Capítulo IV

Depois de encerrada a conversa com a família Barrington e o advogado, Kagome foi conduzida ao quarto, onde, momentos depois, foi lhe servido o jantar.

Terminou de comer e começou a andar pelo aposento. Era impossível concentrar-se na leitura, e não levara seu trabalho manual para manter a mente ocupada. A solidão estimulava-lhe os pensamentos para o drama que se desenrolava na casa.

Uma criada foi ajudá-la a se preparar para dormir. Mesmo pensando que passaria a noite rolando na cama, de olhos abertos, Kagome se deitou. Dos lençóis de linho exalava o perfume suave de lavanda, e as chamas da lareira mantinham o quarto agradavelmente aquecido.

Contrariando suas expectativas, Kagome acabou adormecendo, e só acordou na manhã seguinte.

Kagome abriu os olhos e puxou as cobertas até o queixo, olhou para os pingentes de seda azul do dossel, sem saber o que fazer agora que o dia amanhecera.

Que outras novidades a esperavam? Talvez fosse melhor para todos se ela permanecesse no quarto. Sentia-se envergonhada por ter arruinado, mesmo involuntariamente, a festa de noivado de lorde Taisho. Jamais esqueceria a expressão de horror e fúria no rosto dele quando se dera conta de que ela era realmente sua esposa.

E como reagiria a noiva ao saber que o casamento deveria esperar até todas as formalidades serem resolvidas? A alegria e a ansiedade que todas as noivas sentiam se transformariam em tristeza.

Mas e a sua alegria de noiva?

Kagome balançou a cabeça, perguntando-se o motivo daquele pensamento bizarro. Todos os sonhos de um casamento romântico haviam morrido com Kouga, no campo de batalha. E apesar de terem aparecido outros pretendentes, ela não se imaginava casada com outro homem que não fosse Kouga.

Até conhecer Inuyasha.

Ele chegara com seu eterno bom humor e seu coração compreensivo. A amizade logo se fortalecera entre ambos. Inuyasha também sofrerá a dor de um amor perdido. Tornaram-se confidentes, sem medo de ser censurados ou aconselhados a esquecer o passado.

Não houvera ilusões amorosas, e Kagome aceitara o casamento com os olhos abertos para a realidade de sua situação. Era grata a Inuyasha por ajudá-la num momento de dificuldade e por, indiretamente, dar-lhe a oportunidade de viver uma vida independente.

A modesta herança que a avó materna lhe deixara só poderia ser assumida depois de casada. Se Kouga tivesse sobrevivido à guerra, sua vida teria sido muito diferente. Mas ele morrera, e Kagome se conformara com sua vida solitária.

Mas por que Inuyasha usara o nome do irmão? Ela não era uma pessoa que sonhava com títulos de nobreza e com os privilégios que os acompanhavam. Era importante saber os motivos que o levaram a tal procedimento, embora suspeitasse que não era a ela que Inuyasha pretendia impressionar.

Ao ouvir uma leve batida na porta, Kagome sentou-se na cama.

— Entre.

Era Mary, a mesma criada que a atendera na noite anterior.

— Bom dia. Eu lhe trouxe café e algumas torradas para começar a manhã — disse a moça. — O desjejum completo é servido na sala de refeições para a família.

— Obrigada Mary.

Enquanto Kagome bebia o café, Mary rapidamente abriu as cortinas, verificou o fogo na lareira e arrumou as flores no vaso da mesa de canto.

— Já decidiu que roupa irá usar esta manhã? — A voz da criada veio do quarto de vestir.

Depois de ver as roupas da condessa e de Sango, Kagome imaginava o espanto de Mary com seus vestidos simples. Estremeceu, sentindo-se cada vez mais deslocada naquele ambiente elegante.

— Confio na sua escolha.

Aparentemente, foi à decisão mais correta, pois Mary concordou com um sorriso simpático.

Finalmente, Kagome saiu do quarto em direção à sala de refeições, sentindo as pernas trêmulas, Parou por um momento antes de abrir a porta da sala. Apertou as bochechas, tentando dar-lhes um pouco de cor.

