Era um dia nublado, os ventos cada vez mais errantes carregavam um som gritante e assustador. As árvores balançavam bruscamente, provocando um ruído estridente. Os raios de trovão reinavam o céu e anunciavam os primeiros sinais de um temporal.
Uma senhora tremia sob os barulhos atemorizadores que batiam contra a janela de sua pequena casa, colocando a cabeça por entre os seus joelhos, tamanha era o seu medo. Aquele lugar definitivamente parecia o fim do mundo e ela desejara bem no fundo de sua alma, que a levasse junto com o delúvio pronto para cair.
Duas batidas chamaram a atenção da anciã. Ela não recebia visitas desde o médico que revelara o terrível diagnóstico do seu filho qual estava encarando naquele instante. Suas pernas estavam bambas, seus olhos sem brilho e sua força para viver, esgotada. Apesar de se encontrar num estado bastante deplorável, a senhora reuniu forças do além para receber os visitantes.
Ao ver um rosto familiar de cabelos longos e roxos na entrada, a dona de casa que até então estava enfraquecida, sentiu o pulsar violento do sangue pelas veias e pulou em cima da recém-chegada, batendo freneticamente na jovem com sua bengala.
Cologne e companhia que estavam escondidos atrás de uma frondosa árvore próximo áquela pequena residência, sairam desesperados para afastarem a senhora tresloucada da amazona. Apressadamente, Ranma imobilizou todos os movimentos daquela senhora com características semelhantes do Mousse como seus óculos garrafais.
- Você desgraçou a vida do meu filho! – a senhora gritou enraivecida, esperneando nos braços firmes do Saotome.
- Quer dizer então que a culpada sou eu? – Shampoo confessou, igualmente colérica – Escute bem senhora, eu sempre fui sincera com meus sentimentos pelo Ranma e ele sabia disso – acrescentou – eu nunca amei o seu filho!
- Cala essa boca! – a senhora disse, chorando – Graças ao amor puro e sincero que o meu filho sentia por você, ele... – completou – ele sofreu um acidente e perdeu a memória!
- O que? – Shampoo indagou.
Nesse instante, um vento forte começou a uivar naquela região, aumentando a força das correntezas dos rios ao redor, como se fosse um prenúncio de uma longa jornada prestes a começar para todos.
Todos estavam tão surpresos com a revelação da dona de casa que nem a mudança de tempo parecia distraí-los. Shampoo deu as costas para a casa e fitou a grama, segurando as lágrimas que insistiam em sair dos seus olhos. Orgulhosa como era, não podia perder o auto-controle e aceitar o fato de sentir algo a mais pelo seu amigo de infância além de afeto.
- Que bom – a amazona disse, com uma voz trêmula – agora ele está livre para procurar uma mulher que o ame de verdade...
- O que você disse agora? – a senhora arriscou em avançar em cima dela.
- Ignore ela e me escute – a bisavó da Shampoo intercedeu na discussão das duas e continuou – por favor, nos explique melhor sobre isso...
A senhora cedeu as insistências da Cologne e abriu passagem para ela e seus acompanhantes entrarem na sua casa, inclusive Shampoo, embora a mãe do Mousse não quisesse a presença da jovem que desprezara o seu filho a vida inteira.
As horas passaram e nesse intervalo, a idosa explicara desde o regresso do Mousse até o acidente que roubara as lembranças dele.
- Deve ser tão cruel para uma mãe ver o filho não se lembrar de nada... – Akane desabafou, entristecida.
- Mas vê pelo lado bom as coisas – Ranma disse, tentando animar o ambiente – assim o Mousse não vai precisar mais correr atrás da Shampoo feito um... – nesse momento, a karateca deu uma cotovelada no estômago de Ranma, impedindo-o de continuar a falar.
- Seu insensível! – Akane indagou, fitando a amazona que olhava distante para a janela da casa – você não vê que ela está sofrendo?
- Oras, mas foi ela mesma que... ai ai ai – a karateca novamente não permitiu que ele terminasse o raciocínio, beliscando a face direita.
- Você não entende nada mesmo sobre as garotas! – bufou baixinho – que coisa...
- Dessa vez eu darei razão para você Akane – Cologne se intrometeu na conversa do casal, pensativa – agora eu estou incerta de que o Ranma seja o noivo mais adequado para a minha neta...
- Eu acho que agora não seja um momento adequado para se discutir essas coisas... – Akane disse, colocou sua mão no rosto em indignação.
