Capítulo IV
No céu, mais nada
Clare gritou por Teresa ao vê-la sendo carregada pela Kakuseisha. Saiu de trás de seu esconderijo e viu a moça alta de cabelos compridos e orelha compridas correr na direção que Teresa fora levada, tão rápida que os olhos da garota não puderam acompanhá-la por muito tempo. Ela correu até o corpo da moça de cabelos bem curtinhos, sua cabeça fora perfurada, a moça de cabelos cacheados fora cortada ao meio na cintura e exalava seus últimos suspiros.
— Não morre... — Clare disse ao se abaixar ao lado dela. — Por favor, não morre.
As lágrimas escorreram pelos olhos verdes de Clare e a menina levou a mão pequenina até os cabelos da mulher. Sabia que ela não sobreviveria, então permaneceu ali, ao seu lado, acariciando seus cabelos. A mulher esboçou um sorriso cansado para a garota.
— A-agora e-eu sei porq-que T-teresa de-d-desist-tiu de- de tudo... — Ela constatou num fio de voz. — Q-quisera e-eu ter enc-contrad-do alguém p-por quem vi-
A voz morrera e ela exalou seu último suspiro. Clare deixou um soluço escapar de sua garganta. Porque? Porque todos tinham que morrer. Iria ficar sozinha para sempre. Estava perdendo Teresa. Olhou para o céu cinzento e implorou para que os Deuses protegessem Teresa e que ela conseguisse matar aquele monstro horrível.
Clare fungou e limpou o nariz com o braço. Estava sozinha de novo. Teresa tinha que voltar, não queria ficar sozinha de novo!
— Teresa... Volta... — Ela pediu para ninguém e esperou uma resposta que sabia que não viria. Ouviu o assobiar triste do vento e escondeu o rosto entre as mãos. Teresa prometera que jamais a deixaria. Sim, Teresa voltaria. Ela tinha que voltar, ela prometera. Mas... E se... Teresa não fosse forte o suficiente para matar o monstro? Não... Teresa, sozinha, vencera as quatro juntas, conseguiria derrotar o monstro. Mas o monstro conseguira matar as duas moças e machucara a moça das orelhas pontudas e machucara Teresa. Ele era bem mais forte. Se Teresa morresse, estaria sozinha para sempre. Ela não podia morrer, tinha que ajudar Teresa, curar os olhos tristes dela.
Possuída por uma ilusória determinação, a pequenina colocou-se de pé e tentou erguer a espada de Sophia, muito pesada para seu corpinho pequeno e frágil. Então se limitou a arrastar a arma pelo cabo e começou a caminhar na direção que vira a moça das orelhas pontudas correr.
Arrastou, com dificuldade aquela espada apenas por algumas horas. Resistindo por uma quantidade de tempo supreendente para uma garotinha. Ela caminhou até desmaiar de cansaço e fome e logo a a paisagem começou a se tornar mais verde, então a menina pode comer, frutas caídas que encontrava, ou roía sementes, tudo para ter a certeza que poderia encontrar Teresa e salvá-la.
X X X
— Irene... — O homem encapuzado encarou a silhueta esguia que se aproximava. — O trabalho foi concluído?
A voz dele era seca e impessoal, como sempre. A mulher ergueu a face para encará-lo e não respondeu de imediato. Preferiu voltar sua atenção para o lago a sua frente. Despiu-se rapidamente e guiou o corpo nu até a água.
— Teresa está morta... — Ela respondeu com a voz fraca e afundou até a cabeça na água. O sangue se desprendeu de seu corpo e se misturou a
água.
— E as outras?
— Sophia e Noel estão mortas.
— Pelos ferimentos do seu corpo, percebi que foi uma batalha difícil. Imaginei que Teresa não se renderia fácil. Ainda bem que mandamos Priscilla. Nada melhor do que a futura número 1 retirar o posto de sua antecessora, não é mesmo?
Irene virou o corpo na água na direção do homem. Jamais se sentira daquela maneira, seu coração tomado por tanta raiva e ódio.
— Se não fosse por Teresa, eu estaria morta também. Priscilla despertou. — Ela disse apática.
