4. Melancolia

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Chegou até a porta, sua mão no trinco.

Não, ele não correria atrás dela.

E nem era orgulho ou mágoa, apenas não tinha forças para fazê-lo. Apenas estava tão esgotado e puto com si próprio que não queria ver ninguém.

Apagou a luz, e se jogou na cama, da maneira que estava. Sentia cada músculo reclamar da tensão, sentia sua cabeça palpitar contra sua estupidez, sentia seu peito contraído da dor. As garras da insônia lhe cortaram a mente, gostaria tanto de apagar e esquecer aquilo por algumas horas, mas apenas se mexia de um lado para outro sem consegui-lo.

Ficar sem ela em LA tinha sido uma insolência, a comida já não tinha o mesmo gosto, as coisas compartilhadas eram uma tortura na solidão, a cama era um belo calvário dourado.

Rob vivia bem sem ela, trabalhava bem sem ela, saía com os amigos sem ela, continuava sua vida. Todavia, são aquelas coisas de quando se ama, quando se conhece o manjar delicado do amor e o organismo se nega a retornar a uma vida insípida. Comum já não é aceitável, deseja-se apenas o extraordinário.

No fundo, não se arrependia da briga, de algumas coisas possivelmente, não de ter acontecido. Ele não podia mais continuar com tudo aquilo dentro de si. Tentara compor músicas, esconjurar o que sentia... Mas não foi o bastante. Machado de Assis poderia teorizar que "ele conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar".

Tomou o travesseiro, passando o braço por cima e abandonando o rosto ali. O cheiro dela veio forte e inconfundível.

- DIABOS! – virou-se e olhou para o teto-... Mereço! PUTA QUE PARIU!

Era complicado explicar, a menos que alguém já tenha se sentido assim, entrar numa briga feia com a certeza de solucioná-la, de ninguém sair ferido. Podia ser arrogância dele mesmo, acreditar que isso daria certo. Mas pode ter certeza que ele não pensava em dormir sem ela aquela noite.

Os contornos dela em suas mãos, a boca dela em seus lábios, afundar o rosto nos cabelos dela, senti-la ronronar seu nome.

Então, foi sentindo uma tristeza lhe percorrendo as veias, como se algo tivesse sido injetado contra sua vontade na sua carne. Sentia sua temperatura baixar, e suas esperanças virarem pó. Um gosto seco na boca. Como se dementadores se alimentassem dele e nenhuma boa lembrança tivesse sido deixada.

Sentia a presença da aliança abandonada ao seu lado.

Podia pensar em um fim? De deixar Kristen seguir sem ele?

Ele não era um Hobbit, vivendo nas Montanhas Sombrias, se alimentando de peixe cru, referindo-se a si mesmo na 1ª pessoa do plural e corroído por uma obsessão por ela. Não. Se ela quisesse seguir, nunca poderia impedi-la. Se a namorada não era mais feliz com ele... Nunca iria se perdoar. Mas não podia vê-la sem o seu sorriso. Nem que isso fosse vê-la sorrindo com outro alguém... É, isso foi um pouco demais, mas ele pretendia fazê-lo... Um dia. Se obrigado.

Kristen era sua Beatrice. Não podia explicar, ele a amaria indiscutivelmente mesmo que ela não o amasse mais. Era sua Beatrice Portinari, sua Beatrice Baudelaire; e como aqueles homens que as amaram, sentia que nem outrem, nem a morte faria seu amor se desfalecer.

Unicamente, queria resolver aquilo com ela, se ainda possível. Era ridículo pensar que ele queria viver assim, com toda aquela angústia e insegurança, não queria amá-la neste misto de gostos. Contudo, não queria perde-la também.

Levantou-se –mecanicamente- e olhou a cama vazia que lhe atestava seu fracasso, arrancou com violência os lençóis, a manta, os travesseiros, toda a roupa de cama que carregava o perfume dela.

Sentado no chão, encarou a cama gelada e vazia. Sentiu sua garganta fechar.

Dormiu no chão, sonhando com ela.

E no seu sonho, ela tinha o mais maravilhoso sorriso, balançando-se no ar, com um curto vestido preto de alta costura. Era quase um anjo. E o sorriso era para ele.

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Talvez, este seria o momento de transmitir um aviso sincero já feito em outras páginas. Que seria mais ou menos assim, com alguma adaptação:

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"Se você está interessado em histórias com finais felizes, você estaria melhor procurando outra fanfic. Nesta fanfic, não apenas não há finais felizes, não há um começo feliz, e poucas coisas felizes no meio".