Sango recebeu-a com um sorriso radiante.

— Bom dia, Kagome. Que bom que veio juntar-se a nós. Nem todos se levantam tão cedo.

Kagome retribuiu o sorriso e o cumprimento.

— Café? — O copeiro perguntou. — Ou talvez chocolate quente?

— Chocolate, por favor. — Em sua casa, o chocolate era um luxo raramente servido, e nunca no desjejum. Fingiu não notar a porcelana fina e a fartura de iguarias oferecidas no café-da-manhã. Até mesmo as bebidas enfatizavam a diferença entre seu estilo de vida e o de lorde Taisho.

— Saiu para cavalgar, Sango? — ela perguntou polidamente.

— Apenas pelo Hyde Park. Meu marido não gosta de se levantar cedo, mas eu aproveito para me exercitar e respirar ar puro.

— E tomar o café-da-manhã comigo antes de voltar para suas filhas — a condessa completou.

— Esse passeio matinal me deixa mais disposta.

— Pensei que morasse aqui com sua família — Kagome comentou.

— Quando estamos em Londres, ficamos com o meu sogro, duque de Warwick — Sango explicou. — As crianças adoram o avô.

— Quantos filhos você têm?

— Três meninas. — Sango deu um sorriso malicioso. — Antes, meu sogro reclamava por não ter um herdeiro varão, além de meu marido, mas se eu não tiver um menino, ele está decidido a mandar uma petição ao Parlamento para que minha filha mais velha possa herdar o título. — A marquesa riu. — Meu marido diz que continuará tendo apenas filhas, só para ver o pai enfrentar a monarquia, a nobreza, o Parlamento e quem quer que cruze o caminho dele!

Kagome gostaria de saber mais sobre a possibilidade de uma mulher herdar um título de tanta importância e prestígio, mas a pergunta inesperada da condessa desviou o assunto.

— Inuyasha fala muito de nós?

Kagome bebeu um gole de chocolate. Mãe e filha eram gentis e estavam se esforçando para deixá-la à vontade, mas ela continuaria leal a Inuyasha. Mesmo que ficasse provado que não eram marido e mulher, Inuyasha ainda mereceria sua discrição. Além disso, os familiares ficariam chocados se soubessem que, em parte, eram a razão de Inuyasha ter se casado. Cansara-se de ser pressionado para se casar. Seu coração sofrerá uma desilusão, e a família se recusava a respeitar sua dor e seu desejo de evitar compromissos sérios.

Felizmente, a chegada de lorde Taisho interrompeu a conversa. Ele também vestia traje de montaria. Estava impecável, e Kagome ficou em dúvida se ele estava voltando da cavalgada, ou se sairia depois do desjejum.

Uma coisa era certa: ele era um homem bonito e atraente.

Um arrepio percorreu a espinha de Kagome. Irritou-se com tal reação, totalmente inconcebível.

— Bom dia. Não permitam que a minha presença interrompa a conversa, senhoras — ele disse, sentando-se ao lado da irmã.

— Kagome ia nos contar o que Inuyasha falava sobre a família. Ela se remexeu na cadeira.

— Sinto muito, mas receio que Inuyasha falava muito pouco sobre vocês.

Sesshomaru esperou o criado servi-lo antes de ironizar:

— Meu irmão aprecia discutir sobre vários tópicos, mas seu assunto preferido sempre foi ele mesmo.

— Isso não é justo — Kagome protestou.

— Mas verdadeiro — Sesshomaru retrucou com um brilho de desafio no olhar.

A mão de Kagome parou no ar, segurando o garfo perto da boca.

— Confesso a dificuldade de arrancar confidencias de Inuyasha, principalmente sobre o motivo de seu desânimo.

— Uma mulher. Com Inuyasha, sempre há um rabo-de-saia envolvido!

— Sesshomaru! — A condessa reagiu com indignação. — É indelicado falar de outra mulher na presença de Kagome.

