Capítulo 4 - Não É Todo Dia Que Se Conhece Um Lorde das Trevas

Quando abri os olhos, vi que estava em uma sala escura e cheia de prateleiras com coisas nojentas. Não pude deixar de sentir um alívio enorme. Um alívio tão grande que me fez tossir. Afinal, eu estava viva! A primeira etapa tinha sido concluída! Me levantei sentindo uma pontada nas costas por ter caído de mal jeito, e fui avaliar uma das prateleiras que continha um pote com algo que parecia um olho humano dentro.

- Parece olho humano, não é mesmo? – ouvi uma voz doce atrás de mim dizer, fazendo com que eu levasse um susto. Me virei, dando de cara com um Dumbledore bem mais novo, que olhava pra mim com o mesmo olhar de ternura que ele sempre teve por sei lá quantos anos. – Mas é apenas Mati Egypcium, uma criatura que quando segurada nas mãos por mais de 5 segundos faz com que você tenha a exata aparência da pessoa por quem você nutre sentimentos mais fortes, como amor ou ódio. E quando adicionado a um extrato de Orquídea Asiática, diminui em 75% as rugas faciais.

Dei apenas um sorrisinho fraco e sem graça, ainda meio em choque pelo susto. Ele se aproximou, sorrindo, e perguntou:

- E então, vai me dizer quem é você?

Foi aí que eu me lembrei em que ano eu estava. Enfiei a mão no bolso das vestes, tirando o grosso envelope de lá, entregando-o logo depois para Dumbledore. Ele sorriu, de novo, e pegou o envelope, lendo seu conteúdo logo em seguida. Esperei ele terminar de ler mordendo o lábio inferior e balançando para trás e para frente, que nem uma perfeita idiota.

- Sim, sim – murmurava Dumb para si mesmo. Eu, pessoalmente, esperava uma reação bem maior – muito bem, creio que você tenha algo para entregar ao Dippet, certo?

- Ah sim, tenho sim! – disse, tirando outro envelope das minhas vestes e entregando ao Dumb. Ele pegou, sorriu e o guardou, logo depois se sentando na cadeira em frente à mesa "principal" que havia naquela sala.

- Devo dizer que isso não estava no meu planejamento diário – comentou Dumb, dando uma risadinha – mas, pelo menos, é mais emocionante do que o meu itinerário previa!

- Eu que o diga! – Suspirei, me largando em uma das carteiras que haviam ali.

- E não posso dizer que estou surpreso... no fundo creio que eu sempre soube que isso poderia acontecer – dizia ele – A senhorita deve ser mesmo muito corajosa. Arriscar a própria vida em uma missão perigosa como essa, para salvar o mundo. Atitude admirável, realmente admirável... então, já tem algum plano?

- Não tenho nem um "pla" – resmunguei, abaixando a cabeça e apoiando-a na mesinha da carteira aonde eu estava sentada, de repente me sentindo muito sonolenta.

- Bem, teremos que trabalhar nisso então, não? Acho que não é prudente que eu me envolva muito com seus planos, mas saiba que se precisar de qualquer auxílio pode recorrer a mim. Venha comigo, vou te levar até a enfermaria, você poderá tirar um cochilo e comer um chocolate por lá para renovar as energias, e mais tarde peço madame Harrods para te acordar para o jantar – Dizia Dumbledore, já saindo da sala, me obrigando a levantar da confortável cadeira e segui-lo – Deseja mais alguma coisa, Srta. Schiffer?

Fiquei quieta alguns segundos, até me lembrar que, bem, eu era a Srta. Schiffer.

- Não, obrigada. Um cochilo e algumas barras de chocolate é tudo que eu preciso – Resmunguei, enquanto arrastava minha incrivelmente pesada mala e andava. Andamos o que pareciam quilômetros, até chegar numa salinha onde tudo era muito branco e limpo, que presumi ser a Ala Hospitalar.


- Jacinta? – Chamou Dumb, fazendo com que uma mulher assustadoramente alta e magrela com um nariz enorme aparecesse, sorrindo.

- Olá Alvo! Em que posso ajudar?

- Esta é Katherine Schiffer, acabou de ser transferida de Baeuxbatons e está exausta. Como não participou da seleção das casas ainda, imaginei que ela poderia repousar aqui, até o jantar.

Jacinta Harrods me olhou, e meu estado deveria estar realmente péssimo, pois ela fez a maior cara de pena e me levou depressinha para uma cama, dizendo:

- Pobrezinha, a viagem deve ter sido muito cansativa. Você veio de carruagem? Não vi nenhuma chegando!

Arregalei os olhos. O que eu responderia? 'Não, acho meio difícil eu ter vindo de carruagem porque elas não viajam no tempo'?

