Ca-sa

Nove meses depois...

Um quarto de paredes bege e sem adornos, com apenas uma pequena janela com parapeito, e grades pelo lado de fora, para evitar que qualquer um pudesse entrar ou sair, uma cama de solteiro em um dos cantos, com as cobertas dobradas metodicamente aos pés da cama. E por ultimo uma mesinha no canto oposto ao da cama, e ao lado dela uma porta que dava acesso ao banho.

Harry estava sentado no parapeito da janela a cabeça apoiada entre as grades e o olhar perdido nos campos que se estendiam por quilômetros fora daquele prédio, se deixassem ele passaria horas a fio na mesma posição e com a mesma falta de expressão no rosto, olhando para algum ponto distante.

O rangido da porta foi o que fez Harry desviar o olhar da janela e fixá-lo na porta da habitação que se abria para deixar passar uma jovem mulher de não mais que 30 anos, de cabelos vermelhos acobreados e olhos castanhos vestida em um conjunto de blaiser e sai de cor rósea.

- Bom dia Harry! ...

- B-bom ... d-dia Sely.

A enfermeira sorriu diante do ar inocente que Harry sempre mantinha e se colocou a arrumas as roupas de Harry em uma pequena maleta, coisa que passou despercebida ao garoto que havia voltado o olhar para a janela novamente.

- Deveria se arrumar Harry – Ela separou uma muda de roupa das que estava colocando na maleta – Vá se trocar e vista isso, logo, logo o senhor Prince vira para buscá-lo e você finalmente poderá voltar para casa.

- Casa?

- Isso Harry, você vai voltar para casa hoje!

- Casa... Ca...Sa.

Harry saiu do parapeito da janela, pegou a muda de roupa que Sely havia separado e foi para o banheiro contiguo com o quarto se trocar, todos os movimentos eram quase que autômatos, retirar o pijama, vestir a calça, as meias, colocar a camisa, vestir o suéter, calçar o sapato, escovar os dentes e pentear o cabelo.

Quando Harry saiu do banheiro Sely já havia terminado de arrumar suas roupas e guardado todos os seus pertences, Harry olhou o quarto sem nenhum de seus pertences. A mala estava pronta e esperando nos pés da cama, Harry foi se sentar novamente no parapeito da janela e ficou ali esperando.

Severus chegou ao Hospital Clarrinston para Doenças Psicomagas era pouco mais que quatro da tarde, mas o céu já começava a apresentar uma tonalidade rósea, odiava estar naquele lugar, mesmo sendo um hospital psicomago o cheiro de éter no ar era extremamente forte, e ele odiava esse cheiro. Foi direto para a ala de internações e de lá foi guiado por uma jovem enfermeira de cabelos ruivos até a sala do Dr. Heaves.

- Senhor Prince, que bom que chegou, sente-se – O médico lhe indicou a poltrona na frente de sua escrivania – Aceita um chá?

- Sim obrigado.

- Claro – O psicomédico pediu dois chás para a recepcionista e depois voltou sua atenção para a ficha que tinha aberta em cima da escrivania – Veio para buscar Harry correto?

- Sim, recebi seu recado dizendo que ele receberia alta hoje.

- Claro, bom... vamos apenas repassar algumas coisas antes de eu liberá-lo correto? – Severus afirmou com um simples aceno de cabeça – Bom quando o Senhor trouxe Harry até mim ele estava em um estado lastimável, ser abusado por tantos homens ao mesmo tempo fez um estrago tremendo na mente do garoto, como eu já havia lhe comentado, na ocasião Harry se utilizou de um fator que chamamos de regressão para fugir de todo aquele sofrimento... o peculiar no caso de Harry é que ele não só fez isso, como também parece ter bloqueado seu núcleo mágico juntamente com parte de sua consciência,... de forma bem resumida, Harry não passa de uma criança incapaz de efetuar magia, e creio que ele ficara assim pelo resto de sua vida. Seu corpo envelhecera normalmente, mas sua mente não, ele parece ter se limitado a idade mental de uma criança de não mais que sete anos, mas isso não quer dizer que ele seja estável tudo isso devido ao trauma. Ele também tem se mostrado muito arredio e fechado, não se envolvendo com as pessoas tão facilmente... Falando bem claro senhor Prince, o senhor terá que cuidar eternamente de uma criança, já que eu não creio que Harry virá um dia a se recuperar.

