Disclaimer: Harry Potter, personagens e lugares, não me pertencem.


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CAPÍTULO 04: A LINHA

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The devil's right there in the details
You don't wanna hurt yourself, hurt yourself
by looking too closely

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22 DE SETEMBRO DE 2006

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HERMIONE TEVE um sonho esquisito, algumas semanas após a morte de Ron. Era um sonho recorrente, um dos sonhos que a levaram a apelar às poções e remédios para parar de tê-los. Ela caminhava por um corredor longo, em que as luzes se acendiam conforme ela pisava, mas estas não iluminavam muito. O corredor terminava em uma sala qualquer, genérica, que cheirava a alguma coisa podre. Theodore Nott estava ali – ou quem ela pensava ser Theodore Nott, porque ela mal se lembrava do rosto adolescente dele em Hogwarts – deslizando a ponta da varinha pela têmpora de Ron. Os cabelos ruivos dele estavam úmidos de suor e os olhos azuis arregalados de medo.

Algumas das vezes ele se encontrava amordaçado e amarrado, em outras se contorcia no chão em razão da dor provocada pelos Crucio que saiam da varinha de Nott. Nott, aquele menininho mirrado que nunca fora protagonista de nada, que nunca se destacara em nada. Ali estava ele, se destacando em torturar o amor de sua vida. Hermione tentava se mexer, correr até ele e salvá-lo, mas ela não existia. Ela não existia e isso a impedia de fazer qualquer coisa.

"A guerra já acabou! Por que você está fazendo isso?!" Ron perguntava quando não estava amordaçado.

Ela sempre acordava naquele momento, com suor frio em sua nuca, muito embora nunca em sobressalto. Sabia, racionalmente, que Ron representava seu subconsciente inconformado com o fato de que Nott nunca responderia aquela pergunta. Ela acordava e fazia uma xícara de chá e ficava pensando e pensando até que o sono voltasse a dançar em seus olhos, já quando os primeiros raios da manhã tingiam o horizonte com tons pastéis.

Não gostava das poções do sono, ou dos remédios que os trouxas enfiavam goela abaixo para dormirem. Tampouco gostava da falsa sensação de cabeça vazia que as substâncias proporcionavam, da lentidão permanente no dia seguinte, e ainda daquela sensação de estar dopada. Sabia que não era certo começar e parar com remédios daquele tipo, mas pelo menos era uma forma de não se viciar, de continuar se levantando para comer, trabalhar, voltar a viver da forma que Ron gostaria que ela fizesse.

Mas agora ela estava ali – quase três meses depois de começar a se esquecer de tomara medicação – olhando para os frascos e as pílulas, com o coração disparado e o peito ofegante, prestes a tomar tudo de uma vez só e nunca mais acordar. Nunca mais sonhar.

Há duas horas tinha acordado em sobressalto. Isso porque voltara a atravessar o corredor que a levava à sala qualquer em que Ron e Nott estavam. Daquela vez, o ruivo não estava amordaçado. Ele gritava e chorava com a dor da Cruciatus e ela podia ver as lágrimas molharem seu rosto sardento. Seu peito subia e descia em uma respiração descontrolada – ela queria tanto existir, queria tanto chegar até ele, queria tanto se jogar na frente dele quando o feitiço estivesse para atingi-lo, protegê-lo com seu amor.

Mas havia algo de diferente naquele sonho. O ar não tinha cheiro podre. Ele tinha cheiro de fumaça e nicotina e alguma coisa mentolada. E quando ela viu, não era mais Nott quem estava ali. Era Draco Malfoy, com o cigarro artesanal entre os dedos, o uniforme da prisão e o sorrisinho sarcástico no canto dos lábios.

"A guerra já acabou," Ron repetiu como de costume. "Por que você está fazendo isso?!"

Malfoy encarou-a diretamente para ela com os olhos cinzentos.

"Porque se fosse mais fácil, nós não teríamos motivo para nos vermos duas vezes por semana."

Hermione olhou todos aqueles remédios e poções designados para que ela não sonhasse nunca mais, e as fotos paralisadas de Ron nos porta-retratos olharam para ela. O flat da hospedagem em Rosyth parecia tão pequeno, tão fechado. Ela abrira todas as janelas mas o ar fresco parecia não querer entrar em seus pulmões.

Foi só um sonho, ela tentou se agarrar ao que ainda sobrava de racional dentro de si, naquele momento. Não significava nada. Era o seu inconsciente reagindo à uma cena ridícula, à uma brincadeira que Malfoy tinha achado engraçadinho fazer. Aquele nojento. Não significava que ela tinha prendido a respiração quando ele se aproximara, não significava que uma sensação parecida com um choque leve tinha subido por sua espinha. Ela nem se lembrava daquela cena, se fosse honesta. Apenas a frase tinha ficado em sua cabeça. Não significava nada.

Não tomou as poções e os remédios. Aquilo só desaceleraria suas faculdades mentais. Colocando todos os frascos e caixas dentro da gaveta de onde os tinha tirado, resolveu fazer uma coisa que não fazia há meses. Uma coisa que não fazia a tempo demais.

Ela telefonou para Harry Potter.

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17 DE FEVEREIRO DE 2003

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Liam Houston amava Ginny Weasley. Ele a amava como se tivesse uma orquestra tocando lindas melodias em seu ouvido o tempo inteiro. Ele a amava ao acordar e antes de ir dormir. Ele a amava enquanto dormia, porque ele sonhava com ela. Ele a amaria mesmo que ela fosse feia – mas ela não era. Ela era tão linda e sentir o perfume doce dos cabelos dela era como se seus membros recebessem uma boa dose de estimulante. Ao inspirá-lo, ele sentia que podia fazer qualquer coisa. Poderia andar sobre a água, feito Jesus Cristo. Poderia arrancar uma árvore pela raiz e atirá-la longe, feito um idiota. Qualquer coisa.

Eles tinham se conhecido em Hogwarts. Liam também era da Grifinória, do mesmo ano que ela, mas sua amizade com Ginny se iniciara apenas no sexto ano, quando treinavam juntos no time de quadribol. Ela usava os cabelos compridos presos num rabo de cavalo quando lhe atirava as goles. Sua risada tinha o poder de contagiar tudo e todos, e ela gostava de rir principalmente quando ele levava um balaço na cabeça ou alguma coisa assim. Mas ela também sempre chegava perto dele e tocava seu rosto e perguntava se ele estava bem.