Kagome pousou o garfo na borda do prato de porcelana. Não suportaria os olhares de piedade das duas mulheres. Certamente esperavam que ela agisse como a esposa ciumenta e ultrajada. A idéia era absurda, mas a família de Inuyasha jamais saberia a verdade sobre o casamento deles.

— Vejo que não é segredo o fato de Inuyasha querer esquecer o passado. — Todos os olhares se voltaram para Kagome, obviamente esperando por uma explicação. Mas ela não pretendia colaborar. — Por favor, eu falei mais do que devia.

— Jamais lhe pediria para trair a confiança de meu irmão. — Sango franziu o cenho. — Entretanto, você poderia, pelo menos, nos dizer se a causadora da angústia de Inuyasha é uma mulher chamada Elizabeth?

Não havia necessidade de resposta. Pela expressão de surpresa e o rubor que cobriu o rosto de Kagome, ficou evidente que a marquesa estava certa.

— Meu Deus, ele ainda está sofrendo por conta dessa insensatez? — Sesshomaru não disfarçou seu desprezo. — Que infantilidade! Pensei que ele já tivesse amadurecido! É bem típico de Inuyasha.

Kagome se levantou num salto, empurrando ruidosamente a cadeira.

— Não permitirei que menospreze o sofrimento de Inuyasha. Não tiro sua razão por estar furioso e revoltado, mas isso não lhe dá o direito de zombar dos sentimentos dele.

— Céus! — A condessa exclamou, olhando para Kagome com ar de aprovação. — Que bela defesa, mesmo depois do modo como Inuyasha a tratou. Seu caráter brilha na adversidade, Kagome, e sua lealdade é digna de admiração.

— Lealdade à pessoa errada — Sesshomaru resmungou. Ele mordeu um pedaço de torrada e mastigou lentamente, revelando no rosto uma expressão pensativa. — Você é minha esposa, até que se prove o contrário, de modo que tem obrigação de partilhar seus segredos comigo.

Com esforço, Kagome manteve sua expressão impassível. A condessa acabara de fizer-lhe um elogio. Certamente, seria uma forma desagradável de desacreditá-la se começasse a gritar com lorde Taisho.

— O segredo não é meu, milorde, apesar de ter percebido que os sentimentos de Inuyasha por Elizabeth são do conhecimento de todos. — Ela tornou a sentar-se. Respirou fundo, tentando falar com coerência. — Insisto em afirmar que Inuyasha só me contou a respeito dela por confiar plenamente na minha discrição. Vou honrar a privacidade dele e pedir-lhe para respeitar minha decisão de não trair sua confiança.

A justificativa dela pareceu irritá-lo ainda mais.

— Aposto como ele disse que sofreu uma grande decepção amorosa — Sesshomaru respondeu com impaciência. — Inuyasha costuma passar horas e horas discorrendo sobre Elizabeth. Isso nada mais é do que uma boa desculpa para embebedar-se.

— Não é verdade! Como você pode ser tão cruel? Ela se casou com outro. Inuyasha ficou arrasado.

— Realmente, ficou. — Sesshomaru tocou os cantos dos lábios com o guardanapo de linho. — Por caso, meu irmão chegou a mencionar que essa moça se casou há cinco anos?

— Cinco anos? — Kagome quase se engasgou com o chocolate quente. — Eu tinha a impressão que isso foi um acontecimento mais recente.

— Como vê, não foi. Kagome inclinou a cabeça.

— A passagem do tempo pode amenizar o sofrimento, mas a dor nunca passa e uma ferida nunca cicatriza. Ficam para sempre.

— Fala por experiência própria? — lorde Taisho indagou num tom surpreendentemente mais gentil.

Ela levantou a cabeça e os olhares deles se encontraram. Kagome corou, constrangida por revelar tanto de si mesma.

— Não estamos discutindo minhas desilusões, milorde, embora elas tenham me ajudado a entender os sentimentos de Inuyasha por Elizabeth.

