4º Capítulo: Maria

Eu estava no mar, as ondas me encobriam, não conseguia respirar e ao fundo uma cidade surgia.

Acordei assustada, esses pesadelos estavam me atormentando. Desci até a cozinha para beber um copo de água e de repente ouvi um barulho. Peguei o castiçal que estava sobre a mesa e fui investigar o que estava acontecendo. Silenciosamente entrei na sala, o som estava mais nítido, era uma discussão, então resolvi ir até a janela para espiar melhor.

Fiquei surpresa, lá estava Gabriel discutindo com um homem alto, cabelos pretos e um suéter escuro.

- Ele está se arriscando demais. - Disse o homem em inglês.

- Isso é preocupante, o encontrem imediatamente. - falou Gabriel.

Ele percebeu que me encontrava na janela, então fez um sinal para o homem, que entrou no carro e desapareceu.

Gabriel entrou na casa direto ao meu encontro.

- O que aconteceu?- perguntei.

- Por que você está acordada?Está se sentindo bem?- perguntou ele nervoso e preocupado.

- Estou bem. Eu fui até a cozinha pegar um copo de água quando ouvi um barulho e fui me certificar o que era. O que aconteceu? Quem era aquele homem?- perguntei novamente largando o castiçal sobre uma pequena mesa de vidro que havia no centro da sala.

- Ah, me desculpe ter assustado você. Aquele homem é um cliente. Amanhã será a audiência dele e estava preocupado com alguns detalhes do processo. - explicou ele.

- Mas essa hora da noite?- questionei.

- Eu disse a ele que poderia passar aqui a qualquer horário. O caso dele é complicado, não dorme de tanta preocupação. Desculpe-me mais uma vez. – disse me abraçando, eu estava mais tranqüila com aquele abraço.

- Tudo bem, eu te perdô- disse lhe dando um sorriso - Agora irei voltar para minha cama, boa noite!

- Boa noite! E se prepare, pois amanhã você terá que assinar muitos papéis.

- Ok, boa noite!

Voltei para o meu quarto e percebi um papel que estava saindo do bolso da minha calça.

"Para minha querida sobrinha Ana Eliza, a minha borboleta"

Abri-o e retirei a carta.

"Londres, 20 de maio de 2009.

Querida sobrinha Ana,

No momento em que você ler está carta provavelmente não estarei presente. Espero estar em um lugar melhor, onde os defeitos da humanidade não existam e que os valores e sentimentos mais puros sobrevivam.

Queria me desculpar por minha ausência em sua e na vida de seu pai, sinto muito por todos esses anos. Com minha doença me tornei uma pessoa melhor, percebi o quanto fui egoísta e isso me dói por dentro. Não fui um bom pai para Eurim, reconheço,mas ele me magoou, destruiu-me e não posso redimir perante esse fato. Espero que ele tenha se recuperado.

Espero que você seja feliz e utilize de uma boa maneira o presente que lhe deixei.

' Precipitado o homem tomba nas próprias armadilhas. Paciente soluciona todos os enigmas'. Em toda sua vida seja paciente. Espero que você me perdoe por todos os meus erros, assim dormirei em paz.

Carinhosamente,

Benedito."

- Aceito suas desculpas tio.E espero que você e o meu pai estejam em um lugar muito melhor que esse. - disse comigo.

Coloquei a carta novamente no envelope e a guardei em minha bolsa.

Acordei com a luz do sol ofuscando diretamente em meus olhos. O dia estava frio, porém o céu estava azul e límpido. Levantei da cama, coloquei meu roupão e fui até a sacada deslumbrar a paisagem.

- Oh, que gracinha!

Sobre uma mesa, que havia na varanda, um lindo e apetitoso café da manhã me esperava e com ele um pequeno bilhete.

", desculpe-me por ontem. Encontro com você no meu escritório. Maria, a diarista, chamará um taxi para você. Espero que goste do café.

OBS: Não fui eu quem preparou. "

Na mesa havia café, suco de laranja, bolo de fubá, biscoitos de polvilho, pão de queijo e uma salada de frutas.

- Meu Deus, como ele conseguiu esses quitutes mineiros em Londres? – disse baixinho.

Fazia muito tempo que eu não comia pão de queijo, estava tudo delicioso, até que alguém bateu na porta.

- Pode entrar- eu disse.

Na porta do quarto surgiu uma mulher pequenina e gorda, já com uma considerável idade.