Liam Houston sabia que Ginny Weasley era namorada de Harry. Harry, o capitão do time. Harry, o melhor amigo do irmão dela. Harry, o Potter. O Menino-Que-Sobreviveu. Ele também sabia que o relacionamento deles não era nenhuma fachada, não era nada infeliz. Por isso mesmo, quando começou a amá-la, ainda aos dezesseis anos de idade, ele se sentiu a pior pessoa do mundo. Ele não queria ser o cara que iria tentar roubar a namorada do salvador do mundo bruxo. Ele não seria esse cara.

O tempo e a distância deveriam ser fatores fortes o suficiente para desligar um sentimento. As circunstâncias também.

Quando Hogwarts terminou, Ginny se mudou para o interior da Inglaterra, por um período, para se especializar em jornalismo. Sonhava em trabalhar para O Profeta Diário. Já Liam tinha passado, para sua própria surpresa, na Escola para Aurores do Ministério da Magia. Harry Potter, Ron Weasley e outros rapazes com quem estudara em Hogwarts já estavam em treinamento ali. Liam tinha alguma dificuldade, mas Harry e Ron (parte por gostarem dele como jogador de quadribol, parte por saberem o quanto ele e Ginny eram próximos) o ajudavam bastante.

Quando o Departamento de Aurores deixou de existir (o Ministro tinha sido corrompido, na teoria de Harry) e foi substituído por uma outra espécie de polícia, Ron o chamou para conversar em uma cafeteria qualquer em Londres. Ginny foi com ele. Ela o abraçou por minutos e ele sentiu tudo que tinha reprimido nos últimos tempos voltar de uma forma incontrolável, como se fosse vômito subindo pela garganta. Depois, segurando seu braço, comentou que ele estava mais fortinho. Liam sentiu vontade de sair correndo.

Os irmãos sentaram-se ao lado oposto do dele na cafeteria. Eram bastante parecidos, com a exceção dos olhos. Os cabelos de Ron também eram diferentes. Eles cacheavam um pouco nas pontas, dependendo do comprimento. Os de Ginny eram lisos como um pedaço macio de tecido. Numa conversa rápida, Ron lhe explicou o que era a Ordem da Fênix e porque ele e Harry queriam que Liam fizesse parte dela.

Eles todos tinham se mudado para a Escócia. O principal homem da Ordem, um negro forte chamado Kingsley Shacklebolt, dizia que estavam mais seguros ali. Temos poucos homens, ele dizia. Voldemort criou um verdadeiro exército. A resistência do Ministério não é mais confiável. Estratégia é tudo, ele não cansava de repetir. Estratégia é tudo.

Demorou algumas semanas para Liam perceber que Harry Potter não estava mais ali. Estratégia. Nem Ron ou sua namorada, Hermione Granger; nem mesmo Ginny, ninguém sabia onde a Ordem tinha escondido o que eles chamavam de Arma Secreta. Liam nunca tivera oportunidade de entender porque diabos Harry era o tal Escolhido, mas no fundo, desde que aquelas atrocidades contra trouxas e nascidos-trouxas parassem, não fazia muita diferença.

Tinham escolhido Glasgow exatamente por ser a casa do outro banco bruxo nas Ilhas Britânicas. O Gringotts escocês ficava bem ali, na George Street, num "Beco Diagonal" chamado Somairlie, escondido numa entrada sem graça entre um Burger King e um supermercado. Segundo Shacklebolt, muitas famílias tradicionais tinham parte de suas fortunas guardadas ali – preferiam esconder seu ouro longe do Ministério. Os malditos duendes não tinham permitido o congelamento das contas, mas concordaram que qualquer um que quisesse tirar qualquer quantia deveria passar pelo pente fino da Ordem primeiro. Você recua, mas corta os recursos, ele dissera. Você deixa o outro passar fome até não poder mais lutar.

Liam achava meio cruel. Ele também não gostava quando tinham ação. Passava mais tempo com Ginny do que nunca na sede da Ordem, enquanto ela procurava por trabalho nos jornais trouxas locais para ganhar qualquer dinheiro. Ela queria criar um jornal clandestino para dar notícias sobre as verdades da guerra. Liam prometeu ajudá-la. Eles já não recebiam mais o Profeta, mas sempre compravam nas bancas do Beco Somairlie, e a impressão passada era a de que nada estava acontecendo.

Estava começando a tomar forma. Ele chamaria Potterwatch*, para que as pessoas soubessem que Harry não tinha desistido – como acusavam as reportagens do Profeta – e eles tinham passado horas juntos fazendo as primeiras edições. Ginny sempre insistia para que ele fosse dormir cedo – Liam e Ron costumavam passar o dia inteiro na ronda do Gringotts e também do bairro bruxo em Dumfries, a quilômetros dali, para onde aparatavam – mas ele nunca ia.

Harry a escrevia, às vezes. As corujas pardas chegavam de tempos em tempos, às vezes semanas, às vezes meses. Ela ainda alimentava Edwiges, a coruja-da-neve que pertencia à ele, e a soltava para voar de vez em quando, mas ela chamava muita atenção para entregar as cartas. Alguém poderia rastreá-la. Quando as raras cartas de Harry chegavam, Ginny saía correndo para seu quarto e ficava ali praticamente o dia inteiro, às vezes até mais. Ela se esquecia do jornal e das sessões de diagramação com Liam. Ela se esquecia de tudo.

No último aniversário de Hermione, eles tinham bebido vinho tinto. E continuaram bebendo quando voltaram para a sede. Lá pela metade da terceira garrafa, Ginny encostou a mão em seu peito. Liam sentiu quase todos os músculos do corpo retesarem.

"Você já amou alguém, Liam? Já amou alguém tanto que você nem sabe o que fazer com isso?" Ela perguntou. Ele abriu a boca, mas ela continuou falando. "Porque é assim que eu me sinto. Desde que eu o vi, eu tinha dez anos, e eu sabia. Mas agora faz tanto tempo. Eu não sei nem se eu me lembro do rosto dele, Liam. Onde ele está? Eu deveria saber. Eu deveria ir atrás dele, fazer alguma coisa."

"Você está fazendo alguma coisa, Ginny," o álcool fez com que Liam segurasse o rosto dela com ambas as mãos, muito embora ele se sentisse completamente sóbrio. Ela tinha lágrimas nos olhos castanhos. "O nosso jornal está mudando alguma coisa. Nós recebemos cartas e doações por causa dele, e por isso nós vamos ganhar essa guerra."

