Capítulo 4: Um cara legal...

O sol ainda não despontara no horizonte, e o hospital estava relativamente calmo. Tomou mais uma xícara de café, enquanto folheava um folheto informativo destinado aos estagiários, sem registrar qualquer uma das palavras ali escritas. Sua cabeça vagueava muito longe...

Levantou o rosto lentamente, se deparando com um calendário, enfeitado com bonitas plantas mágicas. Sua atenção se prendeu num pequeno símbolo acima do dia anterior. Fora o último dia de lua cheia. Sentiu um aperto no coração. Como gostaria que ele aparecesse de vez em quando...

A mulher foi retirada bruscamente de seus pensamentos pela porta de sua sala, que se abriu violentamente.

- Lílian – uma mulher de meia-idade, o rosto de quem já viu muita coisa na vida, entrou na sala, carregando alguns papéis. Apesar de suas notícias não serem boas, consegui-a transmiti-las num tom controlado – um homem deu entrada num hospital trouxa essa madrugada, acidente com um veículo trouxa. Mas ele é bruxo. Mandaram-no para cá. Está na emergência à cerca de vinte minutos e os medi-bruxos estavam tentando dar um jeito nele. Mas ele não está nada bem. Perdeu bastante sangue, e não reage a nada.

- Vamos – disse a ruiva, se levantando.

- O máximo que fez foi apertar a própria cabeça, mas os enfermeiros o pararam antes que se machucasse. – continuou a mulher, enquanto as duas caminhavam, apressadas, pelos corredores - Bem fortinho o rapaz. Parece ter quebrado alguns ossos dos membros inferiores e algumas costelas, provavelmente. A pancada não foi bonita. Pelo que disseram, ele voou cerca de dez metros antes de se cair no asfalto e se arrastar mais uns cinco metros. Parte da face – que pena, é tão bonito! – está danificada, mas podemos resolver isso rapidamente, pelo bem da nação.

Lílian não pôde deixar de abrir um pequeno sorriso para a colega, pegando luvas numa caixa na ante-sala da emergência.

- Deixa comigo, Marge – disse, prestes a passar pela cortina que separava o paciente e a médica.

- Tá, mas tira o olho. Você é comprometida! – a mulher falou, com um grande sorriso, antes de a ruiva sumir dentro do biombo onde o paciente estava.

Lílian não precisou de mais de dois segundos para reconhecer aquela face, mesmo que estivesse repleta de sangue, franzida de dor e levemente mudada devido o tempo.

- Sirius! – murmurou baixinho, chocada com o estado do amigo, antes de ordenar ações aos enfermeiros presentes e começar a fazer seu trabalho.


A noite passada fora, de fato, a ultima de lua cheia. E, assim que a lua repousou, a fera voltou a ser homem.

Estava mais uma vez estirado no mesmo chão empoeirado de sempre. Novas dores se espalhavam por seu corpo, ainda mais insuportáveis ao se juntar com as das outras transformações. A luz do sol descrevia espirais acima de si. Mas, naquela manhã, havia algo diferente naquele quarto. Algo tão inexplicável quanto acolhedor.

Remo puxou as cobertas em fiapos que estavam na cama ao lado e enrolou-a no próprio corpo. Fez força para levantar. Quando conseguiu, andou em passos lentos e sofridos até um canto do cômodo.

Jogou seu corpo contra o chão e pegou o objeto. Era tão... Belo e delicado... Rodou-a entre seus dedos várias vezes, admirando seu efeito contra o sol. Sabia o que significava. Sorriu, e por um momento as rugas precoces puderam deixá-lo de lado. Enquanto sorria, observando aquela pena vermelho fogo com as pontas delicadamente douradas, pôde sentir que acabara. Pelo menos, até a próxima lua cheia.

Tudo é capaz de renascer das cinzas.


Seu rosto estava desajeitadamente amassado contra o braço da poltrona. Levantou a cabeça lentamente, e sentiu uma leve pressão ao lado do olho esquerdo. Levou a mão até ali e retraiu rapidamente, estava muito dolorido.

Ah, a casa tinha parado de rodar. Que bom. Talvez conseguisse se levantar. Com algum esforço, se sentou corretamente no sofá. Bem, agora tinha que levantar. Apoiando os membros no encosto, no assento e no braço do sofá, conseguiu ficar de pé.

