Capítulo 3

O silêncio caiu entre eles; tenso.

David não sabia, exatamente, o que esperar de Pierre naquele momento; sabia que o maior simplesmente não suportava a idéia de traição, não importando de qual tipo fosse. E, olhando para as íris castanhas sempre tão alegres, naquele momento apenas via decepção e dor. Uma mágoa que, obviamente, era enorme: e saber que, querendo ou não, era o responsável por aquela dor, lhe machucava mais do que qualquer coisa que Pierre pudesse vir a dizer.

Sabia que o marido estava tentando, em sua mente, achar uma explicação minimamente plausível para o que vira, não tendo sucesso em tal missão, já que obviamente estava mais perturbado com a idéia de que David pudesse ter-lhe, de fato, traído.

E David sabia que, para Pierre, esta era uma idéia, no mínimo, inconcebível, e o menor entendia isso: haviam passado por tantas dificuldades, principalmente David, para que conseguissem chegar onde estavam agora – casados há tanto tempo e sempre tão felizes, com tão poucas brigas -, que a idéia de simplesmente terminarem por causa de uma traição era praticamente ridícula.

-Não é óbvio para você, Bouvier? – a voz de Jack cortou o silêncio, desdenhosa, divertida, debochada; vitoriosa. – David e eu estávamos lembrando os velhos tempos.

David sentiu o ar se perder á caminho de seus pulmões ao ouvir tais palavras ousadas; os olhos se arregalaram, enquanto corriam até o homem loiro; os lábios se entreabram em completo choque: como, demônios, o filho de uma puta tinha coragem de dizer tal mentira? E a verbalizara da forma mais vil, mais cruel que poderia conseguir, fazendo com que a dor que David via nos olhos de Pierre apenas aumentar, apenas ficar em tal intensidade que chegava á ser praticamente palpável no ar.

-David? – a forma como seu nome fora pronunciado pelo marido; fria, distante... Derrotada; apenas fez com que David sentisse um nó se formar em sua garganta e os olhos arderem, indicando que não demoraria muito para que as lágrimas viessem; olhou para o mais velho, o qual lhe olhava de forma quase suplicante, como que implorando para que o mais novo apenas falasse o que sabia que o maior queria ouvir.

-Não foi nada disso, Pierre. – murmurou, a voz saindo trêmula; a risada sarcástica que Jack soltou apenas foi ignorada, enquanto castanhas prendiam-se em esverdeadas: uma conversa muda acontecendo entre ambos, onde toda a mágoa que um passava para o outro apenas aumentava a cada segundo mais; apenas fazia doer mais. Apenas aumentava a necessidade que sentiam de conversar, de esclarecerem tudo. – Eu juro. – completou, apenas.

O silêncio voltou a reinar; apenas mais tenso, apenas mais dolorido.

-Você não vai acreditar nisso, vai, Bouvier? – Jack perguntou, cruzando os braços em frente ao peito; David fechou os olhos e puxou o ar com força, implorando á todas as santidades que conhecia por paciência. – Você não é tolo á esse ponto.

-Cale a maldita boca, Turner. – David murmurou; o tom baixo e desprovido de qualquer emoção deixando os outros dois homens saberem que o promotor não estava disposto a suportar qualquer outra provocação; não aceitaria qualquer outra tentativa de colocarem a sua fidelidade ao marido em xeque. – Se você vai quer ficar falando merda, como sempre fez, sugiro que você apenas suma daqui.

Jack lhe encarou com uma sobrancelha erguida em deboche, antes de dar de ombros.

-Tudo bem. – deu de ombros, antes de voltar a olhar para Pierre; a expressão debochada apenas se intensificando. – Pense bem, Bouvier: será mesmo que David lhe é tão fiel assim? – rindo, girou sobre os calcanhares, caminhando na direção onde as outras pessoas estavam, mas antes de sair completamente do cômodo, deixou uma frase no ar: - A gente se vê... Pequeno.

Quando ele finalmente saiu, o silêncio voltou a reinar; olhos fixos, expressando toda a dor que sentiam: Pierre pela incerteza do que havia acontecido e David por saber que, sendo sua culpa ou não, o havia ferido. E muito.

-Não foi minha culpa. – David murmurou, por fim, quebrando o silêncio desconfortável. – Eu sei que é idiota dizer que não é o que você está pensando, mas não consigo pensar em nada mais verdadeiro para falar sobre isso, Pierre. Não é o que você está pensando.

Pierre suspirou pesadamente, de repete sentindo-se mais cansado do que realmente estava.

-O que aconteceu?

David puxou o ar com força, sabendo pelo tom de voz do outro que ele não acreditaria no que seria dito ali, mas sabendo que deveria falar, não importando o quanto conhecia o marido; não importando o quão clichê a verdade soasse.

-Ele me parou para conversar quando eu sai do banheiro... – começou, a voz saindo tão magoada quanto o próprio David se sentia. – Você sabe como eu sou, Pierre; eu simplesmente não consigo ser ríspido com os outros, se não tenho um motivo forte para isso. – Pierre concordou com um aceno de cabeça, dizendo que era para o marido continuar. – Eu tentei nos manter em uma conversa normal e, até mesmo, banal, mas Jack sempre dava um jeito de me colocar como assunto, de me elogiar, de me tocar... – passou uma mão pelos cabelos, bagunçando-os. – Quando o assunto finalmente acabou, eu disse que ia voltar para a mesa e que eu falava com ele depois, o que eu não pretendia fazer, de verdade...

Suspirou, sentindo-se realmente cansado: sabia que Pierre simplesmente não acreditaria; ao menos, não completamente. E seria capaz de jurar pelo que quisessem: se seu casamento fosse abalado por causa de Jack, seria capaz de revirar a vida desse grande idiota, de tal modo que achasse todo e qualquer podre que ele tivesse e faria questão de, com muito gosto, ferrá-lo.

-E...?

-E que ele me parou, falando um monte de ladainhas sobre me amar e sei lá mais o quê: eu fiquei surpreso, afinal ele nunca havia falado daquele modo comigo; e, quando ele percebeu que eu estava surpreso demais para perceber logo o que ele pretendia, ele apenas me agarrou. – fixou os olhos nos de Pierre, que permanecia com a expressão impassível. – Por favor, Pierre, você tem que acreditar... Eu não consegui me livrar dele.

Pierre suspirou pesadamente, passando uma mão pelo rosto, num gesto cansado, enquanto desviava o olhar, olhando para qualquer coisa naquela sala que não fosse David; pensava em tudo o que lhe fora dito, enquanto sua mente insistia em lhe mandar a cena de David sendo beijando por Jack para diante de seus olhos, apenas fazendo o nó em sua garganta aumentar mais e mais. Apenas fazendo toda a dor que sentia no peito aumentar.

Apenas fazendo as duvidas que, de repente, haviam surgido em sua mente, perguntando-se se David lhe era, realmente, fiel.
E tais pensamentos apenas faziam-lhe sentir-se ainda pior, pois sabia que David era a pessoa mais sincera de todas, quando se tratava de sentimentos: se o pequeno não estivesse mais feliz com aquele casamento, ele teria lhe dito; se o pequeno apenas não lhe amasse mais, haveria lhe dito.

