herdou sua posição". Ela pôde ver uma veia saltar na testa dele.
Draco olhava para a mulher parada na sua frente e emoções conflitantes tomaram conta de seu ser. Haviam garotas mais sofisticadas e bonitas que Virginia Weasley, mas algo naquela ruiva mexia com ele. Ela enfrentara perigos e amadurecera precocemente, mas mesmo assim um ar de inocência radiava dela. Isso sem contar que, para ele, ela era inatingível pelo simples fato de ser a garota de Potter. Talvez fosse isso que mais o agitava quando estava perto dela.
"Eu terei o maior prazer de desligar qualquer docente que esteja em desacordo com o Conselho. Eu teria cuidado se fosse você, Weasley...", retrucou ele antes de sair. Ginny sabia que a ameaça dele era verdadeira. Os Malfoy sempre foram cruelmente sinceros quanto a seus desejos.
A raiva acumulada pela visita de Draco estourou segundos depois que ele fechou a porta. Um vaso de flores, cuidadosamente arrumado por Winky, voou acertando uma parede e espalhando cacos, terra e plantas por todos os lados. Ginny segurava com tanta força o livro que tinha nas mãos, que suas juntas estavam quase translúcidas.
"Ginny?". A jovem se virou e deparou-se com Sirius, na porta da sala. "Está tudo bem? Eu ouvi um barulho e vim ver se você está precisando de ajuda".
"Está tudo bem, Sirius. Obrigada pela preocupação...", ela viu o olhar dele se direcionar para o vaso quebrado. "Malfoy acabou de sair daqui".
Black balançou a cabeça, entendendo tudo. Sabia o que Ginny havia passado nas mãos de Lucius e também conhecia o filho deste o suficiente para saber que ele era um expert em tirar as pessoas do sério.
"Venha, vamos almoçar", disse ele, passando o braço pelos ombros dela. "Um pouco de costeleta de carneiro com batatas e seu humor vai melhorar, tenho certeza".
"Está bem... Espera só um pouco", Ginny suspirou. E chegando perto da sujeira que fizera, girou a varinha. "Reparo!". Um a um, os cacos foram se juntando até formar o vaso novamente. Depois, com outro giro, ela fez com que a terra voltasse para o interior do recipiente e logo em seguida, as flores retornaram para sua posição anterior. "Pronto!", disse ela, pegando o vaso refeito do chão e colocando-o novamente em cima da mesa. "Agora podemos ir".
Enquanto caminhavam para o Salão Principal, Sirius reanimou a nora adotiva. Com suas tiradas engraçadas, o animago conseguiu fazer um sorriso surgir no rosto sardento. Os últimos resíduos da visita de Malfoy desapareceram quando, ao se sentarem na grande mesa, ele perguntou sobre o que acontecera antes do jantar da noite passada, na Toca. Charlie fez uma careta à menção da bendita refeição e Ginny, Hermione e Penelope começaram a rir.
Quando souberam da inesperada viagem dos recém-casados, os irmãos Weasley ficaram muito zangados. Por serem superprotetores, sequer podiam imaginar a hipótese de sua irmãzinha caçula sozinha, mesmo que fosse com o marido, numa praia deserta. Por isso quando Harry e Ginny retornaram da Ilha Soko, seis homens os aguardavam na Toca. Falando alto, reclamando, resmungando e praguejando, Bill, Charlie, Percy, Fred, George e Ron intimidaram Harry, que só faltou ser amarrado e torturado. Como uma boa representante da família Weasley, Ginny se revoltou e deu uma bronca nos irmãos. Afinal de contas, não era mais uma garotinha. Era uma mulher casada. Para piorar a situação, as esposas também se sentiram ultrajadas com a atitude infantil dos companheiros e a discussão agravou ainda mais. Quem silenciou a turma foi Molly. Acostumada a por fim nas bagunças dos filhos, a bruxa deu um sermão, deixando os inconformados irmãos mansos. Enfim, quando Sirius e Remus chegaram para a ceia, encontraram os seis ruivos bem quietos, enquanto Harry e Ginny conversavam animadamente com as cunhadas.
Sentindo-se bem mais animada depois do almoço, Ginny retornou a seus afazeres. Preparou a sala e os materiais necessários para sua primeira aula. Tinha terminado quando recebeu uma nota, pedindo que comparecesse na sala da diretora e informando a nova senha da gárgula, que era bolo de chocolate. Enquanto andava pelos corredores, Ginny pensava que aquela senha nada tinha a ver com Minerva, combinando muito mais com Dumbledore. Chegando diante da estátua, encontrou Hermione, cujo rosto refletia um leve abatimento. A nova professora de Transfiguração pronunciou a senha e as duas jovens entraram no escritório de McGonagall, parando pasmadas ante a visão do lugar.
