Um Mapa do Fim de Tudo

iv. Um Encontro

A cozinha atulhada de um restaurante no centro da cidade de Ankh-Morpork o último lugar em que você pensa que vai parar em sua vida. Por isso dizem que a vida cheia de surpresas, e ele poderia dizer isso melhor do que ninguém.

Era um senhor, já na casa dos cinqüenta anos, de simpáticos cabelos brancos e vivos olhos azuis. Seu corpo era tão magro que parecia somente osso e pele, e estava cercado de gatos, enquanto fazia sua especialidade, arroz com curry. Os pedidos iam se acumulando, enquanto o senhor jogava óleo dentro de uma frigideira, para fazer batata. Ele tinha uma expressão tão genuína de felicidade que parecia falsa.
Ningu m imaginaria o que o simpático senhor fazia antes de começar a trabalhar naquele restaurante.

Se os clientes soubessem, provavelmente não comeriam seus pratos com tanto apetite.

E ele fazia feliz sua comida quando escutou um barulho que não escutava havia muito tempo.

O som de cascos.

Torcendo para que não fosse o que estava pensando, ele foi até a porta dos fundos da cozinha e a abriu.

Mais alto que ele, apoiado com um dos braços na porta acima de sua cabeça, o outro abaixado, segurando uma enorme foice, estava um rapaz ruivo, sorrindo com terríveis olhos azuis.

-OI.

O velho suspirou e abriu passagem para Mort. - Quanto tempo que eu não te vejo, garoto.

-IDEM PARA O SENHOR. DESDE O INCIDENTE DA AMPULHETA. - Mort virou, mostrando um pequeno menino, de no máximo 8 anos. - TROUXE COMPANHIA.

O velho lançou um olhar de censura a Mort.

-Garoto, não me diga que ele está...

-MEU NOME É MORT. E ELE ESTÁ VIVO, NÃO SE PREOCUPE.

Ele balançou a cabeça, negativamente. - O que está fazendo?

-HÁ UM FIO FLATANDO. PERCEBI ISSO QUANDO FUI DESFAZER OS NÓS. ALGUÉM OU ALGUMA COISA ESTÁ FORA DE ORDEM.

O velho voltou a fazer a comida. Mort andou cuidadosamente de forma a não pisar nos gatos espalhados pelo chão e foi para o outro lado do aposento. Luke ficou parado na porta.

-Isso sério. Pode causar uma ruptura no tecido do universo.

-EU SEI. - ele se surpreendeu com um novo pensamento. - JÁ ACONTECEU COM O SENHOR ALGUMA VEZ?

-Não, pude evitar a tempo. Se lembra de Albert?

Mort parou para pensar um pouco.

-ALBERTO MALICH, O ALBERT? SIM, EU LEMBRO.

O velho fritava um grande peda o de bife, que espirrava óleo fervendo, mas não parecia o machucar.

-Eu fiz um trato com ele. Ele desejava viver para sempre, então fez uma magia para tentar mudar a posição dos nós. - ele deu uma risada. - Conseguiu fazer uma bagunça. Tive que fazer o trato, tive que fazer qualquer coisa para tirar aquele maldito fio de lá. Estava prejudicando o resto.

Mort tinha uma express o de concentração no rosto.

Mas como você descobriu que era Albert quem estava bagunçando tudo?

O velho riu.

-Sã sempre os mais poderosos.É só procurar. Magos, reis, imperadores, grão-vizires, grandes assassinos... fácil. As únicas que não dão trabalho são as bruxas. Quanto mais poderosas, mais mortais. Brigam com você se estiver atrasado.

Mort se mexeu desconfortavelmente.

- É, EU SEI.

O velho jogava sal na panela. -Já tem alguma suspeita?

Mort olhou para Luke, que estava esquecido na porta, enquanto gatos se esfregavam amigavelmente em sua perna.

-PENSEI QUE O GAROTO PODERIA TER ALGUMA COISA COM ISSO. MAS AGORA PERCEBO QUE NÃO. MESMO ASSIM, VOU LEVÁ-LO PARA CASA.

-Por quê? - perguntou o velho, surpreso.

Mort sorriu. - VAI ME DIZER QUE NÃO SENTIU?- ele fechou os olhos. - O SENHOR ESTÁ FICANDO ENFERRUJADO MESMO.

O velho parou de cozinhar, enxugou suas m os no avental e se aproximou de Luke.

-Olá, garoto. Qual o seu nome? - ele se abaixou até ficar com a cabeça na mesmo altura que a do menino.

-Lucas Keen. - disse ele, com a mesma express o desinteressada que mantinha o tempo todo.

-De onde você veio, Lucas Keen? - enquanto dizia isso, o velho colocou a mão em sua testa.

-Moro na Av. Sunset Drive, 2360 no apartamento 402.

-EM DALLAS, NA TERRA. - acrescentou Mort, de dentro da cozinha.

-Ah, sim! Na Terra. - o velho deu um sorriso encorajador para o menino. - Você já ouviu falar de William? - perguntou ele, subitamente lembrando de algo. - Eu acho que ele era de Dallas também.

Luke ficou em silêncio algum tempo, pensando. O velho parecia tentar lembrar de algo.

-Era um cara que eu conheci. Ele era famoso. Me deixou bastante ocupado enquanto viveu. - o velho parecia deliciado de lembrar daquilo. - Acho que o chamavam de Bill ou Billy ou alguma coisa assim.

Luke continuava encarando o velho, sem dar sinais de saber quem seria.

O velho desistiu. - Bem, deixe. Ele já se foi a algum tempo mesmo.

Se afastando do garoto, o velho voltou ao fogão.

-AGORA VOCÊ SENTIU, NÃO FOI? - ele não respondeu. - CLARO QUE SENTIU. UMA PARTE DE VOCÊ QUE ELE CARREGA, ASSIM COMO EU. ELE É UM DE NÓS, TEM UMA SEMENTE DA MORTE GERMINANDO. POR ISSO QUE EU PENSEI QUE TIVESSE ALGUMA COISA A VER COM A FALTA DE UM NÓ. ESSE GAROTO TEM UM DESTINO INCOMUM, IRÁ INTERFERIR MUITO NO MEU TRABALHO. NÃO SEI SE AGORA, OU QUANDO FICAR MAIS VELHO, MAS IRÁ. - O velho pareceu subitamente velho, muito mais velho, com a idade do mundo.

-E imagino que o esteja levando para casa para descobrir que destino esse?

Mort deu os ombros. - TALVEZ. NÃO SEI. EU O ESTOU LEVANDO PORQUE PARECE SER A COISA CERTA.

O velho suspirou. - Nem sempre a coisa certa a melhor.

-MAS É A CERTA.

Ele não respondeu. Com um gesto ágil, pegou uma faca em um faqueiro e começou a cortar uma cebola.

-Era só isso que você gostaria de saber?

Mort se encaminhou para a porta, segurando a foice no ombro. -SIM.

O velho voltou a sua atenção para as cebolas. Olhando para cima para procurar algo, reparou que havia uma coisa no balcão que não estava lá antes.
Com cuidado, ele pegou uma pequena rosa negra, não mais que um botão recém-aberto. -YSABELL ESTÁ BEM E MANDOU DIZER QUE PENSA NO SENHOR O TEMPO TODO.

E com isso Mort saiu, levando Luke, e deixando sozinho um velho senhor, tão velho quanto o mundo e tão concreto quanto a morte.

Um velho solitário, com saudades de sua filha.