Capítulo quatro: Dumbledore sabe das coisas
Seu corpo estava mais pesado do que o habitual, sua cabeça latejava e suas narinas percebiam que havia um cheiro de detergente e álcool esterilizador no ar. A luz era branca, assim como as paredes. Ele suspirou sentindo sua própria respiração. Será que estava vivo ou já morto? Saiu daquele sonho que era tão perfeito que se tornou um pesadelo? Ele abriu os olhos e encontrou o par de olhos verdes de Lillian Evans. Não. Não tinha saído.
Os olhos delas estavam vermelhos. Ela tinha suas duas mãos agarradas na de Severo. Uma cara de piedade misturada com as lagrimas que desciam no rosto dela. Severo não podia estar vendo aquilo e por sinal parecia estar em outra realidade porque pelo o que se lembrava não houve um caminho até aquele local. Lily olhava para ele com um dos pulsos sangrando e era só. Depois tudo ficou preto. Aquilo jamais o mataria. "Como você é estupido", mas ele não ousou dizer a primeira palavra. A troca de olhar foi estranha. Severo queria captar o que estava acontecendo, mas não tinha mais cabeça para aquilo. A questão é que ele não tinha morrido se quer voltado para a sua realidade em Hogwarts.
- Você não se lembra de mim, não é mesmo? Da sua esposa? – Lily quebrou o silencio - Eu vi você no banheiro e acabei lhe desacordando e trazendo você para cá.
Parecia que ela tinha entendido e que aquela maldita maldição estava ainda em seus olhos, acontecendo em sua cabeça. Lily estava lá ainda segurando suas mãos das quais ele tentou soltar e ela também se afastou com medo. Severo suspirou fechando os olhos de novo tentando fugir dali. Sair dali. Aquilo o deixaria louco e por um momento ele soube do obvio.
"Estou sob uma Cruciatus anormal ou algum feitiço antigo sendo torturado."
Era um fato. Aquilo estava começando a doer, mas não tanto quanto ouvir o choro da mulher que sem pedir permissão deitou a cabeça sob o peito do homem parado e deitado naquela maca de hospital. Severo abriu os olhos de susto, mas seu corpo congelou. Lily não parava de chorar e segurava o pano azul claro que o cobria. Parecia um sentimento de urgência.
- Eu não queria te fazer tanto mal – Lily gemeu
Poderia ser algo diferente. Poderia estar transportado para outra realidade. Por um momento parecia que ele tinha feito algo mal, uma briga um dia anterior que acordaria naquele mundo e agora ela estava se culpando.
- Você não existe. Nada disso existe – Severo falou alto demais para tentar se acalmar e parar de achar explicações cabíveis para aquilo tudo. Principalmente para o sentimento da mulher.
Lily não respondeu, o que interrompeu aquela dura cena foi o barulho da porta se abrindo e três pessoas entrando. Quando seus olhos olharam para Dumbledore ele sentiu como se todos os seus problemas tivessem resolvidos, mas segundos depois se lembrou que aquilo poderia ser ainda mais torturante do que estava sendo com Lillian. A visão de Dumbledore com as mesmas vestes, com os mesmos óculos e olhar lhe lembravam daquela noite que ele tirou a vida da única pessoa que confiava em seus sentimentos.
Os olhos dele se encontraram e Severo pode ver o olhar de reprovação de Dumbledore vindos diretamente para seus olhos, de forma intensa e altamente significativa. Lhe culpando, como sempre imaginou depois daquela noite. Mesmo que fosse um plano, Severo não deveria ter caído na história falha do velho bruxo.
- Lis, eu vim o mais rápido que eu pude – A voz feminina cortou o contato visual dos dois. Severo sentiu o peso de Lily saindo dele e observou a mulher de cabelos platinados e pele rosada abraçar a ruiva. Ela usava roupas trouxas por baixo de uma capa azul marinho. Severo pode perceber que mesmo abraçando Lily ela o olhava de olhos avermelhados também – Eu sinto muito.
- Emma leve Lily para dar uma volta – Severo se atentou a voz da terceira pessoa. Com certeza fez uma cara de espanto notável pelos três dentro da sala. Reconheceu o rosto sem as cicatrizes e mesmo com vestes melhores do que usava. A voz calma e os cabelos revoltos loiros. Até mesmo nas maldições um dos marotos tinha que aparecer no meio da sua vida.
Remus Lupin estava ali, com mãos nos bolsos olhando para as duas mulheres saindo do quarto. Estava ao lado de Dumbledore que não deixou de olhar um segundo para Severo. A porta bateu e pelo visto a conversa seria de homem para homem.
- Que merda você fez com a sua cabeça? – A voz de Remus ecoou em um tom nervoso
- Não fale assim comigo lobisomem. Não lhe dei tal liberdade – Snape rosnou
- Ele pelo menos lembra quem mais ou menos você é – Dumbledore comentou tentando evitar que Remus retribuísse o desaforo – E pelo jeito que me olhou deve lembrar quem eu sou.
- Seja lá em qual dimensão ou maldição eu esteja, eu sempre saberei quem é o senhor – Severo falou com um desdém seco na voz. Não queria aquele teatro, queria saír daquilo - O que está acontecendo aqui? É pra onde os corpos de gente morta vão? Porque por enquanto eu só vi gente morta, por sinal Lupin soube que você morreu horas antes do que eu.
- Então quer dizer que nos seus sonhos eu, Remus, Lily e Emma estamos mortos?
