Capítulo 4: Treinamento com Kurama

Sua bicicleta sempre agüentava qualquer tranco. E aquela estrada poderia ser chamada de "tranco".

Estava fora da cidade, em uma estrada que levava uma mata densa lado a lado. Assim que chegasse na altura certa, avistaria o seu treinador. Pelo menos foi isso que Botan a avisou.

Ela se sentia um pouco desconfortável de pensar nesse tal treinador. Afinal ele era um demônio. Aliás, ela esteve na casa dele. Foi protegida por ele quando a atacaram. E o pior, ela era um demônio também. Tudo soava com tanta distorção em sua mente... Aquele rosto tão gentil era de um demônio? Bem, aquele olhar frio poderia ser...

Enfim, sua vista alcançou uma cabecinha vermelhinha bem lá na frente. Ela continuou pedalando e quando Kurama a viu, acenou para ela.

Ela parou a bicicleta.

––Oi––a cumprimentou.

––Oi. Desculpe pelo lugar tão distante, mas aqui teremos privacidade para treinar sem o perigo de sermos surpreendidos.

––Er... Tudo bem.

Ela não sabia muito bem como se comportar, nunca tivera um treinador particular antes. E sempre odiava os professores de educação física, se é que essa era uma comparação válida.

A mata naquele trecho não era muito densa e logo chegaram a um tipo de clareira.

––Bem, não sei até onde você sabe, então vou te explicar tudo o que eu acho importante––começou o youko.

Ela acenou afirmativamente com a cabeça, um pouco nervosa.

––Você tem um problema com o controle da sua energia. Como você não a controla, ela hora se dispersa no ar, hora é acumulada em você, até que chegue a um ponto que te sufoque. Então, antes de qualquer coisa, você precisa aprender a controlar essa energia.

––Certo, o que eu faço?

Ele colocou os dedos entre os seus cabelos avermelhados e tirou uma pequena semente.

––Concentre a sua energia nessa semente.

––Como eu sei o que é a minha energia?

––Pela sensação. O calor que você sente te envolvendo, quando você fica nervosa. Ou as ondas de calor que te envolvem quando você quase sufoca.

Ela respirou fundo. Era estranhamente cruel que tivesse que lidar com algo que tinha tanto medo. Com algo do qual sempre fugira tanto... Ela tocou a semente e se concentrou.

Primeira vez, não aconteceu nada.

Segunda vez, novamente nada.

––Tente relaxar, a energia deve se movimentar dentro de você. Você precisa abrir caminho para ela passar. Se empurra-la, ela não sairá do lugar.

Ela movimentou a cabeça alongando o pescoço. Tentou relaxar.

Terceira vez, não aconteceu nada.

Quarta vez, a semente virou um pequeno broto.

––Olha!––disse espantada e animada.––Eu que fiz isso?

––Sim––respondeu dando um sorriso gentil.––Tente novamente, usando mais energia dessa vez.

Ela tentou, e nada aconteceu.

––Não está dando certo!––reclamou impaciente.

––Fique calma. Lembre-se que a energia deve fluir e não ser empurrada. Talvez seja melhor você descansar um pouco agora.

––Não, não! Eu quero tentar!––respondeu, achando que estava começando a tomar jeito no negócio.

Tentou, tentou e tentou. O pequeno broto parecia não ter vontade de evoluir daquele ponto.

Três horas depois, ela deixou suas costas despencarem no chão:

––Essa sua semente está com defeito!––murmurou já sem paciência.

Kurama riu:

––Sementes não dão defeito.

––Então eu desisto––anunciou.

––Amanhã você poderá tentar mais vezes. O princípio básico você já entendeu, agora é treinar isso até que funcione da forma que você desejar.

Ela encarou o brotinho com certa irritação:

––Ah! Mas que porcaria de semente!––reclamou dando um peteleco nela, concentrando toda a sua raiva para aquele pequeno brotinho que a desafiava há horas.

