- Miss Steal. – a voz de Bruce Banner fez-se ouvir pela primeira vez. –Disse-nos que foi torturada e as roupas em que chegou estavam manchadas de sangue mas não encontrei nenhuma lesão. Na verdade, nem sequer uma cicatriz.

Steve focou a sua atenção na agente. Os seus olhos esmeralda, a primeira caraterística que chamara a sua atenção assim que Elia despertara, estavam voltados para baixo. Ela deixou escapar um suspiro derrotado, a sua cabeça abanando negativamente.

Lera o ficheiro da agente. Elia Steal, nome de código Shadow, havia chegado à SHIELD com apenas 8 anos. Órfã, diziam os documentos. Saíra da academia com apenas dezassete anos, graduando-se com honras. A sua performance impressionara de tal forma os altos cargos da agência que iniciara a sua carreira enquanto agente de campo com nível de autorização quatro, como sniper. Com vinte e um, ao atingir o nível oito, formara e tornara-se líder da que viria a ser uma das mais reconhecidas equipas táticas da SHIELD, a equipa EAGLE. Era uma agente nível dez quando a agência conheceu a sua queda.

Fora o ficheiro mais incrível e incompleto que lera. E, no entanto, tivera a certeza que estava à sua frente uma jovem com a garra e fibra digna de um soldado de alta patente. Mas tudo o que via naquele momento era uma alma quebrada que acreditava merecer carregar o peso do mundo em forma de culpa às suas costas.

Bruce prosseguiu.

- Eu sei que não se deve sentir confortável a falar sobre o tempo que passou em Sokovia, mas eu fiz algumas análises ao seu sangue e...

- O meu DNA aparece alterado. – Elia concluiu.

O sangue de Steve correu-lhe frio nas veias. Ela era uma das experiências de Strucker.

- Ele fez experiências em ti? – a voz indignada de Clint preencheu o momentâneo silêncio. Olhando para o colega de equipa Steve podia ver a raiva queimar nos seus olhos. O tique nervoso que adquirira após anos a usar arco flexa tornando-se mais eminente e rápido – o dedo polegar a escorregar pelo dedo indicador repetidamente. – Aquele pulha. Eu juro-te que…

- Clint. – Elia cortou a sua fala com voz firme. O tom e dureza característico de um líder. Os seus olhos verdes penetraram os olhos azuis do agente mais velho, suavizando-se depois lentamente. – Está tudo bem. Não há nada que possa ser feito agora.

Clint suspirou. Uma expressão algo que derrotada no rosto. Os seus ombros ligeiramente arqueados para a frente. Steve quase não conseguiu ouvir a próxima fala do arqueiro:

- O que é que eles te fizeram Ells?

- A Hydra ainda está a tentar aperfeiçoar o seu soro para criar super soldados, mas aparentemente não está a ter sucesso. Struker tinha desenhado uma nova estratégia para aperfeiçoar o soro. Ele estava a criar diferentes soros com diferentes propósitos. Cada um desses propósitos era uma das caraterísticas conferidas pelo soro que foi dado ao Capitão Rogers.

- Foi um desses soros que foram testados nos gémeos? – Bruce respondeu, recebendo um aceno afirmativo como resposta.

- Eles chamaram acelerador ao soro dado ao rapaz, Pietro. Era suposto aumentar os seus reflexos e tornar o seu metabolismo mais rápido. O que deram à irmã chamava-se sabedoria, para aumentar a capacidade cognitiva e potenciar o uso da massa cerebral. – os seus olhos baixaram-se, olhando para as mãos que descansavam no seu colo, os dedos mexendo-se nervosamente. Foi apenas quando Clint pegou nas suas mãos que ela pareceu se acalmar, prosseguindo então com a explicação – O soro que me foi dado recebeu o nome de cura.

- Rápida regeneração celular e processo de cicatrização melhorado. – Bruce concluiu por ela. – Se a Hydra está a conseguir tais proezas com esses soros…

- Eu não tenho a certeza que toda a credibilidade possa ser dada aos cientistas que trabalham para eles. – Elia interrompeu-o – Os resultados iniciais não lhes agradaram. Pelo menos no meu caso. Algum melhoramento tinha sido conseguido, mas a minha velocidade de regeneração não era muito superior a de uma pessoa normal. Foi quando eles decidiram ter uma pequena ajuda de outro planeta.

- Eles usaram o cetro. –Thor, que anteriormente ouvia atentamente a conversa recostado numa das paredes mais afastadas manifestou-se pela primeira vez.

Não foi preciso que a agente vocalizasse a confirmação à afirmação do asgardiano.

- A maioria das mortes deveram-se ao uso do cetro e não aos soros, o que me leva ainda mais a crer que os soros em si não representam qualquer tipo de ameaça ou de progresso.

Steve contemplou a sua próxima pergunta, não completamente certo de que estaria pronto para a resposta, antes de a evocar em voz alta:

- Quantas pessoas morreram durante as experiências?

Elia negou com um movimento da sua cabeça.

