GINA

Sentindo um fogo arder em suas entranhas, Gina observou como a mulher vestida à moda francesa de cabelos loiros esvoaçantes, sentava indecorosamente sobre a mesa de mogno do escritório. Suas pernas estavam abertas e seu querido Harry – agora não tão querido assim - estava entre elas, as mãos na sua cintura e a boca na sua boca.

Ela não podia acreditar no que seus olhos viam! Era o primeiro beijo entre um homem e uma mulher que ela presenciava e estava profundamente arrependida.

Mas a visão não durou muito, pois Harry virou-se e encontrou-a na soleira da porta.

"Gina..." – ele sussurrou e se afastou rapidamente da loira.

Gina tentou se mover, mas seus músculos estavam paralisados. O seu intelecto ainda estava processando aquilo tudo, enquanto Harry caminhou até ela com uma expressão cautelosa no olhar.

"Esta é a sua irmãzinha, Harry?" – perguntou a loira, num sotaque visivelmente irlandês, enquanto saía de cima da mesa e ajeitava o vestido rendado.

Gina teve uma vontade súbita de puxar aqueles cabelos loiros para lhe mostrar quem era a irmãzinha.

"Sim, Lady Maysa. Esta é a Gina, minha irmã".

A forma enfática como Harry pronunciou o minha irmã fez Gina destravar os músculos e sentir a garganta esquentar. Não, Gina, você não vai chorar agora.

Por que a incomodava tanto que Harry se referisse a ela como sua irmã? Era isso que eles eram, afinal de contas. Irmãos.

"Gina" – Harry tocou o seu antebraço e ela desviou dele num ímpeto.

Ele ergueu as sobrancelhas para ela, estranhando a sua reação.

"Esta é Lady Maysa, a Condessa de Donegal, da Irlanda. Ela é prima do Marquês, Sir Dino Thomas, que você já conhece, não é mesmo?"

Gina olhou para baixo e cruzou os braços, por não saber o que fazer com as mãos. Não queria olhar para Harry, pois sabia que choraria se encontrasse seus olhos verdes. Mas sentia que ele a observava atentamente.

"Ah, agora eu entendo porque Dino não para de falar sobre você!" – riu a condessa, aproximando-se – "Você é uma boneca de porcelana, Lady Potter, com esse cabelo ruivo e olhos azuis! Não precisa nem de maquiagem!"

Gina corou, mas não devido aos elogios. Foi pela irritação de ver a condessa apoiar a mão no braço de Harry, como se fosse uma amiga íntima de longa data. Bom, o que era um braço dado depois de vê-la enfiando a sua língua na boca dele? Chegava a lhe dar nojo!

"Oh, Lady Potter, não se assuste!" – riu a condessa, notando o olhar incomodado de Gina para o contato entre eles – "Eu sou viúva há dois anos. Meu marido, o Conde de Donegal, que Deus o tenha, era muito amigo de Harry. Ele até se hospedou em nossa propriedade quando esteve na Irlanda".

"Eu vejo" – Gina disse, tentando esconder o sentimento de repulsa que lhe causava a imaginação da condessa junto a Harry sozinhos, na Irlanda, na casa do pobre Conde.

Sentia-se tão irritada! Mas não só com a condessa, também com Harry! Como ele ousava trazer uma mulher para dentro de Hawling Garden, trinta dias depois da morte da sua mãe? Esta era a ação de um libertino e não do irmão respeitoso que ela costumava conhecer! Rony nunca havia feito isso em todos os anos em que estava solteiro! Por que Harry tinha que fazê-lo?

"Fique à vontade, Lady Maysa". – ela se esforçou em seu melhor sorriso – "Desculpe se eu atrapalhei qualquer coisa. E desculpe se eu me ausento, mas já percebi que o meu irmão – ela o olhou – sabe ser um anfitrião bastante hospitaleiro. Com licença".

Ela deu meia volta e saiu do escritório, tendo a certeza de que Harry havia compreendido as entrelinhas.

Quando entrou em seu quarto, no entanto, não conseguiu mais reter todas as lágrimas que segurara. Mergulhou na cama e chorou sem parar. Ansiara tanto para o retorno de Harry, para que pudesse vê-lo e abraça-lo, mas preferia que ele tivesse ficado bem longe se era para beijar uma mulher na sua frente.

