10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ
Arashi Kaminari


Capítulo 4

Folheava sem parar um livro de francês. Havia pedido ajuda de uma de suas irmãs, que era professora, no dia anterior. Aprendeu rapidamente o básico, mas tinha medo de ensinar o errado. Sem falar que a imagem de Mariméia, que se formava em sua mente, era um tanto perturbadora. Precisaria de toda a sua concentração e força de vontade, para não esquecer dos ensinamentos e passa-los para a garota, sem demonstrar o efeito que ela causava nele. Nunca havia sentindo-se de tal forma. Seria aquilo o primeiro amor?

"Ah! Oi! Podemos acabar logo com isso?" – despejou Mariméia, enquanto ainda se aproximava da cadeira – "Roxanne e Andrew estão tendo uma tremenda briga em público lá no pátio. De novo, claro." – comentou, já sentada.

Sentiu-se inebriado por aquele perfume tão doce que exalava da pele da garota. Observou-a por alguns segundos, sem piscar os olhos. A forma impaciente e meio estabanada como a qual sentou-se, a blusa vermelha perfeitamente modelada ao seu corpo, a saia preta florida rodada movendo-se conforme seus movimentos. O cabelo preso no alto da sua cabeça, o colocar da bolsa vermelha com bordas brancas em cima da mesa e o modo gracioso como cruzou os braços por sobre a mesa. Perdeu-se no olhar meigo que ela lhe dava.

"Tá... tá." – gaguejou ao voltar a realidade – "Tá legal." – piscou os olhos inúmeras vezes, baixando um pouco seu rosto – "Acho que a gente podia começar com a pronúncia, se estiver tudo bem para você." – suas mãos suavam. Enlaçou uma a outra e apertou-as uma ou duas vezes.

"Sei a parte de fazer biquinho e escarrar, por favor." – disse Mariméia, com certa indiferença, balançando a cabeça e espalmando a mão no ar.

"Bom..." – começou incerto – "Tem uma outra maneira."

"Ah é!?"

"É..." – gaguejou novamente – "Comida francesa... É..." – foi abaixando a cabeça devagar cada vez mais, tentando se esconder do olhar direto da garota – "A gente podia jantar juntos e... Sábado à noite?"

Voltou seu rosto para a direção contraria a da menina. Tinha a consciência que estava totalmente corado. Resolveu arriscar-se. Não sabia de onde havia tirado tamanha coragem ao convidá-la para sair. Mariméia era uma garota muito popular. Não sairia com qualquer um para manchar sua reputação.

Seu rosto tomava mais para si a cor escarlate a cada segundo que passava sem ouvir a tão esperada resposta. Não podia negar que estava apavorado com a idéia de um fora e das já esperadas indiretas pelo corredor do colégio. Mas não pôde evitar. Preferiu tentar e saciar sua expectativa. Franziu as sobrancelhas e levantou o olhar, voltando seu rosto para a direção dela.

"Você..." – deteu-se meio incerta. Não queria parecer uma idiota, achando que o novo aluno estava a fim de sair com ela. – "está me convidando para sair? Ai, que amor!" – sorriu – "Como você se chama, hein?" – perguntou, apoiando o queixo na palma de suas mãos.

"Quatre." – respondeu, mais calmo. Apesar dela não ter dito se aceitava ou não, a sua reação foi receptiva. – "Olha, eu sei que seu pai não deixa você sair, mas se fôr pelas aulas de francês, ele..."

Mariméia interrompeu-o, colocando uma mão espalmada diante de seu rosto. Calou-se de imediato ao ver o gesto da garota. Estava totalmente envolvido pelos gestos dela. Começava a acreditar que se ela pedisse para que se atirasse da ponte, se atiraria sem questionar a razão. Soltou o ar que estava preso em seus pulmões de uma só vez, deixando-a continuar.

"Mas espere um pouco. Kurt..."

"Quatre." – cortou a frase para corrigi-la, sendo interrompido em seguida por ela novamente.

"O meu pai criou uma nova regra. Eu posso ter encontros se meu irmão também tiver."

Será que ela estava falando sério? A coisa que mais queria no momento era estar sozinho com a garota que estava a sua frente. Somente os dois, num lugar deserto. Queria lhe dizer o quanto estava admirado pela sua beleza e o quanto havia gostado de falar com ela. Pensou em mil e uma coisas que poderiam fazer juntos. Em nenhum momento havia pensado que as coisas poderiam ter saído de forma mais simples do que estavam saindo. Sem perceber, deixou que sua boca transformasse em palavras seus pensamentos.

"É sério!? Você gosta de velejar? Por que sei de lugares onde alugam barcos..." – disse entusiasmado.

