Capítulo IV — A Garota e os sentimentos dela pelo Boneco-de-Neve
Estou à porta.
ahn... tá, ok... tm uma chave embaixo do extinto de incêndio
Tem certeza que é inteligente me dizer onde você esconde a chave da sua casa?!
sabe o q não é nada inteligente nesse momento, Sesshoumaru? existir
As coisas simplesmente não podiam dar mais errado. Depois de passar um dia inteiro de cão no trabalho, de ter que ignorar as mil tentativas de Kouga para conversar comigo, ainda vinham os meus dotes culinários, que estavam com saldo negativo.
Eu sabia que Sesshoumaru entraria a qualquer momento, mas eu realmente não conseguia deixar de encarar o meu carvão de pato ao molho de laranjas com expressão desolada. Se ao menos ele tivesse se salvado, o meu sorbet de limão (que, infelizmente, estava em estado líquido), meus cubos de queijo piaggi (estragado, porque esqueci fora da geladeira) e minha geleé au champagne (que tinha gosto de xarope) poderiam ser facilmente ignorados.
Acho que o problema está em fazer comida com nome difícil. Nome difícil sempre estraga tudo.
— Eu pensei que você estivesse deprimida com a ideia de se encontrar comigo, mas já posso ver que o motivo é um pouco diferente. Eu tenho quase certeza que você disse que cozinhava bem. — soou a voz de Sesshoumaru, fazendo-me erguer o olhar.
Nossa.
Por um momento, eu perdi o fôlego. O homem à minha frente era simplesmente muito diferente do que eu tinha imaginado — tirando os olhos dourados, a altura e os cabelos prateados, o conjunto em geral não se parecia em nada com um boneco-de-neve ridículo. Como eu pude estar tão mal a ponto de olhar para um homem como esse e me convencer de que ele era feio?!
— Imagino que você tenha me aprovado. — foi o comentário sarcástico.
Pigarrei e calei a confirmação obstinada.
— Quase não o reconheci sem a camisa com o boneco-de-neve. — lancei um olhar teatralmente avaliativo para a calça e camisa pretas que ele usava. Sim. AhmeuDeus, estava muito mais que aprovado.
Ele suspirou diante da meu comentário irônico e se aproximou, colocando uma garrafa de vinho em cima do balcão.
— Vamos esclarecer algumas coisas. — ele disse, apoiando as duas mãos no balcão e me encarando. Sem perceber, eu o estava encarando de volta, fascinada com os olhos dele; não me lembro de alguma vez ter visto aquela cor — Primeiro: a camisa com o boneco-de-neve foi um presente da minha madrasta e fui obrigado a usá-la pelo meu pai, que ameaçou interferir em um dos litígios em que estou atuando no momento. Segundo: isso talvez tenha influenciado o meu humor naquele dia, então espero que não tenha deixado alguma má impressão irreparável. Terceiro: eu talvez tenha pedido o seu número para a sua mãe, mas isso era um segredo.
Arregalei os olhos.
— Você não fez isso!
— Estava entediado.
— E o seu exemplo de programa perfeito é arranjar uma velha casamenteira para lhe torrar a paciência?
— É claro que eu preferia um jantar decente, mas... — Então ele se sentou em um dos bancos que ficavam ao lado do balcão e olhou o meu projeto de jantar com expressão de desprezo, embora a expressão tenha se suavizado consideravelmente quando me olhou dos pés à… bem, até onde dava para ver; o que era uma sorte, porque meu elegante vestido preto estava acompanhado dos meus lindos pés descalços (em caso de dúvida, a parte do lindo é meio que uma mentira).
— Pode rir à vontade... — acusei, enrolando meus cabelos em um coque e tentando parecer decente — Mas lembre-se que a casa é minha, o que inclui minha geladeira, e nada do que houver nela servirá para alimentar convidados engraçadinhos.
Ele tirou um celular do bolso da calça.
— O que você está fazendo?
— Salvando a noite. — foi a resposta que ele deu, logo antes de encostar o aparelho contra o ouvido — Boa noite... Não, estou ligando para relatar um incêndio... — Estreitei os olhos, enquanto Sesshoumaru revirava os dele. — Sim, estou sendo irônico...
— Mas o que...
Ele ergueu um dedo, fazendo com que eu silenciasse.
— Uma pizza grande à moda da casa.
Ele estava pedindo comida?!
— O endereço é... — então ele me encarou, esperando que lhe lembrasse os dados. Falei a contragosto, enquanto ele repetia para quem estivesse do outro lado da linha e finalizava o pedido.
Ele desligou e nos encaramos por algum tempo.
— Você acha que eu me vesti assim para comer pizza? — perguntei, apontando petulantemente para o meu vestido.
— Melhor do que se vestir assim para não comer coisa alguma. — Então ele cruzou os braços e se recostou contra o banco mais uma vez — Então... O que faremos?