Wow! Sua visão saiu e entrou em foco muito rapidamente. Deu alguns passos cambaleantes para frente e jogou o corpo contra a parede. É, não teria jeito, ia ter que apelar. Caminhou em passos vacilantes até um armário do outro lado da sala, sempre usando a parede como apoio. Deveria se abaixar? Não. Tinha a leve impressão que, se abaixasse, não voltaria a levantar muito fácil. Passou a mão pelo próprio corpo, procurando algo. Estava dentro do bolso do casaco. Colocou a mão lá e retirou uma varinha de madeira escura, comprida e flexível. Apontando para o armário, fez com que ele abrisse e um frasco saiu de lá, levitando, e só parou ao ser pego pela mão vacilante de James. O homem bebeu algumas gotas de seu conteúdo, e seu corpo estremeceu. Franziu a testa, fechando os olhos por alguns instantes. Quando voltou a abri-los, sua visão já estava bem mais focada. James voltou a fechar o frasco, tirando, pela primeira vez, a mão da parede. Descobriu que estava bem melhor e podia se abaixar. Guardou o frasco em seu lugar e fechou o armário. Estava sóbrio, mas seu olho esquerdo latejava e parecia estar um pouco inchado. Caminhou até seu quarto, mas resistiu a cair na cama. Foi até o banheiro e mirou seu próprio rosto no espelho que havia lá.

Um hematoma realmente arroxeado cobria seu olho. James viu sua boca se abrir por alguns instantes, mas voltou a fechá-la quando teve flashs do momento em que recebera o soco. Harry. Seu punho se fechou, em ameaça. Seja qual for o motivo, ele ia pagar.

James caminhou em passos fortes até o quarto do filho, no final do corredor. Bateu na porta. Nada. Bateu novamente. Ninguém respondeu.

As lembranças bateram no peito de James como a arrebentação de uma onda. Seus passos por Londres, o bar em que entrou, a bebida, a garota...

Bateu mais uma vez na porta, agora não com fúria, mas com desespero.

- Harry! – gritou. - Harry, abre a porta!

O momento que chegara em casa, seus gritos, chamando Harry...

Entrou no quarto. A cama estava vazia. Foi até o guarda-roupa e abriu as portas com violência.

As coisas que dissera a Harry, a expressão do filho... Uma dor forte sob o olho esquerdo... Tudo fica escuro...

Oh não... O que ele fizera?! Mandara o filho sair de casa! No meio da noite! Disse coisas que não deveria ter dito...

James deixou o corpo cair sobre a cama de Harry, segurando os cabelos com força.

Deus... No que ele se transformara?


Harry abriu a porta de casa, deviam ser cinco e meia, no máximo. Tomara que não tenha ninguém em casa...

Andou em passos delicados pelo hall e subiu, sem o mínimo ruído, as escadas. Chegou no segundo andar. Ótimo. Agora era só ir até o quarto... Estava quase chegando lá...

- Harry? – uma cabeça surgiu à porta pela qual acabara de passar, a do quarto de sua mãe.

- Stephan? – exclamou Harry no mesmo tom. O melhor a fazer era deixar o outro conduzir a conversa.

- O que está fazendo aqui? Não era para estar na casa de seu pai? – o homem vestido com um robe preto perguntou, num tom gentil, caminhando até Harry.

- É, era...

- Vocês brigaram? – Daniel se se se encostou à parede, de frente para Harry, encarando o rapaz, os olhos castanhos fixos no verde.

- É... Sim, brigamos sim.

- Harry... – Stephan pôs a mão sobre o ombro de Harry, fazendo com que o rapaz voltasse a encará-lo. – vamos lá embaixo? Você deve estar com fome... Sua mãe está no hospital, essa madrugada foi dela. Se tudo der certo, ela não vai demorar a chegar... Vamos.

Stephan saiu na frente pelo corredor. Harry abriu a porta de seu quarto e, num movimento rápido, jogou a mochila com seus pertences em cima de sua cama e se voltou para o corredor, seguindo o primeiro. Não tinha outro jeito mesmo...

- O que aconteceu? – perguntou Stephan, pondo sobre a mesa ovos fritos enquanto Harry pegava pratos no armário.