E tal fato, misturado com o que acabara de ver e ouvir, apenas fez-lhe ficar confuso; apenas fez-lhe querer trancar-se em algum lugar e pensar, analisar tudo aquilo.

-Desculpe, David, mas eu... Apenas não consigo acreditar nisso. – murmurou, por fim, fazendo David mordiscar o lábio inferior, enquanto desviava as íris, as quais tinham um brilho á mais devido ás lágrimas que enchiam os olhos do mais novo.

E constatar tal fato apenas fez com que a dor de Pierre aumentasse.

-Eu... Te entendo, eu acho. – David murmurou, por fim, dando de ombros, num gesto sem jeito. – No seu lugar, eu provavelmente nem teria te dado chance de se explicar. – ele continuou, ainda sem coragem de voltar a encarar o mais velho. – Obrigado por me deixar me explicar.

Antes que Pierre pudesse falar qualquer coisa, a dona da casa entrou na sala, pedindo desculpas por interromper e, aproveitando a chance, Pierre perguntou-lhe se poderia usar o escritório de Melissa por um tempo, no que a mulher apenas concordou, distraída, antes de continuar seu caminho para mais fundo no interior da casa.

-Eu... Preciso pensar, David. – foi tudo o que Pierre disse, antes de sumir dentro do escritório de Melissa.

David suspirou pesadamente, permitindo que o corpo caísse sobre o sofá fofo; apoiou os cotovelos nos joelhos e escondeu as mãos no rosto, permitindo que algumas lágrimas escorressem.

Não sabia o que fazer, mas sabia de uma coisa: se não desse um jeito de provar á Pierre que tudo o que falara era verdade, seu casamento entraria na primeira crise realmente séria.

Flashback

-Bouvier! – a voz autoritária soou, no final do corredor, no devido tom que devia ser usado num hospital, contudo alto o bastante para que Pierre ouvisse e, franzindo o cenho, parasse de caminhar e girasse sobre os próprios calcanhares, apenas para deparar-se com a figura severa do pai de David.

Ergueu as sobrancelhas, surpreso.

-Senhor Desrosiers? – o homem mais velho apenas ergueu o queixo, caminhando os passos que os separavam.

-Eu quero saber onde meu filho está. – o médico tornou a erguer as sobrancelhas, enquanto colocava as mãos nos bolsos do jaleco.

-No momento? Na escola, onde o matriculou, suponho. A não ser que ele tenha decidido que seria legal matar aula. – deu de ombros e Andre cerrou os olhos.

-Não banque o engraçadinho. Eu quero saber onde meu filho tem dormido. – Pierre piscou, confuso. Não havia sido Andre que expulsara David de casa, por este ser homossexual? Louco; era isso o que o pai de David era. Completamente louco.

-Ele está passando um tempo comigo. – respondeu, por fim. – O senhor não prefere falar sobre isso em um local mais discreto? – Andre concordou com um aceno de cabeça e, em silêncio, caminharam até a sala de Pierre, o qual trancou a porta e indicou a cadeira em frente á sua mesa, onde o seu sogro sentou-se, enquanto os pequenos olhos castanho-verdes corriam por todos os lados.

Suspirando, Pierre caminhou até a mesa, escorando-se na borda, de modo que ficasse ao lado do homem mais velho; cruzou os braços em frente ao peito, esperando que ele continuasse.

-Vocês têm mantido relações sexuais? – Andre perguntou, enquanto os olhos pequenos corriam linha por linha dos vários diplomas que Pierre mantinha dispostos na parede do consultório.

O médio arregalou os olhos, surpreso por tal pergunta.

-Como?

-Você entendeu muito bem o que eu perguntei, Bouvier. – Andre disse, voltando a encarar Pierre. – Eu quero saber se você tem feito sexo com o meu filho.

Pierre suspirou, assumindo uma postura profissional: fria.

-Não, não temos. – respondeu, por fim. – David não está pronto pra dar esse passo, e eu respeito isso.

Andre cerrou os olhos, pensativo, enquanto analisava a expressão de Pierre.

-E como você pode saber se ele está pronto ou não? – Pierre girou os olhos mentalmente; não era minimamente confortável falar sobre isso com o pai do seu namorado, mas se isso ajudasse o homem mais velho a deixar de ser tão paranóico em se tratando do seu namoro com David, não se importaria de responder á nenhuma pergunta, por mais constrangedora que fosse.

Puxou o ar com força, controlando todo o constrangimento que sentia.

-Quase aconteceu. – respondeu, por fim. – Nos empolgamos um pouco; ele travou, eu perguntei qual era o problema e ele me disse. Satisfeito?

Andre puxou o ar com força, parecendo querer controlar-se; Pierre deu de ombros mentalmente: nunca fizera mal nenhum á David e realmente não entendia porque Andre lhe odiava tanto; apenas sabia que não via a mínima necessidade de tratar o outro com todo o respeito do mundo, levando em conta que este lhe desrespeitaria sem pestanejar.

-Você tem idéia do crime que está cometendo? – Andre ergueu-se, mostrando-se alguns poucos centímetros mais baixo que Pierre, o qual apenas franziu o cenho, debochado.

-Fazer uma pessoa feliz é crime? Não sabia dessa. – respondeu, apenas e Andre bufou.

-Pedofilia, Bouvier! É isso o que você está fazendo! – apontou um dedo em riste para o médico, que apenas inclinou um pouco o corpo para trás, para livrar-se do dedo do outro homem. – Você diz que vocês não fazem sexo, mas eu só acredito quando o meu filho for até a minha casa e me falar isso olhando nos meus olhos! – cuspia as palavras, como se fosse culpa de Pierre toda a desestrutura familiar pela qual passava. – Além de pedófilo, é seqüestrador!

Pierre riu. Riu não, gargalhou, a ponto de jogar a cabeça para trás. Andre apenas piscou, surpreso pela reação do outro.

Quando finalmente conseguiu se controlar, Pierre se desencostou da mesa, a expressão séria deixando claro que não gostara nem minimamente do que ouvira, mesmo tendo rido.

-Primeiro; se eu estou falando que não fazemos sexo, é porque não fazemos. É meio difícil o senhor saber mais da minha vida sexual do que eu! Segundo; até onde eu sei, foi o senhor mesmo quem disse que David estava expulso de casa, portanto, se o seu filho te odeia nesse momento, a culpa não é minha. Menos ainda, se ele quis ficar na minha casa, enquanto este problema não fosse resolvido. – agora, era a sua vez de apontar um dedo em riste para o outro homem. – Terceiro; eu acho bom você se entender com o seu filho, Desrosiers, porque David já está se sentindo mal de ficar na minha casa; está começando a achar que precisa me ajudar com contas e que está me dando trabalho. Que fique claro: ele não dá nenhum trabalho e não tem obrigação nenhuma em me ajudar. Eu não peguei o seu filho para criar, Desrosiers, nem ele aceitaria tal situação. – empurrou a ponta do seu dedo contra o peito do outro. – Resolva esta situação, que você mesmo criou, mas não venha me dizer que é pedofilia e seqüestro, okay?

Andre deu um tapa na mão de Pierre, que a afastou. O homem mais velho sorriu de forma cínica.

-O que um médico pode saber de leis? – deu de ombros. – Nada, suponho. Primeiro; eu posso acusá-lo de seqüestro: você podia muito bem ter convencido David a procurar outro lugar. Segundo; David tem dezesseis anos, você tem vinte e seis... Uma diferença dessa é considerada pedofilia.

