Capítulo III

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Colocar as crianças na cama depois da fogueira não foi tão difícil quanto Ginevra esperava. As meninas estavam exaustas no primeiro dia de acampamento e não conseguiram sequer trocar de roupa para se deitar.

Apenas Gina permaneceu acordada, sorrindo na escuridão com a lembrança dos braços de Harry ao redor dos ombros, a respiração quente em seus cabelos, o arfar suave do peito acolhedor quando ele respirava...

Não havia mais como negar a atração mútua, mas Ginevra receava que não fosse possível deixar que se transformasse em algo mais do que um relacionamento casual.

A personalidade de ambos não poderia ser mais diferente.

Ela era impulsiva, excitável e passional, enquanto Harry era um homem autoritário e metódico. O que se escondia por trás do exterior frio daquele homem continuava a ser um enigma para ela.

Mergulhada em reflexões, Gina adormeceu vencida pelo cansaço.

O movimento no quarto a acordou na manhã seguinte. Duas das meninas, sentadas na cama de uma delas, conversavam em voz baixa, rindo a cada sentença.

Gina se espreguiçou e abriu os olhos, ainda atordoa da pelo sono.

— Bom dia — saudou, sentando-se na cama.

Uma dor pontiaguda fez com que encolhesse os ombros. O corpo todo doía como se tivesse sido atropelada por um caminhão, e ela mal conseguiu retirar os cobertores.

— Oh, meu Deus! Detesto ter de dizer isso, crianças, mas acho que não vou conseguir sair dessa cama!

As meninas, entretidas com a conversa, mal olharam para ela.

Gina girou o pescoço de um lado para outro, incapaz de qualquer movimento que exigisse mais do que isso, e observou a alegre algazarra das crianças se levantando.

Todas as ocupantes do chalé seguiram para os banheiros antes que ela fosse capaz de estender os braços. Aos poucos, a vida começou a retornar ao seu corpo e lentamente, com supremo esforço, conseguiu se levantar.

O toque da alvorada, alto e claro, ecoou pelo acampamento. Imediatamente, as crianças correram para o refeitório, despertas e preparadas para mais um dia de diversão e sol.

Somente Gina permaneceu sentada à beira da cama, sem conseguir se mover. O corpo todo doía, desde a cabeça até os dedos do pé. Porém, ninguém parecia notar seu des conforto.

— Acho que terei de resolver meu problema sozinha. Com sorte e determinação, conseguirei chegar ao topo da colina até o anoitecer — resmungou sozinha.

Ao menos, não teria de passar pela humilhação de se pôr de pé em público.

Ela olhou ao redor e suspirou ao ver a desordem que reinava no chalé. Entretanto, naquele momento, tinha de ocupar todas as energias que possuía para cuidar de si. Finalmente, com grande esforço, não só conseguiu se levantar como se arrastou até a porta. Ao sair, viu Agnes deixando a cabana 4 com as mãos pressionadas contra a nuca.

— Você também está dolorida? — Dirigiu-se a ela com simpatia, e até mesmo o ato de falar pareceu penoso. —Achei que estava acostumada a acampamentos.

— E estou, mas esses colchões acabam com minha coluna!

— Confesso que nem notei os colchões... Acho que o que me destruiu foi subir e descer a colina.

— Vai se acostumar com o tempo. Venho para o acampamento há três anos, e fica mais fácil a cada vez. Depois de um longo banho quente, você se sentirá melhor.

— Espero que sim. Chegaram ao banheiro, onde algumas crianças retardatárias ainda tomavam banho.

— Não pense que só você está se sentindo mal. Aposto que todos os monitores do acampamento estão com o corpo dolorido hoje.

Gina agradeceu secretamente o suporte que encontrara em Agnes, mas não estava convencida. Na certa, encontraria Harry bem disposto e cheio de energia como de costume.

Deixou que o jato de água quente massageasse seu pescoço enquanto o visualizava correndo colina acima até a recepção. Depois do desjejum, ele provavelmente caminharia alguns quilômetros antes de nadar por meia hora contra a correnteza do rio Potomac.

Com uma ponta de inveja da disposição atlética de Harry, ela girou o pescoço de um lado para outro sob o jato forte de água, sentindo os músculos relaxarem.

Lembrou-se dos braços fortes que a envolveram ao redor da fogueira na noite anterior, e um arrepio de prazer per correu-lhe o corpo.

Naquele ambiente, não era fácil imaginar Harry como um executivo bem-sucedido. Parecia ser outro homem, relaxado, bem-humorado, vibrante, sensual...

Ginevra esfregou o sabonete com força sobre a pele, reprimindo os pensamentos. Todavia, não conseguia parar de pensar nele. Enquanto se enxugava, sentiu a pulsação crescer na garganta ao imaginá-lo parado no alto da colina esperando por ela, preocupado com seu atraso. Imaginou-se correndo para ele para ser recebida com um abraço, como em um filme romântico...

Porém, sabia que seria impossível, ao menos diante de todos.

Impulsionada por um súbito senso de urgência, ela se vestiu e voltou para o chalé, sentindo-se melhor depois do banho. Erguer os braços para pentear os cabelos foi uma pequena agonia, e calçar sapatos se transformou em uma tarefa quase impossível, mas de alguma forma, ela conseguiu.

Gina fechou a porta, deixando a bagunça dominante no chalé para trás, e chamou Agnes para subirem juntas a colina, rindo de si mesmas por estarem fora de forma.

Chegaram depois do que pareceu ter sido algum tipo de cerimônia matinal, e as crianças seguiam para o refeitório.

Gina avistou Harry à entrada. Sorriu e acenou, mas ele não respondeu. Mantinha expressão fechada e a boca apertava-se em uma linha fina, exatamente como o homem que conhecera no trabalho.

— Oh... — Agnes murmurou quando o viu. — A julgar pelas aparências, seu amigo não está de bom humor. Vou deixar que você resolva esse assunto — anunciou, desaparecendo na multidão.

Gina não se sentiu desencorajada. Usou seu melhor sorriso e saudou-o com um caloroso "bom dia" ao se aproximar.

Não obteve resposta, e minimizou o impacto da recepção hostil dizendo a si mesma que ele não ouvira. Mantendo o mesmo ânimo, foi ao encontro dele e estava pronta para sau dá-lo novamente quando ele a encarou com olhar feroz.

— Você perdeu a cerimônia da bandeira.

— Creio que isso não importa, não é? Conseguiram hasteá-la sem a minha ajuda.

— Tem sempre de fazer piada de tudo? — Harry reclamou, enfiando a mão no bolso. — O princípio básico é que um monitor deve participar das formalidades.