- A senhorita veio de trem. Ela já estava no país, mas mesmo assim é uma viagem e tanto, não? Bem, tenho que corrigir algumas redações antes do jantar, não se esqueça de acordá-la. – Disse Dumbledore, salvando minha pele, e logo depois saindo pela porta.

- Bem querida, pode se deitar. Vou trazer chocolate quente pra você. Se quiser mais alguma coisa pode me chamar, ok?

Não respondi, pois estava me jogando na cama, já dormindo praticamente no meio do caminho.


- Srta. Schiffer? – Ouvi uma voz que parecia muito distante chamar. Ignorei. – Srta. Schiffer? Katherine?

Madame Harrods me chamou por horas, e eu, cheia de chocolate relaxante nas idéias, não conseguia perceber que aqueles nomes supostamente eram meus. Por isso só acordei quando ela tirou o lençol de cima de mim, fazendo com que eu sentisse um vento gelado congelar minhas pernas.

- Me deixa em paz – Resmunguei, tentando arrancar o lençol das mãos finas dela. Não sou muito simpática quando me acordam.

- Srta. Schiffer, está quase na hora do jantar! Você tem que se arrumar! – Continuou Jacinta, num tom mais irritado. – Dumbledore falou que você pode usar o banheiro da enfermaria, depois é só deixar sua mala aqui, arrumada, e ir para o jantar.

Murmurei qualquer coisa, me levantando irritada, pegando minha mala e chutando-a em direção ao banheiro minúsculo que havia ali, para poder me arrumar.


Ok, devo admitir que o jantar não foi de todo ruim. Se bem que não sei se conta o fato de que eu não comia há horas ou que uma viagem no tempo pode ser bem esfomeadora.

Mesmo assim, não posso deixar de perguntar:

Qual é a do suco de abóbora?

Quero dizer, que nojo. Eles encarnam totalmente o papel de Bruxa Onilda nessa escola. Lá em Beauxbatons a gente bebe coisa de verdade, como cerveja amanteigada (sem álcool, é claro, mas é melhor do que essa gosma laranja que eles chamam de suco) ou um bom hidromel.

De todo o modo, durante o jantar o diretor Dippet anunciou a transferência de uma nova aluna (no caso eu, caso tenha fugido à memória), fiz todo o processo de seleção caindo, obviamente, na casa do Voldemort, a Sonserina, e depois sendo nomeada Monitora-Júnior, o que causou certa controvérsia uma vez que esse cargo nem ao menos existia.

Mas, quero dizer, se virem ai seus invejosos sedentos por poder, quem está no comando agora aqui sou eu.

Ok, monitora júnior não deve ter muito poder, uma vez que Dumbledore inventou esse cargo só para me aproximar do Vol, que é Monitor-Chefe. Mas pelo menos posso dar uns chutes nos traseiros de alguns pirralhos irritantes. Não que eu seja totalmente a favor da violência, mas esses pirralhos podem ser bem descontrolados.

Enfim, só sei que não consegui localizar o Voldemort-versão-17-anos, mesmo teoricamente estando sentada na mesma mesa que ele. Não que eu saiba como ele seja, mas as pessoas mais feias da mesa não estavam com o broche de 'Monitor Chefe', e depois que toda aquela comida surgiu na minha frente eu meio que esqueci de continuar a procurar.

Depois que o jantar terminou, todo mundo se misturou numa velocidade tão impressionante que eu já nem sabia pra onde ir. Por isso resolvi tentar achar o caminho por conta própria. Saí do salão principal e fui andando pelos corredores escuros, à procura de um local específico: a cozinha. Andei por uns trinta minutos (para quê uma escola tão grande? Céus), até achar o que eu queria.

Entrei na cozinha discretamente, com um brilho no olhar. Não tinha bebido aquela gororoba no jantar, então precisava desesperadamente de líquido. Vi vários elfozinhos andando de um lado para o outro, apressados, para limpar toda aquela louça suja. Um deles percebeu minha presença e franziu o cenho, se aproximando:

- O que a senhorita está fazendo aqui? Não é permitida a entrada de alunos! A senhorita deve se retirar já! Já!

- Segura as pontas aí, baixinho! Eu vim em paz, só quero algo pra beber.

- Creio que oferecemos suco de abóbora em quantidades suficientes no jantar de hoje! – Guinchou o elfozinho, com os olhos arregalados em pânico de alguém me achar ali.

- Argh, exatamente. Quero alguma bebida de verdade. Que tal uma cervejinha amanteigada? – Propus, me direcionando para um compartimento que parecia ser onde eram mantidos os líquidos. O elfo parou na minha frente.

- Certo, se eu te der o que a senhorita quer, a senhorita irá embora? – questionou.