Era setembro quando Ginny Weasley o olhou profundamente antes de beijá-lo pela primeira vez. Ele a segurou no colo e a levou para seu pequeno quarto, para sua cama de solteiro, ele deslizou as mãos por cada centímetro de seu corpo esguio, ele deslizou para dentro de seu corpo, e ela tinha gosto de vinho e aquele perfume doce, mas no dia seguinte ela desapareceu. Como ele sabia que ela desapareceria.

Às vezes, Liam achava que aquela noite não tinha acontecido. Ou que talvez outra pessoa a tivesse vivido. De qualquer maneira, ele sabia onde estava se metendo no momento que tinha permitido que ela o beijasse – Ginny amava Harry, e isso não iria mudar. Resolveu que quem iria mudar era ele. Deixou o Potterwatch nas mãos de outra pessoa. Não teve notícias dela durante o tempo que ela ficou longe. Dedicou-se ao trabalho, prendeu pessoas, matou pessoas, e até saiu em alguns encontros. Tempo e distância. Era seu plano desde o início, não era?

Era dezembro quando ela voltou para Glasgow. Passou apenas dois dias na sede da Ordem. Dois dias em que Liam descobriu que ela não tinha voltado antes porque fora capturada por eles ao pisar em Wiltshire, procurando por novos membros para a Ordem. Foram só duas semanas. Eles não fizeram nada comigo, eles não me machucaram, ela disse, trêmula, a Ron e Hermione e a ele, que também queria escutar. Lucius Malfoy queimou vivo dentro da casa, eu...

Liam queria abraçá-la, queria beijar seus cabelos e dizer que ia ficar tudo bem, mas só ficou ali, assistindo-a tremer. Mesmo porque, ela mal conseguia olhar para ele. Ginny foi embora para algum lugar – ninguém sabia ou saberia – e Liam estava certo de que nunca mais conversariam. De que nunca mais trocariam um olhar e de que tudo aquilo que ele sentira por tanto tempo seria, de fato, em vão.

Foi assim até aquele dia particularmente gelado de fevereiro, em que ele saiu do Gringotts e ela estava ali, em pleno Somairlie, como se estivesse esperando por ele.

"Oi, Liam."

O nome deslizara por seus lábios como se ela o pronunciasse todos os dias e ele sentiu que iria desmaiar. Era esse o efeito que ela tinha sobre ele.

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22 DE SETEMBRO DE 2006

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Eram dez e meia da manhã quando o sono finalmente voltou a dançar nos olhos castanhos de Hermione. Estava em sua segunda xícara de earl grey enquanto esperava no Caffé Nero que ficava exatamente do outro lado da cabine telefônica que dava acesso ao Ministério da Magia, mas a cafeína do chá preto ainda não tinha compensado a noite mal dormida.

Marris fora bastante compreensivo com o pedido dela para tirar uma folga. Desde que voltara a trabalhar, ainda não tinha requisitado tempo livre, e talvez isso também estivesse afetando sua sanidade. Revisitar aquele sonho que trazia lembranças tão horríveis do pior ano de sua vida tinha sido a última gota d'água para que o copo transbordasse. Ainda mais levando em conta o novo protagonista.

Ela precisava ficar alguns dias longe de Azkaban. Longe de Rosyth e do cheiro de mar misturado ao cheiro de nicotina. Aquela fumaça tóxica estava fodendo com a sua cabeça. Ela não queria pensar em como ele, ao se aproximar, criou uma espécie de campo magnético que fazia com que todos seus poros se arrepiassem, e ela não sabia se de raiva ou se de nojo.

Ou se de nenhum dos dois, o que era a hipótese mais aterrorizante.

"Oi, oi!" A voz de Harry interrompeu seus pensamentos de repente. Não tinha reparado que ele tinha entrado no café, muito embora estivesse encarando a porta o tempo inteiro. Respirou fundo ao observar seu amigo. Ele parecia mais saudável desde a última vez, tinha engordado um pouco, mas ainda havia marcas profundas de cansaço sob seus olhos verdes. Ela sorriu de leve e se levantou para rata-lo. "Quanto tempo!"

O abraço de Harry estava quentinho e ela se sentiu ainda mais sonolenta. Por alguns dias, logo após a morte de Ron, eles só conseguiam pegar no sono se estivessem deitados juntos, mesmo sem se encostar. Até que Harry conseguiu voltar a dormir sozinho, e depois conseguiu voltar para a cama de Ginny com seus cabelos ruivos, conseguiu voltar ao trabalho, conseguiu tantas coisas que Hermione queria sentir raiva dele naquela época, embora não pudesse sentir nada.

"Desculpe," ela murmurou ainda dentro do abraço. Harry tinha escondido o rosto em seus cachos e respirava fundo. "Eu sei que faz meses que eu não apareço..."

Ele se afastou e beijou sua testa. "No meio de todos aqueles memorandos na minha sala do Ministério, eu também quase não tive tempo de escrever. Você recebeu nosso presente de aniversário, não é? Espera aí, vou pegar um café!"

Hermione voltou a se sentar. Não sabia porque estava tão nervosa com aquele encontro. Era só Harry. Apesar de tudo, ele era seu melhor amigo. Ele não a julgaria. Quer dizer, Harry podia ser bastante efusivo em suas opiniões, mas ele compreenderia seus motivos. Ela não se condenava pelo que estava fazendo, por que haveria Harry de condená-la?

Ensaiou um sorriso quando ele voltou com seu expresso duplo sem açúcar e sentou-se ao seu lado. "Que bom que você ligou para nos encontrarmos! Como você está? Arthur passou uns dias lá em casa na semana passada. A oficina está indo bem – depois das leis de aparatação mais e mais gente está pedindo que ele modifique os carros trouxas! Sempre achei que ele não pertencia a aquela espelunca do Ministério, de qualquer jeito."

"Você ama aquela espelunca, Harry," Hermione sorriu. Fazia muito tempo que ela não via Arthur e o restante dos irmãos Weasley. Nem ao menos conseguia se lembrar qual fora a última vez, ou como eram suas feições. Por enquanto era melhor assim.

Harry riu um pouco mais alto do que deveria. Era bom vê-lo animado. "É, acho que sim. Melhor que amar Azkaban, pelo menos. Não sei como você não enlouquece naquele lugar, lidando com aquele tipo de gente."

Ela pensou o quão irônico aquela fala era, sendo que tinha dispensado aqueles dias de trabalho justamente por causa da resposta para aquela pergunta. "Eu tirei uns dias de folga. Estava precisando. Estou com alguns pacientes bastante complicados."