Gina suspirou diante do inevitável. Harry estava aborrecido porque ela não correspondera às expectativas dele, o que aconteceria mais cedo ou mais tarde, concluiu.

— Como monitora, tenho de cuidar das crianças do meu chalé durante a noite, e ponto final — retrucou, obrigando-se a manter o bom humor.

— Você poderia se esforçar para causar boa impressão.

— Não estou preocupada com as aparências. Estou interessada nos resultados. Desde que minhas meninas estejam bem e felizes, é tudo o que importa. Não gosto de seguir regras.

Gina se arrependeu no momento em que enunciou a frase. Podia ver a censura no olhar de Harry, e soube que ele a via como uma funcionária do banco, em lugar de uma monitora de acampamento. Felizmente, ela se lembrou do voto de não falarem sobre trabalho e teve suficiente autodisciplina para guardar a opinião para si.

— Há certas formalidades que você deve cumprir — ele encerrou o sermão com expressão ainda mais fechada.

Apertando os dentes, Gina respirou fundo antes de responder. De onde havia tirado a ideia de que ele mudara?

— Está me acusando de ser negligente com minhas obrigações?

— Não estou acusando-a de nada, mas eu me sinto responsável pela sua conduta, e...

— Por quê? Sou algum tipo de idiota para precisar que alguém cuide de mim?

Ele já fora longe demais, Ginevra decidiu. Não havia bom humor que resistisse a tamanha carga de hostilidade!

— Na verdade, você sabe se cuidar muito bem, mas desde que fui eu quem a trouxe para cá...

— Espere um pouco, sr. "Todo-Poderoso"! — Gina não se conteve. — Está muito enganado. Você não me forçou a vir. Estou aqui porque eu escolhi, e vou permanecer pela mesma razão, com ou sem sua aprovação.

— Minha aprovação não tem nada a ver com isso. — Harry lembrou-a em tom gélido. — Mas há um protocolo a seguir, e espero que você o respeite. Faz parte das suas obrigações.

Gina o encarou e plantou as mãos na cintura.

— De que obrigações você está falando?

Harry se aproximou um passo, na típica postura autoritária que pretendia intimidar o oponente.

— Em primeiro lugar, todos no acampamento estão se preparando para uma caminhada depois do desjejum. Os monitores têm obrigação de ir.

— Caminhar? Eu?! — Gina arregalou os olhos, incrédula.

— Foi o que eu disse.

— Bem, tenho novidades para você e para o Acampamento Wakahoola... — Ela respirou fundo e empinou o queixo. — Vou tomar sol durante o dia todo!

— Tenho certeza de que Bill Robards vai apreciar sua cooperação.

— Se ele pensa que vou passar a semana caminhando, nadando e praticando esportes, vai ficar mortalmente decepcionado. Não vou a lugar algum.

Ao dizer isso, Gina endireitou a coluna, passou por ele e seguiu com passos firmes para o refeitório. Podia sentir os olhos dos outros monitores a seguindo pela sala, mas não se importou. Estava tão furiosa com a atitude de superioridade de Harry, que seria capaz de esbofeteá-lo!

Seu rosto ainda queimava de raiva quando apanhou a primeira xícara de café. A semana seria um verdadeiro inferno se o "Todo-Poderoso" se desse o direito de monitorar todos os seus passos.

— Gina! — Agnes chamou-a, indicando a cadeira vazia ao lado dela.

Feliz por encontrar pretexto para desviar a atenção do aborrecimento que tivera com Harry, ela se esgueirou pelas mesas e sentou-se. Tomou metade da xícara de café antes de falar.

— Você tem algum analgésico?

— Tenho muitos. — Agnes não conseguiu reprimir o sorriso, e abaixou a voz. — Estou enganada, ou detectei uma nota de discordância na conversa lá fora?

— Como se já não bastasse meu corpo todo estar dolorido, agora estou com dor de cabeça graças ao "Todo-Poderoso"! — ela confirmou.

— Hum... Talvez ele tenha levantado com o pé esquerdo hoje de manhã.

Ginevra mastigou sem apetite a torrada com geleia de amora, e a conversa de outros monitores à mesa chamou-lhe a atenção.

— Ouvi dizer que os meninos estavam excitados ontem à noite. George me contou que não dormiram até as três horas da madrugada.

— É verdade — uma das crianças opinou. — O Sr. Potter ordenou que todos fizessem cem abdominais...

— E teve de bloquear a porta com o colchão para que os meninos não saíssem — outra voz infantil acrescentou.

— E as crianças dormiram depois disso? — Gina indagou curiosa. A criança de cabelos encaracolados e olhos vividos sorriu, divertida.

— Não. Pularam sobre ele para sair.

Não era para menos que Harry estava tão mal-humorado! Ela pensou. Porém, não havia razão para descarregar sua frustração sobre ela, que tinha seus próprios problemas.

— Harry teve a pretensão de dizer que eu deveria ir para a caminhada hoje de manhã. — Gina se voltou para Agnes. — Diga-me que não é verdade.

— Não é verdade. É claro, há uma certa expectativa de que você possa participar das atividades, mas não é obrigatório. — Agnes enviou-lhe um olhar de simpatia. — No seu caso, eu sugiro que você passe o dia descansando.

Gina se concentrou no café da manhã, tentando não prestar atenção a Harry. Decidiu fazer um favor a si mesma e evitá-lo pelo resto da semana. A ridícula noção de que ele era um ser humano adorável e atencioso, fora prematura. Fora tola por pensar que Harry fosse qualquer outra coisa a não ser o executivo prepotente que ela conhecia.

A atenção dele fizera bem ao seu ego, mas não passara de uma ilusão.

Depois de duas xícaras de café, uma fatia de torrada fria e um copo de suco de laranja, Gina se sentiu melhor e, inconscientemente, olhou ao redor à procura do filho. Havia prometido que não o supervisionaria, mas o instinto maternal foi mais forte.

Avistou Stevie em uma mesa perto da porta e acenou. Ele respondeu com entusiasmo e seguiu na direção dela com um sorriso radiante.

— Dormiu bem, filho? — ela indagou, aliviada ao ver que ele usava os óculos.

— Não — ele declarou com orgulho. — Fizemos uma guerra de travesseiros que durou até de manhã. Harry não ficou muito feliz com isso.

— Eu ouvi dizer. Você teve de fazer abdominais?

— Essa foi à parte fácil! — Ele fez uma careta. — O pior será termos de manter o chalé tão limpo quanto um alojamento do exército pelo resto da semana.