- Aham, claro, contanto que pare de me chamar de 'senhorita'. Pode me chamar de Hol...Katherine. Kate, é, Kate. E você, como chama?

O elfo pareceu levemente desconfiado, mas depois seus olhões se encheram de lágrimas, embora ele tenha olhado para baixo para disfarçar.

- Sabe, senho... Kate, não é sempre que um bruxo pergunta o nome de um elfo! Ainda mais uma senhorita tão graciosamente bela como você! Me chamo Felix. E então, o que quer mesmo? – Disse Felix, indo na direção do compartimento e o abrindo, agora parecendo muito mais amigável.

Dessa vez foram meus olhos que se encheram de lágrimas. Quero dizer, não é todo dia que eu recebo elogios, então costumo ficar assim quando recebo um, mesmo que seja de um elfo. Puxa, eu sei que não sou nenhuma baranga, então não sei porque as pessoas não me dizem essas coisas legais com mais freqüência. Tudo bem que posso parecer um pouco estranha e durona às vezes, mas não quer dizer que eu não goste de um elogio, certo?

- Cerveja amanteigada seria ótimo! – pedi, dessa vez com lágrima nos olhos ao vê-lo encher um copo daquele conteúdo precioso, me entregando logo depois. – Puxa, obrigada mesmo, Felix! Você salvou minha vida.

Felix deu um sorriso satisfeito como resposta, e então eu aproveitei para perguntar:

- Hm, você sabe o caminho para o salão comunal da Sonserina? É o meu primeiro dia aqui e eu não poderia estar mais perdida.

Felix me explicou rapidamente e eu fingi que entendi, me despedindo e saindo da cozinha logo depois. Encarei aquele labirinto de corredores e escadas, respirei fundo e tomei um gole da minha cerveja antes de começar minha jornada.

Ah. Álcool etílico amanteigado, sempre bate fundo.

Dei uns passos para frente, e ao virar o primeiro corredor vi um cara descendo uma escada. Olhei para seu uniforme para tentar identificar a casa, vendo logo que era da Sonserina, e vendo logo depois algo que me fez tossir.

O broche de "Monitor-Chefe".

Era ele. Voldemort.

Logo após eu conseguir ler o broche, ele virou, ficando de costas para mim, antes que eu pudesse ver seu rosto. Só consegui ver que ele tinha cabelos escuros, que balançavam levemente enquanto ele andava.

É agora, pensei.

- Hm, ei! – Falei, em tom alto, enquanto dava uma corridinha para alcançá-lo. Ele parou, virando-se logo depois.

A única coisa que consegui pensar foi a expressão mais repetida entre os ingleses, logo, a que mais tenho ouvido nas últimas 24 horas pelos corredores.

Bloody Hell.

Voldemort não era nada como eu havia imaginado.

Seu cabelo escuro era muito bonito e milimetricamente arrumado, contrastando com sua pele pálida. Seus cílios eram grandes, emoldurando o par de olhos azuis acinzentados. Seu rosto fino tinha contornos bem definidos e aristocráticos.

E aí a única coisa que conseguir fazer depois que ele virou foi tossir, de novo.

- Hã, oi. Você deve ser o monitor chefe! – Disse, depois de recuperar as estruturas.

Ele não pareceu demonstrar nenhum tipo de emoção enquanto eu me aproximava, parando à apenas alguns passos dele.

- Considerando que estou usando o distintivo escrito "monitor chefe", que apenas o Monitor Chefe possui, creio que dá para concluir isto, não? – disse ele, numa voz moderada, não muito grossa e nem muito fina.

E aliás, há há. Muito engraçadinho, para um Lorde das Trevas.

- Sou Katherine! – Me apresentei, com a voz um pouquinho esganiçada – Katherine Schiffer.

- Eu sei – ele replicou, enquanto parecia me analisar, indiferentemente – Dippet anunciou seu nome no jantar. Duas vezes.

Ok, então Dumbledore não estava brincando ao dizer que ele era bastante perceptivo. Senti minhas pernas começarem a tremer, talvez de nervosismo por estar de cara com o cara que se tornaria o Rei do Mal, talvez porque ele era bem mais gato do que eu planejara, ou talvez porque estava frio e aquela saia ridícula e aquela meia três quartos não esquentavam nadinha.

Mas, vou te contar, mesmo ele tendo a beleza de um Deus grego, eu não podia deixar de sentir um ódio crescendo dentro de mim, afinal, não dava para esquecer quem ele havia se tornado. Porém, manti meu sorriso bobo e falei:

- "Olá Katherine, sou fulano, muito prazer".

