Capítulo 04 – Amarga realidade.
"Você é um tolo, Príncipe!" Clamou ela, entre a dor e um furor sem fôlego. "Não importa o que você faça, você ainda falha." Caiu de joelhos, sem energias."Assim como eu tentei e falhei".As temíveis espadas se soltaram das mãos de Kaileena e ela também caiu logo em seguida.
"Eu lamento, Kaileena!" O Príncipe se virou solenemente, arrependido e amargurado.
Ele correu até ela para tentar socorrê-la de algum modo, mas, antes que se aproximasse, uma explosão ofuscante o projetou para trás.
Imensas quantidades de Areias se espalharam pela sala e um terremoto sacudiu as próprias fundações da Ilha do Tempo.
O transtornado firmamento se expandiu ao redor do lugar, espalhando uma estranha onda de energia. Fazendo com que as águas se perturbassem no golfo e nuvens escuras cobrissem o cenário que antes, estivera tão iluminado pelo sol de ouro.
Não havia nada mais a ser feito. Estava acabado. Infelizmente aquelas mortes ocorridas no Passado seriam necessárias para se evitarem muitas outras no Presente.
Ele se lembrou da última investida contra a Imperatriz. A explosão que ocorrera após ela expirar, fora semelhante à que ocorrera com Shahdee, a capitã. A substância rutilante que havia se espalhado não podia ser outra coisa além de Areias.
Agora ele percebia algo que estivera o tempo todo diante dele, mas que, devido à sua constante inquietação e pressa, não fora devidamente considerado: as Areias não seriam "criadas" pela Imperatriz.
Elas estavam dentro dela e também dentro de todos os seus servos. Provavelmente as pequenas porções que se espalhavam daqueles subordinados que morriam, não eram suficientes para provocar a catástrofe.
Mas as Areias que haviam saído do corpo de Kaileena eram demasiado abundantes e, de alguma forma, acabariam voltando para a Ampulheta.
Naquele instante, o Príncipe se lembrou de um mural que havia visto no palácio do Marajá, sete anos atrás. A mesma Ampulheta fora representada em algumas das imagens e havia sido usada para guardar as Areias que uma estranha divindade extraíra do ventre de um ser monstruoso que só podia ser o próprio Dahaka.
A violação da Ampulheta, em Azad, havia devolvido a vida para a criatura que, de volta das profundezas, sairia caçando todos os artefatos que contivessem Areias e punindo os que tivessem usado tal magia para escapar da própria morte.
Agora novas facetas de uma complexa e misteriosa história estavam se mostrando. As Areias eram muito mais antigas do que se pensava. Por certo, Kaileena apenas havia tomado a Ampulheta às mãos da deusa Kali, com o propósito de assimilar, absorver e utilizar aquele poder para seus próprios fins.
Se não morresse, Kaileena devolveria as Areias de seu corpo para a Ampulheta, algum dia e, séculos depois, o Marajá viria e levaria o artefato para a Índia.
Morta a Imperatriz, as Areias certamente não fariam outra coisa senão retornar para seu receptáculo original: a Ampulheta.
Todo aquele trabalho para conseguir a audiência com a Imperatriz havia servido apenas para consumar um desfecho que seria igualmente trágico para o Futuro.
Abatido, desalentado e trôpego, o Príncipe olhava para o chão e se apoiava em uma pilastra.
"Eu sou o arquiteto de minha própria destruição."