"Boa tarde Hermione, Virginia", disse a diretora. "Por favor, sentem-se". Observando a reação das ex-alunas, Minerva explicou-se. "Não tive coragem de mudar nada nesta sala... A impressão que tenho é que, a qualquer momento, Albus vai entrar por aquela porta, com Fawkes no ombro, sorrindo e falando sobre algum doce trouxa... Ele era uma pessoa especial". As professoras concordaram com a cabeça, sem coragem de falar nada. Albus Dumbledore fora um dos maiores bruxos da atualidade e morrera tentando proteger Hogwarts e seus alunos. Todos sentiam muito a falta dele.
Depois daquele momento de emoção, Minerva explicou porque havia as chamado até ali. Precisariam de um professor responsável em receber as crianças naquele ano. E seriam muitas, pois desta vez, além de estudantes do primeiro ano, haveriam alunos do segundo e terceiro ano, transferidos de outras escolas da Inglaterra e da Europa. Esta função seria de Snape, como atual vice-diretor, mas Minerva pressentia que ter Severus como primeira visão dos professores de Hogwarts não seria muito animador. Por isso, escolhera a professora Granger. Hermione tinha que recepcionar os alunos na escadaria de entrada, levá-los até a sala preparada e falar-lhes um pouco sobre Hogwarts e sobre a seleção do Chapéu.
"E o que eu farei, diretora?", perguntou Ginny.
"Você ajudará Hermione desta vez, Virginia", respondeu McGonagall. "Como falei antes, teremos muitos alunos para serem sorteados... Alunos do primeiro, segundo e terceiro ano que chegarão aqui sem saber em que casa ficarão. Você vai ajudá-la a manter as crianças calmas, para que não haja tumulto e nem confusão". Depois de tudo combinado, as jovens bruxas se retiraram.
* * *
"Cara, estou morto!", exclamou Eric Duvall, batedor do Chudley Cannons.
Harry tinha que concordar com o colega. O treinador pegara pesado nos exercícios e nos treinos daquele dia. Eles haviam feito alongamento, aquecimento, musculação antes de começarem o jogo, que foi duro. Estavam tão cansados que demoraram a perceber que havia uma coruja marrom, batendo com o bico na janela do vestiário.
"Ei, tem uma coruja aqui", disse Norton, indicando a ave que esperava paciente seu destinatário. "É pra você, Potter!".
Levantando-se, o apanhador retirou o pergaminho atado na pata do animal e a deixou partir. Reconheceu o lacre de Hogwarts e a letra caprichosa de Ginny. Sentando-se um pouco afastado, pôs-se a ler o bilhete da esposa.
Querido Harry,
Você precisa ver como Hogwarts ficou magnífica. Os elfos fizeram um trabalho excelente na decoração do Salão Principal e das Salas Comunais para receber os novos alunos. Infelizmente, não poderei me encontrar com você no Três Vassouras esta noite. O jantar será mais longo do que prevemos e então a Diretora McGonagall reservou quartos para os professores pernoitarem aqui esta noite. Sinto muito. Adoraria que você estivesse aqui comigo, seria maravilhoso. Será que poderia vir, pelo menos, dar um beijo de 'boa-noite'? Aguardarei ansiosa.
Com muito amor,
Da sua Gin.
Harry releu a missiva. O que Ginny tinha em mente? Como ele poderia entrar e encontrá-la em Hogwarts sem ser visto? 'Pense, Harry, vamos...', exigiu-se, passando a mão pelos cabelos. 'Tem que haver um jeito... Você já passou por poucas e boas em Hogwarts que um encontro às escuras com sua própria mulher não deve ser difícil'.
"Algum problema, Harry?", Oliver se aproximou, interrompendo a linha de pensamento do rapaz.
"Não, Oliver... Não é nada. Um bilhete da Ginny, só isso", respondeu o outro, guardando a carta na bolsa.
"Ouvi dizer que ela agora é professora de Hogwarts. É verdade?", quis saber o goleiro.
"Ë sim. Ela está substituindo o Prof. Flitwick. Vai dar aulas de Feitiços".
"Seria bom voltar a Hogwarts", comentou Anderson Müller, um artilheiro que estava sentado próximo a eles. Müller havia se formado no ano anterior a entrada de Harry e fora companheiro de time de Charlie Weasley. Os três começaram a conversar sobre suas aventuras na escola, as paqueras e as constantes corridas, para fugir de Snape, Filch e Madame Morris.
"Cara... Eu daria tudo para poder ficar invisível naquela época... Teria aprontado um bocado com aquele chato do Filch", resmungou Wood. "Ele sempre me pegava quando eu tentava sair escondido para treinar".
O comentário do capitão do time fez a mente de Harry dar um estalo. 'Invisível!? Mas é claro! Como eu podia ter me esquecido?'. Pensando freneticamente, o jovem pôs-se a planejar uma visitinha furtiva a Hogwarts. 'Tenho a capa de meu pai e o mapa... Usando uma das passagens secretas chegarei lá sem problemas'. Despedindo-se dos companheiros, partiu para casa a fim de preparar-se para aquela pequena aventura.