Voldemort me encarou mais profundamente por um instante, com uma mão casualmente dentro do bolso das vestes e a outra mexendo na varinha, quase que inocentemente. Esperei alguma resposta me sentindo ainda mais nervosa e quase ansiosa, com aquele olhar dele me deixando, no mínimo, enlouquecida. Cruzei os braços, com cuidado para não derramar minha preciosa cerveja, sentindo que aquela situação estava destruindo meus neurônios um por um.

De repente, ele tirou a mão que estava no bolso e a estendeu, como se esperando que eu a apertasse.

Confesso que dei um pequeno pulo para trás com seu movimento, quero dizer, eu estava realmente nervosa, e quando me encontro nesse estado, qualquer movimento brusco me assusta. Ele franziu levemente o cenho, como quem estava me achando uma perfeita idiota, e disse, num tom quase entediado:

- Olá Katherine, sou Tom Riddle, muito prazer.

Tom Riddle?

Ah, é, tá certo. Ele não ia se apresentar como Lord Voldemort, obviamente.

- Tudo bem, não precisava ter repetido exatamente as mesmas palavras.

- Não costumo fazer esse tipo de formalidade.

- É? E por que este protesto contra formalidades?

- Não vejo razões para fazer – ele respondeu, dando de ombros, embora parecesse levemente surpreso por eu ainda estar interessada em continuar a conversa – Como você pode ter tanta certeza que é um prazer me conhecer, se você nunca nem me viu?

- Hã, isso se chama educação.

Ele não respondeu, apenas continuou me encarando.

Cara, ele era bom nisso.

De qualquer modo, foi aí que eu tive a minha primeira idéia do dia. Quero dizer, uma hora eu sabia que ia sair, eu não faço parte da Armée à toa, e muito menos eles me mandaram para cá porque eu sou uma incompetente.

Apertei finalmente a mão dele, que ainda estava estendida. Ele tinha um aperto forte e confiante, perfeito para quem dominaria um império das trevas uns anos depois. Bem na hora que sua mão se fechou na minha com força, rolei meus olhos para trás e, sem pensar duas vezes, relaxei todos os músculos do meu corpo, me deixando cair, ouvindo apenas o som do meu copo caindo e rolando no chão.

Nosso aperto de mão tinha sido tão forte, que eu estava quase levando ele ao chão comigo. Torci internamente que ele fosse pelo menos homem o bastante para não deixar que eu esmagasse minha cabeça caindo com tudo naquele piso de mármore destrutivo.

Ouvi ele xingar numa voz quase inaudível e ao mesmo tempo segurar meu braço para cima, logo depois tentando erguer meu tronco, segundos antes dele atingir o chão. Quando ele conseguiu equilibrar meu corpo, me levou devagar ao piso, onde eu me esparramei.

Contei mentalmente até cinco, antes de começar a abrir meus olhos de forma meio débil. Para te contar a verdade, eu não sabia direito o que fazer. Nunca desmaiei em minha vida, não sabia muito bem o que as pessoas que desmaiavam faziam.

Bem, espero que ele também não.

Fiz um barulho estranho, uma espécie de "ahmmmnn" sofrido, e abri totalmente meus olhos, vendo a cara alarmada de Tom Riddle bem na minha frente.

- O que ac... – comecei, fazendo a melhor voz de donzela indefesa que consegui – eu desmaiei?

Riddle estreitou os olhos, me encarando profundamente como se estivesse... sei lá, tentando ler a minha cara.

- Isso acontece com freqüência? – perguntou, em um tom meio desdenhoso, enquanto eu me sentava, massageando minha testa. Olhei pra ele, que, antes ajoelhado, também se erguia.

- Hã... não, quero dizer, sim, de vez em quando – respondi, já começando a ficar ainda mais nervosa, temendo que ele desconfiasse de algo. Então, tomei coragem para dizer uma frase ridícula que nunca pensei que diria, no melhor tom "I-see-dead-people" que eu consegui: - às vezes, quando eu toco em alguém, eu vejo coisas.

Reparei, com muita satisfação, uma espécie de flash de pânico passar pelo seu rosto.

- É meio esquisito, para falar a verdade. Normalmente eu não costumo desmaiar, só quando eu tenho, hm, visões bem fortes. Mas, bem, nada melhor do que dar uma caída no chão para levantar o astral, né? – continuei, tentando parecer casual, como se fosse algo com que eu já havia me acostumado.

E tão rápido quanto aquela expressão de apreensão tinha surgido na cara dele, ela desapareceu, dando lugar a uma outra completamente apática.

- E o que você viu, quando tocou em mim? – ele perguntou, cruzando os braços, parecendo totalmente descrente.

É, bem, eu também não sou de acreditar em videntes e coisa do tipo, mas tudo pode mudar, certo?

Torci um pouco a cara, como quem tentava se lembrar, depois pisquei pesadamente e, olhando para o fundo daquele olho azul, perguntei:

- O que é um Voldemort?