"É mesmo? Algum conhecido?" Harry bebericou o café.

Respirou fundo. Ela precisava contar para alguém. Ela precisava contar para alguém, porque aí a coisa toda se tornaria real e ela não podia encontrar desculpas para fazer qualquer coisa secretamente.

"Sim," mordeu o lábio de leve. Era melhor arrancar o band-aid de uma vez só. "Draco Malfoy."

"Drac... O quê?!"

"Draco Malfoy. Você sabe, o da Sonserina," molhou os lábios na sua xícara de chá, tentando fazer com que tudo aquilo soasse casual. Harry parecia perplexo como ela imaginou que ele pareceria. Ok, tudo estava indo de acordo com o plano. Se ela não desse importância, não seria importante.

"Eu sei quem é Draco Malfoy!" Harry permaneceu chocado. Ela evitou manter contato com os olhos. Conforme o esperado, Harry percebeu a grosseria sutil e logo mudou a postura, passando a mão pelos cabelos negros impossíveis. "Desculpe, eu tinha me esquecido de que ele ainda estava por aí. Uau, Hermione. Como diabos isso foi acontecer? Você é obrigada a rata-lo?"

"Bom... O Dr. Marris que deveria rata-lo. Foi um erro da prisão, a ficha ir parar nas minhas mãos. Malfoy está envolvido com o assassinato de Liam. Mas mesmo assim, quando apareceu ali eu... Bem, eu resolvi que ia tentar. Nós assinamos o contrato. Você sabe que é difícil quebrar contratos mágicos, então... Ficou por isso mesmo."

"E por que você resolveu que ia tentar?"

Hermione tinha ponderado a resposta para aquela pergunta a manhã inteira. Mais que a manhã inteira – desde que o sonho a despertara da pior maneira possível. Por que era uma pergunta que não tinha fim, quando você começava a fazê-la: as respostas davam vazão para mais e mais perguntas. A verdade era que pouco se lembrava de sua vida depois da morte de Ron. Tinha passado tanto tempo mergulhada nas poções do sono e nos antidepressivos, vivendo naquela Penseira que agora estava só Deus sabia onde, que mal conseguia pontuar dias específicos ou alguma coisa que a tivesse tirado do limbo naqueles últimos dois anos.

"Eu não sei," respondeu sinceramente. Harry estava com uma expressão peculiar que costumava adquirir quando menor. Era uma expressão que ele usava só para ela, um misto de desconfiança e também de profunda admiração. "Entender o que realmente aconteceu com ele, entender de onde veio tanto ódio... Malfoy não é um estranho. Mas ainda assim eu não sei, ou não sabia, absolutamente nada sobre ele. Será que é justo condená-lo sem antes tentar compreendê-lo?"

"Você sabe que ele matou um homem bom. Isso não é o suficiente para condenar alguém?"

Hermione sorriu de leve e passou a mão pelo rosto de Harry por um momento. Ela imaginava que também tinha adotado a expressão facial que só tinha para ele. Seu melhor amigo que precisava fazer a barba e que tinha os olhos verdes cansados. Mais que ninguém, Harry deveria ter aprendido sobre como o bem e o mal não eram dois conceitos concretos e antagonistas, duas coisas que andavam separadas. Mais do que ninguém, Harry deveria se lembrar do quanto todos tinham sofrido com aquela guerra, do quanto tinha se perdido. Mas ao mesmo tempo ela achava admirável a fé que ele tinha de que o mundo podia ser um lugar melhor se o ser humano tentasse ser um pouco mais simples em seus rótulos.

Liam também tinha matado homens. Ron e Kingsley e todos eles, em algum ponto, tinham tirado a vida de alguém. Era uma guerra. Era o que tinham que fazer naquele momento. Era um trabalho.

"O homem é o lobo do homem," foi o que ela disse, afastando a mão do rosto do amigo. Harry franziu as sobrancelhas grossas.

Eles ficaram em silêncio por algum tempo, enquanto ela terminava o chá que já estava gelado nos últimos goles, e Harry segurava o café nas mãos com os olhos presos na Londres agitada do lado de fora.

"Eu confio em você para fazer a coisa certa, Hermione. Só tome cuidado. A gente pode não conhecer Malfoy o suficiente... Mas a gente conhecia Liam."

Hermione concordou com a cabeça. Ela segurou o seu braço por um momento.

"Você podia não comentar nada com a Ginny sobre isso? Ela e Liam... Bem. Talvez ela não fosse compreender."

Harry soltou um risinho pelo nariz. "Pode ter certeza que Liam Houston é o último assunto no qual eu quero tocar com Ginny," ele consultou o relógio de pulso, e se levantou em sobressalto. "Merda, preciso voltar. Tenho uma reunião de departamento às onze e quarenta", anunciou, bebendo o resto do café num gole só. Harry beijou seu rosto rapidamente, despedindo-se.

Hermione sorriu de leve. Não queria dizer isso, mas sentia-se um pouco aliviada de que aquele encontro estava para terminar.

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26 DE SETEMBRO DE 2006

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Há muitos séculos e alguns milênios, quando surgiram os primeiros homo sapiens, eles sentiram a necessidade esquisita de contar o tempo. Esquisita, porque nenhum outro animal tinha essa percepção e vontade. Vieram os ciclos lunares, os ciclos solares, as marés, ou qualquer coisa que pudesse dizer: olha só, querido, mais um dia se passou.

Então vieram os árabes, os judeus, os gregos e o escambau, e o tempo passou a ser contado de maneira cada vez mais precisa e mais sofisticada. Feriados religiosos; dias de colheita; as estações do ano. A chegada pomposa dos romanos criou os meses que homenageavam imperadores e deuses brindando a seu povo faminto. Setembro vinha de sete.

Draco sabia dessas coisas por causa de um livro que Granger o fizera ler nos últimos meses. Algum trouxa babaca que achava que era esperto. A verdade era que Draco Malfoy tinha encontrado uma nova maneira de controlar seu calendário: os quatro dias entre a quinta-feira da semana passada e a terça-feira dessa semana, a quarta-feira entre essas e a nova quinta-feira. Os dias que se encontrava com Hermione Granger.

Por ser seu novo relógio, a maldita não poderia simplesmente faltar no trabalho. Que tipo de pessoa esnobe e entojada e honrada ela era, se tinha o luxo de não ir trabalhar? Pessoas esnobes, entojadas e honradas trabalham. É um requisito para a união dessas características.