Não sabia por que isso a incomodava tanto! Só sabia que doía! Doía no mais profundo do seu coração ver Harry com outra mulher!

Ela se levantou, caminhou até a cabeceira e lavou o rosto com a água fresca que havia no lavabo. Então fechou os olhos e deixou as boas lembranças invadirem sua mente...

As lembranças daquele Harry da sua infância.

Aquele Harry, de quinze, dezesseis, dezessete anos que estava sempre por perto dela. Mais do que todos outros irmãos. Aquele Harry que a carregava em seus ombros para ver os desfiles de rua, que parava de fazer o que quer que fosse para atendê-la, para brincar com ela, para ler contos e fábulas infantis pra ela. Ele que lhe ensinara a nadar, a montar a cavalo, a jogar xadrez. Ele que a balançava no balanço horas a fio, que lhe dava colo, que levava a culpa por suas travessuras. Uma, inclusive, fora uma travessura que havia lhe custado bastante caro, quando Harry apanhara severamente do seu tio Lúcio por ela. Até hoje, ela podia ouvir as pancadas e senti-las como se fossem nela! Na sua carne...no seu sangue...

Gina retornou para a cama de dossel e abraçou-se a um travesseiro.

O que Gina sentia por Harry era muito verdadeiro. Era um amor verdadeiro, sempre fora e ela não via necessidade de esconder isso de si mesma. Mas os anos passaram, ela foi crescendo e esse amor foi se tornando uma lembrança, uma saudade genuína, cada vez mais esquecida pela distância.

Com o seu retorno, no entanto, essa chama reacendera dentro do seu coração com uma força incrível. Olhou para Harry com algo a mais do que a usual admiração e carinho pelo irmão que não via há anos. E quando deitou na mesma cama que ele, na noite da tempestade, sentiu uma atração enorme, uma vontade de ficar perto dele, de abraça-lo, de tocá-lo, de cheirá-lo e inebriar-se com aquele aroma maravilhoso de menta e couro. Era uma sensação nova, que a fazia se sentir viva, despertando depois de tanto tempo de um sono profundo.

Apenas naquela noite, sentira por Harry aquilo que Hermione lhe dissera que sentia por Rony. Por Deus, ela nunca sentira nada parecido! Com qualquer homem que dançara durante os bailes ou que a cortejavam nas temporadas. Somente por Harry.

E ela sabia que havia algo considerado muito errado nisso. Apesar de não ser a mais adepta à moralidade da Igreja – sentindo muito sono durante os sermões do padre e levando livros para ler escondido nas missas - ela sabia que uma mulher não devia gostar de seu irmão como gosta do seu marido.

Mais errado pra ela, porém, seria negar aquilo que o seu coração fazia parecer tão certo. Como um sentimento tão belo como o amor que ela nutria por Harry, aos olhos de Jesus e de Deus, podia ser pecado? Isso não fazia o menor sentido pra ela e Gina definitivamente não era uma garota que costumava fazer as coisas por obrigação.

No fundo, não era isso que a incomodava. Mas sim a possibilidade de Harry não correspondê-la. Que para Harry, ela não fosse tão importante para ele quanto ele era para ela. Isso era o que mais doía. Isso sim partiria o seu coração em pedacinhos, como quase acabara de ocorrer ao vê-lo com aquela irlandesa lá embaixo. Não podia suportar que ele estivesse com uma mulher da forma como ela queria estar com ele!

Por Deus, se eles estiverem num compromisso, eu me trancarei num convento bem longe na Suíça!

"Não blefe, Gina. Você não aguentaria um dia vestida com o habito de freira. Muito menos fazer o jejum!". – ela riu, pensando nas prováveis palavras que a sua mãezinha diria se estivesse viva.

Não, Gina não iria para convento nenhum. Mas também não viveria sem saber se Harry a correspondia minimamente.

Ela mordeu o lábio, absorvendo uma ideia inusitada que acabava de lhe surgir. Hermione lhe dissera, ainda há pouco, que havia uma forma de confirmar seus sentimentos. Que fora assim que ela descobrira que queria se casar com Rony. Talvez, se Gina experimentasse também, descobriria se realmente estava apaixonada por Harry. Ela fechou os olhos e seu coração acelerou só de imaginar como seria.