— O que aconteceu com o seu namorado? — a condessa perguntou num tom consternado.

— Ele morreu na península. Prendíamos ficar noivos quando ele voltasse para casa, mas ele não voltou da guerra.

— Que tristeza, minha querida. — A condessa suspirou. — Sentimos muito por sua perda.

— Já faz muito tempo. — Os lábios de Kagome se curvaram num sorriso triste. — Uma eternidade.

— Vocês se conheciam por um tempo considerável? — lorde Taisho perguntou.

— Sim. — Ela ergueu o queixo, permitindo que as lembranças desfilassem diante de seus olhos. — Kouga era filho de um vizinho. Tivemos contatos ocasionais como crianças, e adolescentes, descobrimos muitos interesses em comum. Não foi surpresa para ninguém quando começamos a namorar.

— Certamente, teria dado certo. — Lorde Taisho bebeu um gole de café. — O relacionamento de meu irmão com Elizabeth resumiu-se a meia dúzia de danças em bailes diferentes, um jantar numa recepção, dois passeios de carruagem no Hyde Park, e uma quantidade incalculável de cartas sem respostas. Na verdade, ele mal a conhecia.

— Bem, houve aquele incidente no dia em que eles se conheceram — a condessa lembrou. — Inuyasha salvou a pobre moça dos ataques de um louco.

— Verdade. Meu irmão provou ser um homem de honra e caráter, e contribuiu para salvar a vida de Elizabeth — Sesshomaru admitiu.

— Sinto milorde, que está quase orgulhoso dele — Kagome provocou-o. Ela conhecia a história do incidente com Elizabeth e ficara impressionada com a atuação de Inuyasha. Era bom saber que a família também reconhecia seu valor.

— Não há nada que eu queira mais do que admirar o meu irmão, mas ele torna tudo muito difícil. — A um sinal de Sesshomaru, o criado serviu-lhe mais café. — Eu teria dado mais crédito ao seu sofrimento se acreditasse na sinceridade dele. Inuyasha está enamorado da idéia de amar Elizabeth. Ela é uma moça fina, de bom caráter que preferiu uma vida calma, comum, e até me atrevo a dizer, monótona. Longe da sociedade, longe dos modismos, longe do glamour e das línguas ferinas da aristocracia.

Lorde Taisho adoçou o café e misturou com a colher de prata. E depois de uma breve pausa, continuou:

— Felizmente, Elizabeth teve também o bom senso de perceber que Inuyasha teria se cansado um mês depois de casados. Sabiamente, ela se casou com um homem mais condizente com sua personalidade e expectativas de vida. Ouvi dizer que são muito felizes.

Kagome contraiu o maxilar.

— Inuyasha não entende dessa maneira. Ele acredita piamente que eles seriam felizes juntos, embora ela tenha entregado seu coração a outro.

— Isso pode ter sido há cinco anos, mas Inuyasha decidiu que seria mais fácil esconder-se atrás da desilusão, em vez de levantar a cabeça e continuar sua vida. — Lorde Taisho sorriu com ironia. — É muito fácil apaixonar-se por uma jovem bonita e atraente, mas muito mais difícil amar. Sustentar a emoção, permitir que esse sentimento cresça e amadureça não ser egoísta quando necessário, ceder algumas vezes e ser firme em outras. Somente quando você conheceu um amor assim e, depois, o perdeu, você saberá o que é sofrimento.

Kagome fitava lorde Taisho fascinada. Nunca imaginara que, sob a aparência fria, cínica, ele fosse tão romântico e sentimental. Indagou-se se era assim que ele amava a mulher com que pretendia se casar. Não pôde evitar uma ponta de inveja da dona do coração do lorde.

— O amor é uma questão complicada para o coração e para a mente - Sango manifestou-se. — Aqueles que têm a sorte de encontrá-lo, devem aprender que esse sentimento precisa ser cultivado com muito carinho e paciência.

— O seu casamento foi por amor, lady Sango? — Kagome não conteve a curiosidade.

