CAPÍTULO 3

Pelo menos o tempo estava bom. Lá fora fazia frio, mas dentro do carro a temperatura estava bem agradável.

Enquanto a programação da emissora alternava notícias com música erudita, Rin observava a paisagem. As árvores estavam desfolhadas e, à medida que a civilização ia ficando para trás, o cenário ia adquirindo uma beleza cada vez mais agreste.

As estradas iam ficando cada vez mais estreitas e escurecia rapidamente. Sesshomaru com expressão crispada, permanecia concentrado nas curvas, subidas e descidas do caminho.

Que lugar foram escolher, Rin pensava. Incompatível com o estilo de Kagome. E de Houjo. Ele era do tipo que gostava de frequentar a alta-roda. Provavelmente nunca tinha estado num chalé no meio de lugar nenhum.

Os pensamentos derivavam pela mente de Rin em meio ao silêncio. Mas não era um silêncio desconfortável.

Finalmente chegaram. Já estava escuro.

O chalé ficava no fim de uma trilha estreita, à margem de um lago. Um lugar lindo na primavera ou verão, mas lúgubre no inverno.

O silêncio dava nos nervos. Muito diferente de Londres. Era como, Rin imaginava, ser engolida por um buraco negro e estar perdida no tempo e no espaço.

Rin sorriu, nervosa, e se voltou para Sesshomaru.

— Meio fantasmagórico, você não acha? Tive essa impressão quando estive aqui com Kagome e seus pais. Não mudou nada.

— Você não acha isso charmoso?

— Acho assustador — Rin respondeu. — Prefiro o caos e o barulho de Londres.

— Uma mulher citadina — Sesshomaru murmurou, com tom ligeiramente insultuoso.

— É lá que está o trabalho — Rin disse, arrependida de ter puxado conversa.

A primeira coisa que notaram foi que o chalé estava às escuras. Rin sentiu um vazio no estômago, e um pressentimento horrível. Sesshomaru estava carrancudo.

— Não vejo luz. E você?

Rin não respondeu, tentando ver se havia algum carro parado perto da casa. Nada. Nem carro, nem luz, nem Kagome.

— Talvez eles tenham saído.

— É... talvez tenham ido a uma boate... — Sesshomaru estava impaciente, seus olhos brilhavam no escuro do carro. E Rin começava a sentir o sangue subir à cabeça.

— Vamos entrar? — perguntou, tentando manter a calma e saindo do carro para não ouvir mais acusações veladas.

Claro que Kagome e Houjo podiam estar lá dentro. Com as luzes apagadas. Uma noite romântica. Talvez o carro estivesse parado nos fundos. Talvez, talvez, talvez. Rin se agarrava a qualquer possibilidade, porque uma parte dela, pequena, não queria estar ali, sozinha, com um homem que ainda era capaz de fazer sua pulsação subir.

Sesshomaru desceu do carro. Abriu a porta do chalé, bravo.

Nada. O chalé estava vazio. E gelado.

— Nem sinal de vida. Será que você me trouxe aqui à toa? — Sesshomaru não esperou resposta. Ligou as luzes. Saiu outra vez.

Rin saiu correndo atrás dele.

— Aonde você vai?

Sesshomaru não respondeu. Tirou a bagagem do carro e voltou para o chalé. Furioso.

— Não se preocupe. Por mais que eu tenha vontade de largar você aqui por me ter feito fazer essa viagem inútil, não vou fazer isso.

Sesshomaru deixou a bagagem no chão e Rin o seguiu até a minúscula cozinha, furiosa. Como ele se atrevia a insinuar que ela o tinha trazido ali? Se tinha sido exatamente o contrário.

— Não fui eu que trouxe você aqui. Isso... — gesticulou, indicando o chalé deserto — não é culpa minha.

— Então de quem é? Você disse que Kagome estava aqui, não disse? Ou foi tudo uma manobra para me trazer aqui quando você sabia muito bem que ela estava em outro lugar, provavelmente a mil quilometros na direção oposta? Eu não devia ter acreditado numa palavra que você disse. Devia ter percebido que você estava mancomunada com ela. Quem sabe...? Talvez ela fugir tenha até sido ideia sua. Talvez toda aquela preocupação sobre a incompatibilidade entre ela e Houjo fosse mera fachada. Afinal, esperta é a única coisa que você é — Sesshomaru estreitou o olhar.