- Em outras palavras ele não passa de um squib retardado.

- São palavras muito fortes senhor Prince para definir alguém que sofreu tanto.

- Essas são suas conclusões, não minhas, mais algumas recomendações antes que eu possa ir?

- Sim – A irritação era visível no rosto do medimago diante das afirmações de Severus – Harry se tornou um tanto quanto intolerante quanto exposto a magia, seu comportamento tenda a regredir drasticamente por um determinado período quando isso acontece, sendo assim eu aconselharia o senhor a mantê-lo o mais longe possível de qualquer atividade mágica. Creio que seja só senhor, vou pedir à enfermeira que traga Harry.

O medimago que antes estava sorrindo agora resmungava por baixo e saiu deixando Severus sozinho no escritório, ele já havia ouvido toda aquela ladainha uma vez, a principio não sabia o que iria fazer, não podia simplesmente abandonar o garoto, afinal ele era a única coisa que o mantinha longe de Askaban e de um beijo de Dementador, as noticias do estado mental de Harry realmente tinham sido uma surpresa, mas em nada mudaria sua atitude para com o filho do homem que tanto infortunou sua vida.

Severus ainda estava perdido em seus pensamentos quando o medimago voltou sendo seguido de perto por Harry, Severus pode observar que o garoto já não estava tão magro quanto ao período que estava cativo, mas o medo ainda estava presente nos olhos verdes e de certa forma isso agradou Severus.

Finalmente as últimas recomendações foram dadas, o medimago se despediu de Harry, algumas enfermeiras também, a maleta do garoto lhe foi entregue junto com alguns medicamentos, e Severus se viu entrando com Harry em um taxi trouxa para ir rumo a Timmins. Duas hora depois e um significativo prejuízo ao bolso de Severus e eles estavam na nova casa do mais velho. Ter se mudado para o Canadá havia sido uma medida de segurança, ficaria afastado do ministério, e de todo o mundo bruxo europeu.

Harry havia seguido todo o caminho em silêncio apenas olhando a paisagem pela janela, quando o taxi parou de frente a uma enorme casa, ele se perguntou se aquela seria sua casa. Severus observou o garoto descer do carro e rumar para a casa, com sua maleta nas mãos e um olhar apagado, ele pagou ao taxista e rumou para a porta de entrada da casa, Harry estava parado diante dela.

- E-es-ta é m-minha c-ca-sa?

- Entre – Severus preferiu ignorar a pergunta e fazer com que o garoto entrasse na casa, não queria chamar atenção – vou lhe mostrar onde será seu quarto.

Antes que Severus pudesse terminar a frase Harry já havia se adiantado pela sala até a escada que conduzia ao andar superior, mas para a surpresa do maior Harry não a subiu e sim se colocou ao lado dela, onde havia uma pequena porta que dava acesso ao armário embaixo da escada. Severus observou tudo atentamente, e se lembrou de algumas recordações que havia visto na mente do garoto ainda no tempo de escola, os parentes dele costumavam trancá-lo dentro de um armário semelhante.

- Seu quarto não é ai, agora me acompanhe – Um Harry hesitante seguiu Severus pelas escadas até um pequeno quarto no andar superior – Este será seu quarto a partir de agora, mantenha-o limpo e arrumado e não terá problemas, o banho esta no final do corredor, agora fique ai e arrume suas coisas, desça às 20h30min para jantar, não se atrase.

Eram exatamente 20:45 e Severus já se maldizia por ter trazido o moleque para aquela casa, havia levado tanto tempo para se readaptar a nova vida, e agora teria que fazê-lo novamente. Subiu as escadas tentando conter a raiva, já que uma das coisas que mais odiava era a impontualidade, odiava esperar, e odiava mais ainda esperar por Harry Potter.