Meu Deus, Gina, você está ficando doida!

Então, ela ouviu um barulho vindo lá de baixo. Aproximou-se da janela e observou quando a condessa loira entrou na carruagem e partiu. Suspirou aliviada.

Pelo menos ela não ficaria para que acontecesse aquilo que acontece "entre um homem e uma mulher sozinhos entre quatro paredes, além dos beijos", como Hermione lhe contara. A condessa era suficientemente ousada para provocar isso.

E Gina desejou ser tão ousada quanto a condessa para enfrentar Harry e para lhe fazer o pedido mais atrevido que já fizera na vida.

Sentou-se na cama, respirou fundo e esperou. Sabia que ele viria.


HARRY

Com uma dose de uísque na mão, Harry caminhava de um lado para o outro do assoalho. Ansiara para que a Condessa partisse logo e fora até um pouco rude com ela, mas agora que finalmente a sua vontade fora atendida, ele se via numa encruzilhada.

Queria ver Gina. Mais do que tudo queria vê-la. Mas sabia que ela estava magoada, como ela deixara claro no tom irônico e nada usual da sua voz e, sobretudo, pelo que isso significava.

Ele não levara a condessa viúva para Hawling Garden por acaso. Fora uma ação deliberada e com o único propósito de testar Gina. Depois que ele retornara à Escócia, recebera uma carta de Rony comentando o quanto Gina ficara alterada com a sua partida e que ela até usara um palavreado chulo diante dele e de Hermione. Também comentara que ela andava triste - o que não era incomum após a morte da mãe - e que dera ordens ao cocheiro para ir diariamente ao correio da cidade, na expectativa de receber correspondência dele. Harry não enviou nada, pois se enviasse, poderia estar fortalecendo erroneamente as suas esperanças.

Devido a isso, ele desconfiou que Gina também pudesse ter sentido algo por ele, para além do amor fraternal, e resolveu verificar. Aproveitou que a Condessa de Donegal estaria em Londres e a convidou para um chá em sua casa. Ele só não esperava que a condessa continuasse carente pela falta do marido e resolvesse se consolar com ele, como há alguns meses atrás. Harry admitia que a irlandesa era bonita e sabia agradar sexualmente a um homem, mas depois de ver os olhos azuis assustados e decepcionados de Gina, ele não poderia se render as suas investidas. Por isso, pediu que ela fosse embora.

E agora, com a comprovação de que Gina não lhe era indiferente, ele decidiu que o melhor seria falar com ela e esclarecer devidamente as coisas. Deixar claro que ele era seu irmão mais velho, o Duque de Hawling, e que poderia fazer o que bem entendesse!

Deixou o uísque de lado, subiu as escadas e bateu à porta do seu quarto. Nenhuma resposta.

Ele suspirou e bateu novamente.

"Gina, eu sei que você está aí."

Segundos depois, a porta se abriu e ele entrou. Gina caminhou de volta para a cama e se sentou, sem olhar para ele.

O aposento em tons claros e papel de parede florido eram a perfeita combinação para ela, sempre tão pura e alegre. E assim, ela devia ser conservada por parte dele.

Ele se aproximou em passos seguros, querendo vê-la melhor. Colocou a mão em seu queixo e ergueu seu rosto, apesar da pouca luz das velas, conseguiu ver o pequeno nariz vermelho.

"Você andou chorando". – era uma afirmação.

Gina afastou a sua mão.

"E o que você queria?" – seu tom era birrento.

Droga, Harry não gostava de vê-la sofrendo! Sobretudo por um motivo tão grotesco como aquele.

"Que você não chorasse simplesmente porque uma mulher vem me visitar".

Ele viu um brilho perpassar o olhar dela.

"Visitar? Bom, Harry, eu não diria apenas visitar, mas também entrar no seu escritório, sentar à mesa, arreganhar as pernas, e beijar..."

"Ginevra!"

Ele arregalou os olhos para ela, impressionado pela sua escolha mal educada de palavras. Rony tinha razão por estar preocupado.

"O que foi?"

"Eu não quero que você fale assim".

"Me desculpe" – ela soltou, claramente da boca pra fora – "Independente da forma, eu falei alguma inverdade?"

