Passado o cansaço da problemática semana com o Pirraça, Hermione decidiu que era hora de voltar a estudar. Era uma noite calma e silenciosa, perfeita para o intento da jovem grifinória. Na sala comunal privativa dos monitores-chefes, ela havia acabado de se sentar em uma grande escrivaninha de madeira. À sua volta havia livros e livros que ela poderia precisar, uma boa quantidade de pergaminhos em branco, penas novas em folha e uma grande caneca de chocolate quente providenciada pelo prestativo Dobby. Absolutamente satisfeita, Hermione suspirou e tomou seu lugar na confortável cadeira. A jovem pegou uma pena, molhou-a no tinteiro, e antes que a sequer encostasse no pergaminho, Blaise Zabini entrou subitamente na sala comunal.

Se o rapaz não estivesse bêbado até não poder mais, Hermione nem estranharia. Blaise não era um jovem nada discreto, sempre fazendo barulho e estardalhaço por onde ia. Mas, se é que era possível, naquela noite ele estava ainda mais feliz e deslumbrado com a vida.

- Miooone! – disse ele, mal conseguindo focar os olhos na colega de dormitório, balançando a garrafa de whisky.

Naquele momento, Hermione viu seu maravilhoso momento de dedicação aos estudos ir por água abaixo. Bufou, furiosa, e se levantou. Blaise havia se apoiado no espaldar de uma poltrona e parecia cochilar, mas acordou de repente e voltou a caminhar pelo aposento, rindo ruidosamente.

- Ok, Blaise. Me dê essa garrafa aqui.

- Miooone, você num pódi bebeeer! Você tem que estudá, passar em tôôdos os exames. Aqueles... como é o nome mesmo? Começa com T, né?

- São N.I.E.M.s, Blaise. E eu não vou beber. Na verdade, nem deveria estar dando papo para você. Agora, faça o que eu digo que vai ficar tudo bem, tá?

Enquanto falava, Hermione tirou da mão do rapaz a garrafa e passou o braço dele por cima de seus ombros, segurando-o pela cintura. Agüentando com certa dificuldade o peso do ex-jogador de quadribol, ela foi encaminhando-o para o quarto da Sonserina.

Logo que entrou no aposento, Hermione direcionou Blaise para o banheiro. Empurrou-o para debaixo do chuveiro e ligou de repente a água fria, deixando-o totalmente molhado, ainda vestindo a roupa.

- Ahh! Hermione! – Blaise tentou protestar, mas Hermione o manteve debaixo do jorro gélido de água. Depois de alguns minutos, ele pareceu se recuperar parcialmente do porre e sozinho conseguiu se desvencilhar dela, desligar o chuveiro e pular para fora do box.

- Uma... toalha... por favor... – murmurou ele, tremendo violentamente.

- Aqui. Pronto, fique bem enrolado. Está se sentindo bem, Blaise?

- Se a sua pergunta é se ainda estou bêbado, pode ter certeza que não. Mas isso não significa que estou me sentindo bem. – resmungou ele.

- Ótimo. Eu vou te deixar aqui, vista roupas secas e depois me chame.

Hermione ia saindo quando a voz de Blaise se fez ouvir do banheiro.

- Não que eu esteja reclamando, mas eu não preciso de babá.

A jovem grifinória arqueou a sobrancelha.

- Eu acho que, depois dessa, talvez você precise.

Dito isso Hermione saiu, e Blaise sorriu fracamente.


Hermione nem chegou a se sentar em sua escrivaninha quando Blaise apareceu na sala comunal, caminhando meio cambaleante. Vestira uma calça jeans e uma blusa de mangas compridas, não tinha nada nos pés além de meias e o cabelo muito negro continuava encharcado.

- Assim você vai pegar um resfriado, Blaise.

Em passos rápidos, Hermione foi até seu quarto e de lá veio com uma toalha de rosto nas mãos, sendo observada pelo sonserino.

- Sente-se aí. – disse ela, indicando uma poltrona. Blaise a obedeceu prontamente e ela se pôs e secar as mechas lisas dele com a toalha. – Você está se sentindo bem?

- Como assim?

- Bom, eu já vi pessoas bêbadas. Em teoria, você deveria estar com uma enxaqueca das boas, gosto de cabo de guarda-chuva na boca, vomitando e querendo morrer.