Epa. O que será que ele estava pensando?

— Ou talvez — Sesshomaru prosseguiu, voz gelada — houvesse outra razão para você me trazer aqui...

— Do que é que você está falando?

— Ah, você não imagina? — Sesshomaru torceu os lábios cinicamente. — Talvez me trazer aqui neste esplendor isolado permitisse puxar os fios de um relacionamento que você quis todos esses anos, e que nunca decolou.

Rin ficou branca. Começou a tremer. Estava a ponto de perder o controle. Mas não faria isso. Ele que insinuasse o que quisesse.

— Não vou comentar essa hipótese. Vou só dizer que você tem o maior ego que eu já vi...

— Você ainda está interessada em mim?

— Sim. Eu... — Rin respirou fundo. — Como é que eu ia saber que Kagome resolveu mudar de ideia?

— Intuição feminina? Ou essa é uma daquelas coisas que lhe faltam?

Silêncio. Um silêncio tumular. Depois Rin corou. Uma das coisas que lhe faltam? Uma em quantas? Aparência, talvez? Atração? Era disso que ele estava falando? Eram essas as coisas que lhe faltavam?

Sesshomaru pegou duas canecas do armário. Rin observava calada enquanto ele as enchia de café. Depois sentou à mesa da cozinha. Bebeu, segurando a caneca com as duas mãos.

— Vou buscar lenha e acender um fogo, ou vamos congelar aqui dentro.

Rin gostaria de responder, mas não podia. Em vez disso, apenas o olhava por sobre a caneca, observando suas mãos fortes, seus ombros largos...

Sesshomaru inspirava confiança. Era um homem de negócios, mas isso não significava que não pudesse lidar com situações como aquela. Se tinha dito que ia buscar lenha e aquecer o ambiente, ele o faria, mesmo que para isso tivesse de derrubar uma árvore. De alguma forma, ele sempre encontrava um meio de viabilizar o impossível.

Talvez fosse essa sua qualidade mais marcante: o talento para fazer crer que ele era capaz de tudo. Rin, mesmo depois de adulta, agora movida pela razão, que insistia em lhe dizer que ninguém era capaz de tudo, ainda acreditava que ele podia fazer o que poucos homens podiam.

Era isso que todas as mulheres viam nele? Essa força?

— Não é melhor voltarmos para casa? — Rin disse finalmente, tentando ordenar os pensamentos.

— Não há nada neste mundo que me faça entrar naquele carro e dirigir mais duas horas antes de descansar um pouco.

O frio já começava a ultrapassar os limites do seu casaco. Rin suspirou e sentou na frente dele, lamentando ter deixado as luvas em casa.

— Sinto muito você ter feito esta viagem por nada — disse —, mas não foi culpa minha.

— Não, não foi — Sesshomaru correu os dedos pelo cabelo e se recostou na cadeira, olhos fechados. Pela primeira vez, parecia cansado.

— Quer que eu prepare alguma coisa para a gente comer?

— Não sei se será possível. O velho que dá uma olhada neste lugar de vez em quando, sempre deixa alguma comida no armário, mas só o essencial.

Rin levantou, tentando sorrir. Falar sobre amenidades era exatamehte o que ela precisava.

— Por mim, tudo bem. Sempre fico sem comer quando o trabalho aperta — Rin agora estava de costas, inspecionando o armário, tentando achar algo interessante.

— Dá para ver — ele murmurou. — Você está bem magrinha. Rin sentiu o comentário de Sesshomaru deslizar pela sua espinha. Enrijeceu. Mas não se deixaria irritar. Fingiu não ouvir e não respondeu. Em vez disso, perguntou onde ele pretendia buscar lenha.

— No barracão lá fora — Sesshomaru levantou e se espreguiçou, lentamente, como um gato. — Espero que haja lenha seca — se aproximou. Rin ouvia sua voz bem perto do ouvido. — Senão vamos ter de pensar num outro jeito de fazer subir a temperatura.

— Só sobre o meu cadáver — Rin se voltou de repente. E ele riu.

— Foi só uma piada. Não é preciso mostrar as garras. Como eu disse, sua honra está segura comigo — Sesshomaru saiu da cozinha, ainda rindo.

Muito engraçado, Rin pensou. Talvez ele achasse mesmo aquilo divertido. Mas ela não achava.