Se o assunto não fosse tão sério, Harry riria. Desde pequena, ela sempre tivera uma língua inteligente. As pessoas mais velhas, às vezes, chegavam a se engasgar com a comida ou com o vinho quando Gina falava alguma peculiaridade à mesa.

"Não" – ele se encostou no dossel lateral da cama e enfiou as mãos dentro dos bolsos – "Eu estava sim beijando a Condessa de Donegal, porque ela é uma pessoa livre e desimpedida, assim como eu. E eu não sei o que você tem a ver com a minha liberdade para ficar assim tão magoada".

"Eu não estou magoada".

Harry ergueu as sobrancelhas em tom de dúvida e Gina se levantou.

"Não, eu não estou magoada, Duque Pretencioso de Hawling".

Ele sorriu e observou como Gina caminhava até a janela e olhava para fora. O vestido verde era delicado, recatado e apropriado para uma jovem de 17 anos, e contrastava com a sua pele marfim. Os cabelos ondulados estavam presos no topo da cabeça, ao contrário de como ele a vira no mês passado. Tinha a impressão de que ela emagrecera um pouco também.

"Por que ela foi embora?" – Gina perguntou, mexendo na cortina como um gesto automático.

Por sua causa, minha querida.– pensou Harry – Porque se ela ficasse e eu dormisse com ela, estaria pensando em você o tempo como ocorrera com as mulheres que estivera na Escócia durante os últimos trinta dias.

"Porque já estava tarde". – foi a resposta aceitável mais rápida que ele encontrou.

"Nós temos muitos quartos de hóspedes na mansão, Harry".

"Ela não dormiria num quarto de hóspedes".

Fez-se silêncio e Harry teve a certeza de que ela estava tensa.

"Claro que não" ela sussurrou contra o vitral da janela.

"O que a incomoda tanto, Gina?"

"E há quanto tempo vocês...hum...dormem no mesmo quarto?"

Ela estava investigando, matando a sua curiosidade sobre a vida dele e Harry julgou que isso poderia ser bom para que ela acordasse um pouco para a realidade.

"Há exatamente um ano. No outono passado, eu estive na Irlanda a trabalho com Dino e a reencontrei. Ela já estava viúva".

"E foi só com ela que você...hum...dormiu?"

"Não".

"Com quem mais, então?"

"Com um número de mulheres suficiente para me fazer perder a conta".

Gina finalmente se virou pra ele, a mão sobre a boca aberta e as bochechas vermelhas. Ela era tão adorável! E ele sabia que estava sendo mal com ela, mas era necessário.

"De verdade?"

Ele teve vontade de rir da sua ingenuidade.

"Não. Não tantas assim".

Ela se aproximou novamente e sentou na cama, com seu olhar pensativo.

"Mas isso é normal, não é, Harry? Quer dizer, que vocês homens se envolvam com mulheres...antes do casamento, não é?"

"Sim, é normal, Gina". – ele disse, sentando-se na beirada, em frente a ela.

Anormal é querer se envolver fisicamente com a própria irmã.

Ela suspirou, mas a testa não perdeu o vinco de preocupação.

Quando Harry deu por si, já estava perto demais e desfazia o vinco da testa dela com o dedo polegar. Seus olhos brilharam para ele num azul acetinado e foram se fechando, conforme ele desceu os dedos pela sua face rosada, acariciando, sentindo a suavidade da pele.

Deus, ela era tão linda! Ele pensou que poderia esquecê-la indo embora, que poderia modificar os seus sentimentos em relação a ela, mas não poderia ter sido mais tolo. Aquela nova Gina, crescida e maravilhosa, jamais sairia de seu coração.

Antes que ele pudesse se afastar, ela segurou a mão dele com a sua e plantou um beijo demorado em sua palma. Harry sentiu um arrepio percorrer a espinha com o simples toque e se levantou depressa.

Mas, para a sua surpresa, ela a segurou e disse:

"E se eu dissesse que eu não quero que você durma com nenhuma delas?"

Harry não gostou do caminho dessa conversa.

"Eu diria que isso não seria possível".

"Mas você costumava fazer todas as minhas vontades antigamente".

"Antigamente...como você disse com acerto".