Blaise sorriu.

- A sua ducha congelante serviu pelo menos para isso. Acho que todo esse sofrimento vai vir amanhã, quando eu acordar. Por hora, estou bem.

Os dois ficaram em silêncio por alguns momentos, enquanto Hermione secava os cabelos de Blaise.

- Você já ficou bêbada, Hermione?

- Não. Já bebi, mas nunca ao ponto de ficar bêbada. Costumo evitar isso ao máximo.

- Por quê? – perguntou Blaise, levantando ligeiramente a cabeça para poder fitar Hermione.

- Não gosto de idéia de perder o controle. Quando se está bêbado, você faz coisas que nunca faria em público, diz coisas que nunca diria em voz alta. Essa sensação não me agrada, sabe? Me deixa desconfortável.

Blaise pareceu refletir um pouco antes de responder à fala de Hermione.

- Eu poderia te dar uma infinidade de conselhos aqui, mas tenho quase certeza que você já os ouviu de muita gente. E isso é algo que você é, que só vai mudar quando você quiser. Mas, quando quiser enlouquecer um pouquinho, pode crer que eu estarei aqui.

Hermione sorriu.

- Eu agradeço, Blaise. Pelo respeito e pela oferta.

- Sempre à disposição, lady Granger.

- Bom, acho que seu cabelo já está seco o suficiente. Ainda está meio úmido, mas já tira o risco de você pegar um resfriado. Agora vá descansar.

A grifinória deixou a toalha num canto e foi até a escrivaninha. Passou os olhos pelas pilhas de livros e pergaminhos, pensando seriamente se aquilo não poderia ser feito amanhã.

- Eu acho, - disse Blaise logo atrás dela, assustando-a levemente. – que você pode esquecer tudo isso aí e ir descansar também.

- Mas os N.I.E.M.s...

- Eu acho que apenas um dia não vai fazer muita diferença na sua pontuação dos N.I.E.M.s, Hermione. Anda, vai dormir.

Blaise pegou a caneca de chocolate quente com a mão direita e passou seu braço esquerdo pelos ombros de Hermione, direcionando-a para o dormitório da Grifinória. Hermione não pôde deixar de achar a situação engraçada, já que há alguns minutos atrás era ela quem estava cuidando do rapaz. E havia também aquela proximidade intrigante que a jovem achava... confortável.

- Beba o chocolate, se aqueça bem debaixo das cobertas e não dê atenção aos barulhos de gente vomitando que você poderá ouvir pela manhã.

A jovem grifinória sorriu.

- Se precisar de alguma coisa, é só me chamar.

- Sim senhora. Boa noite, Hermione.

A garota entrou no quarto e, pousando a caneca na mesa-de-cabeceira, entrou debaixo das grossas cobertas. Sorvendo o chocolate quente em gole pequenos, ela pôs-se a pensar no que havia acontecido poucos minutos atrás. No começo, ela e Zabini viviam brigando apenas porque Hermione não facilitava. Tinha na cabeça aquela imagem de que "todo sonserino é ruim, seja má com eles" e acabou cega quanto ao fato de que Blaise Zabini podia ser, afinal, uma boa pessoa. Na verdade, uma das poucas que não queria mudá-la, que não passava o tempo todo insistindo para que ela saísse mais e se "divertisse". Ninguém entendia que Hermione ficava realmente feliz quando podia estudar. Aquilo a fazia se sentir uma pessoa melhor, alguém que realmente batalhava por seu futuro. Mas constantemente ela se sentia uma aberração por não ter interesse em se embebedar e fazer festas por aí, e sempre tinha a sensação de que ela era a errada, a bizarra.

Mas, estranhamente, com Blaise ela não se sentia assim. Ele não agia de modo a deixá-la desconfortável consigo mesma, embora estivesse sempre freqüentando festas. E ele não a condenava, até a admirava, causando em Hermione uma sensação de bem-estar próprio que para ela era muito incomum.

Hermione suspirou. Blaise estava, aos poucos, conseguindo quebrar a muralha que Hermione Granger havia erguido em torno de si própria. E por mais que ela se sentisse confortável com ele, a idéia de que Zabini um dia ia conseguir alcançá-la e conseqüentemente ter o poder de feri-la não a agradava nem um pouco.


