IV
De volta ao interior do celeiro, Clark subiu as escadas em direção ao nível superior. Lá colocou o martelo e os pregos sobre um pequeno armário, carregando a caixa de Lex até uma janela, apoiando-a na beirada desta. Após suspirar por um instante, refletindo sobre seus desentendimentos com o milionário e a respeito do que ele poderia ter lhe dado de presente, o filho adotivo dos Kent abriu o recipiente.
Assim que exposto ao conteúdo, o qual logo identificou como estranhas pedras de brilho anil, Clark foi tomado por uma latente mistura de dor e fraqueza. Sua cabeça começou a girar, e sua visão ficou confusa. Conhecia muito bem a sensação: dentro daquela caixa havia uma até então desconhecida kriptonita de tonalidade azul, e assim como as outras, ela possuía um efeito nada bom sobre o rapaz. Apesar do dano físico não ser tão intenso quanto o provocado pela kriptonita verde, a sensação era igualmente incômoda, pois o jovem perdeu, além de seus poderes, qualquer noção de espaço ou direção, totalmente zonzo. Para seu espanto, notou que o teto aparentava se afastar, ficando cada vez mais alto. Gemendo, começou a tremer num estado semiconvulsivo, caindo de costas sobre o chão, com a bizarra sensação de que as tábuas pareciam deslizar sob si, as coisas em volta se deslocando para mais longe...
Até que, sem mais nem menos, tudo cessou. A dor fora embora, a tontura prosseguia um pouco mais tênue, e seus poderes ainda não haviam voltado. Atordoado, Clark levantou-se e olhou ao redor. Teve uma estranha visão, e por um momento achou que seus olhos o enganavam. O ambiente estava diferente. Ou melhor, estava muito, mas muito maior. A janela onde deixara a caixa se encontrava agora a dezenas de metros de altura do chão, e o teto parecia ainda mais distante, tão inatingível quanto o céu. Com um repentino disparar do coração, o rapaz viu que os objetos ali presentes, como alguns móveis e seu telescópio, haviam alcançado tamanho gigantesco. Foi então, que após dar alguns passos e contemplar o cenário expandido por mais alguns instantes, Clark chegou à aterradora conclusão: além de ter retirado seus poderes, a kriptonita azul fizera-o encolher drasticamente em tamanho, possuindo agora poucos centímetros de estatura!
Desesperado e sem ter em mente como sair daquela horrível situação, o jovem percebeu que precisava urgentemente do auxílio de alguém. Suando frio, gritou com todas as forças:
"Socorro, alguém me ajude!".
Refletiu brevemente acerca do estado drástico em que se encontrava. Menor do que todas as outras pessoas... Minúsculo em relação a seus pais, seus amigos... As garotas...
De repente, Clark ouviu um som forte, simultâneo a intenso tremor. Olhou assustado ao redor e em seguida a combinação se repetiu, com a diferença de que agora pôde identificar o barulho como o ranger da madeira da escada, só que várias vezes ampliado. Alguém estava subindo até ali. Sentindo-se um inseto indefeso (e naquele momento de fato era), o rapaz viu surgir a imensa figura da pessoa que chegava: Chloe Sullivan. Os passos dela haviam sido a fonte do tremor, dado o tamanho diminuto assumido por Kent. Era como se a garota fosse um colosso ambulante!
Olhando atônito e imóvel para o alto, o extraterrestre admirou a amiga, agora tão alta quanto um arranha-céu: usava botas de salto marrons que para si já eram mais altas que a fachada do Talon. Logo acima, trajava uma discreta saia vinho e uma blusa azul-clara decotada. Com as mãos na cintura, a garota percorreu o cômodo com os olhos, tentando em vão encontrar o amado. Logo depois gritou, fazendo os ouvidos reduzidos do jovem doerem:
"Clark, cadê você?".
"Estou aqui, Chloe!" – exclamou o pequeno alienígena, saltando e agitando os braços no ar. – "Você precisa me ajudar!".