"Tem um problema, Calvin." – Quatre ainda abriu a boca para corrigi-la novamente, mas desistiu antes que sua voz saísse – "Caso você não tenha escutado, meu irmão é de uma raça particularmente nojenta de perdedores."

"É. Soube que ele é um pouco anti-social. Por que isso?"

"Ah! Isso é um mistério não decifrado." – descansou a sua postura, gesticulando – "Ele costumava ser muito popular, então acho que ele se cansou disso. Ah! Eu sei lá. As teorias sobre os porquês são muitas, mas acho que ela é incapaz de manter uma interação humana. Além do mais, ele é um nojento." – atestou, apoiando o queixo na palma da mão.

"Hã..." – procurou algo para dizer – "É, mas tenho certeza que tem um monte de garotas que não se importam de sair com um homem difícil. Sabe, pessoas pulam de aviões, escalam rochedos... Seria como um namoro de alto risco, hã!?"

"Você seria capaz de encontrar uma garota tão corajosa?" – jogou com aquele ingênuo garoto, dando um sorriso cheio de segundas intenções.

"Claro! Por que não!?"

"E você faria isso por mim?" – colocou a sua mão sobre a mão de Quatre que estava em cima da mesa, deixando-o em estado de êxtase.

"É claro. Sabe, eu..." – gaguejou, totalmente vermelho – "Eu posso fazer isso."

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Assim que se despediu da bela garota, Quatre foi de encontro a Wufei. Seu amigo deveria ter alguma idéia para ajudá-lo quanto a Mariméia. Procurou por todas as classes do colégio. Wufei sempre tinha o hábito de cantar as meninas pelos corredores e de vez em quando, invadir alguma aula, apenas para ter a chance de contemplar a beleza da escolhida da vez.

Encontrou-o no pátio, levando seu qüinquagésimo sexto fora do dia. Não pôde deixar de rir ao longe. Wufei era muito cara de pau. Vivia quebrando a cara, mas não desistia. Queria ser como ele ao lado de Mariméia. Talvez tivesse mais chances.

Caminhou até ele e explicou-lhe resumidamente a situação. Wufei sorriu e fez o sinal de positivo com a mão. Pediu para que o encontrasse no acesso ao piso subterrâneo, no final de uma escada que havia atrás do colégio, em quinze minutos. Estaria esperando-o com algumas pretendentes.

Sorriu. Não soube se foi pela felicidade em saber que Wufei o ajudaria ou pelo medo do tipo de garotas que encontraria lá. Já havia percebido que seu fiel escudeiro não tinha as faculdades mentais muito confiáveis, assim como a maioria naquele colégio.

Passado o tempo marcado, rumou a tal escadaria citada. Encontrou Wufei esperando-o no topo dos degraus. Sentiu um frio na espinha quando avistou o sorriso que o garoto chinês havia lhe direcionado. Alguma coisa lhe dizia que algo ali estava errado!... E bota errado nisso.

"Olha. Eu reuni algumas garotas. Não podia ser mais perfeito. O melhor do pedaço." – avisou, deliciando-se.

Quatre tentou acalmar-se. Não poderia ser tão ruim. Desceu alguns degraus e estacou por um segundo. Apenas um segundo, mas foi o bastante para que as presentes notassem a hesitação. Olhou para trás e viu o aceno de apoio de Wufei. Não havia mal algum em tentar.

"E aê!? Como vão meninas? Alguma de vocês estaria interessada em sair com Duo Stratford."

A primeira reação foi a de uma ruiva de cabelo curto, que riu até não poder mais. Aquilo só podia ser uma piada. Nenhuma garota se atreveria. Ainda mais ela, com suas costumeiras bermudas de skatista e as blusas em total contraste. Duo era um cara muito chato e crítico. Com toda a certeza a dispensaria só ao vê-la vestida de tal forma.

A segunda, uma mulata de olhos castanhos, apenas expressou uma expressão de desentendimento. Ajeitou o chapéu em sua cabeça e balançou a cabeça em sinal de reprovação, passando por aqueles garotos totalmente doidos.

"Sem comentários quanto a sua piada, mocinho." – declarou, antes de retirar-se.

A terceira ainda demorou um pouco para entender a proposta que havia lhe sido feita. Colocou uma mecha do cabelo escorrido loiro atrás da orelha. Deixou que um sorriso se alargasse em seu rosto. Passou a manga do casaco lilas, já meio desbotado, que vestia embaixo do nariz. Riu com gosto antes de atestar.

"Eu nunca estive tão drogada assim."

A quarta, uma garota mirrada com jeito de nerd, pensou por alguns instantes antes de se pronunciar. Ajeitou o cabelo ralho que lhe caía pela testa. A fama de Duo não era algo que encorajasse alguém, além do mais ele era totalmente insuportável. Já havia tido a infelicidade de se esbarrar com aquele estúpido pelos corredores do colégio algumas vezes e lembrava-se bem que ele não havia sido atencioso ou gentil em nenhuma delas.