Blaise acordou cedo na manhã seguinte, mas apenas para correr para o banheiro várias e várias vezes, amaldiçoando céu, terra e o inventor do whisky. Como era domingo, o rapaz sabia que Hermione estava em algum lugar do dormitório, provavelmente estudando. Mas ele mesmo dissera à grifinória para ignorá-lo, então não podia reclamar. Porém, que ele achava estranho a tão prestativa Hermione da noite anterior sequer perguntar a ele se estava bem nesta manhã, isso ele achava.

Depois de tomar uma poção que ele guardava no fundo da mala justamente para esse tipo de situação, o rapaz sonserino se sentiu bem melhor. Tomou um banho e saiu para a sala comunal, onde encontrou sua companheira de dormitório estudando à beira da janela, que exibia um tempo chuvoso lá fora.

- Bom dia, Hermione.

- Bom dia, Zabini.

Blaise enrugou a testa. "Zabini"?

- Achei que já havíamos superado essa fase de tratar um ao outro pelo sobrenome.

- É, você achou. – respondeu ela, sem desviar os olhos do livro em nenhum momento.

Blaise ficou em silêncio por alguns minutos, finalmente convencendo-se de que havia algo errado. Alguma coisa havia acontecido, mas por hora ele ia esperar que Hermione contasse a ele.

O que, no presente momento, ela não parecia nem um pouco inclinada a fazer.

- O que está estudando? – perguntou ele, agoniado com o silêncio que se instalara.

- Algo que eu não vou conseguir assimilar se você continuar me desconcentrando, Zabini.

- Ok, desculpe.

Aquela situação era muito esquisita. Blaise não tinha idéia do que poderia ter irritado tanto Hermione, mas estava com certo medo de perguntar. Decidiu se afastar um pouco, deixar a garota esfriar a cabeça.

- Eu vou... dar uma volta.

- Tanto faz.

"Ok", pensou Zabini. "Agora está começando a incomodar".


Blaise saiu a caminhar pelo castelo, parando poucas vezes para cumprimentar um amigo. Ele havia se afastado de seus amigos antigos, mas isso para os setimanistas era completamente normal. A grande maioria deles decidia deixar de lado a vida social no sétimo ano e concentrar-se apenas nos estudos, então ninguém exigia de outra pessoa a companhia constante que normalmente se tem nos anos anteriores. Assim, Blaise fez seu passeio sem ser interrompido a não ser por ocasionais cumprimentos, e pensava sem parar no comportamento estranho de Hermione.

Ela estava com um problema, isso era fato. Mas Blaise não tinha idéia do que poderia ter acontecido entre o horário tarde da noite em que ele chegou da festa e de manhã cedo. Só podia ter sido algo que Hermione havia refletido sozinha. Uma conclusão que tirou, talvez. Mas o quê, Blaise não fazia nem idéia.

Afinal, o rapaz decidiu esperar para ver o que acontecia quando voltasse. Ela com certeza estaria melhor depois de um tempo na companhia apenas de seus livros, e Blaise ficou satisfeito com sua idéia. Esperar para ver.


O sonserino passou o dia inteiro fora, pondo conversas em dia com antigos amigos. No caminho de volta para o dormitório dos monitores-chefes, passou na cozinha e arranjou duas canecas de chocolate quente. Entrou pelo quadro da bruxa assustada e varreu com os olhos a sala comunal. Como de costume, ali estava Hermione, estudando na escrivaninha que tomara para si. A jovem parecia não ter saído dali durante todo o dia, visto que tinha olheiras abaixo dos olhos e uma expressão cansada no rosto.

- Você não acha que já estudou demais? – disse ele, dando seu melhor sorriso e depositando a caneca na escrivaninha.

- Zabini, ao contrário de você, eu me importo com as minhas notas. E, se você não se lembra, ontem à noite eu não tive a chance de estudar.

Blaise suspirou e pousou sua caneca numa mesinha de canto. Puxou uma cadeira para perto da de Hermione e se sentou, olhando-a nos olhos.

