A Profecia Secreta de Valfodr
"Quando forjei o cosmos dos restos do vil Ymir, nem toda sua carcaça fora usada e nem todos os nove mundos estavam povoados. Foi quando criei, com a ajuda de meus irmãos e através dos restos do gigante, os álfar.
Os primogênitos, os álfar da luz, surgiram belos, alvos, brilhantes, festeiros. Ocuparam Álfheimr, e transformaram a mais bela terra em seu recanto, se pondo a estudar e observar com afinco as outras raças. Eram criaturas quase perfeitas. Eles possuem uma das maiores falhas que nós, os divinos, e qualquer outro clã possuí: o preconceito.
Os elfos da luz eram os favoritos dos deuses, eram os que mais se conectavam ao clã dos Vanir, os que mais se encontrava fonte de divertimento e sabedoria. Estudiosos, cultos, mas extremamente preconceituosos. Alguns, apenas ignoram e agem de forma indiferente às outras formas de vida de minha criação, outros realizavam o escárnio, viajando até Midgardr, pregando peças nos homens, matando seu gado, levando doenças e pestes. Os elfos da luz até mesmo expulsaram de suas terras seus irmãos, os elfos da escuridão.
O mais engraçado é que mesmo tentando aparentar superioridade acerca dos outros, os elfos foram facilmente dominados. Os homens aprenderam a capturá-los, aprenderam a invocá-los e obrigá-los a curar, caçar e usar sua magia contra eles. Os elfos se sentiram envergonhados, mas não perderam a compostura. Rotularam os homens como criaturas inferiores e se isolaram em seu próprio mundo.
O preconceito é uma falha. Nós, deuses, possuímos, os homens, os anões, os gigantes. Todos. Mas nenhum preconceito é maior que o dos elfos. E mesmo assim, lhes concedi a relíquia sagrada, e um elfo puro e alheio para com esse preconceito será digno de usá-la.
E colhemos o que plantamos."
Eco 04
Flashback! A Promessa do Príncipe Élfico!
Dia anterior.
Enquanto Hokuo estava adormecido, exausto após o confronto com o gigante Tarinyr, o Sr. Sakuraba mancava pelo asfalto, em direção à casa da frente, uma construção sem graça, antiga e aparentemente abandonada. Ele ignorou completamente a casa e contornou a cerca de madeira até o jardim de trás, onde havia uma longa mesa de pedra polida, presa ao chão por um pedestal de pedra rústica. Runas estavam marcadas por toda sua extensão e uma adaga afiadíssima, com o punho fino e revestido por um metal escuro, repousava em cima.
Sr. Sakuraba recolheu a adaga, se aproximou da porta de trás da casa antiga e a escancarou com violência. Por um segundo, ele não foi atropelado por um touro que saiu de seu confinamento como um jato, mesmo estando velho e cansado, abrindo caminho com os chifres pela já fraca e quebradiça estrutura da porta. Sakuraba apenas estalou os dedos e cordas surgiram entre as pernas do animal, fazendo-o cair ao chão. As cordas cresciam para os lados e, como serpentes famintas, envolveram o touro em um aperto violento.
– Animais… Nunca aprendem. – resmungou Sakuraba.
Com uma única mão, usando uma força irreal que seu corpo idoso não teria de forma alguma, o velho ergueu o pesado animal e o colocou calmamente em cima da mesa de pedra. Com calma e assoviando uma canção qualquer, Sakuraba ergueu a adaga e cortou o pescoço do touro com maestria cirúrgica. O sangue escorreu pela mesa, marcando a pedra polida e pintando as runas de vermelho carmesim.
Foi quando as runas começaram a brilhar com uma intensidade dourada que o alvo homem surgiu com um estalo violento, como se o próprio ar soubesse que aquela criatura não pertencia àquele lugar. Sakuraba virou-se para encarar o recém-chegado.
Ali estava um homem cerca de duas cabeças mais alto que o velho Sakuraba, usando uma espécie de longa saia branca, o peito nu, exibindo sua pele excessivamente branca. Os olhos eram verdes brilhantes, e os cabelos louros platinados e longos, caindo até a cintura, lisos. O topo de sua cabeça exibia uma estranha coroa feita de vários galhos secos e quebradiços, amarrados e exibindo esmeraldas brilhantes nas extremidades. Sua feição era séria, calma e fria, o nariz era alongado e fino, e as orelhas levemente pontudas.
– Você. – disse o elfo. Sua voz era calma, macia, mas o nojo era claro. – Figura asquerosa. Ousa me invocar com esse ritual antiquado e ainda neste local pútrido.
– Völundr, encantador como sempre. – respondeu Sakuraba empurrando o touro morto para fora da mesa de pedra e sentando-se nela, manchando a calça de sangue. – Dizem que a arrogância é um privilégio dos ricos e poderosos, e bem… Você não é nenhum dos dois.
– Sou o príncipe de meu povo. Rico. Poderoso. – respondeu o elfo, friamente. – Diferente de você, não acha? O excluído, o odiado… Pobre de riquezas, de espírito e de moral. Fraco, mas com sede de poder.
– Blá blá blá. Não me faça rir sua fadinha saltitante, sabe muito bem que pouco me importo com riquezas ou moral. – retrucou Sakuraba, seus olhos emitindo um leve brilho avermelhado. – E você é apenas uma mosquinha que caiu na minha teia de aranha, e vou devorar esse seu couro élfico entupido de talco se não fizer o que eu mandar. Estamos entendidos?