"Se fôssemos as últimas pessoas vivas e se houvesse uma ovelha... Tem alguma ovelha?"

Antes que pudesse indagar a última candidata, a mesma parou de limpar as lentes do óculos na barra da camisa rosa e lembrou-se que Stratford era um dos jogadores da equipe de vôlei. Provavelmente ele preferiria uma menina esbelta à ela, pois tinha a consciência que estava acima do peso já há alguns anos. Gritou.

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Estavam seguindo Stratford por onde quer que ele fosse naquele lugar. Deveriam colher o máximo de informações que pudessem para que seu plano funcionasse. Porém com Duo, todas as regras pareciam não existir. Tudo era extremamente difícil quando o assunto em pauta era o aluno mais nojento do colégio.

Duo parecia ter percebido as duas presenças lhe seguindo, pois havia dado inúmeras voltas sem motivo aparente. Passava pelas enormes portas em direção ao pátio, quando deparou com uma bela menina encostada numa das paredes.

"Quieto!" – advertiu Quatre a Wufei, que já estava indo de encontro aos dois. Esconderam-se atrás de uma pilastra.

Observaram atentamente Duo aproximar-se da garota desconhecida, com os já conhecidos passos "impetuosos", abrindo sua mochila. A garota desencostou-se da parede e direcionou-lhe um lindo sorriso, ao notar que ele estava procurando algo. Parecia que ela já tinha o conhecimento da caixa que era mantida em uma das mãos de Stratford, enquanto o mesmo tratava de fechar sua mochila de estilo militar.

"Duo!" – deu alguns passos em sua direção – "Eu estava te esperando. Espero que você tenha gostado."

"Não posso aceitar." – disse Duo, estendendo-lhe a caixa vermelha em formato de coração com detalhes brancos.

Mesmo ao longe puderam notar a decepção estampada no rosto daquela menina. Poderiam dizer que até sentiram pena. A forma insensível como a qual ele havia se portado perante ela era humilhante. Parecia que ela estava lhe oferecendo migalhas de pão e o seu orgulho não permitia aceitar. Em pensar que há alguns segundos atrás ela estava tão bonita com aquele sorriso nos lábios e agora, tão cabisbaixa por causa daquela muralha chamada Stratford.

"Por que não!?" – indagou, ignorando a caixa que lhe era estendida.

"Não quero alimentar suas fantasias e lhe dar esperanças." – respondeu secamente como de costume.

"Mas tenho plena consciência de nossa atual situação." – tentou argumentar.

Balançaram a cabeça em sinal de negação. Parecia até que aquela garota não conhecia a reputação de Duo. Em pensar que cinco garotas desistiram antes de mesmo de tentar e agora, a garota que eles tanto procuravam estava ali – diante daquele garoto insuportável – fazendo o trabalho que eles queriam sem levar nada em troca. Já estavam começando a gostar dela, antes mesmo de conhecê-la.

"Não, você não tem." – afirmou, pegando uma das mãos da loira, pondo a caixa nela. Afastou-se em seguida. – "Está tomada pelo sentimento de atração. Ninguém em sã consciência se apaixonaria por minha pessoa."

Quatre e Wufei se entreolharam e concordaram. Ao menos quanto a isso Duo era sensato. Era uma pessoa intragável. Talvez até para si próprio, já que tinha a consciência. Quem estava tomado pela loucura era ela, pois mesmo depois do gelo que havia recebido – e parecia receber sempre, pois deviam se conhecer há mais tempo pelo tom da conversa –, não desistia. Essa sim era uma garota guerreira!

"Mas eu não sou ninguém. Eu sou Silvia Noventa! Lembre-se sempre disso." – declarou em alto e bom tom, estufando o peito.

"Eu sei." – parou seu trajeto, voltando-se para a garota – "É por isso não dei um fim a sua impertinência. Por respeito." – explicou, levantando as sobrancelhas em sinal de altivez.

"Respeito!?" – indagou, apontando para o próprio peito – "Você está ignorando o que estou sentindo e se deixando levar pelo sentimento de pena." – não tinha a obrigação de participar daquele escândalo que já estava chamando a atenção de quem passava. Deu-lhe as costas. – "Duo! Volte aqui!"

"Eu já te disse. Nunca joguei nesse time!"

"Não dê as costas para mim, DUO STRATFORD!" – gritou já sem paciência, nas pontas dos pés, com os punhos fechados junto as laterais de seu corpo.

"O que ele quis dizer com "nunca joguei nesse time"?" – indagou Quatre a Wufei.

"Eu vou saber!?" – respondeu o outro, dando de ombros.


Por Arashi Kaminari, 27 novembro de 2004.