- A Hydra tem realizado experiências em humanos durante anos. Não há forma de saber quantas vidas foram perdidas deste então. – Elia respondeu com solenidade – No entanto, todos os progressos das experiências realizadas com os novos soros e o cetro eram documentados e armazenados nos servidores. – O olhar da agente percorreu o quarto da enfermaria numa questão silenciosa sobre a possível obtenção desses dados.

- A maioria dos dados que estavam nos servidores foram descarregados para os nossos pelo JARVIS. – Tony esclareceu – Mas uma pequena quantidade de dados foi perdida. Struker iniciou a autodestruição do sistema antes de tentar fugir com o rabinho entre as pernas.

- Posso ver a informação recolhida?

- Talvez não seja prudente Ells… - Clint tentou dissuadi-la, ao que Elia começou a abanar negativamente a cabeça – Elia, por favor. Já chegou aquilo porque passaste.

Foi naquele momento que Steve decidiu intervir.

- Barton tem razão, agente Steal. – a atenção da jovem virou imediatamente para si. – Agora o que precisa é de descansar e recuperar forças.

- Com todo o respeito capitão, mas acho que já descansei o suficiente.

- Se é esse o caso… - Banner fez-se ouvir – Se não se importar, eu gostaria de fazer alguns testes.

Clint levantou-se rapidamente da cama, colocando-se defensivamente em frente da morena.

- Testes? Que tipo de testes? – a voz do arqueiro elevou ligeiramente, um certo pânico e desconfiança na sua voz, Steve pode detetar.

Era notório que quer Clint quer Natasha eram próximos de Elia e o Capitão estaria a mentir para si próprio se dissesse que a relação entre os três não o deixava curioso. Ambos os agentes tinham uma amizade restrita, que muitas das vezes não deixava qualquer margem de aproximação para os restantes membros da equipa, nem mesmo para Steve. Mas Elia parecia encaixar-se naquele pequeno grupo com naturalidade, o que fazia Steve começar a questionar que tipo de história os três partilhariam.

- Nada evasivo. – Banner apressou-se a defender-se – Apenas mais algumas colheitas e análises sanguíneas e alguns testes físicos. Isto, claro, apenas se a agente Steal não se importar.

- Clint. – Elia chamou o agente em tom de aviso, mas este ignorou-a, dirigindo o seu olhar a Natasha que também se havia levantado da pequena cama coberta por estéreis lençóis brancos. – A sério? Sabem, eu ainda estou aqui sentada porque quero, não porque estou inválida e incapaz de tomar decisões por mim mesma! – mas o agente mais velho continuou a ignorá-la, movendo-se para o lado apenas quando recebeu um aceno afirmativo da ruiva, como que numa permissão silenciosa para que Elia aceitasse a proposta do cientista. – Inacreditável. – Elia disse sob a sua respiração.

Um dos cantos da boca de Steve elevou-se involuntariamente, ligeiramente divertido pela situação.

- Peço imensa desculpa por isto doutor Banner. – Elia desculpou-se numa voz suave. – Não há qualquer problema. Podemos fazer todos os testes e avaliações que achar que são necessários.

Na manhã seguinte, após tomar o pequeno almoço enquanto lia o jornal do dia, Steve desceu ao andar onde se localizava a enfermaria, surpreendendo-se ao encontrar a cama que Elia ocupava cuidadosamente feita com novos lençóis brancos. A sua testa franziu enquanto olhava confuso para o desocupado quarto.

- J.A.R.V.I.S?

- Em que posso ser útil Capitão Rogers? – a voz do sistema de inteligência artificial respondeu de imediato.

- Onde está a agente Steal?

- Miss Steal encontra-se com a Doutora Cho e o agente Barton na sala de treinos Capitão. Há alguma mais em que o possa assistir?

A sua testa franziu ainda mais profundamente perante a informação.

- Não J.A.R.V.I.S., obrigado.

Voltou a entrar no elevador, descendo os dez andares que o levariam à enorme divisão, ocupando quase todo o andar, usada pela equipa para treinos. Assim que entrou a sua audição melhorada pelo soro setenta anos antes permitiu-lhe, de forma distinta, perceber o som de algo a bater contra o tapete do ring que se situava no meio da divisão.

- Achei que tinhas dito que não precisavas de descanso. – a voz de Clint flutuou pelo ar.

Quando finalmente as três pessoas que procurava entraram no seu campo de visão, Steve sentiu-se surpreendido pela cena encontrada. Clint e Elia encontravam-se no ring, a última levantava-se ignorando a mão estendida do arqueiro, colocando-se de imediato numa posição de ataque. Clint abanou a cabeça, de certa forma entretido pela atitude da morena, espelhando a posição da mesma.

Elia usava apenas um top e umas leggins, a pele exposta permitia ver pequenos elétrodos. Cho encontrava-se afastada dos dois, um tablet nas suas mãos, monitorizando o que quer que fosse que os elétrodos captavam. Quando Bruce referira testes, Steve não imaginara a cena que decorria em frente aos seus olhos naquele momento.