— Que bom! — ela assentiu em aprovação. — Talvez, quando você voltar para casa, consiga arrumar seu próprio quarto.

— Não, mamãe. É apenas por uma semana — ele argumentou com expressão travessa.

Ginevra suspirou e olhou para os pés do filho.

— Não acha que, já que vai sair para uma caminhada, seria melhor usar meias?

— Ninguém está usando meias.

— Mas você ficará com bolhas nos pés.

— Não se preocupe com isso, mamãe. Você também vai caminhar?

— Não, querido. Meu corpo está dolorido. Talvez na próxima vez.

Ele sorriu mais aliviado do que preocupado, e correu para se encontrar com os amigos, deixando Gina com a distinta impressão de que ela era a última pessoa naquele acampamento de quem ele desejasse a companhia.

Depois do café da manhã, Gina voltou para o chalé. Supervisionou as meninas na arrumação das camas, mas havia muita bagagem e pouco espaço para guardá-las.

— Façam o melhor que puderem — ela advertiu, para alívio das crianças.

O resultado não foi dos mais recompensadores, mas Gina lembrou-se de que estavam lá para se divertirem, e não para trabalharem.

Uma voz nos alto-falantes do sistema de som anunciou o início da caminhada e as garotas correram para a recepção, rindo e conversando. Agnes se juntou ao grupo, declarando que precisava de exercícios físicos. Em menos de dez minutos, a unidade feminina havia se esvaziado e Gina tinha o lugar todo só para ela.

Passava pouco das oito e meia, e o sol estava brilhante e convidativo. Animada para o banho de sol, ela vestiu o biquíni e preparou uma sacola, disposta a caminhar o pequeno trecho até a margem do rio.

De súbito, sentiu-se inquieta com o silêncio do acampamento, vazio como uma cidade fantasma. Usualmente, estaria ansiosa por um dia como aquele... No entanto, sentia-se sozinha e deprimida. Estaria com saudade de casa?

Ajeitou a alça da sacola nos ombros e caminhou devagar, sentido os músculos doloridos das pernas. Estava exausta quando atravessou o pequeno arvoredo, ansiando pelas areias brancas e as águas serenas que a esperavam.

No entanto, ao chegar à margem do rio, Gina soltou uma exclamação decepcionada.

Aquilo era a praia? Perguntou-se, olhando para a pequena faixa de terra e a estreita correnteza cujo leito era forrado de pedras escorregadias.

Ela conteve o ímpeto de gritar. O que fizera para merecer isso?! O único lugar viável do cenário era o píer, a poucos centímetros acima da tona.

Gina reprimiu o desapontamento e rumou para a doca. Estendeu a toalha na madeira do deque estreito e, com um suspiro exausto, despiu o short e a camiseta e se deitou.

Por que estava tão decepcionada? Afinal, a culpa era toda dela! Nunca gostara da vida selvagem. Estava ali por causa do filho, e aquele era o propósito da viagem.

Resignada, ela usou a sacola como travesseiro e se forçou a relaxar. Ouviu passos se aproximando e, ao abrir os olhos, se deparou com Harry.

— Há espaço para mais um?

Ela sentou-se de um pulo. O corpo perfeito se revelava sob o traje esportivo, perfeito para a compleição atlética e vigorosa.

Sem esperar pela resposta, ele se estendeu ao lado dela e, sem esconder a admiração, passeou o olhar pelo seu corpo revelado em todas as curvas dentro do minúsculo biquíni.

Gina se recusou a ficar perturbada. Sabia que ele estava tentando provocá-la, e ignorou o arrepio que percorreu sua espinha e incendiou suas veias. Estava determinada a não sucumbir ao charme daquele homem.

— Eu lhe devo desculpas — ele começou em tom sincero. — Exagerei hoje de manhã. Receio que você foi vítima do meu mau humor matinal.

— Mau humor matinal? Creio que isso seja um eufemismo. Você é sempre tão amigável e charmoso quando se levanta?

— O problema é que eu não me levantei. Simplesmente não dormi.

— Oh, entendo. — Ela se encolheu ao sentir o contato da perna de Harry na pele nua. — Você teve uma noite ruim, e em vez de levar seus problemas para o diretor do acampamento, que está qualificado para...

— Quantas toalhas você trouxe? — ele interrompeu em tom amigável.

— O quê? Oh... Eu trouxe três — ela respondeu de forma automática, voltando ao sermão. — O diretor está qualifica do para lidar com esse tipo de problema, mas você despejou toda a sua raiva em mim. Bem, fique sabendo que...

— Você conseguiu uma boa almofada.

Ginevra pestanejou atônita com a súbita mudança de assunto.

— Acordei com o corpo dolorido hoje cedo, Harry. Também estava mal-humorada, porque mal podia...

— Você é linda, Ginevra.

— ...caminhar — ela completou, ignorando a provocação.

— Acredite, uma palavra gentil teria sido bem-vinda. Você parece ter se esquecido de que eu fui à pessoa que...

— Acho que seu travesseiro improvisado é grande o bastante para duas pessoas...

— ...subiu e desceu a escada para o apartamento ontem de manhã, enquanto você carregava o carro.

— Poderia se afastar para me dar espaço?

— E isso foi antes que eu subisse a colina, o que prova velmente acrescentou mais cem quilômetros em minha carreira de maratonista, e... — Ela franziu a testa e o encarou. — Você está tentando me empurrar para fora da doca?

— Não. Estou apenas me ajeitando.

— Oh, entendo. — Gina se contraiu ao sentir a proximidade. — Bem, de qualquer forma, nunca fiz tanto exercício físico quanto nas últimas horas, e... Oh! — ela gaguejou, agarrando-se ao braço dele. — Você está me empurrando! Estou quase caindo na água.

Imediatamente, Harry estendeu um braço protetor sobre ela.

— Chegue mais perto. Vou me afastar para lhe dar espaço.

— Obrigada.

Ela sorriu, mas a vaga sensação de que havia perdido alguma coisa a perturbou. Talvez o tivesse julgado mal, afinal de contas. Naquele momento, Harry voltara a ser o homem gentil e atencioso que conhecera no dia anterior.

Apoiando-se sobre o cotovelo, Harry pousou a mão livre no ombro de Gina. O braço tocou levemente os seios, provocando uma descarga elétrica que a fez arrepiar.

— Você é uma mulher muito bonita, Gina.

Sem que ela esperasse, Harry inclinou a cabeça e capturou seus lábios com posse tão gentil e suave quanto a brisa da manhã.