Völundr não aparentou se abalar, mas não respondeu.
– Estamos entendidos? – insistiu Sakuraba.
O elfo assentiu.
– Ótimo.
O velho se levantou, se espreguiçou e bocejou lentamente.
– Mandarei um amigo para Álfheimr e bem, quero que o proteja. Apresente seu mundo, mas não o deixe ficar confortável.
– Por amigo imagino que seja alguém que não sabe quem você é, ou o que você é. – disse Völundr.
– Menino esperto! – exclamou Sakuraba batendo palmas entusiasmadamente.
– Imagino também que não quer só hospedagem entre meus semelhantes.
– Exatamente. Quando ele chegar, vai ver que ele tem um… probleminha. Quero que não só você, mas todos da sua pequena tribo de fadinhas ignore isso. Entendeu? Não o cure em nenhuma hipótese, e não o deixe ter contato com qualquer outra tribo.
– Não curar alguém em nossos domínios é contra nossa natureza.
– Que se dane sua natureza! – gritou o velho. – Achei que sua natureza era ser bom, não acha? Ajudar os necessitados? Pois bem, eu estou com uma necessidade gigantesca presa nesse meu estômago velho, e vou largá-la em cima desse seu cabelinho louro se não fizer o que estou mandando!
Völundr novamente se calou.
– Quando ele chegar, quero que façam o pacote completo. Sejam frios, mesquinhos, preconceituosos, o que seja, mas ajam naturalmente. Com excessão, é claro, de curá-lo. – explicou Sakuraba. – Está tudo claro?
O elfo observou o velho pacientemente por alguns momentos e finalmente respondeu.
– Que algum dia você seja castigado por seus crimes contra a ordem natural do cosmos.
Sakuraba gargalhou, mas não soou como uma gargalhada normal. Parecia um som sibilante, uma mistura entre o silvo de uma serpente e o crepitar de uma fogueira.
– Como se eu não estivesse recebendo punimento o bastante! Estou tentando consertar as coisas. Não é como os humanos dizem? Que os deuses escrevem o certo por linhas tortas ou alguma outra besteira do tipo? Apenas faça sua parte e não será morto. É simples, fácil.
– Farei pois honrarei o maldito contrato cósmico de meu povo ao se submeter a esse ritual. Mas você deveria se lembrar. Não é um deus, nunca foi, e nunca será. Nas suas veias corre um líquido tão negro e podre quanto o que usou para me trazer aqui.
Com outro estalo, ainda maior que o primeiro, Völundr desapareceu no ar.
Sakuraba cuspiu no chão, onde o elfo estava um momento antes.
– Animais… Nunca aprendem.
Hokuo ouviu ruídos, trovões, gritos, lamentos, todo o tipo de som que se pode imaginar antes de ouvir música. Bela, rápida, animada, e mesmo cansado e no meio de um portal dimensional, a vontade de dançar era quase incontrolável. Foi quando caiu ao chão e sentiu o cheiro do orvalho na grama molhada, seus olhos estavam cegados por uma brilhante luz… e então a música parou, sendo substituída por gritos de susto. Hokuo só ouviu vozes, dezenas delas, discutindo em um idioma estranho, e sentiu um agradável cheiro de manteiga derretida.
Tentou reunir forças para se levantar, mas não conseguiu. A viagem aparentemente esgotara o pouco das forças que havia recuperado. Sentiu seu corpo ser levantado por mãos delicadas, e ser levado dali, os pés arrastando na grama, gritos e discussões explodiam ao seu redor. Ao mesmo tempo que as vozes silenciaram-se, sua visão voltou: não estava mais do lado de fora. Hokuo ainda tinha dificuldades em enxergar, mas conseguiu reconhecer um longo corredor de pedra, com um teto altíssimo e um chão irregular, iluminado por pequenas frestas nas paredes por onde luminosos raios de sol entravam. Dois homens louros o carregavam pelos braços, ambos usando apenas saiotes brancos e longos, tão brancos quanto suas peles. Levaram o garoto até o fim do corredor, onde havia uma porta dupla e, com dificuldade em continuar segurando o visitante, os homens abriram a porta.
O novo aposento era largo e oval, com um longo tapete verde adornado com símbolos curvos que Hokuo não reconhecia. Janelas com vitrais coloridos iluminavam e coloriam as paredes e o chão. No fundo, duas portas de madeira, à direita, dois lances de escada, um para cima e outro para baixo. Finalmente, ao fundo e no centro, sentado em um grande trono feito de vinhas, folhas, troncos e flores, estava outro homem de pele branca, orelhas pontudas, louro e de olhos esverdeados. Uma coroa de galhos, adornada com esmeraldas repousava em sua cabeça.
Völundr, o Príncipe dos Elfos, segurava uma maçã verde na mão direita e sua expressão séria, fria e calculista não mudou quando os guardas élficos que traziam Hokuo largaram o prisioneiro ao chão e protestaram em seu idioma. Ele escutou pacientemente e fez sinal para que parassem. Levantou-se.
O elfo se aproximou de Hokuo, que permanecia ao chão, ainda consciente, mas fraco. Estava deitado de costas para o chão. Seus olhos se encontraram.
– Durma. – disse Völundr.
Hokuo obedeceu.
