Apego...praticamente uma doença, não? Aquilo sempre passava pela cabeça dela. Desde quando tinha conseguido o contato com aquele paciente naquela situação antiética, desde quando começaram a se encontrar, sempre se imaginava doente, como se alguma virose tivesse prejudicado seriamente suas capacidades mentais e deixado-a completamente dependente de um total desconhecido.
Era a terceira vez na semana que ela acordava naquela cama que não era sua com braços a envolvendo que mesmo sem querer a repeliam. E mais uma vez ela teve o mesmo monólogo de arrependimento, conferiu se ele dormia e se levantou silenciosamente na ponta dos pés para chegar até a porta como se estivesse tentando salvar a própria pele, mas se ela estava fugindo de alguma peste, claramente era o mesmo pensamento.
Chegando em casa, deparou-se com a amiga no sofá.
-De novo Seraphina?
-É!
-Você não ia parar?
-Eu paro, todos os dias. Você está sozinha aqui?
-Estou sim.
-Onde está o Kardia? Ele não veio?
-O problema é esse. Ele sempre vem. Sempre está aqui. Sempre está na minha cama, como você sempre está na de Dégel. E o casamento deles? Eu não entendi absolutamente nada. Eles se casam, no cartório e tudo, nos convidam e não nos deixam em paz?
-Eu estou cansada. Pedi uns dias de folga. Vou pra casa do meu pai, mas finge que não sabe onde eu estou, por favor?
-Claro!
-Acho que devemos mudar de cama Calvera, acho que devemos mudar tudo isso.
Passaram alguns dias e Seraphina manteve a palavra de sumir por uns dias, não sem que produzisse uma comoção e uma inquisição por parte de Degel, a qual Calvera resistiu bravamente.
Sem Seraphina, Calvera estava sem chão. Sua melhor amiga, por mais insana que fosse, estava sempre lhe dando suporte e agora ela se encontrava incomunicável, o que fazia com que Calvera ficasse ensandecida, sem noção do que estava acontecendo. Só tinha uma solução para esse dilema mental: fumar sem parar. Foi o que ela fez, fumou por dias, sem parar, criando uma bruma praticamente intransponível. Tentava aspirar a fumaça, em uma espécie de suicídio lento. Não aguentava mais, mas a fumaça não foi o suficiente para sufoca-la. Nem para deixa-la surda, já que ouvia o bater na porta. Achou que era Seraphina finalmente retornando, mas a amiga tinha a chave, então, somente uma pessoa iria procurá-la a essa hora. Kardia.
Acendeu mais um cigarro e foi se arrastando até a porta. Ouviu um bater desesperado, colocou a mão na maçaneta, como se estivesse fervendo e o deixou entrar.
-Não me ouviu batendo?
-Ouvi.
-Por que demorou tanto?
-Não quero transar com um gay enrustido hoje.
Quando a frase deixou seus lábios ela já havia se arrependido, mas ao mesmo tempo, se sentiu livre. Não queria deixar de conviver com ele, contudo, aquilo era demais. Ele era casado legalmente com outro homem e vivia atrás dela. Como se nada no mundo importasse, e ela? Se submetia a essa situação catastrófica. Tinha aceito cada investida, cada contado, cada carinho, como se não importasse que ele nunca fosse verdadeiramente dela. Como se cada vez que se visse, se unissem, fosse uma espécie de punição por tê-lo perdido no passado, quando o drama foi demais para ambos aguentarem.
"Calvera...
"Não, me deixe falar. Eu não quero mais Kardia. Não quero mais você. Eu estou cheia de estar no seu caminho, entre você e o Dégel, que também deveria deixar a Seraphina em paz. Ela desapareceu. Ela fugiu dessa loucura a qual eu não consigo abandonar. Que merda! Eu não quero mais isso. Vai embora daqui."
Kardia ficou lívido, jamais esperava que ela realmente fosse rejeitá-lo. Estava acostumado a fazer o que bem entendesse e nunca nem se preocupou com os sentimentos dela, com o que ela desejava. Sempre esteve muito claro que ela lhe pertencia, mesmo quando não estavam juntos, mesmo quando ela estava com outros, mas a alma dela, essa sim, somente dele. Contudo, nunca ouviu uma recusa da parte dela, não sabia como se portaria neste momento. Ela que sempre lhe pareceu tão disponível.
Talvez fosse uma daquelas tentativas da mulher em fazer um charme para o homem, claro, um jogo novo de sedução. A mulher que ele amava, apesar de nunca ter dito isso em voz alta, jamais lhe repudiaria.
"Te repudio Kardia, saia da minha casa. Fique longe de mim."
Ele ainda não tinha se dado conta da resolução dela quando se viu sendo jogado para fora e ouviu a porta ensurdecedora.