- Ah sim, eu me lembro que você não teve a chance de estudar. Sabe do que mais eu me lembro de ontem à noite? Eu lembro de você cuidando de mim quando eu cheguei da festa bêbado, e se preocupando comigo. – Hermione fez menção de falar, mas Blaise continuou. – Vamos mais longe. Eu lembro dos últimos meses, em que nós dois nos demos muito bem e estávamos de fato nos tornando amigos. Eu descobri que você era uma pessoa muito legal e adorava ficar na sua companhia. Lembro de nós dois cuidando um do outro, já que nesse sétimo ano fica cada um por si. Agora, a questão é: você se lembra disso?

Hermione mordeu o lábio inferior, sem resposta. Ela se lembrava disso tudo. Mas nas últimas horas seu instinto a mandava se afastar de Blaise, como um método de defesa. O problema é que Hermione não contava com essa mágoa de Blaise. Para ela, o rapaz a considerava apenas mais uma amiga dentre muitas.

- Então, - continuou Blaise, vendo que Hermione não ia se manifestar. – vai me dizer o que está acontecendo?

A grifinória avaliou a pergunta que Blaise lhe fazia. Ela podia continuar afastando-o, algo que apenas o magoaria por ora mas que ele ia superar rapidamente e arranjar outros amigos. Ou ela podia baixar a guarda totalmente e deixar na mão do destino, correndo sério risco de se ligar a ele e acabar machucada no final. Sem olhá-lo nos olhos, Hermione respondeu:

- Até onde eu sei, isso não é da sua conta, Zabini. E se o que você queria era arruinar mais um dia de estudos meu, parabéns. Você conseguiu.

Dizendo isso, Hermione se levantou e foi para o quarto, deixando para trás um Blaise pego de surpresa.


Nos dias que se passaram, Hermione e Blaise não trocaram mais que cinco palavras. Hermione o evitava a todo custo e não dava brechas para que o rapaz se aproximasse. Blaise, por sua vez, estava chateado e não tinha estômago para levar mais uma patada da jovem. Quando o horário de estudos dos dois coincidia, ficava cada um no seu canto da sala, evitando até o contato visual.

Depois de uma semana, Blaise já não agüentava mais. Contra a sua própria vontade, ele havia se afeiçoado a Hermione, mais do que ela imaginava. Lhe doía fundo o fato de não ter mais a companheira de dormitório que acabara se tornando sua única amiga naquele sétimo ano duro. Numa tarde, vendo Hermione se preparar para estudar, Blaise recolheu seus materiais e foi saindo da sala comunal, já sem vontade de agüentar aqueles momentos tensos em que os dois estudavam juntos e não trocavam uma só palavra. Mas, quando cruzou a passagem do quadro, viu chegando Harry Potter e Rony Weasley. Zabini, sentindo que se ficasse ali por mais um segundo ia acabar se metendo em briga, tentou desaparecer o mais rápido que pôde. Antes, porém, que fizesse a curva do corredor, ouviu a voz de Weasley chamando-o.

- Ei, Zabini.

Blaise suspirou e virou-se. Os dois se aproximaram e o encararam de maneira hostil.

- Pois não, Weasley?

- Eu quero saber o que você anda fazendo com a Hermione.

Blaise estreitou os olhos.

- O que EU ando fazendo com a Hermione? Por quê?

- Ela anda comendo pouco, quase não fala e está triste o tempo todo. Diga, o que você fez?

- Eu não fiz nada, tá legal? Foi ela que, do nada, resolveu se afastar de mim e quando eu tento me aproximar, me trata com grosseria. Eu achei que fosse algum problema com vocês.

- Não, não é. – respondeu Potter, trocando um olhar com Weasley. – Hum... ela mencionou que vocês estavam se tornando amigos.

Blaise franziu o cenho.

- Sim, estávamos. Quando ela finalmente se convenceu de que alguns sonserinos não são maldosos e cruéis, a gente se deu muito bem. Isso foi até a noite em que eu voltei bêbado para o dormitório e ela cuidou de mim. Na manhã seguinte, ela já estava agindo totalmente diferente.

Potter e Weasley trocaram olhares novamente.

- Hum... certo. Foi mal, acho você não fez nada mesmo. A gente se vê, Zabini.

Os três rapazes se despediram com um aceno frio e foram em direções opostas.