Instantaneamente o broto tomou uma forma muito diferente. Raízes grossas se embrenharam no chão e um tronco grosso e forte ascendeu aos céus. Logo uma chuva de pétalas de cerejeira surgiu. Era uma árvore imensa.

Ela gritou dando um pulo para trás.

––E-eu fiz isso?––perguntou ela surpresa.

O youko estava muito surpreso. Ela tinha muita energia. Um perigo muito grande para tão pouco controle.

––É, fez sim––disse dando um sorriso gentil.

––YES!––gritou num momento de muita alegria. E se voltou para a cerejeira––Toma essa, sua sementinha estúpida! YES! YES! YEEES!

Ela caiu no chão sentada.

––Você está bem?––perguntou Kurama se aproximando dela.

––Sim. Ai! To cansada––disse, cobrindo um bocejo com as mãos.––Nos vemos amanhã então?––perguntou se levantando e batendo as mãos nas calças, para tirar a terra que havia grudado nela.

––Sim, aqui mesmo.

––Certo. Até amanhã então––disse ela correndo até a estrada. Deixando para trás um Youko muito surpreso, mas também muito satisfeito.

oOoOo

Os dias foram se seguindo e os treinamentos foram ficando cada vez mais complexos. Sem controle o tempo foi passando e Sassame parecia já não achar tão ruim ser um demônio, mesmo que ela ainda não entendesse como poderia ser um quando observava sua imagem humana diante do espelho.

"Acho que alguns demônios devem ter aparência humana mesmo", concluiu lembrando-se de Kurama. Estava bem feliz por não estar no grupo dos demônios "esquisitões", como ela os chamava em pensamento.

Todas as manhãs ela ia para o cursinho, e toda tarde passava treinando com o youko. O dia dele era bem parecido, mas estudavam em lugares diferentes.

Naquela manhã, antes que o jovem Shuuichi terminasse o seu café. Koenma apareceu em sua imagem infantil, flutuando perto da geladeira.

––E aí!––cumprimentou, fazendo um aceno com a mão.

Kurama, que quase engasgou com o cereal com a chegada inesperada de Koenma, pousou a colher em cima da mesa.

––Como anda o treinamento?––perguntou, antes que o ruivo tivesse tempo de responder ao seu cumprimento.

––Bem, ela já está manipulando muito bem a energia.

––E sobre o passado dela? Ela se lembrou de alguma coisa?

Ele já havia desconfiado que o desejo do mundo espiritual não era que ele apenas a treinasse, mas que descobrisse que tipo de demônio ela era. Mais precisamente quem ela era.

––Não. Ela não demonstra nada. Acho, sinceramente, que ela não está se lembrando. O mundo espiritual não descobriu nada sobre o passado dela?

––Coloquei um detetive atrás disso. Mas, a única coisa que sabemos é que o espírito dela encarnou nesse corpo que ela usa. Parece que ela tomou posse de uma vida que estava sendo gerada. A história dela tem muita semelhança com a sua, Kurama.

Ele não respondeu. Não apenas a história, mas o tipo de energia e os poderes que ela desenvolvia eram muito semelhantes aos dele.

Independente de quem seja o treinador, o aluno sempre tem algum dom pré-definido. O mestre deve apenas guiar o seu seguidor no caminho correto para evoluir em suas habilidades.

––Eu não a conheci antes, no mundo das trevas––adiantou-se para responder o que Koenma estava enrolando para perguntar.

––Acho que vou deixar ela desenvolvendo os poderes com você por mais um tempo. Daqui um mês ou um e meio eu mando ela para uma missão.

Kurama não concordou nem discordou. Ela estaria pronta em um mês para muitos tipos de missão. Estaria pronta muito antes.

––Então é isso. Até mais ver––disse o bebê sumindo no ar.

Enfiou a colher na tigela e ficou virando os cereais de um lado para o outro, imaginando quem poderia ser aquela alma secular que residia naquele corpo frágil e humano de garota.

(Continua...)