Apanhando no armário algumas latas de conserva, Rin tentava usar a criatividade, mas acabou desistindo. Feijão, carne e macarrão nunca fariam uma bela combinação, por mais artisticamente que ela arrumasse os ingredientes.

Rin ouviu a porta da frente bater e se apressou na cozinha. Com o canto do olho, viu Sesshomaru tirar a jaqueta e começar a trabalhar. Movimentos rápidos e seguros. Onde ele tinha aprendido a fazer aquilo? Em menos de quinze minutos o fogo estava aceso e o calor se espalhava pelo chalé.

Rin tirou o casaco, depois o blusão. Quando Sesshomaru entrou na cozinha, minutos depois, a comida estava na mesa.

— Fiz o melhor que pude — Rin disse, antes que ele dissesse qualquer coisa.

— Muito original — ele respondeu, sentando à mesa. — Feijão faz bem. Bastante fibra.

— Se eu fosse uma exímia cozinheira, transformaria isso em algo mais interessante — Rin sentou na frente dele, fazendo uma careta.

— E estragaria o desafio de descobrir seu sabor natural — Sesshomaru devolveu a careta. Os traços do seu rosto mostravam arrogância e agressividade, mas pareciam perturbadoramente charmosos quando ele sorria. — Na verdade, é diferente estar com uma mulher que não esteja ansiosa para visitar minha cozinha e me mostrar que é excelente cozinheira.

— Sorte sua. Muitos homens achariam isso ótimo.

— Talvez... — ele sacudiu os ombros. — Alguns preferem mulheres submissas...

Puxa, Rin pensou, que coração de ouro esse homem tem. Ainda bem que ele pode levar suas mulheres para jantar fora todo dia e não tem de suportá-las atravancando sua cozinha.

— Você já se sentiu submissa? — Sesshomaru prosseguiu casualmente, olhando o prato.

— Acho que não — Rin respondeu no mesmo tom casual, embora achasse meio inquietante tal digressão para sua vida particular. — Eu detestaria me sentir capacho de alguém. O fogo está ótimo, você não acha?

— Nada como um bom fogo. E você nunca se apaixonou perdidamente por ninguém? Nem por... como era mesmo o nome dele...? Carlos...?, Kevin...?, ah, lembrei... Kohaku.

— Kagome não tinha o direito de discutir minha vida particular com você...

— Talvez ela não achasse isso um segredo. Era?

— Era o quê? — o coração de Rin batia forte. Tentar parecer calma estava custando um grande esforço. Ela não era de falar de si mesma, muito menos com aquele homem.

— Um segredo. Você tinha vergonha dele?

— Claro que não — Rin mentiu. — Por que deveria?

— Bem, eu não diria que Kohaku Tanaka é a espécie de homem que toda mãe quer para a filha.

Rin começava a passar mal. Queria fechar os olhos e fingir que aquela conversa não estava acontecendo. Mas não podia, aqueles olhos a impediam.

— Você o conhece? — perguntou. Sesshomaru assentiu, sem tirar os olhos dela.

— Ele tentou se envolver com Kagome há algum tempo. Como não conseguiu, tentou usá-la para se aproximar de alguns dos meus amigos. Foi quando comecei a prestar atenção nele. E descobri que é um sujeito sem escrúpulos. Acho que foi por isso que Kagome me contou quando você começou a sair com ele. Ela estava preocupada, mas achava que não devia tocar no assunto com você.

Rin estava pasma. Sesshomaru não apenas sabia tudo sobre a vida particular dela, como também de certa forma sabia mais que ela mesma.

— E por que você está me dizendo tudo isso agora?

— Por nada. Só achei que isso talvez tivesse algo a ver com você estar tão envolvida com seu trabalho.

— Estou envolvida com meu trabalho porque gosto dele — Rin protestou. — Kohaku foi um erro, não nego, mas todos cometemos erros. E ele me ensinou uma lição. Estou vacinada contra o charme e a beleza dos homens — tentou sorrir.

Rin pousou garfo e faca sobre o prato, levantou, levou o prato até a pia, lavou, deixou no escorredor.

— A que horas você quer sair amanhã? — enxugou as mãos e ficou olhando para Sesshomaru de braços cruzados.

— Você não gosta de perguntas pessoais, não é? — Sesshomaru inclinou a cadeira, cruzando as mãos atrás da nuca.

