Alguns secundaristas desapareciam por trás de montanhas de livros, pergaminhos e jornais no salão comunal. Fora uma longa e atribulada semana para todos e Hermione não era exceção. Mal tivera tempo de começar os estudos e já faltavam apenas 2 semanas para as provas bimestrais. Andava tão ocupada que pela primeira vez na semana conseguira encontrar um tempo para relaxar. Os encontros com Snape, se é que assim podiam ser chamados, aconteciam todos os dias, aproximadamente no mesmo horário. Fora isso, as aulas pareciam intermináveis, os trabalhos maiores que nunca, os professores mais exigentes e os alunos mais estressados.
Hermione pegou uma toalha e uma muda de roupa, deixou o dormitório e o salão comunal e, sem falar com ninguém, dirigiu-se para o quinto andar. Passou pela estátua de Boris, o Pasmo, que, ainda que pudesse movimentar olhos, nariz e boca, estava muito concentrado em manter sua expressão de espanto para lhe dirigir um sorriso ou até mesmo um olhar. Hermione seguiu seu caminho até parar frente a uma porta.
-Bolhinhas de Eucalipto – empurrou levemente a porta e entrou.
Deixou a roupa em cima de um pequeno armário ao lado da pia de mármore, pendurou a toalha no toalheiro, também de mármore.
Não era comum ela freqüentar o banheiro dos monitores, seu tempo era muito curto para poder esbanjar a delícia de um banho de horas numa banheira enorme com pacote completo: sais de banho, xampus, condicionadores, loções e cremes pós-banho de todos os tipos.
Abriu a torneira de água e de algumas de suas essências favoritas: chocolate, morango com champanhe e chantili. Riu sozinha com o próprio pensamento: se fosse confundida, acabaria sendo servida como sobremesa no jantar.
Deixou cair as roupas em qualquer canto, fechou as torneiras de água e essências e despejou uma porção de finos grãos de sais na banheira já cheia. Estremecendo com o contato da água quente com seus pés, entrou vagarosamente, até que seus pés tocassem o chão. Sentia-se tão leve que a rispidez dos sais no fundo da banheira não lhe incomodava.
Os cabelos presos em coque ficavam fora da água e apenas algumas mechas tocavam-na, flutuando na superfície. Encostou-se em uma das bordas e relaxou o corpo, que logo flutuou inerte, pesando menos que uma pena. O suave cheiro das essências levou-a a fechar os olhos, o silêncio era tamanho que corria o risco de adormecer ali mesmo.
Não existiam trabalhos, provas, Harrys, Ronys, Snapes nem mesmo Voldemorts capazes de quebrar aquela paz que a invadia. Provavelmente sonharia com este momento durante a noite, já que, às vezes, a mente nos proporciona sensações vividas pelo corpo inconscientemente.
Ficou cerca de uma hora nesse delicioso torpor, mas sua mente estava tão relaxada que ela não sabia dizer se haviam passado segundos ou dias. Abriu lentamente os olhos. As pedrinhas de sais já haviam derretido há muito, mas as essências ainda impregnavam suavemente o ar. A sensação que tinha era a de que toda sua vida, desde quando sua mãe a trouxe ao mundo até o momento que entrou naquele banheiro, não passava de um pesadelo e que começou a viver a partir do momento em que sua pele tocou a água. Tinha plena consciência de seu corpo e seus sentidos nunca foram tão aguçados como agora. Não precisou de força para abrir a torneira de espuma, tão pouco o metal sólido e gelado da torneira era capaz de trazê-la novamente à realidade: o vapor que exalava da banheira o havia aquecido.
Soltou o coque, a água deixou seus cachos menos definidos e alguns fios molhados grudavam em seu rosto e pescoço. A espuma já se tornara uma camada espessa sobre a água, fechou a torneira e recostou-se numa das extremidades da banheira. Brincava com a espuma, assoprava-a, manipulava-a, fascinada com aquela textura indefinível.
Sua pele já começara a enrugar, mas não se importava. Poderia passar o resto do dia ali, brincando na água, liberta e em paz.
Deixou a banheira somente quando a espuma desapareceu por completo. Enrolou-se na toalha branca e felpuda que trouxera do dormitório, dirigindo-se automaticamente para o pequeno armário. Numa de suas divisões estava indicado: Monitora-Chefe. Ela não chegou a ler, apenas abriu. Retirou um par de chinelinhos de dedo transparentes, vestindo seus pés com eles; em seguida retirou um roupão tão branco e felpudo quanto a toalha.