Pierre suspirou, pressionando as pontas dos dedos contra as têmporas.

-Eu não faço nada que David não queira, está bem? Não é como se eu estivesse o obrigando a ficar comigo; não é como se eu houvesse o obrigado a aceitar ser meu namorado; não é como se eu houvesse dito á ele que queria que ele brigasse com o senhor, a ponto de ser expulso de casa. – suspirou, cansando de tanta bagunça. – Olhe, Desrosiers, David sempre me falou bem do senhor, mesmo depois de toda essa briga. Ele mesmo me disse que o senhor não é homofóbico.

-E não sou!

-Pois então! – exclamou. – Se o senhor não tem nenhum tipo de preconceito, qual o problema de permitir que David seja homossexual, se for assim que ele é feliz? – fez um gesto displicente com a mão. – Eu sei que as coisas mudam quando é nosso filho, mas... Pense que se o senhor o privar de poder escolher com quem ele quer ter um relacionamento sério, o senhor apenas irá acabar com a vida dele.

-Por quê acabaria? – perguntou, erguendo as sobrancelhas numa expressão descrente.

Pierre suspirou, passando a mão pelos cabelos, no mesmo instante em que a voz de uma enfermeira soava no alto-falante do corredor, solicitando sua presença na emergência.

-Olhe, eu não tenho tempo agora... Mas, basicamente: David desistiu do sonho de ter uma banda, para poder fazer a sua vontade de ter um filho advogado e, assim, você satisfizesse a vontade dele de ter um relacionamento comigo. Você apenas faria com que ele tivesse que abrir mão até do livre-arbítrio de escolher quem ele quer como namorado. – um segundo chamado. – Pense nisso; se quiser, passe na minha casa durante a tarde; David estará lá. Converse com ele, está bem?

E, sem esperar resposta, apenas saiu da sala, apressado.

Esperava, realmente, que houvesse conseguido convencer o sogro, caso contrário, teria sérios problemas.

Fim do Flashback

Suspirando pesadamente, David passou uma mão pelo rosto, secando-o da melhor maneira que pôde, antes de se erguer; passara uns bons dez minutos, apenas sentado, com o rosto escondido entre as mãos, pensando no que deveria fazer e, finalmente, tinha pelo menos uma noção do faria.

Passando uma mão pelos cabelos, assumiu uma expressão indiferente, antes de caminhar até o lado de fora da casa, parando quando seu corpo chegou do outro lado da porta, enquanto os olhos corriam ao arredor, procurando por Jack, encontrando-o em uma rodinha de amigo, bebendo, conversando e rindo como se nada houvesse acontecido. Filho da puta.

Erguendo levemente o queixo, num discreto gesto superior, caminhou apressado até onde o homem loiro estava e, esquecendo-se de toda e qualquer educação que possuía, apenas entrou no meio das pessoas, parando apenas quando se aproximou o bastante de Jack, que abaixou a cabeça, de modo que pudessem encarar-se.

-Você vai lá agora e vai explicar para ele exatamente o que aconteceu, sem mudar uma única virgula. – disse, simplesmente, sem mudar o tom de voz ou a expressão em seu rosto, enquanto um sorrisinho debochado surgia no canto dos lábios do homem mais alto.

-Do que está falando, Davey? – David puxou o ar com força, cerrando os olhos de forma perigosa, antes de erguer uma única sobrancelha, em sarcasmo.

-Pare de bancar o estúpido e, uma única vez, nessa sua vida medíocre, aja como uma pessoa minimamente descente, indo resolver a merda que você criou. – respondeu, simplesmente.

-Me dê um único bom motivo. – ele disse, o sorrisinho ainda nos lábios, fazendo com que David se sentisse apenas mais irritado; sentisse, apenas, que a vontade de bater naquele grande idiota, crescesse.

-Você quer um argumento bem elaborado? Uma frase de efeito? – deu de ombros. – Eu não tenho. O único argumento que eu posso pensar, nesse momento, é: se apenas uma daquelas palavras que você me disse, for verdadeira, pois bem... Me prove, indo até o escritório e contando ao Pierre o que aconteceu, de verdade, sem dar a entender que eu quis aquilo: você sabe muito bem que eu não quis. Se você me "ama" tanto quanto disse, então ótimo; me faça feliz indo até lá, e tirando a grande merda que você colocou no meu casamento.

Azuis prenderam esverdeados; esverdeados estes que deixavam claro toda a raiva reprimida, toda a mágoa, todo o sofrimento, que apenas aquela breve conversa com Pierre lhe causara; deixavam claro todo o ódio que sentia por Jack naquele momento; mas também deixavam claro a determinação que sentia em esclarecer as coisas; a determinação de fazer tudo o que poderia para resolver as coisas.

-E se eu não for?

David sentiu o corpo enrijecer e, fechando os olhos brevemente, contou até dez, pedindo paciência á todos os santos que conhecia.

-Aí, Jack, vai ser um sério problema para você mesmo; podem ter passado dez anos, eu posso ter mudado absurdos, mas uma coisa que não mudou, foi o significado do tom da minha voz, e você o conhece muito bem. – Jack franziu o cenho, tendo que admitir que aquilo era verdade: sempre que David usava aquele tom controlado e ligeiramente frio, era porque estava realmente bravo e faria qualquer coisa para se vingar. – Você sabe, Jack... Você o ouvia todos os dias: ou você vai até lá e resolve ou vamos ter um sério problema... No tribunal, porque, acredite, eu tenho poder o bastante para revirar a sua vida toda e achar todos os seus podres. E, creia, não vai ser agradável.

Jack pareceu cogitar por breves minutos todas as palavras que lhe foram ditas, antes de simplesmente suspirar e, pondo o seu copo sobre a mesa mais próxima, caminhar apressado até o escritório de Melissa.

Quando alcançou a porta, pousou uma mão sobre a maçaneta e puxou o ar com força, olhando por sobre os ombros, apenas para ver David sentar-se no sofá onde estivera até aquele momento, pegando uma revista qualquer de sobre a mesinha de centro, e a folheando como se nada estivesse acontecendo.

Puxando o ar mais uma vez, deu três batidinhas secas na porta, antes de abri-la, entrar e fechar a peça atrás de si, tudo isso sem esperar uma resposta.

Encontrou Pierre sentado na cadeira que se encontrava atrás da escrivaninha; os cotovelos apoiados sobre a superfície lustrosa e a cabeça nas mãos.

Ergueu os olhos por tempo o bastante para registrar quem entrara, antes de voltar a fixar o nada do tampo da mesa.

-O que você quer? – perguntou, a voz inexpressiva deixando claro que ele estava tão ou mais bravo que David.

-Eu... Vim explicar o que aconteceu. – respondeu, odiando-se por ter admitido que David era bom o bastante para ferrar-lhe a vida e, assim, indo até Bouvier, tendo que lhe explicar o que acontecera; contudo, Pierre não se moveu e, tampouco, pronunciou qualquer outra palavra.