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Lemony estaria satisfeito.

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Mas o que ele sabe sobre o amor correspondido?

Uma batida órfã na porta, e Tom que estava se decidindo se ligava para certa garota ou se saia para beber sozinho, ou se procurava noticias de Rob e Kristen, percebeu que uma das suas dúvidas estava respondida. E as outras estavam canceladas.

Kristen entrou no quarto com os olhos vermelhos e um ânimo digno de quem é expulso da Copa do Mundo por causa do Mick Jagger. Ele nem teve tempo de convidá-la para passar, e ela já estava sentada em uma poltrona com o rosto baixo e os braços cruzados no peito.

Aquilo não estava nada bem, e consultou no corredor se o amigo não estava vindo atrás dela ou se seria apenas aquela aparição na noite. Ele não queria ser scrooge com a amiga, mas as coisas já não estavam bem com Rob, e era óbvio que os pombinhos tinham brigado. E mais óbvio ainda que se ele aparecesse ali, ele faria Tom usar uma letra escarlate no peito.

Aproximou-se dela.

- Vocês brigaram, né? - ela só concordou com a cabeça e os olhos de corça-... E não foi bonito de se ver, imagino?!E já que você não está no seu quarto, suponho que ele está lá? Hum... E você não quer que peça outro quarto para você?

A última pergunta foi a única com uma negativa em resposta. Ela agradecia por não ter que falar nada, nem pronunciar o nome dele. Queria apenas entrar num casúlo e não sair mais. Poderia ser?

O amigo percebeu aquela parede vítrea no olhar dela, e então ela novamente baixou a cabeça e as lágrimas se libertaram.

Um choro sem palavras. Seus ombros tremiam de pouco em pouco.

Tom apenas abraçou a amiga e fez alguns "shuus" para acalmá-la. Cortava-lhe o coração vê-la assim. E do jeito que ele conhecia Rob, este não deveria estar melhor.

A jovem atriz chorou por cada palavra dita e cada palavra recebida, por cada olhar de desgosto trocado, por cada vez que as mãos do namorado tinham lhe tocado e ela não sentira o calor do carinho de outrora.

Ela chorou.

Ela chorou e seus braços permaneceram presos ao seu corpo, num abraço em si. Como se aquilo pudesse lhe libertar de toda a rejeição que sentia. As agulhas que sentia pelo corpo como uma bonequinha de vodoo.

Tom apenas a deixou para pegar um rolo de papel higiênico e pensar o que as mulheres dizem umas para as outras nestas situações. Não tinha ideia de como fazê-la parar de chorar. Sentia toda a impotência disso. Quando alguma tranquilidade voltou à face da jovem, ele a ajudou a se deitar na cama.

Puxou outra poltrona e a pôs do lado da amiga. Ele segurava a mão dela.

- Eu... Eu tentei falar com a minha mãe... E com uma amiga... E com Dakota- ela falou com a voz quebrada-... Não achei ninguém... Desculpa estar aqui...

- Não tem problema Kris... Para que servem os amigos? Se para envergonhar a si e os outros ou segurar a mão quando se precisa – deu um sorriso tímido.

- Não quero que ninguém mais me veja assim... E nem quero ficar sozinha...

- E você não quer que converse com o Rob? Ele pode ficar aqui comigo e você pode dormir no seu quarto...

- Não, por favor, a gente já se machucou demais hoje. Eu só quero... Nem sei o que quero...

- Você quer me dizer o que houve? Eu até sei escutar... O Marcus é melhor em conselho e o Bobby poderia te fazer rir. Mas eu sei escutar...

- O Sam é bom no que? –ficou feliz em pensar em outra coisa.

- A gente nunca descobriu – fez uma cara pensativa-... É, isso ainda é um mistério... -ela reprimiu um desejo de saber o que ele diria de Rob.

-... Estou te pondo numa situação complicada estando aqui, não?

- Não, o Rob já está puto comigo mesmo...

- O que você fez? -ela franziu a testa.

- Ele me pediu algo e eu o deixei na mão... -era o melhor jeito de colocar sem complicar o amigo diante da namorada ainda mais.

- E você não tem como consertar? -era uma pergunta que ela também queria saber a resposta.

- No meu caso, acho mais complicado. Ele tem uma foto para lembrá-lo da minha mancada... –ele riu-...Mas o Rob é um amigo que sabe perdoar, demora um pouco. Mas ele sabe. E se redimir também... –ele deu um olhar encorajador-... Ele tem o maior coração que já conheci.

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Ele ainda segurava a mão dela quando ela adormeceu.