Quase sem perceber, Ginevra relaxou, e respondeu ao beijo com mais ardor do que pretendia. Em resposta, o con tato se aprofundou, lentamente a princípio, mas persistente e persuasivo a ponto de incendiá-la.

Braços poderosos a envolveram, e a boca possessiva mo veu-se sobre a dela em sensual exploração.

Correntes de desejo percorreram o corpo de Ginevra. Instintivamente, ela o enlaçou pelo pescoço, puxando-o para mais perto até que os corpos se moldassem como se fossem um.

Num suave gemido de satisfação, Harry estreitou-a contra o peito e girou o corpo para cobri-la com seu peso.

Sem pensar, Ginevra cruzou os tornozelos ao redor do quadril estreito, movida pela urgência do instinto que pulsava dentro dela.

Subitamente, o som de vozes infantis quebrou o clima de magia. Ginevra sentiu o corpo de Harry ficar tenso e, no momento seguinte, foi tomada por um profundo vazio quando ele se afastou.

— Droga! — ouviu-o praguejar, irritado.

Ela tentou controlar a pulsação e admitiu que estava tão decepcionada quanto ele.

— Achei que todos tivessem saído para a caminhada — ela balbuciou, sentando-se e ajustando a alça do biquíni.

— Você não imaginava que a caminhada duraria a manhã toda, não é?—Os dedos experientes traçaram caminho sobre a pele alva, sob a alça do biquíni.

Ginevra sorriu secretamente diante do óbvio desapontamento de Harry. Sentia-se lisonjeada por ele ter perdido o controle.

Com um longo suspiro, ela fechou os olhos e se forçou a reprimir as emoções. Haviam trocado um beijo. Era tudo. Seria tola se achasse que o momento fugaz significava amor eterno.

— Aposto que alguns deles decidiram nadar — ela comentou, ajeitando a toalha. — O sol já está alto no céu.

— Que pena, não é? Se não tivéssemos parado, teríamos algo para nos lembrar pelo resto das nossas vidas.

Ginevra não encontrou palavras para responder, e agradeceu aos céus ao ver algumas crianças correrem pela areia da margem até a casa de barcos. Se ficasse mais um segundo sozinha com aquele homem, não seria capaz de responder pelos seus atos!

Harry desceu do deque para ajudar os guias a retirar canoas e vestir os coletes salva-vidas nas crianças, e ela se deitou de bruços e admirou sem reservas as formas perfeitas do corpo atlético.

O beijo que trocaram a tomara de surpresa. Talvez ambos estivessem cansados e vulneráveis, justificou. Nenhum dos dois era do tipo que se rendia a um impulso irrefletido. Am bos eram maduros e adultos, e não tinham as ilusões da adolescência. Sabiam que tinham personalidades opostas. Porém, lembrou-se de que opostos se atraíam...

Com ajuda de Harry, os guias colocaram as canoas no rio.

Ginevra fechou os olhos sentindo o sol do fim da manhã aquecer seu corpo. Ouviu fragmentos de conversas e soube que desceriam o rio para uma praia com vista espetacular.

As vozes das crianças se tornaram distantes e, no instante seguinte, a mão quente pousou em seu ventre.

— Você passou filtro solar?

— Não... — ela murmurou como se tivesse mergulhado em um sonho.

Sem pedir permissão, Harry abriu a sacola e se pôs a vasculhá-la.

— Hum... Um livro de suspense, óculos escuros, tesouras, caneta e lixa de unha... Para que você precisa de uma lixa de unha?

— Eu sempre carrego na bolsa.

— Não é uma bolsa, Gina. E uma sacola de praia — ele argumentou com uma risada. — Ah! Aqui está o filtro solar.

Ginevra prendeu a respiração. Não sabia se seria uma boa idéia permitir tanta intimidade... Mas a verdade era que precisava passar a loção nas costas, e não protestou ao sentir as mãos firmes em seus ombros.

Mordeu os lábios ao sentir a pele arrepiar com o contato. Uma onda de excitação cresceu em seu ventre, e desejou que aquele momento durasse para sempre.

— Pronto. Você já está protegida. Agora, deite-se de costas. Ela hesitou, mas não resistiu à tentação. Girou corpo e apoiou a cabeça no travesseiro improvisado.

Fechou os olhos ao sentir as mãos sobre seu ventre, numa carícia sensual. Harry espalhou o creme em seus ombros, massageando-os com suave pressão.

Um suspiro de prazer escapou dos lábios dela, e quando começava a relaxar, sentiu os dedos firmes soltando o laço da alça do biquíni.

— O que está fazendo? — Abriu os olhos, espantada.

— Tenho de passar filtro solar nos ombros.

A resposta pareceu razoável e inocente, e ela se sentiu tola por suspeitar que ele tivesse segundas intenções. Estava começando a aprender que havia uma faceta de Harry para a qual não estava preparada.

Com gesto involuntário, protegeu os seios quando o topdo biquíni se soltou, e sentou-se para olhar ao redor, preocupado por serem flagrados naquela posição.

— Acho que já basta, Harry. Obrigada.

— Ainda não passei protetor solar na área do colo...

— Ouça, se não parar com isso agora mesmo, eu vou... Vou...

— Atirar-me na água? — ele sugeriu com esperança.

— Não. Vou apanhar minhas toalhas e sair daqui.

— Você não quer fazer isso...

Ginevra abriu a boca para protestar... E não encontrou palavras. Harry tinha razão. Por mais insensato que pudesse parecer, tudo o que ela mais queria era ficar ali e ser seduzida pelo último homem que imaginara se apaixonar...

Fugindo da sedução do olhar de Harry, Ginevra respirou fundo e suspendeu o topdo biquíni. Não pretendia ceder à tentação de ser tocada pelas mãos fortes. As crianças poderiam voltar a qualquer momento, e seria um escândalo se os encontrassem em posição comprometedora.

Harry se afastou, contrariado, e ela tentou desviar a atenção, mas a consciência do corpo musculoso e bronzeado a seu lado tomou seus pensamentos, assim como a agressiva au toconfiança que dominava a todos que estavam em contato com ele.

E o mais curioso era que a atitude possessiva e autoritária não a incomodava... Não, quando sentia-se envolvida pela poderosa presença daquele homem.

Tentou fingir que não notava o contato dos ombros largos, nem dos movimentos ocasionais da perna musculosa ou do ritmo suave da respiração quente.

Embora ele parecesse completamente relaxado, Ginevra tinha a sensação de que Harry Potter era mestre em manter as emoções sob controle.

— Algo me diz que perdemos o almoço — ela mencionou, determinada a manter a conversa focalizada em assuntos triviais.