Dando de ombros, Jack simplesmente começou a falar: contou como abordara David, as tentativas deste em mudar de assunto sempre, a sua própria insistência em mantê-lo como assunto, bem como tocá-lo no braço ou no rosto sempre que possível; explicou sobre tudo o que falara para o menor, bem como ele ficara obviamente surpreso demais, para notar rapidamente o que Jack pretendia quando o puxara; explicara como o beijara a força, não sendo retribuído em momento nenhum; explicara como David tentara empurrar-lhe e até mesmo dar um passo para trás, mas como não permitira que o menor fizesse tal coisa.

Explicara, por fim, que o que Pierre vira fora o começo do beijo forçado e que, assim, David ainda estava pasmo demais para pensar em reagir de qualquer outra forma, além das quais já havia feito.

Quando se calou, Pierre suspirou pesadamente, antes de jogar o corpo para trás, escorando-se no encosto da cadeira; as íris castanhas prendendo-se no rosto do outro homem de forma fria.

-E por quê eu deveria acreditar em você? – Jack deu de ombros. – Exatamente; você não tem um argumento, Jack. Você simplesmente gastou sua saliva, vindo aqui para repetir as mesmas palavras que David usou: se eu não soubesse que é estúpido demais para isso, pensaria que você ouviu a conversa atrás da porta, apenas para vir aqui e repetir tudo, para dar a entender que você e David combinaram tudo isso.

Jack ergueu as sobrancelhas, pondo as mãos no bolso e voltando a dar de ombros; Pierre apenas girou os olhos.

-Essa foi sua intenção, não foi? Mesmo não sabendo que palavras exatamente, o David usou, você sabe o que ele falou e, vindo aqui, e contando o mesmo que ele contou, você esperava que eu achasse que vocês aproveitaram o tempo que eu estou aqui, para combinar tudo isso. – Jack piscou; no fundo, era exatamente isso o que esperava. Pierre riu, de leve. – Só tem um problema: eu conheço o David. O conheço bem demais e esse tipo de coisa simplesmente não faz o gênero dele. Você foi estúpido, apenas.

-Você... – começou, mas Pierre não permitiu que ele terminasse.

-Se você já terminou de me contar o que queria, some daqui, que sua presença me dá náuseas.

Jack deu de ombros e, sem olhar para trás, apenas saiu, fechando a porta atrás de si.

David continuava no mesmo lugar de antes, lendo atentamente uma matéria qualquer da revista que tinha em mãos, ou apenas fingindo bem demais; contudo, quando ouviu o barulho da porta sendo fechada, ergueu as íris da página, encarando Jack de forma curiosa.

O loiro deu de ombros.

-Não faço idéia do que ele achou. – e, sem esperar resposta, saiu para o jardim.

David suspirou, fechando aquela revista e tacando-a sobre a mesinha de centro, antes de pousar os olhos na porta, pensativo; perguntando-se se deveria esperar mais algum tempo ou se já estava na hora de ir tentar mais uma conversa com Pierre.

Mordiscando o lábio inferior, ergueu-se: iria arriscar e não sairia daquele maldito escritório até que soubesse o fim que seu casamento levaria.

Maldita hora em que decidira ir nessa festa estúpida.

Flashback

Dever de casa era a coisa mais inútil do planeta e isso era fato.

Não via nenhuma utilidade em ficar fazendo aqueles montes de equações durante a tarde, quando podia estar fazendo qualquer outra coisa, mil vezes mais produtivas: dormindo, por exemplo.

Mas não! Sua professora tinha que dar quilos de exercícios para serem feitos em casa, valendo nota para o dia seguinte.

Como odiava estudar.

Contudo, o seu raciocínio contra a pobre professora de matemática foi interrompido pela campainha, a qual tocou de forma demasiadamente longa.

Piscando, confuso, ergueu a cabeça, fixando as íris na porta, perguntando-se quem estaria ali àquela hora; quer dizer, seus amigos sabiam que ele estava passando um tempo na casa de Pierre, mas nenhum deles iria até ali sem ser convidado ou, pelo menos, ter avisado antes. Quanto aos amigos de Pierre, bem... Eles obviamente se encontravam no hospital, trabalhando, junto ao mais velho, de modo que não havia sentido algum para aquela campainha ter tocado.

Largando a lapiseira de qualquer modo sobre o caderno, ergueu-se e, após caminhar lentamente até a porta, o que rendeu mais um toque, abriu a peça, apenas para permitir que sua boca se abrisse em surpresa ao ver seu pai parado do outro lado, analisando todos os detalhes da pequena varanda que havia na frente da casa.

-Pai? – perguntou, a surpresa que sentia óbvia em cada traço do seu rosto; Andre olhou para o rosto do filho, antes de correr os olhos pelo corpo do outro, constatando que ele ainda estava com o uniforme da escola, embora não usasse o tênis; fato que fez Andre franzir o rosto e David girar os olhos mentalmente: seu pai tinha manias estranhas e, entre elas, estava repreender os filhos por andarem descalços dentro de casa.

-David. – respondeu, simplesmente, no que o filho sabia ser um cumprimento. David ergueu uma única sobrancelha, agora que sua surpresa passara, perguntava-se o que, demônios, seu pai fazia ali, agindo como se nada houvesse acontecido. – Eu posso entrar?

Dando de ombros, o garoto deu um passo para o lado, permitindo que o homem mais velho entrasse, o que ele fez, olhando tudo ao arredor, analisando cada detalhe da casa, como que procurando um único detalhe que pudesse ajudar-lhe a convencer David de que não valia a pena tudo aquilo, contudo, encontrou apenas uma casa agradável, embora houvesse sido mobiliada visando apenas um morador.

Caminharam até a sala, os pequenos olhos de Andre brilhando satisfeito ao notar o material do filho sobre a mesinha de centro, num sinal claro de que ele estava estudando.

O silêncio entre eles estava desconfortável e isso era quase palpável no ar, contudo, ambos apenas ignoraram tal sensação; David esperando o pai começar a falar e Andre apenas analisando brevemente tudo ao seu arredor, constatando que Bouvier fora sincero ao dar a entender que não tratava David mal em nenhum sentido.

-Como você está? – a pergunta, feita de modo casual, realmente não surpreendeu David: sabia que o pai, até certo ponto, arrependia-se de todas as suas últimas ações em relação ao filho, contudo, era orgulhoso demais para admitir ou até mesmo assumir que estava completamente errado.

David deu de ombros, sentando-se em um dos sofás, onde Andre sentou-se no que havia na frente, de modo que pudessem manter contato visual.

-Estou ótimo, pai. E o senhor? – Andre fez um aceno de cabeça, confirmando. David sorriu, de leve. – Que bom. – sorriram de leve um para o outro, antes de desviarem os olhos e o silêncio voltar a reinar entre os dois, desconfortável.

Minutos depois, Andre pigarreou, atraindo a atenção do filho.

-Eu... – passou a mão pelos cabelos. – Como Bouvier tem lhe tratado? – David sorriu.

-Muito bem. – deu de ombros. – Eu sei que você espera o pior dele, pai, mas ele realmente cuida de mim de uma maneira que eu não achei que qualquer pessoa, que não fosse o senhor ou a mamãe, fosse um dia cuidar e... Eu realmente gosto disso.

Andre fixou as íris nas do garoto, uma conversa muda de pai e filho acontecendo naquela troca intensa de olhares.

-Você o ama mesmo, não é? – perguntou, por fim, parecendo mais cansado do que realmente estava. David concordou com um aceno de cabeça. – E ele? Lhe ama tanto quanto você á ele?