* * *
O expresso de Hogwarts seguia rumo ao norte, cortando plantações e pastos de bois e carneiros. No seu interior, centenas de crianças e jovens esperavam ansiosos a chegada na famosa Escola de Magia e Bruxaria. E conforme o reluzente trem vermelho ia avançando, as paisagens iam mudando: os campos davam lugar matas, rios sinuosos e algumas colinas. O sol brilhante ia dando lugar a um belo entardecer e quando chegaram à Estação de Hogsmeade, já era noite.
"Alunos do primeiro, segundo e terceiro ano! Alunos do primeiro, segundo e terceiro ano! Por aqui, por favor!".
Os novos estudantes se voltaram e encontraram um homem. Ou melhor, um gigante. Possuindo mais de dois metros de altura, o estranho também era forte. Vestia-se com calças de couro e um casaco de pele de urso. E chamava ainda mais a atenção das crianças por ser completamente careca. Ele estava segurando uma lanterna mão. O objeto parecia tão frágil em uma mão tão grande.
Quando estava rodeado de alunos, ele perguntou. "Vocês são os alunos dos anos que chamei?". Alguns assentiram com a cabeça, abismados demais para dizer alguma coisa. Para aumentar o espanto, o homem sorriu gentilmente. "Sejam bem vindas, crianças! Eu sou Titus, o guarda-chaves de Hogwarts, e vou levá-los até a escola. Vem comigo, por favor".
Murmurando baixinho, olhando para todos os lados, querendo registrar tudo o que podiam e tomando cuidado para não escorregar, os garotos e garotas seguiram Titus por um caminho íngreme e estreito, entre grandes árvores, até chegarem a beira de um lago, onde diversas barquinhas esperavam por eles. Mas nenhum deles estava reparando nos barcos ou no lago. Todos olhavam fixamente para frente onde, em cima de um penhasco, erguia-se majestoso o belo castelo de Hogwarts, com suas torres e janelas brilhando contra o firmamento escuro.
"Quatro alunos por barco!", exclamou Titus. "Apenas quatro alunos por barco!". Depois que todos se acomodaram, o gigante também entrou num barquinho, que era só para si. "Todos prontos? Então vamos!".
Num deslumbrado silêncio, eles avançaram pelo lago, que mais parecia um espelho, refletindo a lua e o céu estrelado. Alguns iam boquiabertos, fitando com intensidade, aquele que seria seu lar por nove meses. Abaixaram as cabeças quando passaram por debaixo do penhasco e atravessaram uma cortina de hera. Seguiram por um túnel escuro, iluminado vez ou outra por uma tocha presa na parede de pedra. Pararam quando chegaram a um cais subterrâneo, onde desembarcaram.
"Por favor, fiquem todos juntos!", o vozeirão de Titus soou, enquanto caminharam por uma passagem aberta entre as rochas até alcançarem um belo e fofo gramado.
"Estão todos aqui?", o gigante perguntou, enquanto via os novos estudantes subirem uma escadaria de pedras e parar diante de uma enorme porta de carvalho.
Após três ressoantes batidas, uma jovem bruxa abriu a porta. Ela usava vestes azuis marinho e um chapéu preto cobria sua cabeça. Seus cabelos castanhos claros eram cheios e caiam pelos ombros. Ela olhou atentamente para o grupo de crianças a sua frente, antes de voltar-se para o gigante.
"Aqui estão os novos alunos, Profa. Granger".
"Obrigada, Titus. Cuidarei de tudo a partir daqui", respondeu ela, antes de escancarar a porta. Um enorme saguão iluminado podia ser visto e aos pés de uma imponente escada, outra bruxa aguardava a turma. Quando todos se encontravam dentro daquele ambiente aconchegante, as portas de carvalho se fecharam. Vozes podiam ser escutadas à direita deles, onde os demais estudantes já estavam reunidos.
"Bem vindos a Hogwarts", disse a bruxa que abriu a porta. "Meu nome é Hermione Granger e serei professora de vocês durante os sete anos que estudaram aqui". Ela havia subido em alguns degraus para que pudesse ser vista e ouvida por todos. "O banquete de abertura do ano letivo começará em breve, mas antes de se sentarem às mesas, vocês serão selecionados às casas. Enquanto estiverem aqui, sua casa será uma espécie de família para vocês, por isso a cerimônia de seleção é muito importante".
"Vocês assistirão aulas com o restante de alunos de sua casa, dormirão no dormitório da casa e passarão a maior parte de seus tempos livres na Sala Comunal", a outra bruxa continuou. Ela também usava um chapéu preto, mas era ruiva e usava vestes cor de vinho. "As quatro casas de Hogwarts são Gryffindor, Ravenclaw, Hufflepuff e Slytherin. Cada uma delas tem uma história cheia de feitos e honra, além de terem produzido bruxos e bruxas formidáveis. Enquanto estiverem aqui, seu comportamento refletirá na pontuação de sua casa, ou seja, seus acertos lhe renderão pontos e seus erros a farão perder. No fim do ano, a casa que obtiver maior pontuação receberá, das mãos de nossa diretora, a Taça da Casa".