Assim que Zabini fez a curva do corredor e desapareceu, Harry e Rony entraram na sala comunal usando a informação que Hermione lhes dera para entrar. A jovem estava sentada em uma das poltronas de frente para a lareira, concentrada no fogo crepitante e absorta em pensamentos. Os dois rapazes se aproximaram e sentaram-se perto da amiga.

- Olá, meninos.

- Olá, Mione. – disseram os dois, quase em uníssono. Hermione de pronto notou os sorrisos sugestivos que os dois tinham no rosto.

- Harry, Rony... está tudo bem? – perguntou ela, intrigada.

Harry suspirou.

- Mione, você sabe me dizer há quanto tempo nos conhece? – perguntou ele, fingindo estar distraído com um fiapo solto do estofado da poltrona que ocupava.

- Sete anos.

- Sete anos. E, levando em conta este espaço de tempo considerável, você diria que nós te conhecemos bem? – Harry voltou a perguntar, olhando-a nos olhos com a mesma expressão sugestiva.

- Até demais. Mas aonde você quer...

- Calma, siga o meu raciocínio. Então tá, você concorda que com todos esses anos de amizade, nós dois podemos afirmar que te conhecemos muito bem. Agora, você diria que há coisas que nós conhecemos em você que nem você conhece?

Hermione franziu o cenho.

- Talvez. Quer dizer, é comum termos características que a princípio só as outras pessoas percebem.

- Perfeito. Mantenha esse pensamento, ok? Agora vamos por outra linha.

- Harry, o que significa...

- Calma, Mione. Já estou chegando lá. – ele voltou a fingir distração, dessa vez mexendo nos próprios dedos. – Quando estávamos quase entrando aqui, encontramos Blaise Zabini saindo. Você nos falou há um tempo que vocês dois estavam se dando muito bem como companheiros de dormitório. Está correto?

- Es-está. – respondeu Hermione, temerosa, sem saber aonde Harry queria chegar com aquela conversa.

- Mas olhe só que interessante. Nós conversamos um pouquinho com ele, e ele nos contou que há aproximadamente uma semana você resolveu ser grossa e cruel com ele. Eu fico imaginando o que foi que aconteceu. Você não fica, Rony?

- Fico sim. Porque, vamos ser sinceros, isso é muito intrigante. Uma hora vocês estavam se dando muito bem, e na outra você, Hermione, muda completamente de comportamento.

Hermione ficou muda, esperando para ver o que viria a seguir.

- Agora, você ainda lembra do primeiro tópico da conversa? – perguntou Harry, encarando-a.

- Lembro.

- Repita-o para nós.

Hermione franziu o cenho, achando aquilo tudo de uma estranheza sem fim.

- Basicamente, vocês dois estavam dizendo que me conhecem mais do que eu mesma. E eu concordo, em parte.

- Ótimo. Então, eu e Harry estávamos conversando há uns dias atrás e comentamos sobre um defeito seu. – disse Rony.

- Defeito? – perguntou Hermione, arqueando a sobrancelha.

- Sim, defeito. – repetiu o ruivo. - Sabe, quando nos últimos anos você começou a sair com alguns caras e a gostar de outros, nós dois percebemos algo. Hermione, você tem um forte instinto de auto-preservação. Você ergue uma muralha em torno de si mesma, e aqueles que você acha que podem realmente atingir seu coração não conseguem passar. Conosco não houve dificuldade porque nós sempre fomos amigos, desde o começo, e nunca houve segundas intenções conosco. Sempre fomos irmãos. – Rony fez uma pausa e passou a mão nos cabelos. – Mas com os seus pretendentes era diferente, você os bloqueava no instante em que achava que poderia realmente se ligar a eles. Foi por isso que você nunca namorou ninguém e nunca saiu ferida de uma relação.

Hermione engoliu em seco. Já tinha suspeitas de onde os dois queriam chegar.

- Aí você ficou um tempo sem ninguém e então apareceu Zabini. E você viu que ele é um cara legal. E depois, você viu que ele gostava de você. – Rony fitou Hermione no fundo dos olhos. – Aí você percebeu que estava se apaixonando por ele.

A boca de Hermione caiu.