Desenrolou-se da toalha e, deixando-a momentaneamente na pia, vestiu o roupão; retirou a toalha da pia e envolveu-a em seus cabelos. Fechou o armário de monitora-chefe e voltou sua atenção para o espelho. O vapor o embaçara, impedindo que Hermione visse algo mais que seu próprio vulto nele. Num impulso infantil, começou a desenhar corações e flores com o dedo sobre sua superfície, sem dar muita importância para seu reflexo.
Sem mais espaço para desenhar, deixou o espelho de lado e tirou um creme hidratante do armário superior à sua direita. Todas as suas ações eram tão naturais que parecia fazer aquilo todos os dias. Levou o creme consigo até uma bancada do outro lado da pia e apoiou-se nela para espalhá-lo suavemente pelo corpo, à medida que retirava o roupão.
A sensação aveludada e macia de sua pele não competia com a que tivera durante o banho, mas a complementava. Tirou a toalha, agora encharcada, dos cabelos e vestiu-se. Pegou o creme hidratante e levou-o de volta ao seu armário com cuidado, pois estava escorregadio. Retirou desta vez uma escova e um prendedor de cabelo. Escovou, alheia, seus cachos, dividindo-os jeitosamente em três partes para depois entrelaçá-los até formar uma trança. Terminando, prendeu a trança com o prendedor.
O banho havia chegado ao fim.
Hermione foi até a roupa suja e retirou sua varinha, até então esquecida, e com apenas um agito, o roupão, a roupa e a toalha flutuaram até cestos de roupa suja, a água do chão e da banheira evaporou e tudo que fora esquecido retornou ao lugar.
Com um sorriso nos lábios, a garota deixou o banheiro, deixando-se guiar livremente para qualquer lugar. Olhou por uma janela no corredor, o pôr-do-sol laranja, rosa e azul transformava Hogwarts num clube de verão. Após alguns minutos observando a paisagem da janela, deixou-se ir novamente.
Não sabia como chegara ali, sequer sabia onde era ali, mas estava tão alheia a tudo que caminhava sem perceber e não estava nem um pouco preocupada: 'Uma borboleta! Faz tanto tempo que não vejo uma! Havia me esquecido de como são lindas... '.
O movimento em Hogsmeade começava a aumentar com o anoitecer, mas caminhava tão despreocupadamente que não chamava atenção alguma. Parecia tanto outra pessoa que nenhum de seus amigos a reconheceria frente a frente no claro, com a escuridão envolvendo-a então...
Parou somente ao deparar com uma casa conhecida. Levou a mão à maçaneta e entrou sem bater.
Percorreu o corredor andando tranquilamente, não demorou a alcançar a sala, parando à porta.
Uma figura negra ocupava a poltrona à sua frente, os cabelos a altura dos ombros e uma capa de gola alta que escondia o branco melancólico do pescoço.
-Boa noite! – saudou.
O homem levantou-se calmamente, sem olhar para a garota.
-Está atrasada... – Snape calou-se momentaneamente. Seus olhos se fixaram na garota, contra sua vontade.
-Desculpe, me atrasei muito?
-Ahmm... um pouco.
-Me perdoa?
-Hum-hum – pigarreou – ta.
Hermione sorriu.
-O que devo fazer? – perguntou se aproximando do caldeirão sem tirar o olhar do ex-professor.
-... Pó... Bétula – balbuciou desviando o olhar.
-Colocar o pó de Bétula?
Ele assentiu, deixando a sala logo em seguida. Foi até a cozinha, pegou um copo de água, engolindo tão rapidamente que quase se engasgou.
'Ora seu idiota! O que pensa que está fazendo??? Gaguejar? Ela é só uma garota, por favor! Uma criança que deixou as fraldas outro dia!'
Snape foi até o corredor após devolver rudemente o copo a pia.
Estava determinado a entrar na sala e ser o mais grosseiro e sarcástico possível.
Vacilou. Parou no meio do corredor. A visão de Hermione através do portal da sala lhe tirava o fôlego e lhe secava a garganta. A garota acrescentava habilidosamente alguns ingredientes, parando ocasionalmente para mexer o conteúdo do caldeirão com a varinha.
'Ela é linda... Estonteantemente linda... '.
Hermione levantou os olhos do caldeirão e olhou para o corredor. Snape corou subitamente ao ter seus pensamentos surpreendidos por aqueles olhos.
-Professor? Tudo bem?
-Não. Vou para meu quarto, se precisar, chame – disse esforçando-se não se perder nas palavras.
-Ok.
Snape retirou-se para o quarto deixando-a sozinha, enquanto Hermione diminuía a intensidade do fogo que aquecia o caldeirão. Levantou-se e caminhou em direção à cozinha, deixando para trás o caldeirão e a fumaça azul-acinzentada que exalava dele.