"A cerimônia de seleção acontecerá logo mais, diante de toda a escola", falou Hermione. "Eu e a Profa. Virginia levaremos vocês até uma sala onde poderão se arrumar o melhor que puderem. Acompanhem-nos, por favor". Ela levou a turma até um aposento não muito longe dali. "Voltaremos quando estiver tudo pronto para receber vocês. Por favor, aguardem em silêncio".
Depois de fechar a porta atrás de si, Hermione olhou para Ginny e sorriu. "Isto não te traz uma sensação estranha? Nostalgia, talvez?".
"Sim", respondeu a ruiva. "Parece que foi ontem, não é? Eu estava tão nervosa... E preocupada... Harry e Ron não haviam embarcado no trem naquele dia...".
Relembrando a aventura do Ford Anglia voador, as duas viram o zelador, Argus Filch, se aproximar confirmando que tudo estava preparado. Elas então voltaram para buscar as crianças e dar início a mais um rito de seleção. Da sala onde a turma esperava, podiam ouvir alguns gritinhos assustados.
"Acho que os fantasmas já foram dar suas boas vindas", disse Hermione, sorrindo.
Minerva McGonagall olhava, de seu lugar, as duas professoras guiarem os novos discentes de Hogwarts até o centro do Salão Principal. Pelos olhares, a bruxa tinha certeza do que aquelas crianças estavam sentindo: admiração, assombro, nervosismo e um pouco do medo. Lembrou-se de si mesma caminhando por entre as mesas, levada pelo Professor Dumbledore. Ela viu Hermione dirigir-se a um canto e voltar trazendo um banquinho de três pernas. Em cima deste, havia um velho chapéu de bruxo, todo esfarrapado, remendado e sujo, que se pôs a cantar assim que a jovem se afastou. Era uma música alegre, onde o Chapéu falava de sua capacidade de ver o que havia na cabeça dos alunos e escolher sabiamente em que casa cada um ficaria. Todos aplaudiram quando ele terminou.
"Quando eu chamar seus nomes, vocês se sentem no banquinho e coloquem o chapéu na cabeça", disse Hermione, segurando um longo rolo de pergaminho. "Começarei pelos alunos do terceiro ano". Ela fez uma pausa, abriu o papel e chamou o primeiro nome. E assim, um por um, os alunos do terceiro ano, que não tiveram a oportunidade de estudar em Hogwarts, foram chamados e selecionados para suas respectivas casas, cujas mesas aplaudiram e davam vivas sempre que o nome de sua casa era anunciado. "Agora os alunos do segundo ano", disse ela, depois de pegar um novo rolo de pergaminho com Ginny. E então os alunos que cursariam o segundo ano foram escolhidos. "E, finalmente, os alunos do primeiro ano". As aclamações e vivas continuaram até que o último aluno fosse escolhido.
Depois que a seleção foi encerrada, Minerva se levantou de seu assento dourado. Apesar de toda sua experiência, sentia-se insegura e um pouco nervosa. Dirigir uma escola como Hogwarts era um passo muito importante na sua vida. E se não conseguisse dar conta? E se os pais se revoltassem contra sua administração? E se... E se... Inúmeras dúvidas assaltavam a mente da mulher enquanto se preparava para fazer seu discurso. Tinha certeza que jamais seria como Albus... Olhou para os estudantes, que aguardavam inquietos e famintos. Depois fitou os professores e um olhar, em especial, a reconfortou. Dentre todos as pessoas que trabalhavam em Hogwarts, Severus Snape fora tão próximo do antigo diretor quanto Minerva e ele sabia exatamente como ela se sentia. Respirando fundo, ela fechou os olhos e teve a impressão de escutar uma voz gentil e extremamente feliz. "Não se preocupe, Minerva. Vai dar tudo certo". Reabrindo os olhos, Minerva McGonagall sorriu.
"Caros alunos, sejam bem-vindos a Hogwarts!".
* * *
Sentado num canto do grande salão, Harry observava a cerimônia, admirado. Ginny tinha razão quando dissera que Hogwarts ficara magnífica. Faixas e estandartes, com as cores e brasões das quatro casas, enfeitavam as paredes enquanto as antigas velas flutuantes foram substituídas por belos lustres.