No instante seguinte, a senhora interrompeu a conversa de todos, surgindo com uma simples bandeja nas mãos, acomodou alguns pratos na mesinha redonda de madeira. Todos se serviram da sopa exceto a Shampoo. A anciã suspirou, olhando para a amazona cabisbaixa e cheia de culpa no olhar.
- Eu jamais aceitei essa idéia do meu filho amar uma mulher ingrata e fria como você – disse – mas também detesto pessoas mal agradecidas que não aceitam o que eu ofereço – concluiu – por isso venha logo tomar a sopa antes que esfrie.
A amazona agradeceu baixinho o convite da anciã e acomodou-se ao lado da sua bisavó, tomando a sopa quente que aliviava um pouco a sua consciência pesada e a dor na alma. Assim o jantar transcorreu silenciosamente quando a dona de casa voltou a ficar agitada com a demora do seu filho.
- Estranho – a senhora disse, parando o colher no prato.
- O que houve? – Cologne indagou.
- Mousse já deveria estar de volta – explicou – depois que ele perdeu a memória, acostumou a sair cedo de casa para espairecer e voltar só de noite... – uma idéia monstruosa perturbou sua mente – será que aconteceu alguma coisa com ele de novo?
- Ele deve estar de volta daqui a pouco... – Cologne tentou acalmá-la outra vez.
- Não, ele já devia estar aqui! – a anciã desabafou, em prantos – por kami, se acontecer mais desgraça na vida do meu filho eu não sei vou suportar...
- Eu vou buscar esse pato desgraçado! – Shampoo não aguentou o desespero e ficou exaltada, levantando-se da mesa num pulo.
- Espera Shampoo! – Akane agiu rapidamente e interrompeu a saída da amazona – Eu sei que você deve estar se sentindo culpada pelo o que aconteceu com o Mousse, mas não adianta nada sair assim sem nem saber para onde ele foi – Shampoo insistiu em tirá-la do seu caminho quando ela estapeou o rosto – eu mandei você se acalmar caramba!
- É isso mesmo... – Shampoo murmurou, mordendo seus lábios inferiores – a culpa é toda minha...
- Acalmem-se todos – Cologne interferiu o bate-boca das duas e sugeriu – vamos esperar até amanhã cedo e caso ele não apareça, partiremos daqui para procurá-lo – completou – agora descansem que está muito tarde.
As luzes daquela casa se apagaram aos poucos, mas tomados pela expectativa do Mousse regressar a qualquer momento, nenhum deles conseguiu adormecer naquela noite.
Os primeiros raios solares anunciaram a chegada do amanhecer. Mousse não retornara para a casa durante a madrugada como previa Cologne. Uma roda se formou na sala e todos, tirando a senhora que estava desolada no quarto, começaram a discutir sobre o paradeiro do desaparecido.
- Segundo as informações que obtive com ela, Mousse seguiu ontem para Pequim – Cologne disse, meditativa.
- Mas Pequim é grande demais – Akane disse, desanimada.
- Além disso estamos apenas em quatro – Ranma concluiu, cruzando os braços.
De repente, o som de um estrondo no fundo daquela casa atraiu a atenção de todos, especialmente da dona de casa. Ranma saiu em disparada na direção onde escutou o barulho. Ryoga havia quebrado a parede do quarto de Mousse acidentalmente.
- Que lugar é esse? – Ryoga indagou como se nada tivesse acontecido, fitando os arredores.
- O quarto do meu filho... – a mãe do Mousse soltou bolhas pela boca e desfaleceu de tão chocada, sendo amparada pela Shampoo.
- Ai Ryoga-kun você sempre aparece nas piores horas... – Akane disse, sacudindo a cabeça em reprovação.
- Imagina – Saotome aproximou-se do recém-chegado e sorriu, colocando as mãos nos ombros – você apareceu na melhor hora meu querido amigo Ryoga-kun – olhou para Akane e piscou – agora estamos em cinco.
- Mousse, cadê você? – Shampoo gritou, em meio a tantas pessoas que pareciam indiferentes ao seu desespero.
A cidade de Pequim havia se tornado uma cidade turística e estava lotado de curiosos e moradores locais, o que dificultava ainda mais a encontrar o seu amigo de infância.
Com a ajuda inesperada do Ryoga, todos haviam deixado aquela casa ainda de manhãzinha, menos a mãe do Mousse, que não estava em condição. Todos haviam se espalhado pela enorme metrópole para coletar o maior números de informações, ora mostrando uma foto, ora explicando a fisionomia do desaparecido.
- Droga – Shampoo deixou escapar uma a duas lágrimas e pensou – "eu vou achar aquele imprestável e levar de volta para o Cat Café custe o que custar..."
Era um dia como qualquer outro em Cat Café.