Harry hesitou por alguns instantes, julgando se deveria contar ou não. Decidiu que sim. Stephan havia conquistado a confiança de Harry, sempre fora um homem digno e respeitoso... Sempre tratara Harry como um homem... Desde três anos atrás, quando começara a sair com Lílian, ele tratava Harry muito bem, sem mimos exagerados, sem tentar assumir o lugar do pai... Nunca interferira entre ele e Lílian...

- Ontem, quando eu cheguei, nós discutimos. – começou Harry, encostando-se na bancada da cozinha e encarando Stephan de frente, no que foi imitado pelo outro. – Eu disse... Acabei dizendo algumas coisas para ele. Disse que não queria mais voltar para lá. Bem, ele saiu, e voltou algumas horas depois. Eu achei que ele tivesse vindo aqui...

- Sim, veio.

- Pois é... Bem, tentei conversar com ele, pedir desculpas... Na verdade eu não queria ter dito o que disse... Mas ele avisou que ia sair, e não falou mais comigo. Ele saiu e, quando voltou, devia ser umas quatro horas... Ele estava furioso e tinha bebido muito, ficou me gritando da sala. Eu fui até lá e... Resumindo, ele disse um monte de coisas, que se eu não gostava de ficar lá então que fosse embora, que não fazia diferença pra ele...

Stephan meneou a cabeça, e Harry parou de falar por alguns instantes.

- E então você saiu?

- Não... Eu tentei conversar com ele... Mas no fim ele acabou ofendendo mamãe, e eu...

- O que você fez? – perguntou, arqueando uma das sobrancelhas.

- Eu... Dei um soco...

- Você bateu no seu pai? – Stephan exclamou surpreso, com uma expressão de repreensão.

- Sim. E ele ficou lá, inconsciente no sofá – Harry estava bem mais confiante para falar, o rosto erguido e a voz firme. – Não vou mais aturar isso, Sten. Pra mim chega. Ele passou dos limites de vez. Não volto mais para aquela casa, não mesmo.

- Harry... Eu te entendo. Entendo o que você está sentindo, mas... As coisas não são assim. Você tem que continuar a ir para lá, a não ser que...

- Que ele passe minha guarda para você. – Harry falou, a voz confiante.

- Harry, você sabe que eu...

- Sei.

- Mas depende também de seu pai... Não acho que Potter iria aceitar.

- Ele não está em posição de escolher, Stephan. Você sabe disso.

- Vamos esperar sua mãe para decidir isso, ok? – Stephan falou, passando o braço por cima do ombro de Harry, guiando-o para a mesa. – Você está bem?

- Estou – Harry sorriu de lado, conformado.

- Então coma alguma coisa. É melhor você estar totalmente bem para quando sua mãe chegar.

- Certo...

- Harry?

- Ham?

- Eu tenho muito orgulho de você, rapaz. Mesmo que não seja meu filho... Gosto muito de você, Harry.

Harry não pôde fazer nada além de sorrir, e dizer, sem jeito:

- Você é um cara legal, Sten.


- Ótimo – disse, sorrindo de leve, enquanto tirava as luvas e ajeitava um fio de cabelo muito vermelho que caía em seus olhos. – ele vai ficar bem.

- Muito bom, Doutora.

- É o meu trabalho, Brian. – ela sorriu, com modéstia. – Podem levá-lo para o quarto. Vou ficar no hospital, cuidarei dele pessoalmente, Penny. Avise aos outros curandeiros. Ele vai precisar de algumas poções, vou fazer a lista agora mesmo. Por enquanto, a de reposição de sangue deve ser administrada continuamente. Ele perdeu realmente muito sangue.

- Certo Dra. Lílian. – respondeu uma enfermeira alta de ar eficiente.

- Ah... Quando passar o efeito do sedativo, mantenham-no consciente.

- Claro – murmurou a enfermeira.

- E não deixe que ele mecha no curativo.

- Sim, doutora.

- Me desculpe Penny. – disse Lílian com um suspiro, a voz cansada. – Eu sei que você já sabe de tudo isso. É que ele é meu amigo, entende? Fiquei realmente preocupada...

- Tudo bem – sorriu a enfermeira, sinceramente – eu percebi que tem um carinho especial por ele.