Naquela quinta-feira, após o almoço, lá para a uma da tarde, acendeu um cigarro olhando para o mar que se chocava contra as pedras. A nicotina pareceu insatisfatória. Apagou depois de duas tragadas.

Voltou para a cela e se encostou na parede de pedra, folheando o último livro que ela tinha emprestado. Outra babaquice escrita por um trouxa. Tinha cento e setenta e seis páginas e se chamava O Príncipe, de um cara chamado Nicolau Maquiavel. Ela tinha comentado que talvez esse fosse o preferido dele. Ele é bastante sonserino, ela tinha dito com aquele sorrisinho típico no rosto.

Draco ainda não tinha se dado ao trabalho de ler. Ele não queria gostar do livro. Ele não queria que ela estivesse certa sobre alguma coisa a seu respeito. Tinha ficado puto com a simples ideia de que ela podia realmente classificar um trouxa numa das casas de Hogwarts. Tivera ainda mais certeza do quão indigna ela era da magia que corria erroneamente em suas veias.

Largou a edição na cama, que nem tinha largado o cigarro na grama. Agora ia demorar para que pudesse fumar outro. Merda, estava ficando louco. Aquele lugar estava acabando com ele, estava ficando louco. Já não bastava pensar naquela mulher o tempo inteiro e cansar a mão com aqueles pensamentos, já não bastava sentir certo conforto em se abrir e permitir que ela o conhecesse quando nem ele se conhecia, agora ela desaparecia e embaralhava a ordem de seus dias.

Não estava acostumado a ser deixado de lado. Não estava acostumado que desistissem dele.

Esperava que ela tivesse morrido. Que alguma coisa muito ruim tivesse acontecido com ela, que nem com Weasley, e que ela não retornasse nunca mais. Ele estava bem em Azkaban até ela aparecer. E muito embora tivesse sido atraente a ideia de talvez manipulá-la para sair dali, agora ele só queria que ela sumisse para todo o sempre, até que ele se esquecesse que ela tinha cheiro de creme hidratante com alguma coisa cítrica que ele tinha certeza que vinha das ondas de seus cabelos, enquanto a calcinha de Parkinson já não cheirava a mais nada.

O que Draco achava mais engraçado era que quando ele estava perto dela ele não se sentia assim. Ele não tinha essa raiva toda. Mas ele também falhava em sentir nada, que era normalmente a sua antítese para a raiva. Raiva ou nada. Era assim que ele polarizava suas emoções na vida. Raiva ou nada.

E Granger. Que ele não compreendia e não sabia classificar.

"Porque se fosse mais fácil, nós não teríamos motivo para nos vermos duas vezes por semana," ele tinha dito, e a frase ficava ecoando em seu ouvido seguida do ressonar da respiração dela sendo suspensa e de outros sons insignificantes que ele tinha escutado junto com o silêncio – as ondas do mar quebrando lá fora, um passarinho imbecil que tinha ido pousar justo em Azkaban.

Tinha sido uma coisa estúpida para se dizer, ele confessava isso. Mas, aparentemente, ela preferia que fosse mais fácil.

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04 DE OUTUBRO DE 2006

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A folga não durou mais do que duas semanas, as quais Hermione dedicou a uma limpeza quase doentia do apartamento em Londres. A faxina foi feita à moda trouxa, usando esfregão e cândida no lugar de feitiços e do costumeiro auxílio dos elfos domésticos do prédio. Não sabia exatamente o que tinha engatilhado aquela necessidade repentina, mas o cheiro abafado de pó misturado com o que ela imaginava que tinha restado do perfume de Ron a deixou enjoada.

Apesar da boa localização, nem Ron nem Hermione pretendiam morar naquele apartamento para sempre. O plano era reconstruir A Toca enquanto morassem ali durante os primeiros anos do casamento que nunca tinha acontecido. Mas o prédio na Queen Anne Street era bruxo, perto de tudo que eles precisavam no momento, e parecia um investimento ideal naquele momento pós-guerra. Dois anos depois, apesar de não ser dos maiores, já valia mais que uma casa de dois andares no subúrbio. Às vezes, ela não sabia porque não colocava o lugar à venda e começava de novo em outro canto, talvez em Edimburgo, que era tão mais perto de Azkaban. Mas Hermione não gostava de desistir das coisas se/m tentar até o final.

Primeiro limpou a cozinha, jogou fora qualquer coisa que apodrecia na geladeira, os poucos talheres que estavam há tanto tempo intocados nas gavetas. A única coisa boa de seu noivado ter durado tão pouco foi que nunca tivera tempo de criar um enxoval – não havia louça bonita para os jantares que não ia promover.

Depois foi a vez da sala. Passou o aspirador de pó que sua mãe tinha insistido em comprá-la quando viu que o apartamento era forrado com carpete – Jean nunca confiaria em magia quando se tratava de pó – e achou que foi um alívio estranho quando o barulho não a permitiu escutar os próprios pensamentos. Colocou um jazz, depois, no som que nunca achou que utilizaria. Sorriu sozinha imaginando que deveria ser a única pessoa do mundo que fazia faxina escutando jazz.

Limpou a estante de livros e colocou aqueles que já tinha lido numa caixa para doação, abrindo espaço para colocar novos exemplares. Tirou a poeira de todos os porta-retratos em que Ron estava sorrindo para ela, mas evitou encarar seu sorriso por muito tempo. Ele era alguém que definitivamente não aprovaria a trilha sonora que embalava sua limpeza.

O banheiro demorou um dia inteiro. Jogou fora um tubo de pasta de dentes pela metade, uma escova de dentes azul que Ron nunca tinha usado, mas que ela tinha deixado ali mesmo assim, duas lâminas de barbear que já estavam quase enferrujadas no fundo do armário. Descartou qualquer embalagem de shampoo e condicionador que estava no final, o sabonete para mãos que ela não tocava há meses e que já estava seco e se desfazendo na saboneteira. Não abriu no vidro de colônia que Ron deixava na prateleira acima do espelho – só mudou de lugar para limpar a madeira. As toalhas dele já tinham ido na primeira e única faxina de verdade que fizera no lugar.