- Eu nunca vi aquela mulher na minha vida, mas sim vocês estão mortos. E eu também e talvez ou eu esteja sendo amaldiçoado neste exato momento por conta do seu plano ou estamos todos juntos presos a isso.
- Ou você resolveu usar uma poção que se quer estava pronta ou testada para amenizar suas depressões e sensações ruins e acabou caindo no seu pior pesadelo emitido pela sua mente – O lobisomem comentou de um jeito relutante e nervoso – Acho que a minha versão é mais relevante e real do que a sua.
- Vá pros infernos lobisomem – Severo o xingou – Por que não vai atrás dos seus amiguinhos para ver se eles estão ainda te chamando de traidor?
Remus riu para o desespero de Severo.
- A equipe medibruxa está certa – Dumbledore comentou desviando o olhar para Lupin – Severo alterou suas lembranças a partir da escola.
- Quanta estupidez em um só corpo – Remus suspirou balançando negativamente a cabeça – Você estava ficando bem novamente com a Lily, com o seu trabalho. Qual foi o seu problema?
- Não adianta – Dumbledore pausou Lupin – Ele acha que isso tudo é uma grande maldição. Lupin, vai ver se Lily e sua mulher estão bem, me deixa conversar com ele.
Remus não respondeu ou se quer olhou novamente para Severo. Saiu do quarto e Snape sentiu um alivio. Estava sozinho com Dumbledore e ele explicaria exatamente o que estava acontecendo. Aquela história de poção não era sua história. Ele jamais faria algo daquele tipo.
- Agora me conte o que está acontecendo?
- O que o Remus disse é verdade. Você fez uma poção e um feitiço que se quer testou.
- Alvo...
- É a verdade – Dumbledore se sentou no pé da cama – Sinta a verdade. Não existe nada de mágico no que você está vivendo agora e sim no que estava no seu pesadelo. Perceba que lá devem existir coisas que você jamais faria e de repente fez.
- Estou ficando louco – Severo suspirou
- Uma segunda chance não é nenhuma loucura – Dumbledore falou com um sorriso maroto.
Severo arregalou os olhos chocado com aquela informação. Sim, havia algo incomum em tudo aquilo e Dumbledore sabia.
- Você terá que conviver com Lily para os poucos recuperar sua memoria – O bruxo continuou – Ficar em repouso não adiantará muito, você terá que viver com sua filha, seus amigos e relembrar as coisas boas e ruins.
- E no que isso irá me levar?
- A um ponto crucial da sua vida. Onde tudo mudou – Dumbledore falou – Acha mesmo que sua vida seria um grande inferno? Eu sei recompensar as pessoas pelas benfeitorias.
- Eu não acredito em você. Há minutos atrás você disse que não havia nada de mágico aqui. Agora está me dizendo que sim, existe e que um homem morto sabe recompensar as pessoas pelas benfeitorias.
- Achei que fosse algo mais fácil de ser feito Severo. Me iludi achando que você se quer lembraria do que estava acontecendo até você parar aqui – Dumbledore falou preocupado.
- Como você está aqui? Você está morto – Severo pausou
- Não estou morto. Lily não está morta. Existe um jeito de mudar aquilo que você estava vivendo.
- A morte não tirou as ideias loucas da sua cabeça – Severo suspirou
- Se você está aqui é porque pedi para a menina Granger te trazer para cá com um vira tempo. O problema é que ele te trouxe não para os seus 11 anos e sim para os seus 30 anos. Em uma outra realidade, paralela, mas que pode ajudar todo mundo na realidade verdadeira.
- Você está ficando louco – Severo suspirou amedrontado.
- Não. Harry jamais conseguirá derrotar Voldemort. O único que pode mudar alguma coisa é você, o problema é que infelizmente você não veio na idade certa. Não se lembra das coisas que aconteceram e agora precisa recuperar o seu tempo perdido, suas lembranças e ainda descobrir exatamente qual ponto mudou sua história.
- Você está brincando comigo.
- Nunca falei mais sério. Hermione está te acompanhando. Espero que ela sobreviva. Quando você souber o exato momento que sua vida e a vida de Lily mudaram, ela te mandará para lá.
- Dumbledore – Severo tentou se levantar – Como sei que isso é tão verdadeiro assim? Como eu posso ser a peça chave para tudo isso? Lily nunca gostou de mim.
- Se você tivesse ficado com ela Harry jamais existiria. A profecia jamais existiria e Voldemort seria morto muito facilmente. Alias semana que vem é a festa de seis anos da morte de Voldemort. Acho que é um bom motivo para você começar a entrar nos eixos.
- Você ainda está morto?
- A morte é uma coisa muito relativa, mas Lily não está morta. Nem você. Nem sua filha, que é uma criança muito doce e cheia de astucia.
- O que eu devo fazer?
- O que os medibruxos pedirem. O que seu coração quiser, mas lembre-se Severo. Embora aqui pareça um sonho muito bom para você, você tem que encarar a realidade das coisas, embora isso seja uma loucura, em todos os mundos, vidas e até famílias existem as coisas boas e ruins. A vida te colocará em prova. Vamos ver se este amor todo era real ou apenas um sentimento de culpa – Dumbledore falou batendo a porta do quarto.
Severo olhou desacreditado de tudo que estava acontecendo. Tinha caído em mais um plano louco do diretor.
E aí? Gostaram do capítulo? Muito obrigada pelas reviews. Prometo atualizar rápido. Adoro ver o que vocês estão achando da fic.