- O quê...? Meninos! Não! Mas... não, de jeito nenhum. Não mesmo. Quer dizer... não, né? Puff, óbvio que não. Isso é... não, de maneira alguma. Não. NÃO.

Hermione levantou os olhos para os dois rapazes, e viu que eles a fitavam meio risonhos.

- Harry, Rony... isso não tem cabimen...

- Hermione, você se ouviu agora há pouco? Chegou a ser ridícula essa sua tentativa de negar. Você não tem mais escapatória, Mione. Você está apaixonada por Blaise Zabini.

Hermione levantou-se da poltrona num rompante. Fez menção de negar, mas pareceu pensar um pouco, para logo depois tentar negar de novo, até abaixar os ombros em desistência. Isso tudo sem dar uma palavra. Encarou os dois furiosa.

- Não nos olhe assim. Você discorda? Então diga em voz alta que você não está apaixonada pelo Zabini.

Hermione abriu a boca, mas de lá não saiu som algum. Por fim, desistiu e abaixou a cabeça.

- Eu estraguei tudo, né? – disse ela depois de um tempo, voltando a olhar para os dois amigos.

- Hum... é. Mas ainda dá para consertar.

- Como vocês sabem? Ele vive rodeado de garotas lindas e todos os amigos que ele precisa. Ele só era meu amigo por uma questão de conveniência, e era esse o meu medo. Deixar ele se aproximar para depois terminar apaixonada e abandonada.

Harry e Rony a fitaram por vários minutos, até que o ruivo indicou com a mão o lugar vago ao seu lado no sofá. Hermione o obedeceu, desanimada. Rony apoiou os cotovelos nos joelhos, entrelaçando os dedos das mãos. Fitou Hermione carinhosamente e perguntou, num murmúrio:

- Porque esse medo tão grande de se ferir, Mione? – No rosto de Rony estavam estampadas a intensa preocupação que ele tinha com a amiga e a tristeza por saber que Hermione sofrera e ele não percebeu. – Quando foi que te machucaram assim?

- Eu já levei muitos tombos na vida, Rony. Muita gente já me feriu.

Harry se levantou de sua poltrona e sentou-se no chão à frente de Hermione.

- E porque nunca nos falou nada?

- Achei que não tinha nada a ver contar para vocês, não sei. Vocês poderiam não entender.

- Eu sei que ter dois homens como seus melhores amigos às vezes é difícil para você, mas você não tem escolha, Mione. Guardar essas coisas para si mesma... é quase venenoso. – ele a empurrou levemente com o ombro, sorrindo. – E para provar que estamos aqui e nos importamos com você, vamos te ajudar com o Zabini. Mesmo que ele seja um sonserino.

- E já tenha sido amigo do Malfoy.

- E seja um sonserino.

Hermione sorriu.

- Você já falou isso, Rony.

- Eu sei, foi só para reforçar. – respondeu ele, sorrindo marotamente.

- Mas nós não vamos influir diretamente em nada, viu? Você vai ter que ter bagos o suficiente para fazer tudo sozinha. – acrescentou Harry.

- Sabe o que eu acho, sinceramente? Você não vai ter que se esforçar muito não, Mione. Peça desculpas a ele pelas grosserias que o coitado teve que ouvir na última semana, invente uma desculpa que faça sentido e fiquem amigos de novo. Daí em diante, a coisa vai fluir naturalmente.

Os dois rapazes foram se levantando para ir embora, enquanto Hermione falava.

- Eu gostaria de concordar com você, Rony, mas eu acho que nós vamos ficar amigos e vai parar por aí.

Rony parou a meio caminho da entrada e fitou Hermione.

- Mione, você sabe que nós somos irmãos, não é?

- Sei sim.

- Ótimo, então não fique escandalizada com o que eu vou dizer a seguir. – ele parou e lhe deu um olhar maroto. – Analisando bem a pessoa que você se tornou e o corpo que você adquiriu nesses últimos anos, eu acho difícil Zabini conseguir evitar um pensamento sequer envolvendo você, ele e um canto escuro.

Dizendo isso, Rony virou as costas e saiu da sala, deixando Hermione boquiaberta. Harry ficou um pouco para trás e quando a amiga levantou as sobrancelhas para ele, o rapaz apenas deu um sorriso, piscou para Hermione e saiu da sala também.