O mais difícil foi o quarto. Os armários nem tanto: já não tinha mais as roupas dele – Ginny tinha aparecido uma vez, ainda em 2004, e colocado quase tudo em caixas que foram levadas para a caridade, enquanto Hermione permanecia deitada sem muita emoção. Na época, a cunhada decidira que deixaria apenas algumas coisas para a memória: o último suéter cor de tijolo feito por Molly para ele; uma gravata da Grifinória que fez o coração de Hermione apertar um pouco – porque ele nunca soubera dar um nó decente naquela porcaria; e uma das vestes púrpuras de auror, semelhante àquela em que ele fora enterrado.

O carpete se estendia pelo quarto também, e o barulho do aspirador abafou o jazz mais uma vez. Ela comprou roupa de cama nova e velas que exalavam perfume de maçã quando eram acesas. O que demorou mais tempo – quase uma semana inteira – foram as gavetas ao lado da cama. Tinha deixado elas por último porque sabia que seria o mais doloroso.

Os dois lados eram dela, agora. Mas um dia ela fora dona do lado direito, e ele do lado esquerdo. A gaveta dela era mais arrumada e já tinha itens acumulados desde que ele já não estava mais ali. Eram grampos de cabelo, uma cópia paperback de um livro de Stendhal, um rolo de pergaminhos com notas sobre outros pacientes de Azkaban (em oposição a seu paciente favorito), um Moleskine roxo que estava em branco, uma bateria de celular, um par de brincos e um cartão de crédito trouxa que ela nunca tinha desbloqueado. Ela arrumou tudo, se desfez do que não precisaria mais, guardou o livro, os brincos e o Moleskine.

Mexer na gaveta dele, a gaveta que sempre seria dele, depois de quase dois anos, fez sua garganta doer. Sua garganta doeu tanto que ela imaginou que talvez tivesse pegado uma infecção por ter mexido com tanta água e tantos produtos de limpeza. Se ela não soubesse melhor. Se ela não fosse psiquiatra e não soubesse que tudo aquilo era o luto se manifestando mais uma vez. Se ela não fosse tão boa em racionalizar.

A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi um par de ingressos para o primeiro jogo da temporada de Quadribol que seria retomada no Abril daquele primeiro ano sem guerra. O jogo era de dois times dos quais ela nunca tinha ouvido falar – mas ela sabia o quanto ele e Harry estavam empolgados para voltarem a assistir seu esporte preferido. Eram provavelmente uma surpresa para o amigo.

Havia uma caixa fechada de pragas coloridas das Gemialidades Weasley, o papelão todo danificado nos cantos. Alguns cartões de aniversários anteriores que ela mesma tinha enviado, todos dizendo muito pouco, muito menos do que poderiam dizer. Ele tinha deixado para trás dois sicles, cinco nuques, uma nota amassada de dez libras, um recibo igualmente amassado de uma padaria trouxa, um pedaço rasgado de pergaminho com um endereço desconhecido rabiscado na caligrafia dele.

As lágrimas preencheram seus olhos como não faziam há algum tempo. Ron guardava mais duas coisas naquela gaveta – uma foto deles dois de quando ainda eram só amigos, tirada em seu quarto laranja na Toca. A foto era encantada e ele com quinze ou dezesseis anos usava uma camiseta polo listrada e fazia caretas, enquanto ela revirava os olhos e mantinha um sorriso no rosto que demonstrava sua incompreensão em estar apaixonada por um idiota daqueles. A segunda coisa era a caixa de veludo vazia em que um dia ele tinha guardado as alianças de noivado.

Hermione apertou os olhos e deixou as lágrimas molharem os cílios, mas não se permitiu chorar mais. Desligou a música e, na mesma caixa que tinha usado para guardar as roupas de Ron, guardou os objetos que tinha encontrado na gaveta. O Finite Incantatem paralisou a foto, que iria para algum porta-retratos depois. Por enquanto, ia ficar ali mesmo, na caixa guardada no fundo do armário.

Com a casa limpa e renovada como se ninguém nunca tivesse vivido no lugar, Hermione pensou se sairia para abastecer a geladeira e programar o que faria com o resto do tempo livre. Ela poderia correr no Regent's Park ou assistir um musical no West Side, ela poderia até mesmo aparatar no subúrbio onde Harry e Ginny viviam e visitar novamente seus amigos.

Mas ali estava ela, descendo da balsa que tinha atracado em Azkaban e esperando para que Malcom a revistasse.

"Bom dia, Dra. Granger! Voltou mais cedo das férias? Por quê?"

Soltou um risinho pelo nariz pela complexidade velada daquela pergunta. Porque se fosse mais fácil..., ela não pensou. "Me sinto melhor trabalhando, Malcom. E o tempo em Londres não estava uma maravilha, não."

"Ah! Essas ilhas aqui são deprimentes. Se eu tivesse como conseguir um visto com facilidade, ia me mandar para a Espanha. Dizem que por lá..."

Mas Hermione nunca ficou sabendo o que diziam sobre a Espanha, porque a secretária de Marris, uma bruxinha de meia-idade com as bochechas vermelhas, saiu pela porta principal, parecendo um pouco aflita. "Desculpe, Malcom. Oi, Dra. Granger! O Dr. Marris ainda não chegou e vi que você estava sendo revistada e... Bom, temos um problema."

"Que tipo de problema?" Hermione franziu as sobrancelhas, acenando para Malcom com a cabeça e seguindo a bruxa para dentro do prédio administrativo da prisão.

"Três detentos entraram numa briga agora pouco. Estão na Ala Hospitalar," elas seguiram pelo corredor e entraram em uma das seis portas ao longo dele. Aquela porta levava para fora – um caminho de pedra cravado numa colina seguia até o prédio principal, que era o enorme complexo dos presidiários, dividido entre as alas masculina e feminina. Ali ficavam as celas, a cozinha e os refeitórios, além do depósito e da Ala Hospitalar. "Os guardas conseguiram separá-los, claro, mas se recusam a explicar o ocorrido, e um deles apanhou bastante. Achei que seria ideal que um dos responsáveis aparecesse por lá, ver o que realmente aconteceu..."

"Claro, fez bem, Ella. Os guardas ainda estão com eles, certo?"

"Sim," Ella anunciou um pouco ofegante quando finalmente entraram no complexo. Hermione estava acostumada a ficar no prédio administrativo – seus saltos não estavam felizes com aquela caminhada esburacada. Outro guarda fez um pequeno trabalho de revista em ambas as bruxas antes de permitir que elas entrassem ali. "Os agressores são Gilbert Snell e Argos Philpott, estão juntos na sala um... O rapaz que foi agredido, Draco Malfoy, está do outro lado, na sala dois."