— Também acho. — Harry se virou para encará-la. — O prato do dia é salsicha grelhada com salada de batatas e gelatina de limão, se isso a faz se sentir melhor.

— Sem dúvida, sinto-me bem melhor por saber que não perdi grande coisa. — Ela sorriu. — E pensar que você fez Melissa deixar as guloseimas em casa... Seria muito útil nesse momento.

— Como eu poderia saber? — Ele se aproximou discreta mente.

— Melissa tem de fazer dieta. Ela tem tendência a ganhar peso com facilidade.

— De quem ela herdou essa tendência? A mãe dela estava acima do peso?

— Não, mas costumava fazer dietas rigorosas. — Harry perdeu o olhar na imensidão azul do céu. — Linda, cuidava de tudo com muito rigor. Ela era excelente profissional e a pessoa mais meticulosa que já conheci.

Ginevra sentiu uma ponta de ciúme.

— O que ela fazia?

— Era advogada e tinha um escritório com doze funcio nários. Morreu de câncer há dois anos.

— Oh, sinto muito... Eu não sabia. — Ginevra virou o rosto para fitá-lo, mas encontrou a usual máscara impene trável escondendo as emoções. — Deve ter sido uma perda irreparável para você e Melissa.

— Sem dúvida. Entretanto, minha filha superou com sur preendente facilidade. Linda sempre trabalhou fora, e nunca foi o tipo de mãe presente. A Sra. Briggs mora em nossa casa e cuida de Melissa desde que ela era recém-nascida. Foi ela quem tomou conta de tudo quando Linda foi internada.

— Isso é cruel.

— O que quer dizer?

— Parece que sua esposa perdeu muita coisa por ter de trabalhar.

— Ela não tinha de trabalhar. Ela queria trabalhar, o que é diferente. -Harry declarou com firmeza. —Era uma mulher eficiente, inteligente e bem-sucedida. A vida dela era voltada para o trabalho. Melissa não foi planejada, mas Linda con cordou com a gravidez, desde que pudesse voltar ao trabalho o mais breve possível, e exigiu que tivéssemos uma babá para cuidar da filha.

Ginevra avaliou o perfil bem desenhado à procura de alguma emoção, mas Harry parecia mantê-las cuidadosamen te reprimidas.

— Como você se sentiu a respeito disso? — perguntou com cuidado.

— Não tive escolha a não ser aceitar a decisão dela. Na ocasião, fiquei desapontado por Melissa não ser um menino. Agora, claro, eu adoro minha filha e fico feliz por ela ter nascido. — Ele girou o corpo e se deitou de lado, apoiando a cabeça na mão. — E quanto a você? Gostaria de ter uma menina?

— Não. — Ginevra se afastou com um movimento in voluntário. — Estava preparada para o que viesse, e adorei a idéia de ter um menino. Eu já havia pensado no nome dele mesmo antes da concepção.

— Você estava trabalhando quando ficou grávida?

A proximidade do corpo vibrante forçou-a a recuar ainda mais.

— Sim, e voltei ao trabalho quando Stevie tinha um ano de idade.

Com gesto aparentemente alheio, Harry encostou a mão em seu ventre, e Ginevra prendeu a respiração.

— É admirável como você consegue administrar sua vida, Gina. Deveria se orgulhar disso.

Ela fitou os profundos olhos verdes que tinham a ca pacidade de paralisá-la, ao mesmo tempo em que todos os nervos do seu corpo vibravam furiosamente.

Quando Harry retirou uma mecha de cabelos do seu rosto e beijou-a na ponta do nariz, ela fechou os olhos com a res piração suspensa. Então, lentamente, ele passou o braço pe los ombros dela e a abraçou.

Agindo por instinto, Ginevra se aconchegou no peito de Harry e não protestou ao sentir o contato possessivo dos lábios poderosos. Estreitando-se de encontro ao abdômen de aço, ela correspondeu ao beijo com total paixão.

A princípio, o contato foi suave e gentil, para se tornar mais insistente e provocante. A língua experiente contornou a linha dos lábios, enviando a Ginevra uma carga maciça de adrenalina.

Ela o desejava e sabia que era correspondida. Porém, he sitou em deixar que fluísse livremente a necessidade urgente que tomou seu corpo e despertou suas emoções.

O beijo exigente a impediu de pensar. Harry exigia mais, e forçou-a gentilmente a entreabrir os lábios para explorar seus segredos. Enquanto saboreava a doçura do momento, todos os resquícios de controle que ela lutara para construir quebraram-se como cristal. Ginevra se tornou consciente de uma nova sensação, viva e vibrante, que potencializou todos os sentidos.

A mão de Harry percorreu a linha do pescoço e soltou o laço do sutiã. Num gesto ousado, acariciou a curva dos seios, e sua mão se insinuou sob o biquíni, tocando os mamilos intumescidos.

Ginevra prendeu a respiração, ignorando a voz distante em sua consciência alertando-a para o perigo.

— Por favor, Harry... Estamos indo longe demais — balbuciou quase sem fôlego, sustentando o topcom uma das mãos.

Harry soltou-a de imediato e, com um longo suspiro, apoiou a cabeça nos ombros dela.

— Acho que deveríamos ter escolhido um local mais ade quado — comentou sem esconder a frustração. — O que acha de darmos um mergulho?

— Oh, não. Eu detesto água gelada.

— Não está gelada. Está tão quente quanto à de uma banheira. Experimente você mesma. Mergulhe a mão.

Com cuidado, Ginevra abaixou o braço e tocou a água com a ponta dos dedos.

— Tem razão. Não está tão fria, mas vou mergulhar os pés antes de tomar alguma decisão irracional.

— Fique à vontade.

Tomando cuidado para não espirrar água por todos os lados, Harry mergulhou e esperou por Ginevra, cujo problema no momento não era a água, mas a parte de cima do biquíni.

Ela ergueu os braços para apertar o laço da alça quando Harry a chamou:

— Ginevra, é melhor se apressar. Ouvi alguém se apro ximando.

— Oh, meu Deus! As canoas estão voltando! — ela gemeu sem conseguir atar o nó do biquíni.

— Entre na água antes que alguém a veja.

Sem pensar, ela sentou-se na beirada do deque e caiu nas águas geladas do Potomac.

— Meu Deus! Eu vou congelar! — reclamou, tremendo de frio.

— Você vai se acostumar. Movimente-se para se aquecer. Ela obedeceu prontamente, e percebeu horrorizada que havia perdido a parte de cima do biquíni.

— Oh, não! — gritou, olhando ao redor.

— Onde está meu top?

— Está perguntando para mim?