— Como você pode ver, não há nada que eu possa dar para você comer enquanto espera sua pizza. — Percebi que os cantos da boca dele se ergueram um pouco, no que parecia o prelúdio de um sorriso malicioso e então ruborizei ao repetir mentalmente a frase que eu tinha acabado de dizer até achar o que poderia ter causado aquela reação. Estreitei os olhos para ele, tentando me recuperar. — Você na verdade é um doente…
— Eu acredito que as pessoas sempre enxergam com mais facilidade no próximo os defeitos que possuem, logo...
— Logo eu sou uma doente também. — completei, erguendo as sobrancelhas. Então não resisti e sorri. — Vamos para a sala, então... Pessoas como eu tem seu próprio estoque de material doente para esse tipo de ocasião.
— Com certeza, não é uma história especialmente bem amarrada. — foi o comentário analítico de Sesshoumaru.
— Você é um chato. — resmunguei. A pizza tinha chegado, então estávamos há duas horas sentados no chão da minha sala, comendo, tomando vinho e jogando. — Foi um amigo meu que criou esse jogo... Prometi que faria uma campanha para divulgá-lo, mas ele não tem dinheiro, então tenho que pensar em alternativas baratas de marketing... Não, seu idiota! Por que você está esfaqueando o mordomo?!
— Eu sei o que estou fazendo.
— Eu também sei! Está esfaqueando o mordomo na frente da polícia!
— Nesse tipo de história, o assassino é sempre o mais óbvio ou o menos óbvio. O resto do enredo não passa de tentativas de fazer o espectador acreditar que podem ser outros personagens.
— E o que isso tem a ver?! — questionei.
— Se é o mais óbvio, então, pela lógica, o assassino é o mordomo.
— Sei, mas e se for o menos óbvio?
— Então o assassino em série sou eu.
No exato momento em que ele dizia isso, a tela ficou preta e o personagem principal acordou em uma cela de interrogatório, uma risada é ouvida e a câmera se move, saindo da primeira pessoa e tornando-se terceira pessoa. A câmera fica focada no personagem principal, que tinha sido batizado por Sesshoumaru com o nome de Poe, enquanto o policial fala sobre as provas coletadas que indicavam que o personagem principal era o assassino em série que vinha matando hóspedes de um hotel. Poe parece não entender, a câmera se move e para diante do espelho, de onde dá para ver um vulto assustador encarando de volta, com um sorriso demoníaco desenhado no rosto. A tela escurece, ficando apenas o sorriso. Os créditos sobem e uma música assustadora começa a tocar.
Encarei Sesshoumaru, assustada, se bem que não sei se pelo final do jogo ou se por ele ter sacado o enredo tão facilmente.
— Como você sabia?
— Esse tipo de coisa é tão fácil quanto respirar para mim. — ele recostou-se contra o sofá, passando o controle para mim. Para me manter ocupada, eu me inclinei na direção da minha estante para procurar algum jogo bobo. — Já tem alguma ideia para promover o jogo?
— Ahn... Depois de ver esse final, acho que fica mais fácil pensar em algo. Um vídeo viral, provavelmente. — respondi, enquanto separava os jogos que me interessavam.
— Algumas montagens benfeitas, um narrador onisciente, alguns vídeos caseiros e um bom enredo dão conta do recado. — ele comentou. Virei o rosto para ele, com um sorriso cheio de segundas intenções. Ele me encarou de volta. — Está achando mesmo que vou ajudar você?
— Por favor?
— Não.
— Faço o que você quiser. — prometi, juntando as mãos e implorando teatralmente.
— Isso tem possibilidades.
Dessa vez eu tive que ruborizar.
— Você é mesmo um pervertido. — resmunguei, voltando a observar os jogos e tentando não parecer uma menina de dezesseis anos que não faz ideia de como reagir a uma investida maliciosa.
Tive a impressão que ele riu baixinho, mas não olhei para confirmar.
— Dê-me papel e uma caneta e vamos ver o que consigo fazer. — ele disse após algum tempo, em tom de voz calmo.
Mordi o lábio inferior para não sorrir de imediato, mas foi impossível segurá-lo por muito tempo. Levantei-me enquanto sussurrava um animado:
— Volto em um segundo.
A próxima hora foi gasta com Sesshoumaru escrevendo garranchos em uma folha de papel e comigo tentando decifrar os hieróglifos que ele chamava de letras. Ele rosnava baixinho toda vez que eu resmungava sobre a ilegibilidade dos rascunhos, e isso me incentivava a irritá-lo mais.
Depois de algum tempo, eu desisti de atrapalhá-lo e apenas fiquei observando enquanto ele trabalhava. Vez ou outra, eu me dirigia à cozinha para abastecer nossas taças, e voltava em silêncio, para não perturbá-lo.
Eu estava realmente apaixonada por ele.
