Os meses haviam se passado e agora nos encontrávamos em pleno Fuyu(Inverno).

Nada diferente havia acontecido, minha rotina morta e em tons pastéis permanecia a mesma, na verdade só piorado, porque sempre que duvido o dobro de coisas ruins acontecem.

Eu já não tinha nem vontade de sair, tentar observar e me aproveitar das pessoas nas baladas que eu costumava ir. Minha vida se resumia á ficar em casa, me entupir de comida e assistir algo. Isso era deprimente. Eu já não sabia mais o que fazer, e a única coisa que me fez me lembrar do mundo do lado de fora da janela foi a televisão anunciando o nosso tão amado e comercial Natal.

As ruas haviam se tingido do mais limpo branco e as decorações chamativas e brilhantes atraindo os seus clientes.

Ventava muito, ajeitei meu cachecol na altura do nariz e segui meu caminho pelas ruas da cidade. É incrível como tudo muda, como tudo sempre está em movimento. Á tempos atrás essa cidade era bem pequena, eu nunca diria que se tornaria algo de tal tamanho.

Eu já não aguentava mais as rajadas de ventos que me atingiam e decidi entrar na primeira lojinha pra me proteger. Estava lotada, você não conseguia se mover livremente e toda aquela gente me deixava sufocada. Voltei minha atenção pra um chaveiro bem fofinho e apertei, eu adorava essas coisas, mas a minha pose de durona não podia mostrar isso. Deixei ele de lado e quando reparei na loja, ela estava lotada de casais.

Que caralhos eu fui fazer aqui dentro?

Isso me deprimia mais ainda, eu tenho meu discurso feito que ''Não preciso de macho'' mas quando vejo esses casais... Me dá tanta inveja...

As únicas relações que tive na minha vida foram uma verdadeira merda, pessoas que no fim só queriam se aproveitar de mim, e eu sempre nutri esperança de ajudar elas enquanto eu estava no fundo do poço. É, tudo começou com o meu coração e inocência roubados por um maldito cara.

Balanço a cabeça na intenção de afastar esses sentimentos e saí daquele lugar sufocante, a rua me parecia bem mais agradável agora.

Passei horas caminhando sem rumo e observando aqueles lugares e pessoas, fiquei com medo de sair e ser notada demais, mas é tanta gente que eles nem me notam e bom, fico feliz com isso, não suporto mais todos esses olhares. Estava tudo realmente lindo e apesar de eu achar o Japão medieval maravilhoso, isso aqui é lindo do mesmo modo.

Fiquei tão absorta em meus próprios pensamentos que quando reparei ao redor eu estava na minha antiga cidade! Eu andei pra cacete e nem senti! E o mais estranho, eu não sei que caminho fiz pra chegar aqui, nunca tinha feito isso! Ainda parada no meio da calçada algumas pessoas se esbarravam em mim então decidi sair do meio e foi aí que tive aquela visão...

Por Kami, como eu pude esquecer esse lugar?

O Castelo Nagoya! - eu e o meu eu criança gritamos em nossa mente.

Aquele era o meu lugar... era ali que eu pertencia.

O mesmo misto de nostalgia, tristeza e felicidade me atingiram e eu fui de encontro ao meu amado lugar. Não segurei minha vontade de observar só do lado de fora, paguei a entrada e fui literalmente correndo. A ventania parece que estava em todo o Japão, porque até ali ela estava presente, e aliás mais forte. O frio também era mais intenso e tenho certeza que já estou toda vermelha por conta do mesmo. Em meses eu realmente me sentia feliz e completa, eu já mencionei várias vezes mas não me canso de falar: Esse lugar é maravilhoso, a sensação que ele me dá de esperança de vida é... inexplicável... Em um momento de descuido o meu cachecol se foi junto de mais uma rajada de vento, voltei meu olhar pra cima e foi quando eu o vi

-Moça, o seu cach... - Naquele momento minhas marcas queimaram. Mas de uma forma totalmente diferente de antes. Não era algo que ardia, mas era completamente intensa. Aquele par de olhos negros e definidos foram a causa disso. Seu pescoço estava exposto e nele pude enxergar uma marca igual a minha e ela mudava de cor da mesma forma. Eu estava tremendo, me deu tontura e então...