— Pare de brincar, Harry, e me ajude a encontrá-lo! — implorou, à beira da histeria.

— Está bem. Enquanto isso fique mergulhada até o pes coço.

Receando morrer por hipotermia, Ginevra se abaixou até que a água chegasse ao queixo.

— Tem de estar em algum lugar! — murmurou, tremendo de frio.

— Você não tem outro biquíni na sacola?

— Não. Por que eu traria um biquíni extra para o rio? E, mesmo que tivesse, como poderia vesti-lo, se as canoas já estão voltando?

Sensibilizado pelo desespero de Ginevra, Harry mergu lhou e permaneceu imerso por alguns minutos. Quando emergiu, ergueu o braço e estendeu-lhe a minúscula peça amarela.

— Você estava com meu biquíni o tempo todo! — ela disse por entre os dentes, arrancando-o das mãos dele.

— Não pude resistir. Ninguém nunca lhe disse que seus seios são lindos?

Lembrando-se de respirar, ela se virou de costas para ves tir o top.

— Palavras não podem expressar o quanto estou lisonjeada pela observação — ela resmungou, apertando o laço atrás do pescoço bem a tempo de ver as canoas se aproximando.

Os campistas acenaram e Harry respondeu, enquanto ela entrava em desespero.

— Por favor, ajude-me. Rápido!

— Com prazer.

Harry nadou para se colocar atrás dela e, com movimentos ágeis, prendeu o laço com dois nós. Aliviada, Ginevra fi nalmente relaxou, decidindo em segredo que, daquele dia em diante, passaria a usar maio, em lugar de duas peças.

Sentindo-se segura para sair da água gelada, ela cami nhou para a doca.

— Deixe-me ajudá-la a subir.

Com rapidez, Harry saltou para o píer.

Ginevra segurou a mão estendida para ela e, ao erguer a perna, perdeu o equilíbrio.

Mãos firmes a sustentaram antes que caísse na água. Então, antes que soubesse o que estava acontecendo, sentiu o braço possessivo ao redor da cintura.

Harry suspendeu-a, colocando-a com segurança no deque.

Ela fechou os olhos ao ouvir os aplausos das crianças e guias que acabavam de descer da canoa e assistiram à cena. Enrolou-se na toalha enquanto Harry agradecia aos aplausos, saudado como o herói do dia.

Logo que os campistas guardaram as canoas, Harry ajudou os guias a guardar os coletes salva-vidas.

Ginevra se vestiu e recolheu as toalhas. Os momentos que passara sozinha com Harry se tornaram mais íntimos do que ela gostaria de admitir. Seu corpo ainda vibrava com o toque das mãos poderosas. Disse a si mesma que era apenas uma insanidade temporária causada pela fadiga. Em breve, estariam novamente no ambiente de trabalho, e tudo seria esquecido.

— Você não vai ficar para outra aplicação de filtro solar? — Harry indagou quando ela chegou à praia.

O coração de Ginevra se apertou diante da nota de de sapontamento na voz. No entanto, sabia que tinha de evitá-lo, se quisesse se proteger da poderosa química que havia entre eles.

— Já tomei sol o suficiente por um dia — desculpou-se, fazendo menção de sair.

— Isso quer dizer que você virá para cá amanhã?

— Creio que sim.

— Ótimo. Gostaria de levá-la para um passeio de canoa.

— Oh, não — Gina protestou, com um firme movi mento de cabeça. — Obrigada, mas nunca andei de canoa na minha vida, e não pretendo que aqui seja minha primeira experiência.

— Não é preciso ter habilidades especiais. Qualquer um que saiba segurar um remo está qualificado para canoagem.

— E quanto a você? Sabe manejar o remo?

— Pratiquei canoagem quando era adolescente. E o mes mo que andar de bicicleta. Uma vez que tenha aprendido, você nunca esquece.

— O único problema é que nunca aprendi a andar de bi cicleta também.

Rindo, Harry passou o braço sobre os ombros dela e, juntos, caminharam para o topo da colina.

— Estava falando sério quando disse que não tem incli nações atléticas, não é? — ele perguntou com expressão di vertida.

— Tenho a mesma coordenação que uma tartaruga de costas.

— Mesmo assim, Gina, seria um pecado você passar uma semana inteira em um acampamento sem fazer ao menos um passeio de canoa. Os guias me disseram que a vista rio abaixo é espetacular.

Chegaram aos chalés onde os caminhos se dividiam. Ao redor deles, as copas viçosas das árvores contrastavam com o azul do céu, oferecendo sombra às trilhas que cortavam o arvoredo. O silêncio era quebrado apenas pelo canto ocasio nal dos pássaros e pelo som das folhas secas se quebrando sob os pés enquanto caminhavam.

Harry parou, colocou no chão a sacola de Ginevra e, com movimento delicado, segurou-a pelo queixo e fez com que o encarasse.

— Apesar de reclamar o tempo todo, desconfio que você gosta de acampar.

— Bem, tenho de admitir que não está sendo tão ruim quanto imaginei.

E Ginevra esperou que não percebesse ser ele o maior responsável pela sua mudança de opinião.

Harry deu um passo à frente e os corpos se tocaram. Abra çou-a e deslizou a mão pelas costas macias.

Ginevra podia sentir as curvas do seu corpo se molda rem ao torso atlético. Não resistiu ao impulso de pousar a mão nos ombros largos e deslizá-las para a nuca.

— Hum... Alguma coisa me diz que saímos do píer cedo demais.

— Está enganado. Está na hora de colocar ordem em nos so caos.

Harry afastou a cabeça e a encarou com expressão séria.

— Caos? O que quer dizer?

— Bem... — Ela fez uma pausa, hesitante. — Acho que não é ético da nossa parte nos dedicarmos a atividades que não estejam diretamente relacionadas com o acampamento.

— Está preocupada com nossa reputação?

— Isso mesmo.

— Entendo. — Harry tentava parecer sério, mas ela iden tificou o brilho divertido nos olhos dele. — Tenho de concor dar. Foi por isso que entreguei-lhe o biquíni quando vi a aproximação das canoas. Quis que você o vestisse antes que minha reputação ficasse manchada.

— Sua reputação?! — Ginevra deu uma palmada no ombro dele.

A boca bem-feita se curvou em um sorriso provocante.

— Não pude resistir, Ginevra... Você é a mulher mais atraente que já conheci.

Ela sentiu que todas as defesas se desarmaram diante do galanteio.

Harry puxou-a para mais perto e beijou-a com intimidade, e ela sentiu os contornos firmes do corpo viril pressionados contra o seu.