— Como é!?
— Ela perdeu o controle e começou a delirar, dentro de pouco tempo, despertou. Teresa nos ajudou a combatê-la, mas não fomos suficientes. Noel foi morta, Sophia foi morta, Teresa resistiu o quanto pôde.
— Vocês não conseguiram matá-la?
O olhar de Irene estava perdido num ponto imaginário no horizonte. Em sua mente via apenas o corpo morto de Teresa. — Teresa conseguiu decepar um braço e uma perna de Priscilla, mas teve que pagar com a vida pelo esforço.
— Muito bem... Onde está o corpo de Teresa?
— Foi levado pela correnteza do rio. — Assim Irene esperava.
— Está bem, mandarei uma guerreira averiguar isso... — Irene encarou-o com o canto dos olhos. — Por hora, pode voltar ao seu posto.
Irene mergulhou a cabeça, molhando os longos cabelos brancos e deixou o lago. Vestindo sem seguida seu uniforme que agora não passava de farrapos. O homem ia se retirando quando Irene respondeu: — Não.
Ele parou e tornou sua atenção a ela.
— Não? Por que?
— Pois eu também estou morta, Orsay.
— Posso saber porque isso agora, Irene?
— Seria o meu destino, não? Assim como foi o de Teresa. — Mesmo com o rosto escondido pela sombra do capuz, ela pode divisar a expressão de falta de entendimento no rosto do superior. — Estou na organização há tanto tempo quanto Teresa e sei que vocês planejavam obter a cabeça dela antes que o incidente com os humanos acontecesse. Por que comigo seria diferente? Estou envelhecendo também.
Orsay maneou a cabeça.
— Irene, Teresa era uma causadora de problemas, sempre foi, desde criança. Ou você não lembra das inúmeras fugas durante o treinamento. Sabíamos que a personalidade de Teresa seria a ruína dela. Você não, nunca nos causou problemas. É uma excelente guerreira e vamos precisar de alguém experiente o bastante para liderar a próxima geração de Guerreiras. Já que o poder de Priscilla foi desperdiçado, sua experiência compensará, pelo menos até que alguém mais forte apareça. Portanto, não vale a pena nos livrarmos de você.
— Então eu sinto muito, Orsay, pois para mim basta.
— Irene... — A guerreira não o deixou completar, sabia exatamente o que ele diria.
— Eu não me importo. — Girou a espada em sua mão oferecendo-a a Orsay pelo cabo. — Pegue esta espada e tire você mesmo minha cabeça agora, por deserção. Não farei qualquer objeção. — Ao silencio de Orsay e ao ver que ele não fez qualquer movimento, ela colocou a espada de volta da bainha. — Vocês criam monstros, mas não são capazes de executar o trabalho sujo... Bem, não se preocupe, desaparecerei e minha morte será válida.
Com isso, Irene Espada da Luz adentrou a floresta e desapareceu entre as árvores, deixando para trás um Orsay estupefato. De todas elas, Irene era a que mais lhe surpreendia, sempre tão séria, calma e calada, não esperaria uma atitude deste gênero vindo dela. Suspirou. Não gostaria de ter que encomendar a execução dela. Mas se era assim que ela queria. Assim teria que ser.
X X X
Clare rolou uma ribanceira até cair na margem de um rio. Não fazia idéia de quanto tempo havia se passado desde que deixara as montanhas onde o monstro atacara Teresa. Horas? Dias? Não podia dizer. Teve a impressão de ver a noite chegando algumas vezes, mas não era algo que podia afirmar. Estava exausta, com fome e com o corpo cheio de machucados, mas não desistiria. Tinha que encontrar Teresa. Enfiou a cabeça na água do rio e dela bebeu até ficar sem ar. Ergueu o tronco ofegante e despencou para o lado. Sentiu a respiração se acalmar e logo as lágrimas estavam rolando pelo rosto e rolaram até que ela pegasse no sono.
Despertou quando o sol já estava se pondo e a primeira coisa que avistou foram um par de pernas vestidos com as botas com proteção de metal que as guerreiras usavam. Um sorriso largo surgiu no rosto da menina.
— Teresa... — Ao erguer os olhos não pôde divisar o rosto da mulher, o sol a fazia brilhar de forma que não conseguia olhá-la direito, mas pôde notar que era alta e tinha cabelos longos. — Teresa — Chamou novamente.
— Não... — A mulher se abaixou de modo a nivelar o olhar com o da criança. — Meu nome é Elda. E o seu?
— Você achou a Teresa? — Clare perguntou com os olhos se enchendo de lágrimas de novo. — Ela matou o monstro?
A mulher passou os dedos cobertos por luvas no rosto dela, limpando as lágrimas. — Você viu coisas demais para a sua idade, garotinha. Qual é o seu nome?
— Por que você não me disse se achou a Teresa?
Elda mostrou para ela um pedaço da gola de um uniforme. Clare reconheceu imediatamente o símbolo bordado. Era o de Teresa. A garota pegou o tecido e notou que estava manchado de sangue.
— Pelo que eu soube, garotinha, Teresa sofreu muitos ferimentos e não resistiu. Estamos a procura do corpo dela que outra guerreira disse ter sido
levado pela correnteza deste rio. — Elda disse com o tom de voz mais suave que pôde.
Clare maneou a cabela desesperada. — Não... Teresa...
— Eu sinto muito...
— Oh... Elda que criança é esta? Também está pensando em desistir da organização por conta de uma criancinha? — Um homem estramente vestido de preto disse ao se aproximar delas.
— Esta é a menina de Teresa. — Elda falou simplesmente e então levantou-se e encarou o homem. — O que quer, Rubel?
— Na realidade nada, estou apenas de passagem e resolvi lhe cumprimentar. Já encontrou o corpo de Teresa?
— Não... E de qualquer forma, porque vocês o querem? Se Teresa não morreu pela luta, morreu afogada.
— Tem razão. Mas não sou eu quem decide isso. Até eu cumpro ordens, Elda.
Elda deu de ombros e olhou para a garota de relance. Ela chorava sobre a gola do uniforme de Teresa.
— Até agora não compreendo porque me mandaram para procurar pelos restos de Teresa, acho isso uma tarefa inútil.
Rubel disfarçou uma risadinha.
— Nem não forte quanto Sophia, nem tão ágil quanto Noel, nem tão esperta quanto Irene e muito menos consegue chegar perto do poder de Teresa. Mas você é a que melhor sente Youki. Mesmo a grandes distâncias.
Elda franziu o cenho.
— Teresa está morta, Rubel.
— É o que dizem. Mas estamos falando de Teresa.
— Que seja! Rubel, eu vou levar a criança para a cidade mais próxima. Ela já sofreu demais ao assistir tantas mortes.
Rubel deu de ombros. E voltou a caminhar, passando pela guerreira.
— Faça o que quiser, apenas cumpra o seu serviço.
Ele ia se afastando quando Elda se abaixou para Clare e disse que ia levá-la para uma cidade e encontraria alguém que cuidaria dela. Clare encarou os olhos prateados da mulher e lembrou de quando Teresa tentou deixá-la aos cuidados de alguém. A garota não queria ninguém que não fosse Teresa. Ninguém. Estava sozinha de novo, pra sempre. Sozinha.
— NÃO! — Ela gritou, assustando Elda. — NÃO! NÃO! Eu não quero!
Então, ela levantou e saiu correndo na direção que o homem de preto tomara. Não demorou muito até que ela o encontrasse.
— Você? — Ele ergueu um pouco o olhar e encontrou Elda, que encolheu os ombros ao fundo. — O que quer, criança?
— Eu... Eu quero ser uma guerreira. — Clare pediu chorando. — Quero ser tão forte quanto Teresa foi. Faça o que quiser, só me faça tão forte quanto ela. Faça o que quiser.
Rubel arqueou as sobrancelhas e esboçou no rosto algo que pareceu um sorriso. Logo aquela pequena e trêmula garotinha, mas dona de uma determinação gigantesca se tornou a primeira pessoa que bateu nas portas da organização por livre e espontânea vontade.