— No começo, não. Mas definitivamente, agora é — ela respondeu com um sorriso radiante.

A condessa suspirou.

— Essa conversa sobre amor está me deixando com saudade de seu pai. O conde foi passar o dia com antigos colegas de escola. Penso que preciso distrair-me para não ficar triste.

— Então, vamos fazer compras — Sango sugeriu. — Kagome vai adorar Bond Street!

— Perfeito! — a condessa concordou com entusiasmo. Lorde Taisho aproveitou o momento e levantou-se.

— Tenho muitos compromissos nesta manhã e não quero me atrasar. Desejo-lhes uma manhã muito agradável.

Ele tocou a testa com a mão e fez uma mesura antes de sair da sala de refeições.

Embora tentando não olhar, Kagome acompanhou-o com os olhos até não vê-lo mais.

Kagome jamais imaginaria a aventura que seria ir às compras com a condessa e lady Sango. Bond Street era alguma coisa assustadora que só provava quanto ela estava fora de lugar. Mas a teimosia da condessa não deixava espaço para contestações, e sem saber exatamente como acontecera, de repente, Kagome viu-se na porta de uma das mais famosas e exclusivas modistas de Londres.

Foram recebidas de braços abertos, com cumprimentos e elogios exagerados. Depois, vieram os olhares e exclamações de horror ao avaliarem Kagome dos pés à cabeça. Ela não tinha certeza se o espanto era por conta das roupas simples demais, de sua aparência, ou pela vaga explicação da condessa e de lady Sango sobre o parentesco delas.

Entretanto, o nervosismo de Kagome logo se transformou em entusiasmo diante da nova experiência. As vendedoras e a proprietária literalmente gravitavam ao redor da condessa. Tudo era feito para agradá-la, e nenhuma tarefa era considerada difícil ou impossível.

Depois de tirarem as medidas de Kagome, começaram a escolher os tecidos e os modelos dos novos vestidos. Ocasionalmente, ela era consultada, mas quem decidia era a condessa. Felizmente, a condessa apreciava os modelos de cintura alta que Kagome tanto apreciava.

No fim, ela ficou surpresa ao descobrir que um passatempo que, a princípio temera ser exaustivo e aborrecido, era na verdade muito agradável e divertido. Porém, logo percebeu que a condessa não pretendia comprar-lhe apenas um vestido. Ou dois.

A lista que a condessa apresentou a lady Renude deixou Kagome estarrecida. Vestidos para de manhã, para a tarde, para jantar, vestidos de baile, de passeios, trajes de montaria e para outras ocasiões. Parecia que, independentemente da ocasião ou das circunstâncias, esperava-se que mulher aristocrata possuísse e vestisse o traje certo. E sempre acompanhados dos sapatos, chapéus e complementos apropriados.

Não havia preço nos tecidos ou nas roupas, o que deixava Kagome ainda mais apreensiva. Examinando discretamente a qualidade dos tecidos e dos acabamentos dos vestidos, ela concluiu que somente mulheres que não precisavam se preocupar com os preços freqüentavam aquela loja.

Kagome não era, e nunca fora, uma mulher assim. Apesar de sua família ter posses, eram três filhas e a mãe para se vestirem.

Desde cedo, ela aprendera a apreciar beleza e qualidade nos objetos e também a controlar o dinheiro na hora de adquiri-los. Aparentemente, controle não era uma palavra usada pela condessa. Vestidos e mais vestidos eram encomendados, e nem a condessa e nem lady Sango pareciam preocupadas com os preços. Num momento em que lady Renude se afastou para pegar outros modelos, Kagome tocou no assunto. A condessa descartou-o com um sorriso vago.

— Meu filho tem bolsos muito fundos. — Ela apontou para um vestido vermelho de seda. — Ele tem um talento ridículo para ganhar dinheiro, talento esse que tenho quase horror em confessar que ele aprendeu com a irmã.

Kagome olhou para a marquesa, que encolheu os ombros.