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Nos primeiros anos de Hogwarts, Draco costumava passar dias na Ala Hospitalar, por pura preguiça de viver. Ele era rico, ele tinha o ciclo certo de amizades, suas notas eram boas, e ele estava com sono. Ele não queria acordar às sete para tomar café da manhã e ir estudar Herbologia. Então ele fingia estar sempre doente e exagerava seus sintomas em trinta vezes, mesmo antes de sair da Sala Comunal. Pansy então o incentivava a procurar Madame Pomfrey, como se aquela não fosse sua ideia desde o princípio, e Crabbe e Goyle o escoltavam até o quarto andar.

Na maioria das vezes a enfermeira lhe dava um tônico que ele fingia não surtir efeito e ela, em sua boa vontade eterna, permitia que ele ficasse uma ou duas horas deitado por ali. Outras vezes ela fazia um esforço enorme para não o mandar à merda.

Aquele menino nunca imaginaria que anos mais tarde não teria mais dinheiro, ou amigos. Que suas notas valeriam menos que bosta e que teria todo o tempo do mundo para dormir, mas não sentiria sono. Às vezes, bem às vezes, ele se perguntava se o pequeno Draco se decepcionaria com quem tinha se tornado. A resposta era sempre um virar de olhos. Não importava.

A Ala Hospitalar de Azkaban ficava na parte oeste do prédio principal, passando o refeitório masculino. Tinha duas salas com três leitos cada uma – as paredes de pedra eram pintadas de verde claro e as camas eram de metal cromado. A única vez que tinha parado naquele lugar foi bem em sua chegada à prisão – e daquela tarde ele pouco se lembrava.

Pressionou o canto da boca cortado com as costas das mãos, que voltou manchada de sangue. Naquela manhã aqueles dois caras em forma de armário que ele não tinha nem noção de quem eram tinham cercado ele no pátio enquanto ele fumava seu cigarro e lia, muito a contragosto, o livro da semana, exigindo saber como ele tinha conseguido aquela porcaria trouxa. Draco não sabia exatamente se eles estavam falando sobre o cigarro ou sobre o livro: ergueu as sobrancelhas e se fez de desentendido. O punho esquerdo do Armário 1 veio em seu rosto mais rápido que um meteoro.

Ficou óbvio, lá pelo quinto chute que levou na lateral do corpo, que era o problema era o cigarro. E Draco tinha toda intenção do mundo de entregar Sean e William e acabar logo com aquilo, mas o Armário 2 tinha pressionado a sua cara contra o chão e não deixava ele falar. No meio dos socos, da dor e dos gritos dos outros prisioneiros incentivando o que estava acontecendo, não sabia quanto tempo tinha se passado até que os guardas interviessem com magia, estuporando os Armários e algemando todos os três enquanto vociferavam xingamentos que Draco, completamente zonzo, não conseguia compreender.

Finn, o carcereiro babaca que era "responsável" por ele, o levou a pontapés até a Ala Hospitalar, enquanto lhe chamava de verme o tempo inteiro. Draco ficou em silêncio porque, honestamente, não tinha motivo parafalar qualquer coisa com a boca cheia de sangue. Cuspiu tudo em uma comadre quando entrou na sala.

Estava esperando há algum tempo. Não sabia se tinham outros medibruxos em Azkaban além de Marris e da sangue-ruim maldita que não aparecia há duas semanas. A única coisa que sabia era que apenas os guardas tinham permissão de usar varinhas, a não ser com alguma autorização especial. Eles provavelmente receitariam alguma poção para curar os hematomas e deixariam ele em quarentena se ele não abrisse o bico sobre o que tinha acontecido. Mas se abrisse o bico, realmente delataria Sean e William, o que por sua vez acabaria com o seu suplemento de cigarros. Tinha que pensar no que poderia tirar de bom daquela situação toda, tinha que pensar nos benefícios.

"Pode esperar aqui fora mesmo, Finn, obrigada."

Não, risque isso. Não iria conseguir pensar em nada.

Na verdade, achou que talvez os socos estivessem fazendo ele alucinar. Hermione Granger entrou na sala junto com o seu aroma de creme hidratante. Ela usava calças jeans escuras, a gola e a manga de uma camisa branca sob um suéter caramelo, e sapatos pretos de salto. Estava sem jaleco, segurando uma pena e uma prancheta, os cabelos castanhos presos numa trança que parecia estar se soltando aos poucos.

Ela olhou para ele rapidamente – como se ele não estivesse machucado até a quase invalidez – e voltou sua atenção para a prancheta, onde anotou alguma coisa. Draco imaginou trinta mil possibilidades enquanto ela ficava em silêncio: talvez ela tivesse armado aquilo para cima dele, para poder analisá-lo enquanto ele não conseguia respirar direito por causa da dor no abdômen. Talvez ela estivesse tentando ensiná-lo uma lição. Talvez estivesse morto e aquele fosse seu inferno pessoal.

"Eu deixo você sozinho por duas semanas e você já se mete em confusão?" Ela disse, deixando a prancheta e a pena de lado, aquele sorriso de mentira nos cantos da boca. Os saltos ecoaram conforme ela atravessou a sala até um dos armários, rapidamente pegando uma porção de coisas de dentro dele. Draco podia ver diferentes fracos e uma caixa branca enfeitada com uma cruz vermelha, como aqueles kits que os trouxas usavam nos hospitais incapacitados deles.

"Eu não fiz nada! Os malucos pularam em cima de mim, muito provavelmente porque eu estava lendo aquela droga trouxa que você me obrigou!"

O sorriso dela aumentou um pouco mais, e ela virou o rosto como se não quisesse que ele visse isso. Granger arregaçou as mangas do suéter e da camisa até o cotovelo, tirou a aliança de noivado e abriu a torneira de uma pia que Draco não tinha percebido que estava ali. "Tem certeza que foi isso, e não o fato de que você estava fumando uma droga trouxa que ninguém te obrigou?"

Draco observou-a balançar a cabeça e de alguma forma soube que ela ainda estava sorrindo. Granger estava de costas para ele enquanto ensaboava as mãos por tempo demais, e ele se forçou para não observar a curva de sua silhueta naquelas calças justas. Respirou fundo. Queria saber porque ela tinha faltado nas últimas duas semanas, queria fumar mais um cigarro, mas ia se contentar em não receber nenhuma das duas coisas. Granger colocou luvas de borracha nas mãos – o que fez ele pensar que talvez quisesse vomitar também – e se acercou dele, a expressão mais séria, dessa vez.