O contato intenso fez com que Ginevra se esquecesse do mundo. Sucumbiu à força da vibração que havia entre eles, e se entregou às sensações que brotavam de lugares que ela julgara adormecidos.

Com esforço supremo, afastou-se e respirou fundo.

— Não podemos, Harry...

— Você quer dizer que não podemos mais realizar ativi dades que não estejam relacionadas com o acampamento?

— É exatamente o que quero dizer.

— Está bem. Só queria ter certeza. Afastando-se um passo, ela o encarou com firmeza.

— Se não tomarmos cuidado, faremos história como os primeiros monitores a serem expulsos do Acampamento Wakahoola.

— Depende do ponto de vista — ele racionalizou. — Po deria ser uma honra.

Ao dizer isso, Harry apanhou a sacola e pressionou gentil mente o braço de Gina.

— E eu não tenho objeções a essa honra.

— Pare de tentar me persuadir a mudar o foco do proble ma, Harry! Você é especialista nessa arte, mas não vai con seguir. A regra a respeito dos projetos alheios ao acampa mento se mantém.

Embora a voz fosse firme e sincera, Ginevra teve a dis tinta impressão de que ele não a levava a sério.

Em lugar de responder, Harry passou a mão pelos ombros dela e a conduziu para a unidade feminina.

Quando se separaram, ele despediu-se com um breve beijo nos lábios.

Ginevra manteve o controle e esperou até que ele esti vesse bom de vista para correr como uma adolescente, an siosa para que chegasse o dia seguinte.

Uma chuva torrencial caiu sobre o acampamento depois do jantar, e as atividades da noite foram transferidas para o salão de jogos. A lareira foi acesa, mas não substituiu a excitação de uma genuína fogueira. Apesar do inconvenien te, as atividades transcorreram com sucesso. O diretor do acampamento iniciou a solenidade de premiação dos times vencedores das partidas de futebol, vôlei e basquete daquele dia. O nome de cada jogador foi lido e receberam uma caneta com o logotipo do Acampamento Wakahoola.

Ginevra ficou surpresa ao ver como os vencedores se orgulhavam do prêmio, e lembrou-se de que era o reconhe cimento, e não o prêmio em si, que importava.

Olhou para o filho, que se sentara na fileira da frente e aplaudia o time vencedor. Ele estava dentre os perdedores, mas não parecia aborrecido. E por que deveria? No dia se guinte, poderia vencer, pensou orgulhosa da atitude dele.

Durante a premiação, flagrou-se procurando por Harry. Avistou-o no outro extremo da sala, e seu coração perdeu um compasso.

Ao perceber que era observado, Harry sorriu e acenou discretamente, e ela respondeu tomada por uma intensa onda de alegria.

A chuva diminuiu de intensidade apenas o suficiente para que todos corressem para os chalés. Quando as crianças en traram na cabana, as roupas encharcadas formaram poças no piso. Em menos de um minuto, o lugar se transformou em um caos.

Exaustas, as crianças adormeceram antes que Ginevra tivesse tempo de vestir a camisola.

Ela dormiu logo que encostou a cabeça no travesseiro, e despertou com as vozes das meninas depois do que pareceu ter transcorrido apenas alguns minutos.

Melissa e a filha de Barbara Rhinehouse, Coleen, conver savam animadamente, sentadas na cama de uma delas.

Ginevra achou curiosa a coincidência de ambas se tor narem amigas no acampamento, sendo duas crianças fi lhas de funcionários do banco.

Ao pensar no trabalho, uma discreta nuvem de preocupa ção pairou sobre ela.

O mal-estar que ela sentia ocasionalmente quando estava com Harry se devia ao fato de conter-se para não mencionar o banco. Refreara diversas vezes o impulso de perguntar como ele conseguira o tom bronzeado da pele e os músculos vigorosos do corpo perfeito se ficava sentado por trás de uma escrivaninha o dia todo. E quando ele a criticara por não cumprir as regras do acampamento, ela quase respondera que não era como um dos executivos dele.

Se, por um lado, estava orgulhosa por conseguir manter os negócios fora da conversa, receava que, não poder falar com liberdade sobre o que tivesse em mente, os impedia de elevar o relacionamento a um novo padrão.

No entanto, pretendia manter o voto de não mencionar o banco American Trust naquelas férias. Se Harry trouxesse o assunto à tona, trataria de não estimulá-lo. Mais cedo ou mais tarde, teriam de se confrontar com o problema. Da par te dela, preferia que fosse o mais tarde possível.

Quando o dia nasceu, o chalé ganhou vida, mas Ginevra percebeu que o entusiasmo não era tão grande quanto no dia anterior. As meninas apanharam as capas de chuva e foram para os vestiários... Todos, exceto Ginevra.

Por que, dentre tantos itens desnecessários que levara, ela foi se esquecer de artigos essenciais como uma capa de chuva? Perguntou-se, irritada. Subiu correndo a colina e entrou no refeitório, onde Harry a esperava na porta.

— Por que não cobriu a cabeça com uma toalha? — ele indagou, avaliando os cabelos encharcados.

— Porque não pensei nisso — Ginevra retorquiu, abor recida.

— Desculpe. Foi apenas uma sugestão...

— Não preciso de sugestões. Preciso de uma sombrinha.

— Francamente, acho que você precisa de uma xícara de café.

O sorriso gentil a desarmou, e ela percebeu que havia exagerado.

— Tem razão. Mostre-me a direção correta.

— Com prazer.

Ele segurou-a pelo ombro e a virou na direção da mesa com café, chá, sucos e leite, e empurrou-a com gentileza.

Ginevra encheu uma caneca com café e sentiu-se me lhor depois do primeiro gole. Em alguns minutos, conseguiu achar graça por aprender sobre a forma como cada um reagia antes da primeira dose de cafeína. Serviu-se de torradas e encontrou uma mesa para se acomodar. Harry sentou-se ao lado dela, e comeram com apetite.

Ginevra notou que ele estava bem vestido, com bermuda acinzentada e camiseta pólo azul-real. Os cabelos, ainda úmidos, e a suave fragrância da loção pós-barba revelavam que acabara de sair do banho.

Desviou os olhos e tomou todo o conteúdo da xícara de um só gole, consciente do olhar de Harry sobre ela. Endireitou os ombros, determinada a não deixar que ele a afetasse.

— Você está muito elegante esta manhã, Harry — comen tou casualmente. — Não acha que exagerou para um dia chuvoso como hoje?

— Procuro vestir roupas confortáveis, e o clima nunca me influenciou.

— O que aconteceu com a roupa que usou ontem?