Foi direto no armário de ingredientes. Um mestre de poções como Snape deveria ter alguns ingredientes trouxas. Encontrou Camomila em um dos potes sem sacrifício já que todos eles estavam nomeados com nome científico e popular, além de organizados por ordem alfabética.
O ex-professor tentava se concentrar em seu livro favorito: A Alquimia Por Ela Mesma. Era um livro complexo, que exigia total concentração. Snape perdia-se em devaneios a cada palavra que lia, para depois condenar-se mentalmente por tal coisa. Lia inúmeras vezes o mesmo parágrafo, sem conseguir absorver informação alguma. Mas afinal, que idiotices eram aquelas? Ele não era um simplório personagem de um romancezinho barato onde um professor se apaixona pela aluna e eles vivem felizes para sempre. Era um comensal, talvez o mais próximo do Lord! E por outro lado, era um dos homens de confiança de Dumbledore, o maior bruxo que ele conhecera (não que ser seu homem de confiança valesse muita coisa, ao mesmo tempo que lhe era grato pela confiança o considerava um tolo por confiar em qualquer um).
Passara tanto tempo de sua vida sozinho, controlando suas vontades, escondendo seus sentimentos para acabar com tudo isso assim, num ímpeto impulso juvenil? Fizera tantas coisas horríveis para agora acreditar-se apaixonado por uma adolescente? Uma adolescente, ainda mais nova que Lílian Potter e Alice Longbottom, que tiveram as vidas tiradas por 'gente como ele'.
Não estava tudo bem. Na verdade, não estava nada bem. O maior bruxo das trevas tinha pleno poder sobre toda a comunidade bruxa, enquanto o maior bruxo da luz estava impossibilitado de fazer qualquer coisa para detê-lo e o mundo estava nas mãos de um garoto que só sabe ser aplaudido enquanto captura uma bolinha inútil. E, apesar de tudo isso, a imagem dela não desaparecia de sua mente.
Atirou o livro com força contra a parede, que caiu com um baque surdo no chão.
-Professor? – Hermione o chamou, entrando sem esperar resposta.
Trazia nas mãos uma xícara simples, sem decorações, estampas ou cores.
-O senhor tinha dito que não estava se sentindo bem, então eu preparei um chá de camomila. – dizia indo em direção ao professor, que assustado com a entrada repentina da garota, não dizia palavra - Ainda está um pouco quente, vou deixá-lo aqui – debruçou sobre a mesa-de-cabeceira ao lado da cama e, sob o olhar de Snape, colocou a xícara sobre ela.
Snape mantinha o olhar fixo em Hermione. A garota estava parada a poucos centímetros dele. Hermione virou-se lentamente para encarar o ex-professor, parecia ainda mais próxima agora. Ele não sabia dizer ao certo o que o deixava hipnotizado, supunha ser a pele macia e delicada de Hermione, talvez os traços finos e definidos de seu corpo e rosto ou ainda seus cabelos ou singelo sorriso, mas quando encarava o castanho de seus olhos, perdia-se completamente.
Sentindo que demorara uma eternidade, levantou-se sem desviar o olhar, sentindo que ela lia em seus gestos todos os sentimentos que o dominavam. Levou sua mão esquerda à nuca da garota, sem quebrar a preciosa troca de olhares. Quando seus dedos tocaram a nuca de Hermione, sentiu-a se arrepiar. Ela estava febril.
-Hermione acorde – os lábios de Snape se moveram, mas a voz não era de longe a mesma.
A garota abriu os olhos assustada, a medida que a visão de Snape e da casa em Hogsmeade falhavam.
-Calma amiga, foi só um sonho. Como você se sente?
-Onde estou?
-Na enfermaria. Você estava febril e delirando hoje cedo, então te trouxemos aqui. A Madame Pomfrey disse que você vai ficar bem, então não se preocupa, ta?
E então, foi só um sonho?
N/A:Não, você não está sonhando... Nem tendo delírios nem nada do tipo... Sim é o 4º capítulo da Samhain's Potion!!
Realmente, já era hora de eu dar um sinal de vida, né? A fic vai fazer um ano sem atualização... Não tenho muito a dizer sobre o cap, espero que não o achem curto ou condensado demais. Mais uma vez agradeço a todos que lêem, acompanham, deixam suas opiniões e até mesmo me cobram por atualizações (eu sou meio desligada com essas coisas XD ).
Não vou poder responder às reviews desta vez (
Mas agradeço por todas!!!
Beijos!