Voltando sua atenção para a mesa principal, o bruxo passou a observar o novo grupo de professores. Minerva McGonagall, como a nova diretora, estava no centro, ocupando o lugar mais alto. Ao seu lado direito, estava Severus Snape, atual vice-diretor. Na seqüência, Harry podia ver Rolanda Hooch, Flora Sprout, Thera e Morgan Du Lac, Ginny, Hermione, Irma Pince e Binns, o professor fantasma. Do lado esquerdo estavam Pergamo Rolls, Meridian Sinistra, Alexas Vector, Remus, Sirius, Charlie, Penny, Poppy Pomfrey, Filch e Titus, o guarda-chaves.
O olhar do rapaz pousou na sua jovem mulher, que conversava animadamente com Mione, Morgan e Thera. Ela retirara o chapéu e era possível ver os cabelos vermelhos, presos numa elegante trança. As luzes dos lustres e dos archotes refletiam nas madeixas ruivas, fazendo-as cintilar como cobre reluzente. Ginny estava deslumbrante com o vestido cor de vinho, confeccionado especialmente para aquela ocasião. Um sorriso formou-se nos lábios de Harry ao tentar imaginar a cara da esposa quando o encontrasse ali. Fechando os olhos, repassou os últimos acontecimentos do dia.
Depois de receber o bilhete, Harry partiu depressa para casa onde, depois de um bom banho, procurou dois objetos de grande valor, não apenas por sua utilidade, mas também pelo fato de terem pertencido a James Potter, seu pai. Eram a Capa de Invisibilidade e o Mapa do Maroto.
Com tudo o que precisava nas mãos, Harry então passou a planejar cada passo de sua entrada em Hogwarts. Chegaria em Hogsmeade às seis da tarde, horário em que o trem, vindo da estação nove e meia, estaria chegando. Usando a Capa de Invisibilidade, entraria na Dedos de Mel e iria até o porão onde, através do alçapão, poderia entrar numa das passagens secretas que levariam até a escola. Graças ao mapa, ele sabia que aquela passagem ainda podia ser utilizada.
Depois de tudo preparado e planejado, Harry partiu para a vila de bruxos próxima a Hogwarts e tudo seguiu maravilhosamente. Ninguém percebera que ele entrara na loja e nem que chegara ao porão. No túnel escuro, ele descobriu a cabeça e pegando sua varinha, murmurou 'lumos', para iluminar o caminho. Pelo mapa, podia ver a movimentação no castelo. Não demorou muito e alcançou a estátua da bruxa corcunda de um olho só.
Atravessando por corredores vazios, Harry esgueirou-se até o Salão Principal onde, aos poucos, os professores iam tomando seus lugares, conversando entre si. Viu Ginny e Hermione entrarem, acompanhadas da Diretora McGonagall, seus semblantes sérios. Minerva trazia nas mãos o Chapéu Seletor. Quando terminaram de ouvir a bruxa, as duas jovens partiram, enquanto a outra se sentava na cadeira dourada, no centro da mesa.
Momentos depois, a enorme porta de carvalho do Salão se abria e centenas de alunos entravam. A cacofonia produzia pelos jovens fez Harry relembrar de seus anos de escola e de como se sentia feliz ao chegar em Hogwarts. Vendo os grupos se dividirem e se sentarem nas mesas de suas casas, o apanhador dos Cannons concluiu que eram os alunos do quarto ano para cima.
Quando todos estavam já acomodados, a porta novamente se abriu, mas para dar passagem a Hermione que conduzia um grande grupo de crianças até o meio do salão. No fim daquela turma, Harry avistou Ginny, que sorria para uma garotinha que segurava sua mão. Eram os alunos que seriam selecionados pelo chapéu.
Rever aquele ritual, depois de todos os últimos acontecimentos, suscitou em Harry raiva, tristeza, saudades, alegria, tudo ao mesmo tempo. Raiva de Voldemort e seu ódio insano, que foi capaz de fazer tanto mal às pessoas apenas por ambição e vingança. Tristeza pelas diversas de famílias mortas durante os anos de trevas que cobriram o mundo dos bruxos, cujos filhos jamais poderiam estudar naquela admirável escola. Saudades de seu professor, conselheiro e amigo, Albus Dumbledore, que não estava ali presente para poder ver Hogwarts brilhar novamente, como se tivesse ressurgido das cinzas como uma fênix. E alegria por poder estar vivo e testemunhar aquele momento sem igual.
Os pensamentos do jovem foram interrompidos quando Minerva fez o seu discurso final, dando por encerrado aquele farto banquete. Depois das recomendações de praxe, ela convocou os monitores e os chefes de cada casa para levarem os alunos para seus dormitórios.
"Juro solenemente não fazer nada de bom", murmurou Harry, pegando o mapa e tocando-o com a varinha, quando o salão ficou novamente vazio. No mesmo instante, diversas linhas finas começaram a se espalhar pelo velho pergaminho, abrindo-se como um leque e mostrando o mapa de Hogwarts e suas adjacências.
Acompanhando um pontinho de tinta onde se podia ler abaixo 'V. Potter', Harry levantou-se e partiu atrás da amada, um sorriso travesso adornando seus lábios.