Seu olhar aprisionou o dela, de maneira que Rin sentia as pernas trêmulas.

— Alguém gosta? — Rin devolveu a pergunta.

— A gente se conhece há anos — ele disse, e Rin se perguntava se ele achava que isso lhe dava o direito de fazer perguntas pessoais.

— Não entendi...

— Não mesmo? Então você não é tão esperta como pensei.

Por que é que ele não parava de olhar para ela daquele jeito? Rin sabia que ele a estava comparando com outras mulheres que conhecia. E isso a constrangia.

Que bobagem, ela dizia para si mesma. O que Sesshomaru Taisho pudesse pensar dela já não importava fazia tempo. Mas o que incomodava era aquela sua postura. Quando mencionou Kohaku, rindo, era visível sua condescendência.

Rin estendeu a mão para pegar o prato de Sesshomaru, perguntando se ele já tinha terminado, e ele agarrou seu pulso. Um gesto tão repentino que Rin a princípio ficou paralisada. Mas logo puxou o braço.

— Calma. Não vou morder você — ele murmurou, divertido.

— Me solte.

Ele era tão forte quanto parecia. O esforço de Rin para se soltar era inútil.

Quando Sesshomaru a soltou, Rin queria gritar de raiva, mas não lhe daria o prazer de saber como aquele breve contato físico a tinha perturbado.

— Por que fez isso? — perguntou, massageando a mão e tentando voltar ao normal.

— Não queria que você lavasse meu prato. Não sou tão machista como você pensa — Sesshomaru levantou e foi até a pia. — Você pode ir para a sala. Eu levo o café lá.

Rin hesitou alguns segundos e saiu. Na sala, sentou numa poltrona perto do fogo.

O chalé era bem confortável. Não tinha mudado muito nestes anos todos. Grande parte da mobília estava lá desde que o lugar tinha sido comprado.

Rin olhou ao redor, imaginando quantas vezes ele tinha sido usado desde que os pais de Sesshomaru tinham morrido. Quando vivos, eles sempre o usavam durante as férias escolares. Mas isso tinha sido... Rin torceu o nariz... fazia pelo menos sete anos.

Kagome vinha raramente, Sesshomaru menos ainda. Ele não parecia achar aquele lugar muito interessante. E suas amiguinhas provavelmente também não.

Rin estava tão absorta nos seus pensamentos que só percebeu a presença de Sesshomaru quando ele lhe estendeu uma caneca de café. Depois sentou na poltrona em frente, pernas esticadas, cruzadas nos tornozelos.

— O que você pretende fazer sobre Kagome? — Rin perguntou, soprando o café quente.

— Não sei onde ela está. Vou ter de esperar até ela resolver aparecer. E torcer para que aquele sujeito não a convença a se casar.

— Kagome sabe raciocinar — Rin ponderou, mais relaxada agora que estavam em campo neutro e Sesshomaru não a olhava mais daquela forma.

— E você já viu minha irmã agir racionalmente alguma vez?

Rin passou algum tempo pensando.

— Ela fez aquele curso de secretariado...

— Porque insisti muito. Achei que era importante para ela estar preparada para ser financeiramente independente, mesmo que isso não fosse necessário. As pessoas precisam ter algum objetivo na vida.

— Concordo.

— Dá para perceber. Na sua vida nunca faltaram objetivos. Você sempre deu duro na escola, e agora no trabalho de fotógrafa. Admiro você.

Admirável, Rin pensou, embora sem atrativos. Não era engraçada a forma como os homens classificavam as mulheres? A esposa, a amante, a mulher de carreira. Invariavelmente a mulher de carreira era aquela a quem faltavam atrativos.

— Obrigada. Ganhar a vida fotografando não é nada fácil. Muita concorrência. Eu não poderia ficar sentada esperando que os trabalhos aparecessem.

— Como é que você arruma trabalho? — Sesshomaru perguntou, deixando a caneca sobre a mesa e cruzando os braços.

— Geralmente os clientes me recomendam a outros clientes.

Era a primeira vez que conversavam sobre o que ela fazia, geralmente falavam apenas de generalidades, na companhia de outras pessoas. Receber toda a atenção de Sesshomaru, como agora, fazia Rin se sentir estranhamente apreensiva, como se estivesse se desfazendo de um pedaço de si mesma, o que sabia que não devia fazer.