-Sasuke! É você?

Agora tudo faz sentido...

Nagoya, Província de Aichi

Japão, 31 de março de 1843

Clã Owari dos Tokugawa.

"As flores Sakura estavam desabrochando por toda Aichi e embelezando mais ainda as ruas que estavam mortas, dando cor e paz depois de tempos difíceis de lutas e perdas. Não era diferente no castelo Nagoya. Lá as flores se concentravam em maior quantidade e uma em especial não estava desabrochando, estava nascendo...

Dentro de um dos quartos do imenso castelo se encontrava Mebuki Haruno Owari, herdou o sobrenome Owari de seu marido Kizashi que também estava no local. Aquele era um momento especial para todo o clã. O seu senhor e senhora seriam pais, seu herdeiro iria nascer e então guiar o clã durante anos, a expectativa para saber o sexo era imensa e o desejo que fosse homem era claro. Depois de muita luta de Mebuki e apoio de Kizashi o som tão aguardado foi ouvido.

Um choro... feminino.

O descontentamento da parte da maioria dos homens era visível, para eles o herdeiro deveria ser homem, assim como foram em todas as gerações do clã. O pai, também não havia ficado agradado, porém se concentrava em apoiar a esposa e ignorar qualquer outra coisa.

-Querido... é uma menina... - falou com dificuldade a mãe, com um leve sorriso no rosto.

-Sim, estou feliz! - mentiu ele - Você está bem?

-Eu amo vocês... - essa foi a última palavra da mulher. Mebuki sempre teve saúde frágil e após saber que estava grávida houve uma grande preocupação da parte de todos se ela aguentaria tal coisa, mas sempre esteve destemida em todo esse tempo de gravidez e feliz, muito feliz. A criança logo foi esquecida e o foco caiu sobre Mebuki. Todos estavam desolados e sem saber como agir. Só o tempo ajudaria eles á se reerguerem...

Os anos se passavam, porém Kizashi só piorava em sua depressão. Viver sem sua esposa estava o matando e sua capacidade como líder estava péssima. Se fosse em qualquer outro clã ele já teria sido substítuído porém os Owari eram realmente unidos e sentiam a dor de seu líder.

Enquanto Kizashi permanecia num estado deplorável, sua pequena filha Sakura que teve esse nome por sua mãe saber que a época em que a menina iria nascer era a mesma das Sakuras, crescia nas sombras do castelo. Os Owari tinham um certo tipo de richa com a garota, por ser do sexo feminino e por ser ''responsável pela morte de Mebuki". É claro que isso não era verdade, mas eles permaneciam agarrados á esse tipo de pensamento. Ainda assim, algumas pessoas tratavam a garotinha normalmente. Mas o que mais lhe doía era ser ignorada pelo pai, mas foi algo que ela aprendeu a lidar. Sua vida era treinar com sua katana escondida em seu quarto, desde pequena teve vontade de se defender e poder revidar caso fosse preciso. Aquele treino para o clã era inadimissível para uma garota! Elas deveriam estar arrumando seus kimonos e cabelos, mas por Sakura não ser notada naturalmente ela se aproveitou de tal situação. Então cresceu treinando, escondida, sem contato com nenhuma criança...

Edo, capital dos Tokugawas

Japão, 23 de julho de 1841.