* * *
A janela dos aposentos reservados para Ginny dava para o lago de Hogwarts que, naquele momento, estava bem tranqüilo. 'Talvez a lula esteja dormindo', pensou a jovem. 'Ou então está fugindo de alguns sereianos'.
Por que estava tendo aqueles pensamentos idiotas? Por que não queria pensar no marido naquele exato momento. Estava com saudades de Harry, apesar de terem se visto pela manhã. Esperava que ele tivesse recebido seu bilhete. Será que ele conseguiria aparecer? Suspirando, começou a trocar de roupa.
Estava se preparando para deitar quando viu um pedaço de papel passar por debaixo da porta. Curiosa, apanhou e leu a notinha:
Encontre-me na Torre de Astronomia. H.
"Harry!", o coração de Ginny deu um salto. "Ele está aqui!".
E pegando a capa que usara no jantar, partiu apressada para a Torre, local preferido dos namorados de plantão. A sorte estava do seu lado, pois, durante todo o trajeto, não viu nenhum sinal de Filch e sua gata ou de Snape. Ao chegar no local de encontro, entrou ligeiramente, olhando para os lados a procura do marido. Avançou até chegar na grande janela do observatório.
"Harry? Cadê você?", chamou ela. Ele não respondeu, mas Ginny sabia que ele estava ali. Podia sentir. Virou-se rápido ao perceber um movimento atrás de si. Viu a porta se fechar e se trancar 'sozinha'. Um arrepio correu-lhe pelas costas. "Harry...".
"Fiquei sabendo que alguém queria, desesperadamente, um beijo de boa-noite...", ele falou, a voz grave e rouca. Enquanto dava cada passo, Harry ia se descobrindo até que, centímetros dela, ficou completamente visível. "Acho que posso resolver este problema". Terminando de falar, ele a abraçou e beijou.
Derretendo-se nos braços fortes, Ginny se entregou à carícia, esquecendo-se completamente do mundo a sua volta. Isso sempre acontecia quando estava com Harry. Perdia a noção de tempo, espaço... Separaram-se momentos depois, ofegantes.
"Que bom que você veio", murmurou ela, aconchegando-se a ele. "Foi difícil de entrar?".
"Não", Harry sorriu. "Você sabe como é... Tenho métodos infalíveis para chegar até aqui...".
Ficaram em silêncio por alguns instantes, sentindo a presença um do outro, até que uma risada baixinha trouxesse Harry de volta a realidade.
"O que foi?", ele perguntou.
"Lembra-se a primeira vez que estivemos aqui?".
"Como poderia me esquecer?", o jovem respondeu, olhando para o céu estrelado. O desastrado encontro amoroso ocorrera durante o início do sétimo ano de Harry. Ele e Ginny estavam namorando às escondidas, temerosos do que poderia acontecer se algum Comensal ou até mesmo Voldemort descobrisse o romance. Depois da trabalheira que tivera fugindo de Filch, Snape e Ron, cuja superproteção havia se tornado estranhamente extrema de uma hora para outra, o jovem casal chegou à torre, mas teve uma desagradável surpresa. O observatório já estava ocupado. "Ver Draco e Pansy aos agarros não era o que eu tinha em mente naquela noite...", ele comentou rindo.
"E o que tinha em mente, Sr. Potter?", ela indagou, numa voz sensual.
"Acho que é melhor mostrar do que falar, Sra. Potter", disse ele antes de beijá-la com ardor.
E novamente mergulhados no seu mundinho, os jovens não escutaram os barulhos vindos da porta e nem uma voz gritar 'Alohomora' do lado de fora.
"Ora, ora... O que temos aqui?", a figura de Severus Snape podia ser vista na porta recém escancarada. "Sr. e Sra. Potter... Eu esperava isso dos alunos, mas não de vocês dois...".
* * *
Estar constrangido era pouco para o casal sentado a sua frente, pensava Minerva McGonagall, enquanto seu amigo Severus andava de um lado para outro resmungando coisas como 'que pouca vergonha...', 'logo no primeiro dia de aula...', 'dois adultos...'. A diretora se esforçou para segurar um riso. Respirando fundo, voltou-se para a professora e seu marido.
"Harry, Virginia... Eu sei que vocês são jovens e acabaram de se casar... Entendo que ainda estejam em lua de mel e que queriam ficar juntos... Mas, por favor, restrinjam suas atividades maritais aos aposentos de Virginia aqui em Hogwarts. Não quero alunos tendo a impressão errada de qualquer um dos meus professores, certo?". E os dispensou, sorrindo simpaticamente.
"Não havia necessidade de trazê-los aqui, Severus", falou ela, fitando o vice-diretor. "Você me acordou por nada".
"Como assim, por nada?!", Snape tinha vontade de socar uma parede. Por vários anos desejara pegar Potter ou algum dos Weasley aprontando alguma... E agora que conseguia, Minerva dizia que não era nada. "Eles estavam numa sem vergonhice total na Torre de Astronomia... Quem sabe o que aconteceria se eu não chegasse a tempo?".