"Deixe-me ver isso aqui," ela aproximou as mãos enluvadas do rosto dele. Draco se esquivou por instinto, mas ela pareceu não se incomodar. Segurou seu queixo entre os dedos da mão esquerda, virando sua face um pouco para poder analisar os machucados. Draco não gostava de luvas de borracha por todos os motivos, mas sentiu-se grato de não ter que entrar em contato direto com sua pele. "São cortes superficiais... Já parou de sangrar, até. Vou limpá-los e deve ficar tudo bem em uns dez dias."

Ela manteve os lábios entreabertos enquanto analisava os cortes em seu rosto. Os de baixo estavam ligeiramente secos. O sangue já estava com gosto de metal na boca dele.

"É isso?" Draco falou qualquer coisa só para não ficar entre ela e o silêncio. "Vocês não têm medibruxos competentes aqui? Se alguma coisa colocar a minha vida em risco eu tenho que confiar em você?"

"Se alguma coisa colocar a sua vida em risco temos todos os meios para salvá-lo, mas não fazemos magia à toa em Azkaban, Malfoy. Teríamos que confiar em outras pessoas como você," Granger virou os olhos e se afastou, deixando uma brisa suave para trás com o movimento. Draco a detestou um pouquinho – tinha certeza que aquele comentário não era nada profissional. "Você está machucado em algum outro lugar?"

Fez uma análise do próprio corpo por um momento. Sentia dor no abdômen e nas costas, mas o corte na maçã do rosto e o outro na boca eram o que mais incomodavam. Tinha levado sua cota de porradas na vida para saber o que realmente poderia ser perigoso.

"Não."

Ela voltou a se aproximar, então, agora com um pedaço de algodão embebido em alguma coisa que cheirava a álcool nas mãos. Segurou seu queixo novamente e franziu as sobrancelhas, concentrada. O tom de voz que ela usou em seguida foi quente, quase maternal, como se ela tivesse se esquecido completamente que estava falando com ele. "Ok, pode ser que isso arda um pouquinho."

Draco contraiu o nariz quando ela deslizou o algodão por seu rosto, limpando o sangue, mas a verdade é que não tinha ardido tanto quanto ele esperava. Granger trocou de algodão até se certificar de que o sangue estava limpo. Fez o mesmo com o corte perto de sua boca. O cheiro de álcool do produto que ela estava usando era um pouco inebriante e o fez fechar os olhos.

"Você devia ter visto o outro cara," ele disse que nem o grande idiota que tinha se tornado. Granger soltou uma risadinha pelo nariz e Draco entreabriu as pálpebras para não perder o sorriso de verdade nos lábios dela.

"Mas eu vi. Ele me pareceu muito melhor que você," ela descartou os algodões ensanguentados e pegou outro frasco. Ele não pôde evitar sorrir, também. Granger passou uma espécie de pomada em seus cortes, a face concentrada como sempre. "Faz algum tempo que eu não brinco de enfermeira sem magia, para ser sincera."

"Ótimo, Granger. Isso é realmente tudo que eu queria escutar," ironizou. Ela sorriu de leve. A pomada era reconfortante de alguma forma. Draco sabia que era uma emulsão feita com ervas mágicas. Seus cortes estariam bons em alguns dias – não era eficiente como um Episkey, mas era uma boa escolha. O ferimento na maçã-do-rosto ela protegeu com um pedaço de gaze. Depois, descartou tudo, inclusive as luvas de borracha, revelando que as unhas irritantes estavam pintadas com um esmalte cor de vinho.

"Você já vai poder tirar o curativo amanhã," ela disse, lavando as mãos novamente e voltando a colocar a aliança de noivado nos dedos. Foi até a prancheta e anotou qualquer outra coisa. Draco poderia ter voltado a pensar em suas teorias da conspiração, mas só conseguia pensar que talvez nunca conseguisse contar todas as sardas no nariz dela. "Vou te dar um pouco de poção para o caso de você sentir dor... Hm, espere..."

Ela voltou a se aproximar e tomou as mãos dele nas dela de repente. Elas estavam geladas por causa da água. Draco sentiu o estômago afundar como se tivesse pulado acidentalmente um degrau ao descer uma escada. "Que diabos..."

"Você não se defendeu?!" Ela encrespou as sobrancelhas em curiosidade, erguendo os olhos castanhos para ele. Draco entreabriu os lábios, um pouco confuso. Baixou os olhos para as próprias mãos. Elas estavam livres de ferimentos. "Por que você não se defendeu, Malfoy?"

Uma mulher um pouco mais velha, vestida de medibruxa, entrou na sala, fazendo Granger retrair as mãos quase que imediatamente em sobressalto. Ela parecia um pouco esbaforida, mas sorriu abertamente para Granger quando a viu. "Dra. Granger, obrigada por me ajudado por aqui! Perdi a balsa, foi um horror. Está tudo bem com o rebeldezinho?"

Granger se recompôs muito rápido, sorrindo de volta para a colega e inteirando-lhe do que tinha acontecido. Draco ficou ali sentado na cama da Ala Hospitalar enquanto elas saíam de novo pela porta, e talvez ele tivesse se esquecido como deveria respirar.

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(continua)

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Nº DE PÁGINAS: 20

MÚSICA: Looking Too Closely – Fink

DATA DA PRÓXIMA ATUALIZAÇÃO: 27.01.2017

*Potterwatch vem das Relíquias da Morte e é uma das únicas coisas que eu gostei de lá... então por que não?

Nesse ponto quem já leu Halle pode achar que a aproximação de Draco e Hermione está completamente diferente... E bem, está mesmo! Fico mais feliz assim. O POV do Liam não vai se repetir muitas vezes infelizmente – gostei muito de escrever essa cena.

Para os preocupados, Halle já está 80% reescrita, eu já estou no capítulo 15! Vai ficar tudo bem! Eu não atualizei ontem porque estava em um avião, hahaha. Fico muito feliz com as reações positivas, sei que é difícil ver tudo mudando, mas espero que em essência tudo continue o mesmo!

Eu estou escrevendo uma fanfic em inglês sobre Riverdale (um fandom novo que é bem ruim e bem bom ao mesmo tempo hahahaha), então quem se interessar e quiser me dar uma força, está no meu perfil! (: Queria deixar o meu obrigada, mais uma vez, a minha beta/parceira/fangirl/sidekick Lally! Sem você me dando força eu não estaria indo para lugar nenhum (: