O cair da noite não podia ser pior. Com o toque de recolher, todo aluno era obrigado a estar em seu devido Salão Comunal, sem exceções, com pena de detenção. Contudo, para os quintanistas o ano estava tão abarrotado de afazeres com os N. vindo depressa que dormir era um luxo já não tão acessível agora, de forma que quando chegavam aos dormitórios, se viam na obrigação de tentar dar conta da pilha de deveres e matérias para estudo.

Harry, Rony e Hermione haviam escolhido a mesa mais distante das lareiras possível: era de praxe que os alunos procurassem se aglomerar ali, nem sempre para estudar, então seu recanto ficava mais sossegado. Mesmo perturbado com o número de tarefas absurdo que tinha que finalizar, Harry não conseguia imaginar o quão entulhada estava Hermione, com uma carga horária muito mais cheia do que a dele.

-Isso é de runas? – ele tentou ler o que Hermione escrevia. A letra dela era perfeita, mesmo escrita as pressas, então ele só pode deduzir aquilo quando não conseguiu entender uma única palavra.

-Sim. Você não iria acreditar na quantidade de deveres que eu tenho para amanhã!

-Achei que não deixasse as tarefas acumularem. – Rony notou que havia tinta no rosto e cabelo da amiga, assim como pontos pretos espalhados por todo o seu braço.

-E não deixei! Isso foi passado ontem, mas não tive tempo, tive que fazer...outras coisas. – sua voz morreu com lembranças da noite anterior. Voltou a abaixar a cabeça para o pergaminho consultando o livro ao seu lado mais do que o normal.

Do outro lado do Salão, Lino e Fred apostavam uma partida de Snap Explosivo sob os olhares de alguns alunos (que deveriam estar estudando). As cartas de Lino ainda estavam queimando quando ele gritou:

-Hey, George! – Lino ergueu o braço e acenou para o rapaz que havia acabado de passar pelo retrato da Mulher-Gorda

O olhar dos gêmeos se encontrou, mas o desviaram no mesmo instante. George não quis se juntar aos dois: queria evitar uma cena, subir direto para o dormitório e dormir antes de Fred ir se deitar, contudo se ignorasse o irmão e o amigo talvez isso também gerasse burburinhos. Então arrastou os pés até os dois, Fred ainda fazendo questão de ignorá-lo.

Lino guardou o baralho e, com isso, dispersou as pessoas. Queria falar em particular com os gêmeos.

-Anda logo, George, pegue uma cadeira! – baixou a voz quando os dois estavam acomodados na mesa, estranhamente afastados um do outro. – Eu me lembrei!

Seu sorriso branco iluminava seu rosto moreno, mas o riso era o que o fazia feliz. Os gêmeos não poderiam estar mais confusos.

-O que? – disseram ambos em uníssono, o que só ajudou a piorar o humor dos dois.

-De ontem! Eu fui ao banheiro e então tudo ficou claro quando...

-Sem...! – Fred ergueu uma das mãos, pedindo silencio imediato – ...detalhes, por favor, Lino.

-Certo. Agora eu sei porque as suas roupas foram parar no dragão e porque o dragão foi parar na Aula de Poções e porque você estava molhado quando chegou e porque havia pelo no barbeador de George!

-Pelos no b... – Fred se calou. Arriscou um olhar em direção ao irmão: sua face estava tenebrosa.

-É, isso explica quando fui ao banheiro pela manhã e senti tudo mais liso do que Rony quando era recém nascido. – notou um brilho solidário nos olhos do gêmeo rápido demais para dar-lhe esperanças – Não se preocupe. Vai crescer de novo. Só queria ter sido avisado da origem daqueles pelos, do contrário, não teria me barbeado de manhã.

-Você não tem barba. – Lino parecia prestes a explodir em uma gargalhada.

-Cresce um fio ali e outro aqui... Gosto de passar a lamina. Ou gostava. – disse de contragosto.

Aquilo foi o bastante. No instante seguinte Lino havia dado um solavanco tão forte na cadeira devido a risada que acabou por cair no chão; Fred não foi mais forte do que o amigo e socou o tampo da mesa, os olhos marejados porque havia visto o irmão passar o barbeador pela manhã no rosto e feito a pergunta sobre os misteriosos fios ruivos de cabelos presos toscamente nas laminas. Mas George não riu. Havia passado o dia com a virilha coçando e desesperado. Ao menos lhe pareceu que o gêmeo havia esquecido sua irritação com ele.

Uma sombra surgiu por detrás de ambos, se projetando pela mesa de forma ameaçadora. Fred calou-se na hora quando viu Gina Weasley parada logo atrás dos dois, mãos na cintura, expressão feroz enquanto vários alunos espiavam de forma curiosa por sobre seu ombro.

-Posso saber qual é a graça? – seu maxilar se projetava pra frente de forma zangada, o que a deixava incrivelmente parecida com sua mãe.

-Isso é da sua conta? – reunindo a coragem dos grifinórios, George encarou a irmã de forma displicente.

-Espero que não seja sobre o assunto que tratamos mais cedo.

-Bom, em parte, é. – ele ficou de pé, agora completamente debochado – Tome cuidado, irmãzinha, ou coloco vomitilhas no seu almoço.

As pessoas no Salão Comunal prenderam a respiração diante da ameaça feita a Gina. Ela apenas riu e sacou a varinha, o que rendeu uma exclamação tensa por parte dos outros e do irmão.

-Se fizer isso, azaro você enquanto dorme. – Tomou rumo em direção ao dormitório e calhou de encontrar o olhar de Rony do outro lado do Salão. Estava cheio de expectativa quando ela gritou – E coloco aranhas no seu travesseiro. – fez as mechas ruivas girarem e subiu a escada.

Feito isso, o clima amistoso lentamente se reestabeleceu no Salão. As pessoas pareceram se esquecer dos gêmeos e de Lino. Todas, exceto uma:

Hermione olhou de soslaio para Fred: estava rindo como se o ontem não tivesse importado. Claro que não! Estivera bêbado. Aquilo a irritou de uma forma que não compreendia.

-...então você apostou que George não conseguia beijar Katia Bell. – Lino ria de si mesmo conforme se lembrava da noite passada, borrada e cheia de sons – E ele quase foi jogado torre a fora se nós não tivéssemos impedido. – Fred não pode evitar de sorrir, imaginando o quão ruim as coisas foram – E como ele perdeu a aposta, teve que raspar as próprias...

George tinha certeza que Lino estava dando explicações bem detalhadas ao seu lado, mas percebeu o movimento do outro lado do salão, uma sequencia tão rápida que chamou sua atenção: Hermione se ergueu da mesa com um ar irritado, seguida de Harry no mesmo instante. Rony já estava babando por cima do pergaminho que deveria ser seu dever de casa. Ela havia recolhido todo o material de estudo mais rápido do que qualquer outro acharia capaz e havia marchado em linha reta para fora do Salão Comunal.

Ninguém mais pareceu notar. Ninguém além de Harry. Ele a seguiu, parte pela preocupação com a amiga, parte por não querer ficar na mesma mesa onde Rony hidratava o pedaço de papel velho; George não o culpava, teria feito o mesmo. Mordeu o lábio, sem aguentar por muito tempo.

-Com licença, eu já volto. – sem olhar para Lino ou Fred, deu passadas largas e passou pelo retrato da mulher gorda enquanto ela lhe passava um sermão:

-Já é o terceiro só agora. Não deveriam estar andando pelo castelo a essa hora, sabiam?

George a ignorou. Tentou imaginar aonde os dois teriam ido, estava tão silencioso ali fora, onde podia ouvir o ronco de alguns quadros e o crepitar dos archotes queimando. Achou ter escutado qualquer coisa pelo corredor da direita, então o seguiu o mais silenciosamente possível: ninguém gostava de ser pego pelos vigilantes da Umbridge. Chegou a um portal sob um lance da escada, ali podia ouvir a voz de Hermione com clareza.

-Mas eu estou tão cansada... – a ouviu choramingar.

-Você tem estado assim o dia inteiro.

Ouve uma pausa e então um sussurro tão baixo que George precisou ficar um pouco mais perto para ouvir.

-Eu tive um... sonho ruim. – disse ela, sem muita certeza.

-Um pesadelo.

Houve uma pausa onde George achou que ela estava murmurando ainda mais baixo, então retomou a conversa.

-Eu estava presa.

-Presa?

George podia ter jurado que ouvira um soluço.

-Tinha um monstro em cima de mim. Me... apertando, e me prendendo, e tentando me morder. E eu não conseguia fugir. Não conseguia achar minha varinha. Eu estava com medo e achei que...

-Foi um sonho, Mione. – Harry falou da forma mais suave que podia – Sonhos não machucam ninguém. – para ele mesmo, era uma mentira: acordava suado e dolorido daqueles sonhos estranhos que vinha tendo, sentindo a testa estourar.

-Eu sei. – agora ela havia soltado um soluço alto – Verão passado eu estava na cozinha quando ouvi minha vizinha gritar. Pela janela eu podia ver... – outra pausa – ver o marido dela... Ele a jogou no chão e ficou em cima dela... e batia, e batia... Ela gritava tanto!

Passos ecoaram atrás de George, no final do corredor. Xingando a si mesmo mentalmente, foi forçado a entrar no recinto onde Harry e Hermione se encontravam. Os dois estavam, no mínimo, chocados com a entrada majestosa dele. Felizmente, o choque fez com que não dissessem nada a princípio, o que deu tempo a George para fazer sinais para que permanecessem calados e escutassem. O som de passos foi aumentando com o passar do tempo, e com sua crescente aproximação, os três foram ficando tensos, mais imóveis do que as estátuas no Hall de entrada. Finalmente pareceu que a pessoa do outro lado da parede havia passado, contudo só quando não podiam ouvir mais nada, e muito depois disso se arriscaram a se mover. Hermione se lembrou que George não deveria estar ali, mas Harry falou primeiro.

-O que estava fazendo escondido?

George mal teve tempo de se recompor. Olhou para os dois, Harry ainda segurando as mãos da amiga enquanto a abraçava com a outra.

-Eu... preciso falar com ela.

Os dois voltaram o olhar para a garota. Hermione parecia estar prestes a azara-lo.

-Eu o aconselho a ir embora. – a voz dela estava ríspida. Harry nunca havia visto a amiga ser tão dura e seca.

George teve a decência de parecer desconcertado. Enfiou ambas as mãos nos bolsos da jeans enquanto encolhia os ombros. De repente, seu olhar tornou-se sombrio.

- Meu irmão nunca machucaria você.

Seguiu-se um silencio tão profundo que agora não havia a menor chance de serem pegos. A lua já estava alta, o que não projetava muita luz naquele canto do corredor. Hermione encarou George e ele aceitou o desafio.

-Eu não quero mais ver o seu rosto. Ou o dele. – dava na mesma, todos sabiam.

-Se você acha que Fred, em qualquer momento da vida dele, pudesse levantar a mão para você ou para qualquer outra garota...

-Ele me agarrou!

-Ele estava bêbado! E em choque! – agora nenhum dos dois se importava com o tom de voz.

-Oh, e isso justifica qualquer coisa que ele pudesse ter feito?

-Fred agarrou você? – Harry estava absorto.

-Calado! – disseram ambos em uníssono.

Então ele resolveu se encolher, fingir que não estava ali enquanto desejava fervorosamente ter a capa de invisibilidade consigo, porque não parecia ser capaz de sair dali sem ser percebido. Assim que se viu livre das mãos do amigo, Hermione se pos de pé.

-Eu ainda consigo sentir o cheiro de bebida dele...Me sinto suja!

-Acredite em mim quando digo que ele nunca...

-Ele fez! Por um instante ontem a noite achei que Fred ia...que ele ia... – ela tapou a própria boca, se recusando a dizer o pesadelo de todas as mulheres.

Só então George entendeu a gravidade do assunto. Deixou o ar tenso dos pulmões espaçar enquanto via os olhos de Hermione ficarem vermelhos e marejados. Ele fez sinal para que Harry saísse e só se moveu quando ele não mais estava ali.

-Eu sinto muito, eu não... – tentou chegar mais perto, contudo ela recuou. A varinha estava em sua mão; tremia, assim como a garota.

-Eu pensei em todas as mulheres Trouxas, sem ter como se defender...

George não respondeu. Não tinha palavras e nem ao menos sabia como aliviar aquela situação. Estava perplexo. Preferia que Hermione o tivesse azarado a ter-le dito aquela amarga verdade. A viu se curvar sobre si mesmo, se abraçando e se protegendo. Devagar, se agachou junto a ela, tocou suas costas de leve.

-A culpa foi minha, Mione. – sua boca estava seca – Eu vi os dois juntos e não quis me intrometer.

Não sabia ao certo se ela estava ouvindo. Queria poder confortá-la, queria faze-la esquecer.

-P-Por que? – a ouviu balbuciar.

O motivo não podia dizer. Não era sua verdade para sair espalhando por ai. Mas a que custo tinha proporcionado ao irmão um momento.

-Porque eu sou um idiota.

E ela chorou. Chorou baixinho, as vezes para si, as vezes se lamentando e soluçando; as vezes tremia e as vezes ficava tão quieta quanto as estatuas espalhadas pela escola. Uma hora se sentou e encostou-se na parede, os olhos vidrados no teto, as pálpebras fechadas. E finalmente dormiu, ali, no chão gelado de pedra.

...

Fred olhou em volta: o irmão havia saído já fazia algum tempo e até então nenhum sinal dele. Rony ainda babava sobre a mesa, com o acréscimo de um ronco ocasional vez ou outra, mas fora aquilo, o Salão Comunal estava vazio e tranquilo. Os outros alunos haviam subido, inclusive Lino, o deixando sozinho e esperando: precisava se acertar com George. O som do Retrato da Mulher Gorda se abrindo o fez se levantar, mas só Harry parecia ter passado pela entrada.

-Ah...noite, Fred. – saudou, sem muito animo.

-Viu George, Harry?

Ele abriu a boca, e então a fechou. Lançou um olhar para a passagem e de repente parecia cheio de duvidas. Voltou a encarar Fred, que parecia mais ansioso do que ele.

-George esta, hum... conversando com Mione. – olhou para o rapaz e viu seu rosto murchar diante da luz da lareira. Não disse que havia presenciado parte do monólogo e nem perguntou sobre a noite passada. Embora ver o estado em que Hermione se encontrava por causa de Fred só fazia Harry desejar derruba-lo da vassoura no próximo treino.

Primeiro viu George se desculpando por ontem a noite com Hermione, depois o imaginou o culpando exclusivamente, logo em seguida George estava contando toda a verdade sobre o que Fred sentia pela garota e até o absurdo do irmão estar secretamente saindo com ela passou pela sua cabeça, mas o descartou de imediato. Aquilo seria muito baixo, até mesmo para ele. Harry ainda estava ali, parado, parecendo não saber se subia ou esperava. A lareira crepitava e lançava sombras dançantes e tremeluzentes pelo Salão.

O som do Retrato sendo arrastado soou como um alarme.

Uma coisa corpulenta caminhou pelas sombras até se revelar sob a luz amarela: George carregava a garota no colo. Hermione tinha os dois braços sobres o estomago, os olhos inchados e vermelhos, e respiração suave. O rapaz a fitava quando percebeu que Fred estava de pé bem diante dele, um olhar chocado e levemente irritado no rosto.

-Ela dormiu. Não quis acorda-la. Só parou de chorar agora. – murmurou ele, sem ser especificamente para alguém. George encarou Harry de um jeito cansado – Poço, por favor, pedir para que você não comente sobre isso com ninguém? Pelo menos até amanhã... Depois prometo dar respostas. Aos dois – acrescentou, voltando-se para Fred.

Por um segundo, Harry hesitou. Então fez um aceno positivo.

-É melhor coloca-la no sofá. Não vai ser a primeira vez que Mione dorme aqui em baixo. – e com um último olhar preocupado em direção da amiga, Harry subiu as escadas até o dormitório.

No mesmo instante George colocou a garota sobre o sofá vermelho. Ela mau se mexeu e sequer chegou perto de acordar. Fred tirou o casaco que estava usando e colocou sobre ela: o tempo prometia esfriar de forma catastrófica. A olhou por algum tempo, parecendo flutuar:

-Ela vai me odiar para sempre? – perguntou, as mãos enfiadas nos bolsos furados das jeans.

George fitou o irmão sem entender que tipo de sentimento desesperado era aquele.

-Isso vai depender de você.

Trocaram um olhar. Fred entendeu que não conseguiria nada do gêmeo aquela noite e George fez sinal para que subissem. Um último descanso antes da batalha realmente começar.


N.A.: Olá, olá, olá para todos =D Espero que tenham gostado desse capítulo, esclareci algumas duvidas sobre o porque de Hermione ter entrado em desespero, só espero não ter pegado muito pesado =/

Não queremos nossa amada Mione chorando u.u... Bom, mas espero que tenham gostado, tenho recebi Reviews que me deixam emocionada e, mais uma vez, estou aberta a sugestões, criticas ou até elogios =)

Valeu mesmo, gente, tudo de bom!