" Sasuke Uchiha Tokugawa, esse era o nome pesado e forte que o mais novo herdeiro de todo o Xogunato ganhou. Sasuke nasceu na hierarquia principal, e só estava abaixo de seu pai Fugaku. E como o Natsu(Verão) seu nascimento foi recebido calorosamente por todos os Tokugawas. O pai exalava orgulho pelo filho homem, e a mãe Mikoto estava completamente derretida e feliz com seu primeiro filho. Festas banhadas a sake foram realizadas em todos os clãs espalhados pelo Japão. O novo líder havia nascido! Mas essa foi a primeira e última festa. A família de Sasuke era completamente severa e disciplinada, todos os seus atos infantis foram cortados e o garoto virou praticamente um robô, seguindo as ordens de seu superior. Ele comparecia em diversos eventos junto de seu pai, e ali era o seu único contato com pessoas diferentes. A aparência do garoto não negava sua origem, desde criança com traços rígidos e definidos no rosto, mas seu coração era extremamente doce, porém teria que guardar isso para sempre.

Certo dia, houve uma rebelião enquanto estava na cidade com seu pai. De certo, um samurai fez o trabalho sujo e eliminou todos que estavam em seu caminho. Sasuke ficou fascinado com aquilo, era estritamente errado ele seguir tal carreira, ele tinha nascido para governar. Mas seu sangue fervia por ação, e era por isso que ele iria lutar!"

Edo, Festival Tanabata Matsuri.

Japão, 15 de julho de 1859.

"E então o grande festival que reunia todos os Tokugawas uma vez por ano havia chegado! Todos os clãs menores se dirigiam para a capital Edo para o encontro e reafirmação de paz e cooperação. A cidade toda cheirava a comida e incenso. As árvores de bambu se inclinavam para o chão de tão pesadas, estavam carregadas de tanzakus e esperança das pessoas!

Na casa da hierarquia principal estavam os representantes de cada clã junto de seus herdeiros se os tivessem. Depois de toda a formalidade de cumprimentos e tratados, a festa foi iniciada! Apresentações de taiko e danças foram o carro principal. A maioria das pessoas que se apresentavam eram filhos dos representantes que queriam dar orgulho ao seu clã e ser notado pelos temerosos Tokugawas. Os Owari contavam com sua graciosa Sakura e sua dança para agradar a todos e conseguir um bom marido para liderar o clã, logo seria sua vez de brilhar. Seria difícil conseguir qualquer reação dos anfitriões pela sua rígida postura já conhecida. Todos pareciam iguais para eles, mas ainda assim mantinham a postura.

Sakura se sentia extremamente mal por estar ali, naquele kimono sendo mostrada no festival como um produto que precisa ser adquirido. Ela nem pensava num futuro de 5 anos, imagine uma vida toda com um homem que ela nem havia escolhido. Seu anseio era apenas por lutar na linha de frente e derrotar todo e qualquer inimigo. Mas aquilo lhe era impossível.

-Sakura, agora é a sua hora, não me decepcione – Seu pai lhe chamou de canto e então saiu de seu campo de vista.

Claro, ela não iria decepcioná-lo.

Era a sua vez de pisar no palco. Sua vez de mostrar a farça.

O leve tambor do taiko havia começado enquanto Sakura subia no ''palco''. Seu kimono dourado e bem acinturado escorria pelo chão, todos os movimentos eram planejados. Um incenso de rosa foi acendido na intenção de chamar mais a atenção dos possíveis pretendentes. Assim que ela chegou no meio do local, se posicionou e as flautas doces foram surgindo timidamente. Os movimentos doces e delicados foram iniciados, prendendo a atenção de todos que estavam ali presentes. Os cabelos róseos dançavam lindamente em volta de seu corpo lhe dando uma impressão ainda mais celestial. A visão era belíssima, era como se uma deusa tivesse descido dos céus. Seus olhos esmeraldinos atraia todos os olhares e os prendia somente ali. E então, ela parou. A apresentação havia acabado e todos aplaudiram até os próprios Tokugawas e um em específico ficou fascinado.