"E se..., no lugar delas, eu dormisse com você?".

Harry sentiu o sangue esvair completamente da cabeça. Ele soltou a mão de Gina e se afastou num impulso.

"O quê? Você está completamente maluca!"

"Não estou, não" – ela se levantou.

"Você não tem noção do que está dizendo, Gina!" – e Harry desejava, do mais profundo do seu ser, que ela não tivesse mesmo essa noção.

"Qual o problema, Harry? Nós dormimos juntos a vida inteira!"

"Quando você era apenas uma menina!"

"Mas qual a diferença agora?"

"Toda a diferença! Você não percebe, Gina?"

"Não!"

Harry estava ficando nervoso diante da teimosia de Gina e suspeitava que isso não ia prestar. Ele precisava manter a calma, olhar a situação com um certo distanciamento e não deixar transparecer para Gina o quanto estava envolvido.

"Deixe-me esclarecer uma coisa, Gina. - ele começou - Naquela noite que eu retornei da Escócia para o enterro da mamãe. Eu não sei se você percebeu, mas eu não dormi com você".

Gina piscou e franziu a testa.

"Não?"

"Não. Ficamos conversando e você acabou dormindo, lembra? Quando eu fui me banhar, pedi que você fosse para o seu quarto. Quando retornei, você já estava dormindo profundamente e ao invés de te acordar, achei melhor dormir em um quarto de hóspedes. Mas eu não dormi com você, na mesma cama. Não seria correto".

Este motivo estava longe de ser o verdadeiro. Mas era, também de longe, o mais adequado e racional.

"Correto? E o que pra você seria correto, Harry?"

"Que um casal durma junto, um homem e uma mulher casados. Não eu e você, Gina. Eu sou um homem maduro e você...bem, olhe pra você!".

"Eu o quê?"

Harry observou Gina corar quando a olhou de cima a baixo. Ela era tão bela que parecia uma deusa.

"Você já é uma moça, quase uma mulher".

"Não, Harry! Eu SOU uma mulher! – ela apontou para si mesma, evidenciando o próprio corpo bem formado, parecendo irritada por ele não perceber isso – Não quase. Eu cresci, amadureci, me tornei uma mulher que finalmente...finalmente está pronta para amar você".

"O quê?"

"Eu amo você, Harry".

Harry sentiu um solavanco na boca do estômago. Parou de respirar e piscou várias vezes, sem acreditar nas palavras que acabavam de sair da boca de Gina.

"Eu amo você." – ela repetiu pausadamente, como se soubesse que ele se perguntava se não era uma miragem – "Eu amo você mais que tudo, mais do que qualquer mulher algum dia vai te amar."

O duque precisou se segurar em algum móvel por ali após um tropeço. Ele não podia acreditar no que seus ouvidos ouviam. Nem no que seus olhos enxergavam. O que ele mais temia estava acontecendo! A pequena Gina Potter, a sua irmã caçula, estava se declarando para ele!

"Não..." – ele começou por impulso, sem organizar seus pensamentos.

"Sim, Harry". – ela se aproximou dele e tocou seu peito por cima da camisa de algodão e do casaco – "Eu acho que estou perdidamente apaixonada por você, desde que você voltou da Escócia. Eu nunca senti isso por ninguém, por nenhum homem, e é tão maravilhoso...".

Harry segurou a mão provocadora e a afastou dele. Os olhos azuis de Gina brilhavam como duas estrelas em expectativa pra ele. E ele a admirou profundamente. Admirou sua verdade e sua audácia. Admirou sua coragem por dizer tudo aquilo que ele não tinha o valor de dizer. Na verdade, há um mês ele estava tentando afogar esse valor no fundo do poço, em vão. Há trinta dias, estava tentando se convencer de que não queria a sua irmã, que ela também não o queria. E agora, precisava desesperadamente não só convencer a si mesmo, mas também a ela!

"Gina" – ele sussurrou com seriedade e colocou as mãos em seus ombros para afastá-la – "Nós somos irmãos".

Ela abaixou a cabeça, lembrando-se daquela obviedade.

"Eu sei" – ela suspirou – "Eu sei que isso pode parecer errado, mas é o que eu sinto!"

"Gina, você não me ama. Quer dizer, não dessa forma, não como está pensando".