-Bom dia senhorita Eliza! Espero que tenha gostado do café da manhã- disse ela entrando no quarto e se encaminhando até a sacada.

- Bom dia! Estava uma delícia Maria!Imaginei que você o tinha feito. A janta também estava muito gostosa! Você é mineira?- perguntei.

- Eu que cuidava de seu pai e do seu tio Bem em Mariana. Depois que você nasceu eu vim para cá trabalhar. Há alguns anos encontrei com o seu tio aqui e cuido da casa até hoje. Mas como você está bonita! E o seu pai como ele está?- perguntou ela.

- Infelizmente ele faleceu, houve um acidente e ele não resistiu.

Ela ficou calada por um tempo e uma lágrima escorreu.

- Eu sinto muito. Vou recolher o café e já chamarei um taxi para você. - disse ela com um olhar triste.

- Vou tomar um banho e já estarei pronta.

Tomei um rápido banho, coloquei uma roupa e desci para esperar o táxi. Na sala encontrei com Maria.

- Que vestido lindo Eliza! O táxi já chegou leve essa máquina, Gabriel me disse que irá passear com você hoje – ela disse me entregando a máquina fotográfica.

- Obrigada Maria! Até.

- Vá com Deus!

Sai de casa e entrei no carro. Passamos por algumas ruas residências até chegar ao centro de Londres. O táxi parou em frente a um moderno edifício com aproximadamente quinze andares.

- Chegamos. O Doutor Gabriel já me pagou a corrida, o escritório se localiza no décimo andar- disse o motorista em inglês.

Pela primeira vez depois de tantos anos de aula de inglês finalmente percebi que valeram à pena.

- Tudo bem, obrigada- eu disse saindo do carro.

O saguão de entrada era amplo, nas paredes havia grandes espelhos e quatro elevadores. Eu e mais três pessoas entramos no elevador, o botão do décimo andar já estava acionado. Então um homem de cabelos grisalhos que estava ao meu lado perguntou-me.

- Você é Ana Eliza?

- Sim- eu disse um pouco assustada.

- Prazer, sou Willian, trabalho junto com o Gabriel, ele me disse que você iria vir. - disse ele estendendo sua mão.

- Prazer. - retribui o cumprimento.

Então a porta do elevador se abriu. Andei até um corredor e a frente um grande escritório surgiu.

- Por aqui- disse Willian.

No hall de entrada havia três sofás vermelhos, uma TV, uma máquina de café e água.

- Espere aqui, vou comunicar Gabriel que você chegou.

- Tudo bem.

Depois de alguns minutos Gabriel apareceu sorridente.

- Bom dia senhorita Eliza! O café estava bom?- disse me cumprimentando.

- Bom dia! Muito obrigada pelo café, realmente não precisava de tanto - eu disse lhe devolvendo o perto de mão.

- Vamos até minha sala, os papeis já estão todos preparados.

Acompanhei-o até sua sala. Ela era simples, no centro havia uma mesa com duas cadeiras e grandes janelas encobriam a parede. Um sofá e um pequeno armário estavam no canto do cômodo.

- Sente-se. - disse ele puxando a cadeira para mim e se sentando no acento oposto.

"Aqui está o testamento .Ele lhe deixou a casa, o baú e toda sua biblioteca particular. Suas economias resultam em uma quantia de cem mil libras esterlinas, esse dinheiro será passado para sua conta particular"

- Nossa não esperava por isso!- disse assustada, nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida.

- Agora é só você assinar esse papeis que tudo estará acertado. - disse ele me dando uma caneta e os documentos.

- Se você não se importa, eu irei ler antes de assinar. – eu disse ao pegar os papeis.

- Claro! Fique a vontade, enquanto isso vou pegar um café para nós!- disse ele se levantando e saindo da sala.

Já tinha lido documentos desse tipo, conseguia entender claramente seus dizeres. Apesar da morte de tio Bem ter sido um momento triste, eu estava muito feliz pelos "presentes", como ele mesmo havia dito.

Algum tempo depois Gabriel entrou na sala trazendo duas xícaras de café.

- Daqui alguns dias eu trarei a escritura da casa. - ele disse entregando a xícara de café.

- Obrigada, tudo bem.

Ficamos até a hora do almoço analisando inventário e assinando alguns papeis.

- Graças a deus terminamos!- minhas mãos estavam muito doloridas.

- Eu te avisei que seriam muitos papeis, vamos almoçar. Levarei você em um excelente restaurante.

O Dia estava lindo e ótimo para passear.