A porta do quarto foi aberta sem cerimônia, e para a surpresa de Severus, Harry estava deitado no chão ao lado da cama, dormindo abraçado a um surrado urso de pelúcia. Severus o observou por uns instantes e saiu do quarto, pensando que se o garoto era lesado o suficiente para não usar a cama, que dormisse no chão e sem jantar, já que ele não se daria ao trabalho de acordá-lo.

Severus jantou sozinho e arrumou a cozinha de maneira trouxa, um costume que ainda trazia de quando morava com seus pais, terminou de enxugar a louça e foi para a pequena biblioteca, se serviu de uma boa dose de conhaque e foi se sentar em sua poltrona preferida, havia transformado isso em um costumo após o jantar. Terminou o conhaque e tentou se concentrar no livro que estava lendo, mas não conseguiu, não parava de pensar em Harry, por que desde de aquele fatídico dia Potter havia se transformado em Harry.

Perdido na lembrança de quando o havia encontrado Severus se deu conta de que algumas coisas haviam mudado, todo o desejo, luxuria e vontade de possuir aquele corpo que antes ele sentia havia ido para algum lugar, ele já não olhava mais o garoto com desejo, agora ele não passava mais de um infeliz que inspirava pena.

Deixou o livro sobre a mesinha e se retirou para dormir, tinha muitas coisas na mente, muitas coisas que ponderar, mas não queria pensar nesse exato momento, apenas queria se deitar e dormir até de manhã. Era perto das três horas da manhã quando Severus acordou, havia um estranho barulho vindo do corredor, ele se levantou pegou a varinha que descansava em cima da mesinha de cabeceira e saiu.

A cena foi um tanto aterradora, Harry estava sentado no corredor e batia com a cabeça freneticamente na parede, o ursinho pendia de uma das mãos, a roupa grudada ao corpo devido a grande quantidade de suor, o rosto banhado em lagrimas. Severus colocou a varinha no bolso da calça do pijama e tentou se aproximar.

- Pare de fazer isso Potter – o garoto nem sequer o olhou, continuo batendo contra a parede – Está se machucando Potter, então pare agora mesmo!

Severus tentou se aproximar mais para impedir que o garoto continuasse a se fazer dano, mas o que ganhou foi uma onda de desespero por parte de Harry que tentava se afastar o máximo que podia, balbuciando coisas que Severus não conseguia compreender.

Harry se viu em pânico, tentou se levantar mas não conseguiu, saiu engatinhando tentando fugir daquele homem que dizia coisas as quais ele não compreendia, Harry chegou ao extremo do corredor e conseguiu se colocar de pé, tudo era tão confuso, e ele só queria sair correndo dali.

Severus viu como o garoto saiu engatinhando e com grande esforço conseguiu se colocar de pé, claramente fugindo dele, levou a mão aos cabelos e os puxou para trás, não estava com humor para este tipo de coisa ainda mais a essa hora da madrugada, tentou se aproximar mais uma vez, e Harry novamente retrocedeu, ficando perto demais da beirada da escada.

- Por que não volta pra cama Potter – mais um passo – ambos estamos cansados – mais um passo – precisamos descansar – mais um passo – e já está bem tarde – Um último passo e Severus se viu perto o suficiente para agarrá-lo pelo braço – Moleque estúpido, volte para seu quarto de uma maldita vez.

Sua voz havia se alterado, e Severus se viu gritando ao garoto, viu como Harry reagiu mais assustado ainda e tentou fugir de seu agarre, tropeçando de forma torpe e indo parar estatelado no chão ao final da escada, tudo em fração de segundo.

Severus chegou ao lado do corpo imóvel em tempo recorde, o braço direito estava em uma posição estranha, a respiração difícil, tomou o corpo imóvel entre os braços, e mandando ao espaço as recomendações médicas que havia recebido, aparatou ao lado de um hospital trouxa. Ele levou o garoto ao atendimento emergencial onde Harry foi levando para dentro e ele foi se sentar na área de espera.