Ela o olhou com descrença.

"Amo sim, Harry!"

"Você me ama como irmão. – Harry se aproximou - Os irmãos convivem, gostam de estar juntos, se protegem mutuamente, como sempre foi conosco, Gina. Paixão é outra coisa! Você está se confundindo, querida".

Um vislumbre de dúvida perpassou o olhar de Gina e Harry julgou que estava indo pelo caminho certo. Por mais que lhe doesse agora, ele tinha certeza que ela iria superar essa ilusão. Ela era jovem e tinha uma vida inteira pela frente. Já ele...

"Passamos anos distantes, - ele continuou - Você era apenas uma criança quando eu deixei Hawling Garden. E aí eu volto exatamente numa fase conturbada, com a morte da mamãe, quando você está triste e carente com a perda...é natural que esteja confundindo esses sentimentos, pela nossa pouca convivência. Você mesma disse que apenas acha..."

"Pára, Harry!" – ela se virou de costas para ele – "É você que está me confundindo agora!"

"Só estou te ajudando a enxergar as coisas como realmente são!".

Ela o olhou, decepcionada.

"Você está querendo me dizer que não sente nada por mim, é isso?"

"Você sabe que eu sinto. Sinto amor fraternal." – e carnal, sexual e infernal também.

"Você me ama exatamente como ama a Helen? E Susan e Claire?"

"Sim, amo" – ou pelo menos, deveria – "As três também são minhas irmãs, então as amo da mesma forma".

Gina não pareceu gostar nem um pouco daquela resposta. Cruzou os braços e voltou a se sentar na beirada da cama.

"Mas... – ela choramingou - Eu pensei..."

"O que? O que você pensou?" – Harry se aproximou num impulso e encontrou dois olhos magoados.

"Que você me amasse, mais do que a elas..."

Harry sentiu o peito apertar. Como lhe doía vê-la sofrer por isso! Principalmente por derivar de uma mentira. Uma mentira que ele era obrigado a sustentar pelo bem dos dois. Mas não por isso queria que Gina duvidasse do carinho enorme que tinha por ela.

"Bom... não era Helen que me acordava de manhã, antes mesmo do galo cantar. Nem Susan que se sentava ao meu lado na mesa de jantar e muito menos Claire que me olhava de cara feia quando eu tinha que sair com Sir Thompson a trabalho. No fundo, querida, eu sempre gostei mais de você".

Um brilho luminoso invadiu o olhar de Gina e seus lábios curvaram-se num breve sorriso. Ele sorriu também, sentindo um certo alívio por poder comprazê-la minimamente. Se era de amor fraterno que ela precisava, esse ela sempre teria!

"Eu nunca te olhei de cara feia, Lord Harry Potter". – ela fungou.

"Ah, não. Imagina, Srta. Ginevra Potter!" – ele riu.

"Eu já estava prevendo que você seria afastado de mim durante anos! Por isso nunca gostei do Sir Thompson. Pra ele sim eu olhava de cara feia, está bem? Pra ele e pra aquele charuto asqueroso!"

Harry riu e acariciou o topo da cabeça dela.

"Você é a minha irmã adorada, Gina. Sempre foi. Mas, por favor, a não ser que você queira me ver arrastado em praça pública, não deixe que elas saibam disso."

"Você está perdido, Duque de Hawling, porque elas já sabem!" – Gina deu uma gargalhada que parecia música aos seus ouvidos. Então se levantou e jogou-se contra ele num abraço apertado.

E tudo estaria perfeitamente bem e natural se aquele abraço fosse um inocente contato entre irmãos. Se não tivesse pegado Harry tão desprevenido. E se Harry não sentisse aquele cheiro floral e hipnotizante do seu cabelo, fazendo-o afundar o nariz em suas madeixas. Se ele não sentisse as mãos delicadas dela em suas costas eletrizando seus músculos, se ele – pelo inferno – não sentisse os seios dela apertados de encontro ao seu abdômen. E se isso não gerasse que todo o seu sangue saísse da cabeça e se dirigisse diretamente para as suas partes baixas.

Ele pigarreou e tentou afastá-la, mas ela apenas ergueu a cabeça para encará-lo.

"Eu sabia! No fundo eu sempre soube!"