David suspirou pesadamente, mordiscando o lábio inferior, antes de desviar os olhos.

-Eu... Não sei. – não conseguia lembrar-se de um momento tão constrangedor quanto aquele: admitir ao pai que ele e Pierre ainda não falavam o que sentiam, realmente, era quase como admitir que estavam brigando por nada. – Eu gosto de pensar que sim, mas... Nunca chegamos a verbalizar qualquer coisa que passe do usual "eu gosto muito de você"; de qualquer forma... Talvez ainda seja cedo para...

Andre lhe interrompeu com um aceno de mão.

-Nunca é cedo para dizer á uma pessoa que a ama, David. – resmungou. – Eu realmente não apóio que você queira ficar com o Bouvier, bem como não aceito; mas... Droga, acima disso eu sou seu pai, e quero seu bem e a sua felicidade. – David suspirou, afundando no sofá fofo e escondendo o rosto nas mãos, apenas escutando. – Diga à ele, está bem?

David ficou um tempo em silêncio, na mesma posição, apenas pensando.

-Eu tenho medo, está bem? – resmungou, a voz abafada pelas mãos; Andre levantou-se, indo sentar-se ao lado do filho. Afastando as mãos do garoto, fê-lo erguer o rosto, de modo que pudessem se encarar.

-Medo do quê? – David deu de ombros.

-Eu não sei ao certo, eu...

-Tem medo de que ele não te corresponda? – o homem mais velho perguntou e, desviando as íris, o mais novo concordou com um aceno de cabeça.

-Tenho medo do que ele possa fazer se eu contar e ele não corresponder... Eu... Só quero aproveitar o que me for permitido ao lado dele, mesmo que no final apenas eu tenha amado, mesmo que ele nunca chegue à saber.

Andre olhou para o filho atentamente; por mais que tentasse, jamais conseguiria entender porque o filho crescera tão inseguro, tão ingênuo e, arriscaria dizer, inocente. Julie recebera a mesma educação e, no entanto, era a pessoa mais segura que Andre poderia conhecer.

Embora, devesse admitir que David possuía uma força de vontade, uma personalidade marcante... Algo que Julie não tinha tanto quanto o irmão caçula; David tinha qualquer coisa que passava para as pessoas que ele era uma pessoa segura, certa do que fazer, dizer, pensar e sentir, quando na verdade não passava de uma criança que crescera demais e que tinha muitos medos.

-Você deveria ter mais medo da incerteza, Davey... – Andre suspirou, por fim. – Você não sabe se ele te corresponde ou não. Eu não o conheço, mas as poucas vezes que o vi ou que falei com ele, me permitiram saber que ele não é do tipo que simplesmente despreza os sentimentos dos outros. E, embora eu não goste de nenhum dos Bouvier, eu admiro isso em todos eles; a sinceridade, a capacidade de levar em conta os sentimentos das pessoas á sua volta, mesmo que isso não seja o que eles esperavam. Se Pierre não quiser o seu amor, David, ele vai lhe falar da maneira que menos te machucar. Só que você tem que falar, antes que esteja tão apaixonado a ponto de depender dele.

David suspirou, balançando a cabeça de cima para baixo.

-Entendi. – respondeu, por fim.

O silêncio voltou a reinar, dessa vez como tantas vezes antes; agradável, enquanto cada qual estava perdido nos próprios pensamentos.

E, mais uma vez, fora Andre quem quebrara o silêncio.

-Eu quero lhe perguntar algo, David... – disse, por fim, voltando a encarar o filho, o qual lhe olhava, curioso. – Isso vai ser muito constrangedor, mas... Eu realmente preciso saber.

David ergueu as sobrancelhas, curioso.

-O quê? – e não tão seguro como fora há algumas horas, Andre repetiu a mesma pergunta que fizera á Pierre, questionando o filho sobre este ter relações sexuais com o namorado. David arregalou os olhos, enquanto sentia o rosto esquentar horrores, sinal de que corara. – Não. – respondeu, sua voz deixando claro todo o constrangimento que sentia.

Andre pareceu aliviado perante a confirmação da resposta que Pierre também lhe dera.

-Ótimo, ótimo. – resmungou, antes de suspirar. – David... Eu... Queria que você voltasse para casa. – David o olhou, pensativo.

-Eu prefiro continuar aqui, pai. – respondeu, embora sua voz deixasse claro que pedia pelo consentimento do homem mais velho. – Se o senhor não se importar...

-Sua mãe sente sua falta... E eu também.

David abaixou a cabeça, sentindo-se ligeiramente mal por isso, mas sabendo que se voltasse para casa todas as brigas voltariam, junto; aquela conversa, embora nenhum dos dois houvesse verbalizado algo, fora uma espécie de pedido de desculpas e, também, uma aceitação para estas. E David sabia que morar sob o mesmo teto que o progenitor, tendo que avisá-lo sempre que fosse sair com Pierre, ou ir passar um fim de semana com o namorado, apenas faria todos os desentendimentos retornarem.

E Andre parecia saber disso também, pois analisava o filho com atenção, enquanto este pensava na sua resposta.

-Desculpe não ter dado satisfação nem sequer para a mamãe. – resmungou, por fim. – Mas eu realmente prefiro ficar aqui, pai. Eu vou falar com o Pierre, claro, mas acho que não tem problemas...

Andre concordou com um aceno de cabeça, desviando os olhos para os exercícios que o filho fazia antes de sua chegada.

-Se ele concordar, vai nos visitar? – David sorriu e concordou com um aceno de cabeça, empolgado. Andre retribuiu o sorriso. – Muito difícil? – perguntou, apontando para a mesinha de centro e David levou os olhos até lá, finalmente lembrando-se que tinha que terminar aquilo.

Suspirou.

-Um pouco.

-Quer ajuda? – David sorriu, sabendo que agora seu relacionamento com o pai voltara ao normal, mesmo que ele não aceitasse o seu namoro.

-Claro!

E, rindo, ambos sentaram-se no chão, preparando-se para as agradáveis horas que sempre passavam, apenas resolvendo exercícios juntos.

Fim do Flashback

Puxando o ar com força, juntou toda a coragem que conseguiu reunir dentro de si, antes de pousar a mão sobre a maçaneta e, girando-a, abrir a porta do escritório, entrando neste e fechando a peça de madeira atrás de si, escorando-se nela e cruzando os braços em frente ao peito. Por fim, ergueu os olhos, procurando pelo marido.

Encontrou-o de pé, olhando pela janela, de costas para a porta; Pierre apenas olhou por cima dos próprios ombros, por tempo o bastante para ver o menor ali.

-Hey. – murmurou, antes de voltar a olhar a paisagem á sua frente; David suspirou.

-Hey. – olhando brevemente ao arredor, desencostou-se da porta, caminhando até onde Pierre estava. – Eu...

-Você quer conversar. – Pierre disse, interrompendo-lhe, fazendo o mais novo apenas suspirar e concordar com um aceno de cabeça; puxando o ar com força, o mais alto virou-se, de modo que pudessem se encarar; castanhas fixaram esverdeadas. – Pois bem...

David mordiscou o lábio inferior, antes de passar uma mão pelos cabelos.