"E o que você quer que eu faça, Severus?", Minerva cursou os braços e ergueu uma sobrancelha. "Colocar uma professora de castigo? Aplicar detenção num ex-aluno?".
Severus bufou indignado. Sua vida estava virando um inferno. Já bastava ter que conviver com Sirius Black todos os dias, ter uma invasão de Weasleys no quadro docente além, é claro, de ser perseguido por Morgan Du Lac, que a todo instante dava palpites sobre poções... Ainda bem que tinha Rolanda... Era incrível como apenas a lembrança dela o acalmava.
"Você não tem medo de que isso se repita?", ele perguntou por fim.
"Não, não tenho", McGonagall respondeu com firmeza. "Harry e Virginia são jovens, mas são ajuizados. Acho que o constrangimento que passaram hoje será o suficiente para mantê-los na linha". 'Pelo menos por enquanto...', disse ela a si mesma.
Cético, Snape apenas a fitou. Não tinha a mesma confiança no casal Potter que Minerva, mas isso não era assunto para se discutir naquele momento.
"Além do que, Severus", a diretora deu um pequeno sorriso, como se soubesse de algo que ele não sabia. "Você em breve entenderá o por quê deles terem agido desse modo...".
"O que quer dizer com isso?". Ele não estava gostando do rumo daquela conversa.
"Responda-me depois que se casar com Rolanda".
Sentindo todo seu sangue subir para o rosto, Severus abriu a boca uma, duas, três vezes para responder, mas não conseguiu. Resolveu então que uma saída honrosa era a melhor opção. Pediu licença e se retirou.
Rindo do amigo, Minerva colocou os cotovelos na mesa de mogno. Snape pensaria bem antes de mexer com Harry e Ginny novamente.
"E o ano apenas está começando...", ela suspirou, apoiou o queixo entre as mãos.
* * *
"Oh, Ginny... Eu não acredito!".
Hermione não conseguia mais controlar as risadas quando sua amiga terminou de contar o que acontecera na noite anterior. Queria ser uma mosquinha e ter visto tudo pessoalmente. As duas caminhavam pelos corredores após o café da manhã. Ginny lecionaria para uma turma de primeiro ano de Gryffindor e Ravenclaw, enquanto Hermione pegaria os alunos de Hufflepuff e Slytherin, também do primeiro ano. Era a primeira aula de ambas.
"Pode acreditar, Mione...", Ginny também sorriu. "Nunca passei tanta vergonha".
"E Harry? Onde ele está?".
"Foi pra casa bem cedo, via flú", a ruiva respondeu, parando diante da porta de sua sala. "Vou ficar por aqui, amiga... Boa aula e boa sorte pra você!".
"Pra você também, Ginny!", falou a outra, que seguiu seu caminho. "A gente se vê no almoço!".
Não demorou muito para os alunos da aula de Feitiços chegarem. Eles encontraram a professora esperando, com um sorriso simpático, de pé ao lado da mesa. Todos reconheceram-na como uma das bruxas que os recebera na noite anterior.
"Bom dia a todos!", disse ela, depois que todos se sentaram e fizeram silêncio. "Bem vindos à primeira aula de Feitiços. Meu nome é Virginia Potter e serei a professora dessa disciplina neste e nos próximos seis anos em que estiverem aqui".
Um burburinho tomou conta da classe. Um menino de cabelos castanhos, trajando as vestes de Gryffindor ergueu a mão.
"Professora, a senhora disse Potter?", ele perguntou, com os olhos arregalados. "Igual ao Harry Potter, o apanhador do Cannons?".
Ginny olhou para turma. Os alunos fitavam-na ansiosos, com olhos brilhantes. "Sim, isso mesmo". O barulho aumentou consideravelmente.
"Uau! A professora é casada com Harry Potter!".
"Eles derrotaram o Lorde das Trevas... Meu pai me disse!".
"Eu li a reportagem sobre o casamento deles no 'Bruxa Semanal'. Ela estava tão bonita!".
"Cara, Harry Potter é o melhor apanhador dos últimos tempos!".
"Nós somos da mesma casa que ele...".
"Você sabia que ele foi o mais novo apanhador do século aqui em Hogwarts? Ele é o máximo!".
"Pena que ele não foi contratado pelo Puddlemere...".
"Professora, a senhora pode me pedir um autógrafo?".
Tonta com toda aquela agitação, Ginny respirou fundo. Tinha imaginado que haveria algumas reações quando soubessem quem ela era, mas não tinha esperado aquela comoção. 'Este será um longo dia', ela pensou, revirando os olhos.
Na sala de Hermione, as coisas correram mais tranqüilas. Sentada e lendo suas anotações, a bruxa viu seus alunos entrarem excitados, esperando poder realizar maravilhas como transformar um livro num abajur ou uma cadeira numa tartaruga. Depois de se reapresentar, Mione começou a aula.