Foi quando o tambor do taiko começou a ter suas vibrantes batidas e o silêncio reinou. Em um movimento rápido Sakura tirou sua katana preferida da manga do kimono e a sacou. Agora os movimentos eram feitos juntamente com a arma e ao ritmo dos tambores e flautas numa dança insana. A arma passava por vários lugares críticos de seu corpo e ainda assim nada lhe acontecia, ela realmente dominava aquilo. Em um último pulo sua apresentação realmente terminou. Todos ficaram assustados, suas feições mudaram totalmente e a reprovação de seu clã era paupável. Exceto uma pessoa.

Um Tokugawa.

Ele havia amado aquilo.

Foi o único a levantar a aplaudir. Seus olhos brilhavam.

Sakura assustada olhou para o tal homem que lhe aplaudia, o único. Um frio na barriga te apunhalou quando encontrou o admirador. Era uma sensação devastadora, nunca sentida antes. Ela não esperava ter uma reação dessa. Corou violentamente e saiu do palco.

O pai do admirador, Fugaku, o repreendeu apenas com um olhar de :"'Mais tarde resolvemos isso".

Sasuke, estava pouco ligando para isso. O que tinha acontecido no palco foi incrível, ele nunca tinha visto uma mulher ousada daquele modo e aquilo o agradou mais do que deveria... Queria correr atrás dela, porém se o fizesse seu pai iria explodir e isso seria péssimo para o festival.

Ele passou o restante das horas até o final do festival ansioso, louco para conversar com a garota que não saía de seu pensamento. Queria saber como ela aprendeu a manejar a katana daquele jeito!

Houve um momento em que ele viu que poderia fugir por alguns seguns e então o fez! O seu kimono complicava as coisas mas ainda assim corria rapidamente por entre as pessoas. Achar a garota seria fácil, foi a primeira em sua vida de cabelos rosas. Depois de muita procura ele a avistou amarrando um tanzaku num bambu.

-Aquilo foi incrível! - já chegou dizendo e assustando a garota que deu um pulo.

-Ah...aquilo... foi uma afronta, como você pode gostar? - respondeu ela com os olhos que antes pareciam tão destemidos focados em seu tanzaku, ela estava envergonhada...

-Exatamente por isso! Eu nunca vi uma mulher com tal coragem. E o seu manejo com katana é incrível, eu duvidaria que conseguiria fazer o mesmo – respondia ele muito entusiasmado e largando a pose de Tokugawa.

-Eu só, treino desde criança... É a minha paixão! - disse ela com um sorriso que logo se desfez – Mas, espera, você não é filho do Tokugawa Fugaku?

-Sim, sou – a face dela empalideceu – Mas fique tranquila, não sou como eles, não vou mandar de capturar nem nada. Eu sou outra pessoa que vai contra esses padrões. - vendo que ela se acalmava decidiu continuar- Meu sonho é ser samurai. - olhou para os céus e viu as estrelas presentes – Mas você deve saber como funcionam as coisas.

-Sim, eu sofro com isso a minha vida toda. Também quero ser samurai. Por isso estou pedindo nesse tanzaku...- Respondeu ela terminando de amarrar ele na árvore.

-Acho que vou fazer também! - ele pegou um tanzaku com a garota e escreveu o seu desejo. Amarrou ao lado do dela. Trocaram um breve olhar cheio de sentimentos não descobertos então ele se pronuncionou.

-Eu tenho que voltar... Mas quero dizer duas coisas. Peço que queime o meu tanzaku junto ao seu pois não vou conseguir voltar aqui depois e... Vamos nos ver novamente, isso não acaba aqui! -Disse ele meio envergonhado e virou as costas.

-C-Certo! - disse ela enquanto ele se afastava.

Ao final do festival todos os tanzakus seriam queimados para que seus pedidos fossem levados para os deuses realizarem.

Queimou seu tanzaku que estava entrelaçado com o de Sasuke, e assim como os tanzaku, seus destinos foram ligados ali. Por muito tempo...