Mousse estava limpando as mesas apressadamente para ter tempo de sair com sua amada. Ela, por sua vez, se arrumava em frente ao espelho, planejando a melhor forma de seduzir seu noivo Saotome Ranma e tirá-lo das garras da sua rival Tendo Akane.
Com um pouco de demora, Shampoo saiu linda e sedutora do seu quarto e desceu cada degrau da escada, deixando rastros do seu perfume forte.
Ao vê-la ganhar o térreo, Mousse sentiu o seu coração palpitar, a pele arder de febre de tão exuberante que ela estava e não conseguiu resistir a tentação de agarrá-la ali mesmo, naquele momento, naquele instante. Porém, a cena que se seguiu foi patética e virou motivo de gargalhadas da clientera que observava os dois. A amazona simplesmente havia deixado uma enorme marca de sapato no rosto do seu amigo de infância.
- Shampoo, por que me trata assim? – Mousse disse, estirado no chão – Você sabe que eu te amo e aquele homem não merece nem a sua consideração...
- Porque você é um fracassado e Ranma é o homem da minha vida – Shampoo respondeu, friamente.
- Mas ele está com outra – insistiu – e você tem a mim!
- Isso é simples de resolver – disse, sorrindo vitoriosa – é só eu tirar ele daquela karateca que parece mais um homem – ela olhou o empregado de cima para baixo e completou – eu terei um encontro agora com ele e nem pense em me atormentar, entendeu?
Shampoo subiu em cima da sua bicicleta e afastou-se dali sem olhar para trás, onde seu amigo de infância insistia para ele não ir. Persistente como era, chegou a seguí-la até metade do caminho como sempre fazia. Aquilo era uma rotina: Mousse perseguia ela, que corria atrás do Ranma. Uma rotina que ela sentia saudades...
- Eu te odeio... – a amazona esfregou o choro que escorria dos olhos e atrapalhava sua vista.
As pernas da Shampoo começaram a pesar de cansaço, proveniente da corrida desenfreada sem nenhum descanso. Apoiou-se na parede de uma loja qualquer, ofegando por ar. Uma senhora percebeu o estado da amazona e abordou-a sem cerimônia.
- Algum problema jovem? – a anciã indagou.
- Um empregado desapareceu do meu restaurante sem dar explicações e eu estou à procura dele, só isso – Shampoo respondeu, forçando um sorriso.
- E pelo seu desespero, você deve amar muito esse homem – comentou, bagunçando os pensamentos da amazona.
- Claro que não – ela gaguejou – eu, eu nunca amaria um empregado meu...
- Entre, creio que precise descansar um pouco – sugeriu, conduzindo-a para os fundos.
Um deserto era aquela loja de antiguidades. Os poucos clientes que entravam eram recebidas por uma única atendente, logo saiam desinteressados na falta de objetos valorosos. Shampoo passeou seu olhar pelos cantos, sentindo um cheiro familiar naquele estabelecimento.
- Que lugar diferente – a amazona comentou, enquanto acompanhava a anciã – parece com o depósito do nosso restaurante...
- Vocês vendem antiguidades num restaurante? – a senhora indagou, confusa.
- Ah não – explicou – a minha bisavó tem uma coleção de relíquias guardadas no armazém – indagou, curiosa – os objetos daqui também são mágicas?
- Qual é o nome da sua bisavó? – indagou, desconfiada.
- Cologne – respondeu.
- E você é a neta dela – disse, sorrindo.
- Como a senhora sabe que eu sou a neta dela? – questionou, franzindo a testa.
- Eu e a Cologne fomos muito amigas quando tínhamos a sua idade – afirmou.
As duas continuaram a caminhar até uma simples sala de estar. A anciã ofereceu para a jovem se acomodar exatamente no lugar onde Mousse havia encostado o traseiro a algumas horas. Em seguida, trouxe duas xícaras de chá e um prato de doces.
- Então – a senhora sorveu um breve gole e continuou – o que tanto aflige a jovem?
- Eu – Shampoo respondeu, mostrando uma foto do Mousse – eu estou procurando esse homem.
- Mas esse rapaz esteve aqui a pouco tempo – disse, notando o brilho nascer nos olhinhos da amazona.
- E para onde ele foi? – indagou, cheio de esperança.
- Eu sinto dizer, mas ele já não está mais nessa época – falou, após um gole demorado – ele foi em busca do seu passado...
- Sim, mas eu quero saber para onde – insistiu, impaciente.
- Você não entendeu ainda jovem? – falou – Eu falei que ele voltou no tempo para recuperar as lembranças...
- O que? – indagou, surpresa.