— Você poderia fazer algumas fotos lá para a editora — Sesshomaru disse.

Rin tentou desconversar.

— Não se preocupe. Tenho bastante trabalho. Eu não estava insinuando nada.

— Não achei que estivesse. Temos vários fotógrafos, mas quem sabe...? Uma das nossas revistas não vai muito bem e precisamos fazer alguma coisa para mudar o quadro...

Rin sorriu polidamente, mas não disse nada. A editora de Sesshomaru publicava várias revistas. Quando Rin começou a trabalhar, Kagome tinha sugerido que ela procurasse trabalho lá, mas Rin evitou. O orgulho não deixava.

Aos poucos, ela foi conseguindo seus próprios clientes. Não foi fácil, mas ela tinha conseguido e se orgulhava disso. Não ia agora trabalhar para Sesshomaru Taisho só porque ele talvez estivesse com pena dela.

Pobre Rin, atolada no trabalho depois de um relacionamento embaraçoso com um pilantra dos mais conhecidos na praça, menos por ela. Vamos dar uma mãozinha...Não, obrigada.

Rin bebericava seu café já morno, evitando dizer qual quer coisa.

Com toda a certeza, não era o que ele esperava.

— Bem, você não gostaria de fazer uma fotos para a minha editora? — Sesshomaru perguntou, impaciente. — Posso garantir que pagamos muito bem.

— Estou certa disso.

— Você vai ter de mostrar seu portfolio.

— Claro — Rin murmurou vagamente, desviando o olhar, simulando um bocejo e levantando. — Qual quarto você quer que eu use?

O chalé tinha três quartos. Pequenos mas confortáveis.

— Qualquer um — Sesshomaru respondeu indiferente. Rin achou que ele estava chateado por causa do seu desinteresse na oferta dele. E sorriu. Bem feito. — Acendi fogo em dois deles. Você pode escolher.

— Você não vai dormir?

— Daqui a pouco...

Pegando sua mochila, Rin saiu, deixando Sesshomaru na sala, olhar perdido no fogo, pensando na vida. Foi para o mesmo quarto onde tinha ficado com Kagome anos atrás. Tudo estava como antes. O mesmo papel de parede de flores delicadas, a mesma cama, o mesmo colchão macio, fundo no meio.

Rin lavou o rosto na pia do quarto, decidindo tomar banho na manhã seguinte, antes de saírem. E mergulhou sob o acolchoado, sentindo um calorzinho delicioso.

Sesshomaru tinha razão, nada como um bom fogo...

Rin pegou o livro que tinha trazido. Começou a ler, mas não foi longe. Logo começou a sentir as pálpebras pesadas e desligou a luz. Em meio à escuridão, continuava pensando em Sesshomaru, o que era irritante. Será que ele pensava mesmo que ela tinha tramado trazê-lo ali para... Claro que não, uma vozinha lhe dizia. Aquilo tinha sido pura provocação. Mal de nascença. E ela tinha agido corretamente evitando morder a isca. Mas a insinuação ainda a incomodava.

Melhor pensar em Kagome. Onde será que ela estava? Será que tinha casado com Houjo? Para isso era preciso muita coragem. Rin não conseguia imaginar nada pior que Sesshomaru furioso.

Pronto, lá estava ela, pensando nele outra vez...

Aos poucos o sono chegou. Quando voltou a abrir os olhos, Rin não sabia que horas eram, mas sabia que ainda não tinha amanhecido. Muito escuro lá fora. E ainda havia fogo.

Talvez ela estivesse estranhando a cama. A depressão no colchão, que anos atrás tinha sido tão divertida, agora lhe dava dor nas costas, e ela saiu da cama, sentindo a diferença de temperatura. Vestindo o roupão, Rin saiu ao corredor que levava à sala e à cozinha.

Não havia leite no chalé e café também não era uma boa idéia. Talvez um copo de água.

No ponta dos pés, Rin foi até a cozinha. Tateando, achou um copo. Abriu a torneira devagar. Não queria fazer barulho e acordar Sesshomaru.

Já voltava para o quarto quando viu que Sesshomaru ainda estava na sala, na mesma poltrona.

Em silêncio, Rin se aproximou. Dormindo, Sesshomaru parecia mais jovem. Respirava tranquilamente. Ali, prostrado naquela poltrona, parecia ainda mais atraente.

