Regulus (II)

Regulus andava pelas ruas estreitas do Beco Diagonal ao lado de sua mãe. Walburga segurava sua mão, andando a passos largos, fazendo-o dar pequenos saltos para acompanhá-la. Se fosse um dia comum, Regulus estaria um pouco chateado em ser levado pela mão daquele jeito. A verdade é que ele já não era mais uma criança e não precisava que sua mãe segurasse sua mão. Afinal, ele já tinha nove anos, e Sirius sempre zombava dele por isso.

"Walburga?"

Se fosse qualquer outro dia, Regulus só se incomodaria com fato de sua mãe encontrar com um conhecido, porque com isso ele teria que ficar ali parado, esperando que os adultos conversassem sobre algo que não o interessava. No entanto, ao sentir a mão macia de sua mãe tremer ligeiramente, Regulus quase se pôs a correr para tirá-la dali. Ele não queria presenciar aquela situação novamente.

"Albert, como vai?", perguntou a bruxa polidamente.

"Muito bem"

Regulus não se incomodou em não ser notado pelo homem. Sempre era assim. Os amigos de seus pais normalmente só se interessavam pelos adultos. Praticamente só os membros da família tinham mais contato com ele. Era raro os outros demonstrarem algum interesse nos filhos, mas para ele não fazia muita diferença, até porque quando isso acontecia, a atenção era voltada para Sirius, e daquela vez não seria diferente.

"Eu soube", começou o homem não contendo a ansiedade na voz. "Eu soube que o seu filho foi mandado para a Grifinória", falou o homem olhando-a de perto, parecendo esperar que Walburga desmentisse aquilo imediatamente.

Sua mãe ficou olhando para o bruxo por alguns segundos e Regulus mais uma vez viu aquela expressão no rosto belo da bruxa. Era a mesma mistura de dor, decepção e orgulho ferido, que a havia desnorteado alguns dias antes, quando uma carta de sua prima Narcissa chegara na mansão avisando para onde Sirius havia sido selecionado.

Regulus fechou a mão livre em punho e abaixou a cabeça. Ainda não entendia por que Sirius tinha deixado a família saber daquilo por terceiros. Não podia ser medo, podia? Sirius nunca tivera medo de nada. O irmão era sempre tão corajoso e destemido, nunca tivera medo de fazer o que bem entendia. Ao menos nunca na frente dele.

Walburga ficou olhando para o homem a sua frente, sem dizer uma palavra. Regulus sentiu o rosto esquentar, e apertou a mão da mãe com força, para tentar fazê-la notar que ele estava ali com ela, porém a mulher continuou a olhar para o bruxo com o rosto pálido e os olhos sem expressão.

Regulus continuou a contemplar o rosto da mãe do mesmo jeito que havia feito em casa. Era algo indescritível o que ele havia sentido na primeira vez que Walburga agiu daquele jeito. Foi a primeira vez que ele viu a mulher demonstrar fraqueza, e no começo, foi como se o chão abaixo de seus pés houvesse sumido. Um crescente terror tomou conta de seu jovem corpo quando viu sua mãe daquele jeito, e por um momento ele pensou que a fortaleza que sempre o mantinha protegido havia ruído, que a segurança que só conseguia sentir nos braços de sua mãe não seria mais o suficiente para mantê-lo de pé.

Ele poderia dizer que aquela fora a sensação mais assustadora que já tinha sentido, contudo, ele percebeu que já podia se sustentar sozinho. Naquele dia ele notou que a sua mãe não era perfeita e que vê-la sofrer era pior do que o medo que o consumia de não ter mais em quem se apoiar totalmente.

- Eu entendo... – continuou o bruxo, sem precisar de uma resposta para entender que realmente era verdade. – Eu imagino que Orion deve estar muito decepcionado...

Regulus olhou para o homem com raiva, mas não podia descontar nele, sabia que Walburga desaprovaria sua atitude. Fechou a mão livre em punho mais uma vez. Além de se ver pela primeira vez sozinho, a admiração que Regulus nutria pelo irmão mais velho também foi abalada com todos os acontecimentos. De repente, percebeu que o garoto não era mais tão fantástico assim, não era mais perfeito, nem com quem ele secretamente queria parecer. Se Sirius podia fazer algo como aquilo com seus pais e não dar nenhuma explicação, Regulus realmente não conhecia o menino como imaginara antes.

Só restava esperar que ele voltasse nas férias, para que Regulus e aquele turbilhão de pensamentos, dúvidas e ressentimento deixassem o caçula dos Black em paz. Apesar de a imagem de Sirius estar manchada, ele ainda nutria esperanças.

- É o que eu falo... Está faltando pulso firme... É realmente lamentável... Estragar a linhagem da família assim... Também não saberia o que fazer se fosse você...

- Ela tem a mim! – Regulus falou alto, fazendo o homem olhar para baixo, surpreso.

Regulus ajeitou a postura, olhando o bruxo como se o desafiasse a contrariá-lo.

- Eu sou um Black também, então não fale como se a minha família tivesse acabado. Eu posso dar continuidade a tradição da família. – o menino falou, sem desviar o olhar do bruxo. – Eu vou dar continuidade, não que isso seja da sua conta... E não que isso pareça agradar o senhor...

Albert continuava a mirá-lo atônito. Walburga olhava para o filho com as sobrancelhas ligeiramente erguidas, espantada, como se o notasse pela primeira vez.

- Agora, se nos der licença... Minha mãe tem muito o que fazer.

Regulus não precisou se mover, pois o homem deixou-os, falando algo como "Insolentezinho", diante do silêncio de Walburga.

O menino tomou coragem de olhar a mãe, não sabia nem com quem havia agido tão grosseiramente, mas era difícil simplesmente ignorar aquele tipo de gente, como ela sempre ensinara. Preparou-se para pedir desculpas, porém sua mãe fez uma coisa que o deixou tão espantado quanto ela. Walburga se ajoelhou na calçada de pedra do Beco Diagonal, ficando quase de sua altura.

- Mamãe... A senhora irá machucar os joelhos – apressou-se a dizer, tentando fazê-la levantar. - e a sua roupa, a senhora irá sujá-las...

Olhou para a mãe sem conseguir entender o que ela estava fazendo, no entanto a mulher o abraçou e aos poucos ele foi compreendendo...

- Eu tenho você Regulus... Eu sempre tive...

Compreendeu que a mulher falava como se só agora tivesse se dado conta de que Sirius não era o único, compreendeu que ele não precisava mais tanto dela quanto ela dele e compreendeu, também, que daquele momento em diante ele nunca mais precisaria puxar sua mão para ser notado.


Oie o/

Desculpem a demora, mas esse mês tive prova do vestibular aí já viu u.ú fiquei meio atarefada.

Então, é estranho escrever com dona Walburga sem ela ser a bruxa velha do quadro de Grimmauld Place xD Por isso eu não sei se acabei romantizando demais nesse chap, mesmo ela só tendo duas falas :o. O fato é que, eu prefiro idealizá-la como uma espécie de Narcissa, só que revoltada com o filho rebelde, do que como uma mulher má ao extremo, comedora de oompa lompas, pois apesar de crer que ela era cruel - como pessoa - em relação a seus ideais, como mãe sempre há aquele lado mais sensível... sei lá Ç.Ç só espero não ter viajado xD

Se bem que isso daqui foi bem mais do Regulus... Adoro escrever sobre crianças...

Espero realmente que gostem :D

Kissus Kissus

PS: Capítulo escrito também para a comunidade 30cookies do livejournal. Set: Outono. Tema 25. Sempre.