Clint foi o primeiro a atacar, o seu punho direito voando na direção da jovem que se esquivou com rapidez e um quê de graciosidade. Ela mexia-se com leveza, percebeu Steve, movendo-se à volta do seu oponente de uma forma que o levava para as suas sessões de treino partilhadas com Natasha. Foi quando Clint tentou fazer contacto com o seu punho uma segunda vez que a jovem se baixou, mãos esticadas sobre o tapete enquanto a sua perna esquerda varia o ar, colocando efetivamente o agente desamparado nas suas costas. Mas Clint foi rápido a reagir, tentando acertar nas costelas de Elia com o seu pé direito. Ela desviou o pé com ambas as mãos, afastando-se do seu oponente e colocando uma certa distância entre ambos. Assim que Clint se levantou a agente atacou, punho direito fazendo contacto com o seu lado esquerdo, surpreendendo-o o suficiente para que ela pudesse usar o peso do corpo do arqueiro contra o mesmo, mandando-o para o tapete por sobre o seu ombro. Mas a face de Elia depressa perdeu a sua expressão de concentração para uma de surpresa, quando Clint se recuperou rapidamente e a colocou com facilidade sobre as suas costas, o joelho sobre o seu peito prendendo-a efetivamente contra o tapete.

- Estás a tornar-te lenta pequena. – comentou o arqueiro divertidamente enquanto se afastava.

- Oh. Peço imensa desculpa se o meu treino nos últimos meses consistiu em ser saco de pancada, afiador de facas e condutor de eletricidade. – Elia disse de forma algo venosa, um certo desdém na sua expressão, surpreendendo todos os presentes.

Então os seus olhos arregalaram-se, a realização do que tinha dito parecendo abater-se sobre ela. A sua expressão tornou-se nervosa. Levantou-se lentamente evitando o olhar incrédulo de Clint.

- Desculpa, eu... – um suspirou saiu dos lábios da jovem – Não era minha intensão explodir desta forma.

Steve aproximou-se mais, preparado para acalmar os ânimos se necessário. Mas as palavras proferidas por Clint não foram as que Steve esperava.

- Condutor de eletricidade? – o agente disse quase num sussurro, a sua voz elevando-se drasticamente de seguida – Eles eletrocutaram-te?

- Clint… - o nome do agente saiu de forma suspirada dos lábios de Elia. Steve pode perceber que se tratava de um assunto sensível, do qual a jovem agente não queria claramente falar.

Tentando salvar a morena da situação, Steve aproximou-se mais do ring, clareando a garganta enquanto o fazia, atraindo para si a atenção dos três ocupantes da sala.

- Não sabia que já se encontrava a treinar, agente Steal.

Elia pareceu escrutinar a sua expressão durante alguns segundos, como que procurando por algo. No fim, o capitão recebeu um olhar de gratidão por parte da agente.

- A doutora Cho e o doutor Banner queriam registar as reações do meu corpo a agressões e ao esforço físico. O Clint achou que tinha de supervisionar então eu resolvi torna-lo útil.

- Pele menos eu sou útil e não fujo a perguntas. – a voz de Clint intrometeu-se na conversa. Os olhos de Elia fecharam-se enquanto ela fazia uma expressão dolorosa e Steve sentiu-se de novo compelido a salvá-la a da situação.

Ele percebia o que era não querer falar de uma situação dolorosa, o que era ter o peso da culpa sobre os ombros.

- E o que é que os testes nos dizem? – Steve dirigiu a pergunta a Cho.

A doutora avançou em direção ao capitão, olhos treinados nas leituras recolhidas pelo tablet.

- Muito do que tenho visto é o esperado. Qualquer agressão despoleta uma reação imediata do organismo, levando a replicação acelerada das células da área lesionada. Não parecem haver outras alterações além desta. Portanto não há nada mais para se esperar além de um processo de cura melhorado e extraordinariamente rápido.

- Então, é só isso? – Elia retificou.

- Por aquilo que posso ver sim. – Cho respondeu olhando pela primeira vez para a agente.

Steve olhou em volta, esperado ver Bruce em algum canto analisando dados também, mas não o encontrando.

- O doutor Banner não veio supervisionar os testes?

- Nup. – Clint respondeu, secando o rosto com gotas de suor com uma toalha, estalando o p entre os lábios. – Ele e o Stark estão fechados no laboratório desde ontem à noite.

- Na verdade eu estou aqui. – a voz do cientista mencionado flutuou pelo ar. O seu olhar atento em algumas folhas de papel que carregava na mão esquerda, enquanto a direita subia os óculos para uma posição mais correta na ponte do nariz – E segundo os resultados às análises sanguíneas, bem como dos testes realizados nas amostras celulares que recolhi da agente Steal, regeneração acelerada e cicatrização avançada podem não ser as únicas alterações provocadas pelo soro e pelo cetro.

- O que quer dizer com isso doutor? – Steve aproximou-se do homem que era mais de um palmo mais baixo, olhando para os papeis que demonstravam gráficos, formulas e palavras que não faziam qualquer sentido para ele.

- Capitão, segundo os resultados e a minha interpretação… - a frase ficou suspensa no ar enquanto Bruce fixava o seu olhar em Elia que, ainda no ring, olhava para o cientista de forma nervosa. – Eu acredito que a agente Steal pode ser capaz de curar outros.