Rin estendeu a mão, deu-lhe uma leve sacudidela. Talvez ele estivesse bem agora, mas quando o fogo apagasse completamente ele com certeza pegaria um resfriado. Rin o sacudiu outra vez e se inclinou. Seu rosto estava a poucos centímetros do dele.

— Sesshomaru... — Rin sussurrou. —Sesshomaru, acorde... vá dormir na cama. Você não pode dormir aqui.

Sesshomaru entreabriu os olhos. No escuro, Rin não conseguia ver sua expressão, mas ele parecia desorientado. Ele devia estar bem cansado para ter dormindo ali.

Rin tinha vontade de acariciar seu rosto. E talvez, pensou mais tarde, ele tivesse percebido o que ia pela mente dela, porque ele estendeu os braços, puxou-a de encontro a si, e beijou seus lábios.

O beijo, a princípio cálido e sonolento, ia sutilmente se tornando mais intenso. Sesshomaru entrelaçou as mãos no cabelo dela, impedindo-a de recuar. Sua boca, autoritária, separava os lábios de Rin, provocando uma resposta calorosa, algo que ela nunca tinha sentido antes. Como se uma fera enjaulada tivesse sido libertada dentro dela. Kohaku a tinha beijado, claro, beijos lassos, intermináveis, que chegavam a cansá-la mesmo achando-o fisicamente atraente.

Rin gemia, o que parecia aumentar ainda mais a insistência daquele beijo. A língua de Sesshomaru explorava o interior da sua boca, depois o contorno do seu pescoço.

Rin sentia os seios doloridos, a poucos centímetros do rosto dele, imaginando como seria sentir o contato daquela língua sobre eles. Era uma intimidade que ela nunca tinha experimentado antes, mas a loucura que sentia a fazia desejá-la de forma quase desesperada.

Embora não a esperasse. Quando a boca de Sesshomaru contornou seu mamilo sobre a camisola, Rin recuou, instintiva e abruptamente, chocada e confusa.

— O que você acha que está fazendo? — Rin perguntou, trémula, cambaleando pela sala até chegar ao interruptor e ligar a luz. — Ficou maluco?

Seu corpo ainda latejava onde ele a tinha tocado. Onde não tinha também.

Sesshomaru parecia surpreso. Em seguida, fechou a cara.

— Não seja trágica. Era só um beijo. Não era um estupro.

— Não estou interessada...

— Pare de agir como uma virgem horrorizada. Você não é mais uma menina. É uma mulher.

Aquilo deixou Rin ainda mais furiosa.

— Isso não lhe dá o direito de...

Sesshomaru não respondeu, mas a expressão do seu rosto mostrava que ele sabia o que Rin queria dizer.

— Você está exagerando — Sesshomaru resmungou, levantando. E Rin se encolheu instintivamente, percebendo que seu gesto inconsciente o deixou ainda mais bravo.

Você é uma mulher adulta, ela se dizia. Dona da sua vida. Mas naquele chalé longínquo ela parecia à mercê de emoções indesejáveis, pensamentos extravagantes.

— Não, não estou! — Rin explodiu. — Vocês, homens, são todos iguais.

— Não me confunda com aquele vagabundo que levou você para a cama — Sesshomaru respondeu, chegando mais perto. Rin recuou mais um passo, chegando à parede.

— Por que não? Vocês são iguaizinhos.

— Eu não exploro mulheres.

— Ah, não? Vou perguntar às que você já descartou...

Durante algum tempo, olharam um para o outro, furiosos.

Até que Sesshomaru disse, num tom estranhamente meigo:

— Ele deve ter magoado você bastante, hein?

Aquele tom mudou o quadro. Rin agora sentia um nó na garganta. Olhava para ele com uma vontade incontida de esquecer tudo, embora há bem pouco o tivesse detestado.

— Ele me usou — ela disse, desviando o olhar. — Alguém gosta de ser usado?

— Ninguém — Sesshomaru respondeu.

— Isso é algo que você nunca sentiu.

— Você é que pensa... — Sesshomaru retrucou e, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele se levantou e foi para o quarto e Rin voltou para o seu.

Amanhã, ela pensou, ajeitando-se entre os cobertores, tudo voltará normal e esta sensação horrível terá passado. Provavelmente vou rir de mim mesma.