— Derrubei geleia de amora da torta no jantar.

Ginevra riu. Como era possível que estivesse tratando de assuntos domésticos com o presidente do departamento de empréstimos do banco?

Bill Robards parou diante deles no centro do refeitório e chamou a atenção de todos, batendo a colher no copo para pedir silêncio.

—Tenho de informá-los que as atividades ao ar livre serão adiadas em função da chuva. Enquanto isso, vamos para o salão de jogos, onde alguns instrutores prepararam ativida des interessantes. Vocês poderão confeccionar artesanatos e levá-los para casa.

Um burburinho desapontado percorreu o salão.

— Já que todos ficaremos juntos, temos de usar alguma ajuda extra. Há algum voluntário que possa nos ajudar?

Ginevra ergueu a mão, seguida de diversos monitores.

— Ótimo. Temos Ginevra, Agnes, Helen, Roger... Obri gado pela cooperação — agradeceu, passando a falar de ou tros assuntos.

— Você?! — Harry se aproximou de Ginevra com expres são surpresa. — Você se colocou como voluntária para con feccionar artesanato?

— Por que não? Posso não ser especialista em canoagem, mas tenho habilidades com as mãos.

— Ginevra, você me surpreende a cada minuto. — Harry fitou-a com admiração genuína. — Onde aprendeu a fazer artesanato?

— Não fui a nenhuma escola, mas... — Ergueu os ombros, sem concluir.

Quis acrescentar que fizera parte do comitê do Sr. DuBois e participara da organização dos eventos de arte, anos atrás, mas lembrou-se de não mencionar nada que se relacionasse a trabalho.

Ela realizara vários projetos de arte e aprendera noções básicas sobre pintura e desenho.

Seguiram para o salão de jogos, que fora adaptado para a atividade com diversas mesas, cadeiras e materiais gráficos.

Depois de avaliar o material disponível, Ginevra distri buiu papéis, tintas e pincéis e supervisionou pequenos grupos.

— O truque é fazer com que as crianças se interessem pelos projetos antes que fiquem entediadas e comece a andar pela sala — comentou com Agnes. — Por que não começa com o grupo que está com o papel crepom? Coloque as crian ças sentadas, entregue tesoura e papel e deixe que traba lhem à vontade. Voltarei num minuto para mostrar o que fazer.

Agnes sentou-se numa das mesas e se pôs a cortar papéis. Imediatamente, as crianças a rodearam para ver o que es tava fazendo.

Ginevra parou ao lado de Brenda Mortmer, a simpática senhora de meia-idade que estava confeccionando correntes de elos de cartolina. Em pouco tempo, todos estavam ocupa dos, recortando, desenhando e pintando.

— Tem algum projeto para mim? — a voz de Harry soou próxima de Ginevra.

— É óbvio que espera que a resposta seja um sonoro "não", não é? — Ela se voltou para ele com um sorriso.

— Feliz mente para você, há instrutores suficientes para supervisionar todos os projetos.

— É uma pena. Vim para me oferecer como voluntário.

— Sei que deve estar terrivelmente desapontado, mas pa ra confortá-lo, posso sugerir que organize um campeonato de pingue-pongue para aqueles que não se encaixaram em nenhum projeto.

— Pingue-pongue? — Os ombros de Harry se encolheram em frustração. — Não temos bolas de pingue-pongue.

— Sim, nós temos. Encontrei uma caixa fechada no baú ao lado da lareira. Está bem ali.

Com um suspiro exasperado, Harry seguiu para o local que ela indicara e abriu o baú.

— Ginevra, veja o que encontrei!—Ele riu, chamando-a. Ele suspendia uma peça de vestuário, e Ginevra se apro ximou, curiosa.

— O que é isso?

— Um colete salva-vidas do período da guerra.

— Nunca vi um colete tão grande! Você acha que ainda flutua?

— Claro. Essas peças eram construídas para durar, mas não eram usadas exceto em viagens em alto-mar. Já foram substituídas por modelos mais leves e modernos.

Ele depositou o colete salva-vidas no baú e seguiu na di reção da mesa de pingue-pongue.

Os olhos de Ginevra o seguiram, mas seu pensamento não estava ali. Ela pensava no colete salva-vidas no baú bem diante dela. Talvez fosse precisar da peça, no passeio de ca noa marcado para o dia seguinte...

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N/A: Ola meus queridos, como estão?

Estou amando poder contar coma presença de vocês nas adaptações, e espero poder contar muito ainda nos novos projetos.

Essa adaptação ao contrário do que havia dito antes, não tem 6 capítulo e sim apenas CINCO. ohhhhhhhhh

Portanto, estamos na metade da fic e como não tenho mais adaptações interessantes prontas, preciso me virar e achar logo um bom livro para adaptar, sendo assim, próximo capítulo será postado na segunda ou terça-feira.

Até mais e não esqueçam de comentar para fazer uma adaptadora(WHAT?) feliz! =D

Respostas aos comentários:

Joana Patricia: Sem dúvida eles estão muito a vontade, mas não posso recriminá-los. Aliás, quem não queria ficar desse jeito por um moreno, alto, de olhos verdes e sorriso sedutor? (suspiros).

Espero que tenha gostado desse novo capítulo e muito obrigada pelo comentário.

YukiYuri: Esquentar? Mágina! Como disse na resposta ao comentário acima, tem como condenar essa tensão sexual entre eles? Eu imagino que não! ^^

Espero que tenha gostado desse novo capítulo e muito obrigada pelo comentário.

Mylle W. Potter: Que bom que não acha que eu demorei, é uma das poucas, pergunte a Larissa Cardoso e a Dressa Potter sobre as atualizações da Será e verá o quanto rápido a minha cabeça pode ir a prêmio!

Fico feliz em saber que esteja gostando da adaptação, fico no aguardo para saber sua opinião sobre este. Obrigado pelo comentário.

Thai: Ola, mesmo essa obra não sendo de minha autoria fico feliz em poder compartilhar essas estórias com vcs e ter respostas positivas sobre elas! Gina e Harry por serem uma espécie de pais solteiros sabem lidar bem com crianças, mas não podemos negar que quando falamos desses seres pequenos arrancadores de sorrisos e fazedores de corações moles, estamos lidando com o imprevisível!

Acho que não demorei a postar, afinal estou no prazo prometido! rsrsrs

Espero que tenha gostado do capítulo e aguardo seu comentário sobre esse. Obrigado por sempre estar comentando.

L: Que bom que gostou, espero que este capítulo tenha lhe agradado ainda mais. Aguardo sua opinião, obrigado pelo comentário.