-Você não acreditou em nenhuma palavra que foi dita até agora, não é? – perguntou e o outro apenas deu de ombros; e tal indiferença lhe feriu mais do que qualquer desconfiança que o mais velho pudesse estar sentindo. – Droga, Pierre! Será que dá para você parar de bancar a vitima e ter uma conversa descente comigo? – perguntou, a voz deixando claro toda a sua frustração.

Pierre apenas cerrou os olhos, parecendo ofendido pelo que o menor havia dito; mas no fundo David não se importava: talvez, assim, Pierre parasse de ser tão frio e agisse como a pessoa que realmente era.

-Eu não estou bancando a vitima, David. – ele respondeu, o tom mal-humorado deixando claro que ele estava tão irritado com tudo aquilo quanto o mais novo. – Não venha me dizer que o estou fazendo, quando você sabe muito bem o que fez minutos atrás!

David arregalou os olhos, surpreso.

-Eu não acredito que estou ouvindo isso. – resmungou, cada gota da sua incredulidade sendo expressa em sua voz. – Eu não acredito mesmo que você realmente acha que eu quis aquilo. Infernos! Você me conhece muito bem, Pierre, para sequer cogitar a possibilidade de que eu seria capaz de te trair.

-E o que era o que você estava fazendo? – a resposta rápida e com qualquer coisa de maldade, que deixava claro que o mais velho apenas queria lhe ferir, fez com que David sentisse qualquer autocontrole que ainda tivesse, ir embora.

-Você quer que eu faça o quê? – gritou, jogando as mãos para cima, num gesto de óbvia frustração. – Me ajoelhe e peça perdão por algo que eu não quis? Deixe de ser ridículo!

-Não erga a voz comigo, David! – Pierre disse, a voz um pouco mais alta que o seu tom normal; severa demais; e as ameaças por trás das palavras, fizeram com que David puxasse o ar com força. – E pare de agir como se achasse que é um santo, porque você sabe que não é.

David sentiu os olhos arderem; odiava ter qualquer tipo de briga com Pierre, porque era óbvio que nenhum dos dois queria dar o braço a torcer e, mais óbvio ainda: ambos queriam apenas se machucar, falando qualquer coisa que lhe passasse pela cabeça, não importando se realmente acreditava nisso ou não.

Piscando, ergueu um pouco o queixo, num desafio mudo.

-Não acho que sou um santo, Pierre. Nunca achei. Não é essa a questão, de qualquer modo. É uma questão de principio; e é completamente contra os meus princípios bancar a puta e trair aquele que eu jurei que respeitaria e amaria para o resto da minha vida. Não sei você, mas eu pretendo manter a minha palavra.

Silêncio; os olhos marejados de ambos deixavam claro que toda aquela situação estava cansando; apenas ferindo mais e mais; contudo, o orgulho falava mais alto, fazendo-os manterem-se em suas posições, sem que ninguém admitisse absolutamente nada.

-O que eu vi... – Pierre começou, mas David não permitiu que ele terminasse; não agüentaria ouvir mais uma vez que o havia traído.

-Foi forçado, Pierre, e você sabe... Sabe que eu nunca voltaria a ter qualquer coisa com Jack; você é o único que sabe o quanto eu me arrependo de ter tido algo com ele um dia. Você sabe, Pierre, e apenas não quer admitir. – suspirou, passando uma mão pelo rosto, num gesto cansado. – Mas você quer que eu peça desculpas, não é? Mesmo sabendo que eu não tive culpa. – deu de ombros, antes de dar um pequeno passo para frente, pousando uma mão no rosto do outro; os olhos prendendo os do outro, num olhar penetrante. – Pois bem: me desculpe por ter ficado surpreso; desculpe por não ter pensando em nada durante os cinco segundos em que tive a boca dele na minha; desculpe por ter sido beijado a força.

Pierre suspirou, fechando os olhos e levando a própria mão á que estava em seu rosto, acariciando-a.

-Desculpe, David. – murmurou, por fim, voltando a abrir os olhos. – Eu fui estúpido com você... E injusto. – ergueu a outra mão, envolvendo o pescoço do menor com ela, num carinho gostoso. – Mas... Apenas a idéia de que qualquer coisa entre você e ele pudesse voltar, eu...

Suspirou pesadamente; David apenas manteve as íris presas nas do mais velho: e constatar que toda a dor que ele sentia era causada apenas pelo medo que ele sentia perante a idéia de que poderia, algum dia, ser traído, apenas fez com que o menor tivesse vontade de sorrir perante tal fato.

Suspirando, envolveu o pescoço do outro com os braços magros, não demorando muito para que os braços fortes do outro enlaçassem sua cintura, no que logo virou um abraço forte, cheio de pedido de desculpas.

-Desculpa. – ambos murmuraram, juntos, antes de rirem de leve; Pierre afastou levemente a cabeça, de modo que pudesse encarar o rosto do outro; sorriu de leve. – Eu te amo. – completou, fazendo o mais novo sorrir; um sorriso doce, puro, inocente... Apaixonado e satisfeito.

Um sorriso completamente contagiante e, logo, Pierre se viu sorrindo de volta, enquanto encaravam-se fixamente, num tipo de olhar que, sabiam, fazia algum tempo que não trocavam.

E, de repente, parecia que fazia anos que eles não se viam; subitamente, apenas sentiram uma necessidade imensa de ficar junto do outro, apenas aproveitando de sua companhia, num abraço como aquele; conversando sobre banalidades, enquanto roubavam pequenos beijos.

E, antes que qualquer um pudesse registrar quem tomara a iniciativa, seus lábios se encontraram num selinho rápido, antes de se separarem, como se houvessem tomado um choque; ficaram se provocando, roçando os lábios nos do outro, por longos segundos, apenas rindo de leve, quando um tentava aprofundar o contato e outro apenas não permitia.

E quando os lábios voltaram a se encontrar de verdade, foi como se o mundo houvesse, simplesmente, parado de girar; nada mais importava, apenas aquela necessidade de sentir a boca do outro na sua, lhe mostrando a intensidade do sentimento.

Apenas precisavam suprir aquela necessidade súbita de um toque intimo do outro.

E quando as línguas se encontraram, iniciando um beijo lento e apaixonado, foi como se nada houvesse acontecido: se Pierre tivesse qualquer dúvida sobre o que marido lhe falara, estas simplesmente sumiram quando sentiu todo o amor, respeito e devoção que o pequeno colocava naquele toque de línguas; já David, apenas soube que tudo que o mais velho falara e que lhe ferira havia sido da boca para fora.

As mãos faziam leves carinhos na nuca do outro, eventualmente puxando-o de encontro a própria boca, tentando aumentar ainda mais a intensidade do beijo; apenas tentando aumentar ainda mais a intensidade de todos os sentimentos ali expressos: no encaixe perfeito dos lábios e dos corpos, como se estes houvessem sido desenhados um para o outro.

Os corações batiam descompassados e as pernas bambeavam, deixando claro que não importaria quantas dificuldades tivessem que enfrentar, por quantas brigas teriam que passar: sempre seria como se fosse a primeira vez; sempre teria aquele gostinho de amor recém-descoberto e de tal intensidade, que chegava a assustar.

-Eu te amo demais. – David murmurou, mordiscando os lábios do outro, que apenas sorriu, antes de voltar a capturar a boca do outro com a própria.

-Eu te amo mais. – respondeu, dentro da boca do menor, antes de beijá-lo.

