Burt já havia recebido alta, mas não havia saído do hospital. O velho homem estava no quarto de Kurt, esperando ele acordar já que o doutor havia falado que isso poderia acontecer a qualquer hora. Tudo o que o velho homem imaginava era um jeito de contar a Kurt que ele perdera sua visão.
– Ainda esperando? - Perguntou o Dr. Blaine entrando pela porta do quarto com um novo prontuário em mãos.
– Eu não vou sair daqui até ele acordar. - Burt soltou da mão do filho e se sentou na poltrona ao lado da cama, encarando o doutor. Ele sabia que não era sua culpa, mas precisava culpar alguém.
Kurt se encontrava deitado na cama, ainda com os curativos nos olhos, porém respirava sem a ajuda de aparelhos. Fazia três dias da cirurgia e ele já deveria ter acordado. Iria acontecer de uma hora para outra.
– Então não ficará muito tempo... - Disse o médico olhando Kurt se mexer um pouco na cama. Burt se levantou na hora, ainda cuidando com o o braço quebrado.
– Pai? - Kurt falou um pouco rouco.
– Estou aqui, filho. - Burt segurou sua mão. Kurt levou poucos minutos até se acostumar com a idéia de estar acordado.
– Dói tudo... - Ele sussurrou, e Burt apertou sua mão repetindo a frase de que estava ali. Kurt sorriu um pouco, porém voltou ao feitio triste ao sentir seu nariz doer. Levou sua mão até seu rosto e sentiu alguns curativos sob seus olhos. Pensou que seria esse o motivo de ver tudo preto.
– Estou num hospital? Pode tirar o curativo dos meus olhos?
Burt olhou para Blaine preocupado. Ele havia passado três dias ali naquele quarto tentando imaginar um jeito de contar para Kurt que ele não poderia voltar a enxergar. Burt ainda não tinha totalmente aceitado isso, imagine como Kurt ficaria ao saber.
– Pai? - Perguntou impaciente.
– Kurt... - Burt procurou palavras enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas, então olhou para o doutor, que entendeu. O recado deveria ser dado por ele.
– Senhor Hummel. - Blaine segurou a outra mão de Kurt. O castanho estranhou esse ato vindo de um estranho, porém não retirou a mão. - Eu sou o doutor Anderson e te acompanhei depois do acidente. Você se lembra dele?
– Lembro. Digo, foi muito rápido. - Os dedos de Blaine brincavam com o de Kurt, querendo fazer seu paciente se sentir confortável o suficiente para dar uma notícia de tamanha plenitude.
– Isso não é algo fácil de se dizer, então eu vou dizer de uma vez, ok? - Kurt assentiu com a cabeça, mesmo sendo difícil de se mexer. - Sua perna direita foi prensada por causa da batida, e você a quebrou.
– Ah... - Kurt demorou alguns segundos para entender a notícia.
– Seu nariz dói? - Blaine perguntou e Kurt assentiu. - Foi porque ele foi quase quebrado e tivemos que operá-lo. Sua respiração está normal, mas vai demorar algumas semanas para ele desinchar e parar de doer.
– Ok... - Kurt parecia atordoado com o que ouvia.
– E sobre os curativos em seus olhos... - Blaine olhou para Burt que chorava ao ver o filho naquele estado. - Eu vou tirá-los, tudo bem?
Kurt assentiu novamente com a cabeça e fechou seus olhos ao sentir a mão de Blaine sair da sua. Logo sentiu também os dedos do médico alcançarem seu rosto. Os esparadrapos foram tirados com calma e lentamente.
– E então? - Kurt perguntou impaciente.
– Eu já tirei... - Blaine voltou a segurar a mão do castanho, que agora estava com os olhos abertos. Seus olhos azuis se mexiam tentando procurar alguma imagem, mas isso não aconteceria. - Kurt... durante o acidente aconteceu uma coisa... Pedaços de vidros entraram em seus olhos...
Burt apertou a mão de Kurt, mostrando que ainda estava ali. Lágrimas rolavam pelo rosto do velho pai, assim também acontecia com o doutor. Não era uma notícia fácil de se dar.
– O quê? - Kurt se mexia, desesperado. Ele já imaginava o motivo de enxergar tudo preto, porém não queria acreditar nisso. Vidro nos olhos... Tudo fazia sentido.
– O vidro acabou arranhando e danificando sua córnea e não... - Blaine tirou sua mão da mão de Kurt para limpar uma lágrima que havia rolado em seu rosto, e depois voltou a segurar a mão do paciente. - E não há nada que possamos fazer.
– Pai? Pai! - Kurt quase gritava.
– Filho... - Burt tentava responder, mas sua voz estava fraca por causa do choro.
– Diga que é mentira, pai. Diga que é tudo uma pegadinha! - Lágrimas corriam agora pelo rosto do jovem Kurt. Aqueles olhos que um dia enxergaram, agora só serviam como nascente de um choro.
– Kurt, eu sinto muito... - Burt só conseguiu falar isso até começar a chorar de ver. O velho homem se debruçou sobre a cama, deitando sua cabeça no peito de Kurt enquanto o filho abraçava o pai, também chorando.
– Eu estou...
– Sim... - Blaine respondeu, imaginando o que Kurt perguntaria.
– Não há nada que possa ser feito? - Kurt chorava igual seu pai, mas tentava se manter forte. Ele odiava ter que consolar seu pai não podendo o olhar nos olhos e falar que está tudo bem. Ele odiaria acordar todos os dias daqui em diante e nunca mais enxergar nada.
– Infelizmente não. - O médico mordeu os lábios, tentando segurar o choro. Ele odiava seu trabalho por isso. Ele não conseguiria salvar a todos.
– Então saia! - Gritou Kurt, nervoso. - Você é um inútil! Vamos procurar outro médico!
– Senhor Hummel, eu...
– EU DISSE PARA SAIR! - Gritou.
Blaine abaixou a cabeça e resolveu seguir o que o garoto havia falado. Deixou o prontuário ao lado da cama de Kurt e levou até sua mão um fio com um interruptor na ponta.
– Se quiser chamar alguém, aperte esse botão. - Disse enquanto saía do quarto. A última coisa que o moreno ouviu foi Kurt começar a chorar e soluçar. Andou pelos corredores procurando algo para fazer, mas seus pensamentos não saíam daquele quarto. Blaine havia feito de tudo para conseguir fazer Kurt enxergar novamente, porém não conseguiu. Era totalmente injusto aquele garoto o odiar.
Ele realmente odiava seu emprego.