A prima de Lois ouviu a voz do amigo um tanto distante, e isso fez com que ela caminhasse até a janela (fazendo novamente o chão tremer) para averiguar se ele estava do lado de fora. Mal percebendo a caixa aberta com a kriptonita azul, Chloe se debruçou na abertura, indagando em alta voz:
"Clark, você está aí fora?".
"Não, Chloe!" – berrou Kent, ainda pulando para chamar a atenção da garota. – "Estou aqui embaixo, atrás de você!".
"Como disse?".
A estagiária virou-se para trás e olhou na direção do chão de madeira, levando um dos maiores sustos de sua vida. Quase sem ar e com o queixo caído, Chloe rapidamente ajoelhou-se sobre as tábuas, ficando de quatro, para assim aproximar o rosto do pequenino Clark com o objetivo de conseguir examiná-lo melhor. Simplesmente sem acreditar no que via, ela inquiriu:
"Clark, o que houve? Como ficou tão pequeno?".
"Foi a kriptonita azul!" – respondeu ele, apontando para a caixa. – "Ela me encolheu e também arrancou meus poderes! Você tem de me ajudar, Chloe! Não posso ficar deste jeito!".
Era mesmo aterrador. Chloe tinha de pensar rápido. A melhor coisa a fazer seria chamar Jonathan e Martha, para que então pudessem trocar idéias sobre como tirar o pobre Clark daquela precária situação. Aquela era uma variação desconhecida de kriptonita e... Hei, espere um pouco!
Um pouco menos tensa, a funcionária do Planeta Diário analisou melhor as circunstâncias, fitando o ser reduzido. O homem que amava havia encolhido e perdido suas habilidades sobre-humanas, estando totalmente frágil e manipulável diante de sua gigantesca e sensual (mesmo se Clark não notasse) figura feminina. Era a fantasia com a qual sempre sonhara! Seu amado estava ali, pronto para ser somente seu, pronto para ser possuído, ser dominado.
Chloe nunca pensara que teria coragem de agir como agiria a partir daquele momento, porém desde a madrugada daquele dia ela já fizera coisas que também jamais imaginara fazer.
Haviam se passado alguns segundos. Sem tirar os olhos de Clark, Chloe ergueu o tronco, ficando apenas de joelhos. Num sorriso divertido que só ela sabia dar, respondeu em tom travesso:
"Não!".
Clark piscou, confuso. Deu alguns passos pela madeira e indagou, sem entender:
"Como assim não?".
"Primeiro nós vamos nos divertir!".
O indefeso rapaz entendeu menos ainda, mas começou a ficar assustado quando a amiga, numa risadinha, estendeu sua imensa mão direita na direção de si. Para sua surpresa, esta o envolveu como uma concha, seu pequeno corpo se encaixando perfeitamente sob os dedos gigantes de Chloe. Cada um deles era como uma firme cobra anaconda que se apodera da presa, e cada uma de suas unhas brilhantes de esmalte era maior que a palma de suas mãos encolhidas. Apesar de ela não apertá-lo, segurando-o com carinho, Clark ficava mais e mais apavorado:
"O que você está fazendo, Chloe?" – questionou, ao mesmo tempo em que era erguido do chão pela mão da jovem giganta.
"Apoderando-me de você!" – disse ela em resposta, sorrindo como uma garotinha que ganha a primeira boneca.
Chloe transportou o filho dos Kent até perto de seu rosto, fitando-o fixamente como se ainda não acreditasse que aquilo fosse mesmo verdade. Clark começou a tentar se libertar, empurrando os dedos da amiga com o máximo de sua força, porém mal conseguia movê-los. Não era nada sem seus poderes, ainda mais daquele tamanho. Não havia coisa alguma que pudesse fazer. O jeito era confiar em Chloe e torcer para que ela não lhe fizesse nada de mal.
"Agora você é meu, Clark Kent!" – afirmou ela, triunfante. – "Só meu e de mais ninguém!".