Não importava o que pudesse acontecer; nada faria esse amor morrer e eles sabiam disso.

Flashback

A música tocava alta ao arredor deles, enquanto corpos movimentavam-se no ritmo alegre e contagiante da canção; as luzes piscavam no ritmo das batidas, mas eles estavam completamente desligados disso, apenas se preocupando em provar os lábios um do outro e deixar os corpos mais e mais colados; as mãos correndo pelo corpo do outro, explorando; procurando por qualquer segredo que ainda não conhecessem.

As bocas se separavam apenas pelo tempo de pegar mais ar, antes de voltar a unir-se num beijo apaixonado, no mesmo instante em que o corpo maior se pressionava contra o menor, empurrando-o mais contra a parede.

Rindo, David pousou uma das mãos pequenas no queixo do outro, terminando o longo beijo com um selinho.

-Eu preciso beber alguma coisa. – resmungou, os olhos ainda fechados e a cabeça inclinada para o lado, permitindo que mais velho tivesse todo o acesso que queria ao seu pescoço.

Pierre resmungou qualquer coisa inteligível contra a pele sensível do pescoço de David, que riu de nada em particular, antes de permitir que um ofego escapasse, ao sentir os dentes do outro segurarem sua pele com leveza.

As mãos pequenas correram da nuca até a base da coluna de Pierre, vez ou outra ousando descer mais; os dedos pequenos fazendo leves carinhos no corpo do outro, que apenas se arrepiava com tal contato.

E era algo estranho, Pierre pensou; ele e David estavam juntos há quase um ano e, contudo, não haviam chegado ao sexo, ainda. E mesmo assim, os mais leves carinhos do outro apenas lhe faziam sentir-se bem; o contato dos dedos pequenos contra o seu corpo, apenas fazia-lhe ter reações imediatas e intensas; intensas demais para serem apenas um gostar, ou até mesmo uma mera atração: Pierre sabia, há algum tempo, que aquele garoto havia lhe conquistado completamente, apenas não sabia como dizer isso á ele.

E saber que ele havia lhe conquistado com tanta facilidade, lhe assustava, de certo modo, mesmo que soubesse que David sentia alguma coisa muito forte por si, já que ele colocava muito sentimento nos beijos que trocavam.

Mas nunca pensara, realmente, que chegaria a amar alguém como o estava fazendo com David; e isso era estranho, mas terrivelmente bom, ao mesmo tempo.

Algo simplesmente maravilhoso de se sentir: gostava dos arrepios que o toque do outro lhe causava; gostava de sentir aquela vontade de sorrir para o nada sempre que se lembrava dele; gostava de sentir o coração disparado e as pernas bambas sempre que tinha os lábios dele contra os seus; gostava do friozinho que sentia na barriga sempre que o via caminhando em sua direção.

Simplesmente gostava sentir-se apaixonado.

-Pierre. – David murmurou, uma das mãos pequenas e quentes correndo pela sua coluna, escondendo-se entre os fios castanhos do seu cabelo, começando uma massagem gostosa no local.

-Hum? – resmungou, enquanto os lábios subiam do pescoço do menor, indo depositar um beijo na bochecha dele, que apenas sorriu.

-Eu quero beber alguma coisa, meu bem. – ele murmurou no seu ouvido, fazendo o maior rir.

-Você já bebeu demais, baby. – resmungou, em resposta, apertando, de forma carinhosa, a ponta do nariz dele, que apenas fez uma careta, antes de rir.

-Não seja chato. – girou os olhos, antes de pousar as mãos no rosto do mais velho, uma de cada lado do rosto de Pierre, que sorriu de leve. – Saímos para nos divertir, beber, dançar e namorar. Até agora só namoramos, então deixe de ser tão chato e me pague uma bebida.

Riram, antes David colocar um pouco de força nas mãos e puxar o rosto de Pierre em direção ao seu, juntando os lábios novamente. Sorriram, sem desgrudar os lábios, quando Pierre apenas apertou a cintura do outro com mais força, erguendo-o do chão e girando ao arredor do próprio corpo.

-Okay; vamos beber alguma coisa e dançar, então. – Pierre disse, por fim, quando voltou a pôr o namorado no chão; rindo, seguraram a mão um do outro, caminhando apressados até o bar e, assim que terminaram de beber, entre beijos e risadas, foram para a pista de dança, onde apenas permitiram que todo o álcool ingerido até aquele momento, ditasse os passos a serem executados; o roçar dos corpos; as pausas para trocar beijos; as risadas; as provocações sendo murmuradas ao pé de ouvido.

Apenas se permitiram ficar dessa forma a noite toda, sem se importar com nada: David queria apenas aproveitar aquela quebra na rotina e se divertir ao lado de Pierre, o qual queria apenas tornar a noite do namorado a melhor de todas: no meio da semana que se iniciaria, David completaria dezessete anos e, aquela saída, era apenas uma parte de toda a comemoração que pretendia fazer ao mais novo.

Não seria nada, realmente, grande demais; o levaria para jantar e ao cinema; lhe daria o CD que tanto queria, bem como o DVD do show da mesma banda: era algo simples, mas sabia que David gostaria.

-No que está pensando, baby? – David perguntou, após envolver o pescoço de mais velho, que apenas sorriu, antes de abraçá-lo pela cintura, trazendo-o para mais perto.

-Em como você é lindo. – respondeu, fazendo o mais novo rir.

-É, certo. Eu finjo que acredito. – resmungou e, sem dar tempo para que o mais velho respondesse, cobriu os lábios dele com os próprios.

Pierre sorriu contra a boca do outro: tinha como não amar aquela criatura tão infantil e adorável?

Fim do Flashback

Os dedos corriam, apressados, sobre o teclado, enquanto as íris iam de um lado para o outro, sobre a página do grosso livro, que repousava ao lado do teclado, tirando dali todas as informações que precisava.

Aquela estava sendo uma longa tarde de domingo, onde passara a maior parte dentro do pequeno escritório que tinham dentro de casa, apenas tentando terminar aquele maldito contrato, o qual deveria ter sido entregue sexta de manhã; mas conseguira convencer o chefe a deixá-lo ser entregue apenas na segunda-feira.

Agora, contudo, estava tendo que montá-lo ás pressas, já que no dia anterior havia ido ao tal encontro de ex-alunos e, á noite, que era quando planejara começar aquilo, passara com Pierre, fazendo... Coisas mais interessantes.

Entretanto, naquele momento, tinha mesmo que terminar aquilo, de modo que deixara o marido esparramado no sofá, após o almoço, assistindo á qualquer programa chato de domingo, enquanto trancava-se no escritório, com alguns poucos volumes de livros de Direito e, sentando-se em frente ao computador de última geração, forçava o cérebro a entrar no ritmo para que conseguisse terminar aquilo antes do horário do jantar.

Mas conforme mais ia escrevendo, percebia que aquele seria um daqueles contratos enormes, onde demoraria mais algumas horas para ficar pronto; e isso era terrivelmente irritante. Gostava de perder seu domingo fazendo nada ao lado do marido; apenas conversando e rindo, breves beijos sendo trocados eventualmente.

Suspirando pesadamente, parou brevemente de escrever, estalando os dedos e os pulsos, antes de jogar os braços para cima e esticar o corpo, se espreguiçado, enquanto bocejava e olhava para o relógio do computador.