— Isso é verdade, mas procuramos não comentar o fato fora de nossa família.

Por alguma razão, a idéia de partilhar de um segredo de família, fez com que Kagome se sentisse privilegiada. Apesar da arrogância e das maneiras autoritárias, os Barrington formavam um grupo muito carismático, e Kagome sentia-se honrada pela confiança.

Mesmo cansada Kagome conseguiu agüentar mais uma hora com bom humor. Aliviada, viu a condessa guardar o monóculo dourado na bolsa e anunciar que as compras tinham terminado.

O sol estava brilhando quando, finalmente, deixaram à loja de lady Renude. Kagome não pôde evitar uma ponta de vaidade ao andar por Bond Street com um dos muitos vestidos elegantes comprados no ateliê de lady Renude. Mas seus pensamentos logo foram dispersos ao avistar a figura de lorde Taisho não muito distante. Reconheceu-o imediatamente. Ele estava a pé, caminhando na direção delas com passos firmes.

— Senhoras. —Ele tocou a aba do chapéu. — Já terminaram suas compras?

A condessa riu.

— Fazer compras é algo que as mulheres nunca terminam Sesshomaru. Elas simplesmente dão uma pausa para recuperar as forças.

— Eu não estou nem um pouco cansada. — Sango sorriu.

— Mas minhas filhas esperam-me em casa.

— Vou acompanhar sua irmã — a condessa disse a Sesshomaru.

— Por que você não dá um passeio com Kagome? O ar fresco lhe fará bem, depois de tantas horas dentro de uma loja.

Uma expressão sombria cobriu o rosto de lorde Taisho.

— Penso que quanto menos me virem pela cidade em companhia de Kagome, melhor.

— O que tem de mais, meu filho? Minha criada os acompanhará. Naturalmente, devemos ser discretos no que concerne à situação de Kagome, mas não há necessidade de escondê-la.

— Não concordo.

— Sinto muito, Sesshomaru, mas a mamãe tem razão — Sango interveio. — Se agirmos como se tivéssemos alguma coisa a esconder, daremos motivo para comentários maldosos.

— E todos sabemos que não há como guardar um segredo em Londres — a condessa completou.

— Insisto em dizer que o mais prudente será mantermos sigilo sobre a existência de Kagome.

A condessa deu um suspiro ruidoso e exagerado.

— Não seja ridículo, Sesshomaru. Passamos quase quatro horas na loja de lady Renude. Antes do final do dia, a alta sociedade inteira terá informações sobre a dama misteriosa que renovou completamente seu guarda-roupa e enviou a conta para você pagar.

Lorde Taisho empalideceu. Kagome pigarreou. Todos a olharam rapidamente, mas ninguém disse nada. Passado o momento de choque, Sesshomaru indagou:

— Lady Renude sabe quem é Kagome?

— Não sou boba e tampouco o é lady Renude — retrucou a condessa. — Ela estava ardendo de curiosidade, mas jamais se arriscaria a ofender-me com perguntas indiscretas. Asseguro-lhe que não deixamos escapar nada. E sabe o que mais? Não podemos ficar aqui parados, discutindo assuntos de família. Além disso, sua irmã precisa ir embora.

— Minha carruagem está a dois quarteirões daqui — informou o lorde.

— A nossa está mais perto. Seria realmente pedir demais que contemplasse Kagome com alguns momentos de ar fresco? Pelo menos, até onde está a sua carruagem?

A condessa não esperou pelos protestos do filho. Segurando no braço de Sango, caminhou até a carruagem e, num piscar de olhos, mãe e filha entraram no veículo, sem olhar para trás.

Com o canto dos olhos, Kagome viu o lorde Taisho cerrar os punhos. Ele estava furioso. Mas seu rosto estava impassível quando se voltou e ofereceu-lhe o braço.

Se não aceitasse, certamente, Kagome seria deixada lá mesmo, somente com uma criada como guia. Contendo um suspiro de resignação, pousou a ponta dos dedos no braço dele e deixou-se conduzir por Bond Street.