- É padrinho do meu filho – disse, enquanto caminhava pelo corredor, ao lado da enfermeira, levemente afastada do grupo que levava o homem para um quarto. – Fazia bastante tempo que não o via.

A outra mulher sorriu, quando as duas pararam no corredor que levava à sala de Lílian.

- Bem, vou listar as poções e levarei para você.

- Certo.

Antes de entrar em sua sala, Lílian ficou alguns instantes observando a maca se afastar, até virar num outro corredor. Suspirou, cansada.


Remo não saberia dizer se passou uma hora ou dez olhando para aquela pena. Estava tão hipnotizado que nem reparara num pedaço de pergaminho ao seu lado.

Depois de muito tempo, seu estupor passou. Levantou com dificuldade e foi até um armário forte e trancado com uma fechadura que apenas muita habilidade manual poderia abrir. Ou seja, quando lobo, seria impossível abri-la.

Dentro havia mudas de roupas, além de sua varinha. Com a varinha, fez curativos e fechou algumas de suas feridas. Depois se vestiu, apesar de fraco. Guardou cuidadosamente a pena no bolso de sua camisa.

Passou os olhos pelo quarto ao seu redor... Sim, seria melhor ir logo... Não agüentava mais ficar ali. Ao chegar na porta, olhou para trás, instintivamente. "Até a próxima, então...".

Já ia sair do quarto quando seu reflexo o fez voltar. Avistando o pedaço de pergaminho que estava próximo ao lugar onde se sentara antes, caminhou até lá. Curvou-se com dificuldade e apanhou o pergaminho. Seus olhos nem mesmo chegaram a se mover muito, a carta escrita por uma letra fina e inclinada era bastante curta. Franziu o cenho, tentando compreendê-la. Guardou junto à pena em seu bolso, o rosto ainda franzido.


- Lílian? – Marge sacudiu levemente o braço da amiga – Lily, querida!

- Hmm?- murmurou a ruiva, sem se mover. – Marge?! – exclamou, se recompondo imediatamente e abrindo e fechando os olhos várias vezes, tentando desembaça-los.

Estivera no quarto onde Sirius dormia profundamente, observando-o durante horas, até que cochilou com a cabeça encostada na parede fria.

- Stephan ligou, está preocupado com você, pediu para lhe lembrar que você está trabalhando demais... Isso lhe faz mal, seu horário já terminou...

- Que horas são agora? – perguntou, poupando a si mesma de uma longa falação.

- Dez.

- Aah, eu cochilei...

- Cochilou? Você apagou mesmo, querida. Vamos, o belo adormecido ai não vai acordar tão cedo, prometo que lhe aviso qualquer problema.

- Certo... Marge.

- Sim?

- Cuide dele, sim? É meu amigo.

- Eu cuidarei, Lily.


N/A: eiii... capítulo 4 um pouco antes do que eu tinha prometido... Mas amanhã muito provavelmente não vou parar em casa e é melhor adiantar do que atrasar

Gente, só esclarecendo... os nomes dos capítulos eu invento na hora, então, não se espantem com umas coisas meio nada a ver ou estranhas, ou MUITO nada a ver e MUITO estranhas. O nome dos capítulos é o meu ápice de felicidade, então, não a reprima ;)

iahihhaihahaihaiuahiuaauihaiuhaiuha

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Agradecimentos à Mel Black Potter e JhU Radcliffe. Valeu mesmoo, vocês me deixam muito feliiz -. As reviews foram respondidas xD

E à jana, minha beta-nega-linda :)

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Campanha review amiga. Doe uma review e faça uma garotinha carente de atenção feliz ;P

Próximo cap... cara, o próximo cap é o cinco! ciiiincooo! Jaaaaaaaaaaana, o cinco! o.O

muito medo do cinco :O

dia 24. Se acontecesse um milagre da natureza, alguma coisa realmente muito extraordinária, como notícia de vida inteligente em Saturno ou um número maior de reviews do que no último cap, em posso tentar postar antes o.O

beijos à todos

by Danizooca PP. (pff, apelido retardado...)

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p.s.: Nada dramático a descrinção do acidente do sirius, né? hdifhdiahdfiudhafiahsdhf

alguém aí lê slash?