Quase seis horas; gemeu, insatisfeito, permitindo que o corpo murchasse. Mordiscando o lábio inferior, olhou ao arredor, cansado. Não queria, realmente, fazer aquilo.

Suspirando, apoiou o cotovelo sobre o tampo da mesa, passando uma mão pelo rosto, num gesto que deixava claro todo o cansaço que sentia; fechou os olhos, cogitando se deveria fazer uma pausa ou apenas continuar até terminar.

Sentiu o coração disparar e o corpo ficar tenso, em susto, quando um par de mãos pousou uma sobre cada um de seus ombros.

-Cansado? – a voz de Pierre chegou a seus ouvidos, enquanto os dedos quentes iniciavam uma massagem; sorriu, ainda sem abrir os olhos, apenas permitindo que o corpo relaxasse sob o toque do outro.

-Um pouco. – respondeu, antes de sentir os lábios do marido se pressionarem contra sua nuca, fazendo um arrepio correr.

-Você devia parar um pouco. – sugeriu, os dedos escorregando dos ombros para o peito do outro e de volta para os ombros, num carinho gostoso.

-Eu sei... – resmungou em resposta, finalmente abrindo os olhos e jogando a cabeça para trás, de modo que pudesse olhar o rosto do outro e parte do teto. – Mas eu realmente tenho que terminar isso.

Pierre sorriu, inclinando-se de modo que pudesse capturar os lábios do mais novo com os próprios, iniciando um beijo rápido.

-Você está muito tenso, anjo. – resmungou, os lábios roçando no do outro, que sorriu de leve.

-É o que acontece, quando tem que se pensar em todas as mínimas brechas que se pode deixar. – disse, indicando o computador com o queixo; Pierre deu de ombros e, segurando o marido pelos braços, o fez se levantar, antes de abraçá-lo pela cintura. – O que está fazendo?

Pierre riu perante a indignação do outro.

-Te relaxando. – murmurou, antes de correr uma mão pela coluna do menor; as íris castanhas fixando as esverdeadas; os corpos colados; os lábios sorridentes e os corações disparados.

-Eu tenho que trabalhar, amor. – David murmurou, não prestando real atenção ás próprias palavras, enquanto permitia que o maior o guiasse para o quarto.

-Eu sei, mas isso pode esperar uma hora ou duas. – respondeu, rindo, batendo a porta do quarto quando entraram, antes de levar as mãos ao rosto do outro, puxando-o de encontro ao próprio, iniciando um beijo rápido e ligeiramente violento, onde as línguas se enlaçavam com pressa, brigando pelo domínio do beijo.

As mãos corriam pelo corpo um do outro, acariciando, causando arrepios e ofegos. Sem que percebessem, haviam caminhado, notando tal fato, apenas quando a parte de trás dos joelhos de David bateram na borda da cama e, perdendo o equilíbrio, o corpo pequeno caiu sobre o colchão fofo, levando Pierre junto.

Riram.

-Besta. – Pierre resmungou, de forma carinhosa, apertando a ponta do nariz do mais novo, o qual lhe mostrou a língua, antes de dar impulso nas pernas, de modo que pudesse inverter as posições.

-Não enche. – mandou, e ambos riram novamente. As mãos de Pierre correram para a cintura fina, encontrando uma brecha na camiseta, subindo de volta, dessa vez em contato direto com a pele macia. David riu. – Isso faz cócegas. – resmungou, escondendo o rosto no pescoço do outro, quando este fez um leve carinho em sua barriga.

-Ah, mesmo? – Pierre perguntou, sorrindo e, num gesto que não era esperado pelo mais novo, voltou a inverter as posições, os dedos correndo rápidos pela barriga do marido, que se contorcia, rindo, enquanto tentava escapar.

-Pára! – ele pediu entre uma risada e outra, ainda contorcendo o corpo pequeno, rindo; as íris castanho-verdes com um brilho á mais, devido as lágrimas de riso que pediam para serem libertas. – Pie! – riu.

-Me dê um bom motivo. – teimou, sorrindo extasiando diante o som da risada do outro, que enchia o ambiente; uma risada alegre, pura e contagiante.

-Eu estou... – gargalhou. - Pedindo. – completou e, acompanhando-o nas risadas, Pierre apenas aumentou o ritmo das cócegas, aumentando, assim, a altura da risada do outro. – Sério... Eu... To ficando sem ar. – David completou, ainda rindo, escondendo as belas íris com as pálpebras, ainda rindo.

Dando-se por vencido, Pierre parou os movimentos dedos, correndo-os até o rosto do outro, que respirava rapidamente, ainda soltando pequenas risadas vez ou outra; os olhos ainda fechados, enquanto as lágrimas de riso escorriam livremente.

Pierre sorriu, secando o rosto do menor num gesto meigo.

-Abra os olhos, meu bem. – pediu e David não demorou em obedecer; um sorriso divertido brincando nos lábios bonitos. – Amo seus olhos.

David riu de leve.

-E eu amo você. – ele respondeu e Pierre sorriu, antes de voltar a inclinar-se, beijando-o brevemente. – Obrigado, Pie. – David murmurou, quando os lábios se separaram; os olhos fechados e as mãos pequenas fazendo um carinho no rosto do outro, que ainda estava próximo do seu; as respirações quentes e ofegantes se misturando.

-Pelo que, querido? – o mais velho perguntou, roçando os lábios pela bochecha do menor, pousando-os na curva alva do pescoço, mordicando a pele sensível da região, o que arrancou um ofego de David.

-Por não me deixar enlouquecer com o trabalho. – resmungou e Pierre sorriu contra o pescoço dele, sem responder.

E, sem se preocupar com mais nada, apenas se amaram.

****

Aquilo fora uma completa perca de tempo e sabia disso; o idiota que conseguira como cúmplice, não passava disso: um idiota. Um estúpido, que fizera tudo errado e, por isso, agora, Desrosiers continuava bem e feliz, provavelmente transando com o seu maridinho patético.

E tal erro não era admissível; Desrosiers não era burro. Contudo, era ingênuo quanto à algumas coisas; e Bill contava com isso para que o promotor não houvesse percebido os reais significados, por trás de todos os acontecimentos do final de semana; se ele houvesse notado algo, ele iria investigar, iria a fundo, como fazia em tudo o que se comprometia a fazer: e, aí, descobriria que Bill conseguira contrabandear um celular para dentro de sua cela, bem como descobriria todos os contatos que o criminoso fizera naqueles três anos preso.

E, enquanto Desrosiers não notasse nada, poderia continuar com seu plano; poderia continuar em contato com seu cúmplice – por mais idiota que este fosse.

Realmente, tinha que concordar com o que diziam: quando se quer bem feito, faça você mesmo.

Contudo, Bill era uma pessoa paciente e que gostava de tudo e qualquer coisa que causasse muito efeito sobre as pessoas. E sendo assim, iria causar um grande efeito sobre o promortozinho em algumas semanas.

Sabia que Desrosiers, a cada três meses, fazia um "check-up" em todos os prisioneiros que conseguira condenar, a fim de saber como estava o andamento da pena. E, no dia que ele faria isso novamente, teria uma grande surpresa.

E seria então que Bill daria á ele algo com que se preocupar, além do seu casamento patético.