Tudo passava tão rápido, como as lembranças da manhã que Severus retornou para a fortaleza dos comensais da morte e encontrou todos mortos incluindo aquele-que-não-se-deve-nomear, e como ele encontrou Harry desnudo a beirada da morte.

A noite se fez dia e a amanhã avançou com suma rapidez enquanto Severus ainda estava sentado no mesmo lugar submerso em lembranças que não eram de todo suas, foi só perto das dez da manhã que um médico veio lhe falar, dizendo que Harry havia fraturado o braço em dois lugares, e que devido a isso e a presença de cicatrizes de fraturas antigas precisaram fazer uma intervenção cirúrgica e instalar alguns grampos de platina para colaborar na cicatrização, lhe informou também que ele teria que passar algo em torno de três meses com o braço engessado, e que deveria retornar a cada vinte dias para uma consulta rotineira e para efetuar a troca do gesso.

- De todos os modos senhor Prince, ele recuperara a mobilidade completa, nenhum músculo ou tendão foi afetado, ele só precisa de tempo para os ossos se religarem.

- Agradeço seus cuidados Doutor.

- Bom se o senhor quiser vê-lo, vou lhe mostrar o quarto onde ele está – Severus assentiu e seguiu o médico por um longo corredor cheio de portas e quase no fim dele o médico parou diante de uma das portas – Eu virei logo mais lhe dar alta, ele já deve estar acordado, mas por favor não deixe que ele se levante ou que ele mexa no gesso.

- Claro doutor.

Severus entrou sozinho no quarto, Harry estava deitado com os olhos aberto, o braço agora engessado pousado sobre seu peito, o garoto tentou se afastar do jeito que pode, mas como não conseguiu se mexer apenas puxou a manta que o cobria o máximo que pode, deixando apenas os olhos e o topo da cabeça a mostra.

- Não se mexa!

- Por f-favor se-senhor não me ma-machuque.

- Machucá-lo? Se quisesse machucá-lo não o traria ao hospital – Harry pareceu ponderar um pouco – Creio que deva aclarar algumas coisas com você, primeiro não pretendo machucá-lo, segundo você é de minha responsabilidade ou seja, eu cuido de você de agora em diante, terceiro você me obedece acima de tudo, fui claro?

Harry ouvia tudo atentamente, mas não conseguia entender nada, sobrou apenas afirmar no final sem nem saber com o que estava concordando, o medo era latente demais assim como a dor que estava sentindo.

Uma enfermeira pediu licença e entrou no quarto, indo parar ao lado de Harry com uma andeja contendo alguns medicamentos, preparou uma seringa de tamanho considerável, pegou o braço com de Harry desinfetando um pequeno pedaço bem em cima de uma veia latente e aplicou ali a medicação contida na seringa e se retirou em seguida.

Severus observava tudo, o pavor, o medo e a dor refletidos nos olhos esmeralda, assim como as lagrimas que se acumularam e caíram pelas bochechas em um choro mudo, que continuou até que ele caio no sono. Severus ficou se perguntando se realmente o grifinório corajoso que ele conheceu não existia mais.

Continua...

N/A: Depois de muito, muito, muito, muito tempo cá estou eu novamente, rsrs, primeiro gostaria de pedir disculpas pela demora, e espero que não fiquem tão chocados com a mudança repentina, mas tudo faz parte do rumo que eu quero dar pra fic, rsrsrs, bom sobre a morte do lod Voldie as coisas que aconteceram vão ficando mais claras seguindo as reflexões do Sevie, rsrs, de todos os modos eu agradeço a todos que me deixaram Rws, e peço-lhes humildimente que me desculpem a demora, também gostaria de deixar claro que não vou abandonar a fic, sou meia lesinha e lerda, mas não costumo desistir, essa daki mesma jah tem um final planejado na minha cabeça, só falta traçar os fatos que me levarão a ele, rsrsrs

Bjos a todos e todas, desejo-lhes um ano novo repleto de felicidades, rsrs

Mandem-me suas opiniões, elas me são muito gratificantes, rsrsrs

Ate a próxima, rsrsrs