"O quê?"

"Posso te fazer um pedido?" ela se soltou do abraço.

"Diga-me".

"Você vai aceitar?" – seu sorriso travesso era o mesmo que ela lhe dava quando criança, implorando para jogar uma partida de críquete com ele e com Rony. Quando era pequena e inocente.

Harry ergueu uma sobrancelha.

"Primeiro o pedido, depois a resposta, mocinha".

A jovem abaixou a cabeça e pigarreou. Harry começou a se preocupar novamente.

"Este é um pedido muito importante pra mim. Na verdade, é um favor que vai me ajudar a entender melhor tudo isso. Como eu me sinto, eu quero dizer. Talvez você tenha razão e eu esteja realmente confusa".

Harry suspirou de alívio. Finalmente um pouco de juízo naquela cabecinha linda.

"Pode ser que seja apenas uma ilusão, um misto de sentimentos conflituosos, eu não sei! Eu não sei o que está acontecendo comigo, mas eu quero esclarecer isso. Eu preciso. – ela continuou – E bom, como... você é a pessoa, o homem diretamente envolvido nas minhas dúvidas..."

Ela se calou, repentinamente.

"Fala, Gina". – Harry pediu, aproximando-se da menina e envolvendo as mãos dela nas suas. Seus dedos estavam gelados e o rosto avermelhado.

Ela estava visivelmente nervosa e ele podia sentir a angústia dela no próprio peito.

"Diga-me, querida. Eu farei qualquer coisa".

"Qualquer coisa?" ela piscou, os olhos aguados.

Que favor seria tão difícil a ponto de fazê-la chorar?

"Qualquer coisa que estiver ao meu alcance, eu prometo. – ele tocou seu rosto corado – Só não chore, por favor..."

Harry sabia que se Gina chorasse na sua frente, por sua culpa, ele estaria perdido! Lembrava-se bem da última vez que isso ocorrera. Ele tinha apenas treze anos, mas as cenas ainda lhe apareciam com a mesma nitidez. Conseguia ver com clareza a vara de couro nas mãos furiosas do seu tio Lúcio. Lembrava dos berros dele enquanto batia no garoto impiedosamente, rasgando a sua camisa, marcando a sua pele, fazendo-o sangrar. "Seu moleque, insolente!"ele dizia, entre um golpe e outro "Petulante igual ao teu pai, aquele duque morto miserável!"ele cuspia "Isso é pra aprender a nunca mais me enfrentar, desgraçado!". A justiça fora feita e o psicopata do Lúcio estava no lugar onde merecia, muito longe dali. Isso não lhe importava mais.

Por mais que aquela surra houvesse machucado, nada havia sido tão doloroso quanto ver a pequena Gina assistindo tudo. Atrás da cortina, com apenas quatro aninhos, em estado de choque e chorando sem parar. Ele até fizera força para não gritar, para engolir o pranto em cada pancada, tudo para não assustar ainda mais a menina. Mas ela continuara em choque, traumatizada. Por isso não aguentaria vê-la derrubar uma lágrima por ele de novo.

"Vamos, Gina. O que você quer?" – Harry buscou seus olhos.

A respiração dela estava acelerada e seu peito subia e descia rapidamente. Ele agradeceu pelo decote dela ser bastante recatado e fechado em botões até o pescoço. Mas isso não impedia que seus olhos fossem menos deslumbrantes, cheios de expectativa, ou que seus lábios bem desenhados e rosados não fossem os mais sensuais que ele já vira. Principalmente quando ela os abriu e passou a língua por eles.

Droga, Gina. Ele engoliu em seco.

E finalmente, Gina pronunciou algo que deixaria Harry absurdamente transtornado:

"Eu quero que você me beije".


Queridas leitoras,

Espero suas reviews!

Gostaria de saber se vocês estão gostando e o que estão achando do Duque de Hawling e sua irmã!

Já tenho alguns capítulos prontos, mas é sempre bom saber se estou indo por um bom caminho ou se devo modificar algumas coisas antes de postar!

O meu principal objetivo é contar uma história de amor proibido, mas também discutir o incesto como uma crença que nos é imposta tanto socialmente quanto biologicamente.

Beijinhos e obrigada por lerem!

Lara