"Transfiguração é uma das mágicas mais complexas e perigosas que vocês irão aprender na escola. Requer muito estudo e habilidade, além de muita dedicação", dizia ela, enquanto levantava-se e transformava seu chapéu num lindo gatinho e depois o re-transformava de volta, arrancando exclamações de admiração dos alunos. "Não pensem que é fácil transfigurar um objeto, uma pessoa ou um animal... Vocês logo perceberão que isso é muito mais que uma brincadeira. Por isso, quero sua atenção total. Nada de conversas paralelas ou gracinhas durante muita aula. Agora, peguem seus livros e abram no capítulo um, por favor".
Para as turmas do quinto ao sétimo ano, o dia fora cheio de surpresas, pois além das disciplinas normais, eles teriam duas matérias opcionais: Animagia e Duelos. O professor Black conquistou a simpatia de todos no primeiro momento. Suas aulas eram divertidas, cheias de práticas e dinâmicas para um aprendizado melhor e mais rápido, sem contar os suspiros dados por algumas alunas quando o animago sorria. E Morgan Du Lac também causou boa impressão nos jovens, que praticamente babavam enquanto a professora de Duelos explicava como se defender e esquivar de um feitiço.
E assim o dia foi transcorrendo normalmente na escola, até o soar o sinal indicando o término das aulas...
No fim da tarde, depois de responder inúmeras perguntas sobre si mesma e sobre Harry, Ginny se sentia cansada, mas feliz. Sentia-se realizada. Dar aulas era fabuloso... Explicar como usar a varinha pela primeira vez, os movimentos de mão, ensinar novos feitiços e ver seus alunos realizando-os com facilidade. Era muito bom. Depois de conversar com a diretora e avisar que iria para casa aquela noite, a jovem caminhava em direção a seus aposentos, quando ouviu um tumulto no saguão de entrada. Aproximou-se e suprimiu uma risada.
Um grupo bem animado de estudantes rodeava um bruxo de descontrolados cabelos negros e grandes olhos verdes, que brilhavam atrás de um óculos de lentes redondas. Harry tentava atender a todos como podia, enquanto Filch fazia careta, soltando bufos, Madame Morris miava aborrecida e Titus parecia se divertir.
"Muito bem, pessoal!", exclamou ela, dispersando a turma. "Chega por hoje! Vocês terão muitas oportunidades de falar com o Sr. Potter... Voltem para suas Salas Comunais, por favor".
Levantando os olhos, Harry se sentiu aliviado com a ajuda da esposa. Dando um último autógrafo, viu os alunos se afastarem, sorridentes e felizes por terem estado tão perto do famoso astro de quadribol.
"Obrigado, Gin", disse ele quando ficaram sozinhos. "Já estava com medo de ser pisoteado por eles...".
"Então você faz idéia de como foram minhas aulas". Ela comentou sorrindo, conduzindo-o pelo braço até seus aposentos. "Estou cheia de pedidos de autógrafos e fotografias... E também recebi alguns olhares ressentidos de algumas fãs de quadribol do sexto e sétimo ano...".
"Sinto muito, Gin...", suspirou Harry. "Sabe, odeio ser tão famoso...".
"Não se preocupe, meu amor", a bruxa o beijou no rosto. "Não é culpa sua. Logo que eles se acostumem com a novidade, tudo se acalmará. Você vai ver...".
Apanhando todas suas coisas, Ginny se aproximou da lareira enquanto Harry apontava a varinha para esta e dizia "Incêndio!". Tirando um pouco de pó de flú do pote em cima do aparador, ele jogou nas chamas, que ficaram verdes imediatamente. Dando-se as mãos, os dois gritaram ao mesmo tempo: "Casa dos Potter!". E num estalo, sumiram.
* * *
Nossa... Mais um capítulo grande... Realmente estou me divertindo muito escrevendo este fic. Espero que vocês também estejam gostando.
Bem agora vamos a alguns agradecimentos. Primeiro, eu estou muito grata pelos reviews postados aqui. E segundo, quero agradecer a BuffyHaliwell e a MarianaMaiz, pelos comentários. Muito obrigada por citarem nossas histórias em seus fanfics. Gente, quem não leu ainda "Anos Incríveis" (Parte 1 e Parte 2) e "A resposta para o futuro está no passado", não perca tempo e leia! São contos muito bons, vocês vão gostar!
Quero dedicar este capítulo a minha amiga, mestra, conselheira e irmã Fabi, por toda ajuda que está me dando. Valeu, Mana! E a Amanda, outra amiga especial, que está fazendo um trabalho maravilhoso em "Novas Esperanças" (outro fic maravilhoso, você precisam ler também!). Um beijão, Amandinha!
Um grande abraço a todos e até o próximo capítulo.