Isso soou ligeiramente brusco, mas não foi. Cada parte de mim está pronta para aceitar o que sinto, e o fato de eu não ter medo de admitir isso para mim mesma era o prelúdio de que, se eu não tomasse cuidado, aquela forte inclinação se tornaria amor. E eu não me importo. E eu quero que se torne. E não tenho medo de que ele me rejeite.
Basicamente, eu tenho a inteligência emocional de um peixinho dourado.
Quando Sesshoumaru finalmente terminou, eu tinha caído no sono, com a cabeça apoiada no assento do sofá.
— É melhor que eu vá. Tranco a porta e guardo a chave reserva embaixo do extintor. — ele disse, enquanto me tocava no ombro de leve, para que eu acordasse apenas o suficiente para entender o que ele dizia.
Segurei a camisa dele quando ele fez menção de se levantar, impedindo-o.
— Desculpe... — sussurrei, tentando soar o mais desperta quanto era possível — Foi um dia cheio e acho que subestimei o cansaço... Mas eu não quero que você vá embora...
— Esse sofá não é grande o suficiente para que eu consiga dormir confortavelmente nele, Kagome.
— Minha cama é. — respondi. Não ruborizei dessa vez. Sabia exatamente o que estava dizendo. Sesshoumaru me encarou de volta por algum tempo, sem esboçar reação.
— Eu não te perguntei, mas... o que aconteceu com o namorado da Youko? — ele questionou. Era válido da parte dele perguntar sobre o meu namorado, mas isso não impediu que eu me sentisse desconfortável. Não parecia a coisa certa a se falar naquele momento.
Sentei corretamente no meu lugar.
— Ela terminou com ele, apesar de ele continuar insistindo para que ela revogue essa decisão, ao ponto de ser inconveniente, na verdade. Talvez a Youko peça para que algum amigo jogue o ex dela de alguma sacada. — brinquei, e então percebi como o que eu tinha dito poderia ser interpretada como uma indireta. Tentei explicar, embora com certeza fosse uma péssima ideia — Isso é uma brincadeira, claro. Eu... Eu não estou insinuando que preciso que alguém intervenha na situação…
— Não imaginei que estivesse insinuando. — ele respondeu imediatamente — Não há como eu olhar para você e imaginar que não é capaz de se proteger sozinha.
Aquilo me pegou de surpresa. Eu estava acostumada com homens que acreditavam serem sábios, fortes ou inteligentes demais para simplesmente deixar que eu lidasse com os meus problemas. Com aquela única frase, ele fez com que eu percebesse como eu sempre havia odiado isso. Que em todos os meus relacionamentos, eu não conseguia me sentir satisfeita, apenas porque insistia em ficar com pessoas que em algum momento achariam que tinham o direito de controlar a minha vida.
Nesse momento, tudo o que fazia de mim quem eu era ansiava por Sesshoumaru, como se de alguma forma minha existência vibrasse em ressonância a um som que possuísse a frequência correta. E esse som partia dele.
Deixei que a confissão escapasse, em tom que poderia ser confundido com brincadeira, mas não deixava de ser honesto:
— Nesse momento, o que eu mais quero é beijar você, Sesshoumaru. Só que eu aind...
Parei de falar ao vê-lo se movimentando na minha direção e ele me calou com um beijo. Deixei que minhas palavras morressem em minha garganta. Talvez fosse a mistura do vinho ou do cansaço, ou simplesmente uma resposta ao que eu vinha descobrindo que sentia por ele, mas eu não conseguia deixar de pensar como aquilo era certo, como era incrível e como eu queria sentir para sempre aquele sentimento de felicidade.
Com aquele beijo, eu percebi que finalmente tinha encontrado algo que eu jamais estaria pronta para perder.
Levei minhas mãos à nuca dele e o puxei para mais perto, pressionando meu corpo contra o dele, quando um de seus braços abraçaram a minha cintura. Depois de algum tempo, quando o beijo perdeu a intensidade, eu me afastei e sorri, ainda de olhos fechados.
— Sesshoumaru... — sussurrei — Aqueles manuscritos ainda estão disponíveis?
Antes de voltar a me beijar, ele respondeu baixinho:
— Mais do que nunca.
AEW
FINALMENTE
O FINAL
AHAHAHAHAHAHA
CHUPA UNIVERSO
Eu decidi reescrever o final completamente, então quem leio no Need for Fic, só lamento, vai ter que ler de novo. Então mil beijos.
Só posso pedir desculpa por demorar tanto para postar, mas finalmente está finalizada.
AHA
Tem um epílogo que eu pretendo postar em alguns dias.
No mais, se quiserem ler mais histórias Sesshoumaru e Kagome, segue as indicações:
Senhor do Norte
Personagem Fictício
O Virgem de Dezessete Anos
Paletós para Sesshoumaru
Até o epílogo,
Beijos da Ladie.
