2º Mês
(Londres, 7 de setembro de 2008, domingo)
Harry não voltou ao apartamento de Malfoy antes do domingo. Afinal, não era provável que Umbridge voltasse antes que algumas semanas se passassem e ele bem que estava merecendo um descanso da sua vida de casado. E se ainda por cima ele fizesse com que Malfoy se preocupasse que ele houvesse realmente desistido, tanto melhor!
Mas Malfoy não fez nenhuma tentativa de entrar em contato com ele, e Harry decidiu voltar antes que a semana começasse novamente. Mas não sem reforços.
"O que é isso?" Malfoy perguntou quando Harry, Ron e Hermione entraram no apartamento com os narizes vermelhos de frio.
Malfoy estivera deitado no sofá em frente à TV e, não pela primeira vez, Harry se perguntou se ele costumava passar o tempo ali antes, ou se ele só o fazia para lembrá-lo que estava no território dele. Afinal, ele podia escolher entre suas duas televisões, enquanto Harry tinha que se contentar com a sala.
"Temos visita, como você pode ver" Harry falou tranquilamente, acenando para que seus amigos entrasse. "Fiquem à vontade."
"Obrigada" Hermione entrou, trazendo o marido pela mão. Ela deu uma boa olhada em volta, parecendo prestar atenção aos detalhes do ambiente. Ron também olhou ao redor, mas ao invés de parecer contemplativo como a esposa, estava mais para desconfiado, deixando claro que estava sendo arrastado contra sua vontade.
"Não me lembro de ter recebido uma ligação do porteiro!" Malfoy havia se levantado, olhando de um intruso para o outro.
"E por que Sir Nicholas ligaria?" Harry deu de ombros.
"Quem é Sir Nicholas?"
"O porteiro" Harry esclareceu. Ele obviamente não havia sido ordenado Cavaleiro pela Rainha, mas era assim que era conhecido, por ser um senhor de respeitáveis cabelos brancos, por seu porte sempre impecável e de boas-maneiras e, principalmente, porque tinha um sobrenome complicado demais para ser lembrado. Mas era óbvio que Malfoy não saberia o apelido de um dos porteiros. "Até onde ele sabe, eu também moro aqui. E ele pode ter mencionado, em uma ou outra ocasião em que conversamos, que você é um bastardo insolente. Ou talvez tenha sido eu... não me lembro bem. Pessoal, agora que já conheceram meu quarto, venham ver a cozinha" Harry passou por Malfoy, sem dar atenção aos seus esforços para encontrar uma resposta à altura.
"Olha, Ron!" Hermione puxou o braço do amigo, excitada. "A bancada do jeitinho que eu queria! Eu disse que ficaria bonita, não disse?"
Ron grunhiu alguma coisa em resposta e Harry virou-se.
"Os demais cômodos ficam do lado oposto. Venham, vou mostrar a vocês..."
"Ei, ei, ei!" Malfoy bloqueou sua passagem, quando Harry estava prestes a alcançar o corredor. "E quem deu autorização?"
"Malfoy, Ron e Mione estão aqui para nos ajudar, está bem?" Harry falou, com toda a calma que havia conseguido reunir durante o final de semana.
"Ajudar com quê? Também não me lembro de ter pedido ajuda a ninguém" Malfoy arqueou uma sobrancelha, olhando por cima do ombro de Harry com desdém. "E se fosse pedir, certamente não seria para eles."
"Mas eu pedi. E nós bem que poderíamos fazer uso de uma boa ajuda, já que não conseguimos entrar num acordo. Olha" Harry acrescentou com um suspiro, quando Malfoy não fez menção de se mover. "Nós dois cometemos vários erros nesse primeiro mês e é óbvio que vamos ter que mudar algumas coisas se vamos levar isso adiante. E, já que não conseguimos entrar num consenso, pensei em pedir ajuda aos meus amigos."
"Que ótima ideia!" Malfoy fingiu empolgação. "Chamarmos duas pessoas que não hesitariam em tomar o seu partido! Por que foi que não pensei nisso antes?"
"Eu com certeza vou tomar partido do meu melhor amigo" Ron concordou, com desprezo.
"Mas eu concordei em tomar o seu partido, se for preciso, Malfoy" Mione assegurou com naturalidade e Malfoy lhe lançou um olhar cético. "Ora, você mais do que ninguém deveria saber uma das primeiras lições da advocacia. Eu não preciso gostar dos meus clientes para fazer o meu trabalho direito."
Malfoy fungou.
"Mas eu não pedi nenhuma advogada de defesa. Posso muito bem me virar sozinho."
"Malfoy" Harry interveio novamente. "Eles estão aqui para olhar as coisas de outra perspectiva e nos dar ideias. Eles são um casal há muito mais tempo e têm conhecimento de causa. Você já morou com alguém, mas eu não tenho nenhuma experiência no assunto" Harry aguardou por uma concordância que não veio. "Ora, vamos, o máximo que pode acontecer é um de nós não concordarmos com essas ideias!"
"E para dar ideias eles precisam ficar xeretando por todo o apartamento? Não podem simplesmente falar que nós poderíamos arrumar um bichinho de estimação ou coisa do tipo? O que eu já adianto que não vai acontecer, Potter" ele acrescentou ao ver o olhar pensativo de Harry.
"Nem mesmo um furão?" Ron falou e os olhos de Malfoy se estreitaram perigosamente.
"Ora, seu..."
"Ron!" Hermione o repreendeu veementemente e Harry teve que segurar o riso. Ron estava se referindo a um episódio no colégio, quando o professor Flitwick o escolheu para ler sua redação em voz alta para a turma. Obviamente Ron não havia escrito redação alguma, mas levou um papel para a frente da sala e inventou uma história sobre um furão chamado Draco. A classe veio abaixo de tanto rir, Malfoy ficou vermelho de raiva e humilhação e o professor mandou Ron para a diretoria. Mesmo assim, Ron ainda se recordava da situação com orgulho.
Harry se concentrou para ficar sério novamente, colocando-se entre Malfoy e Ron.
"Ron, pare com isso. Malfoy, Umbridge vai fazer outra varredura no apartamento quando voltar e quanto mais tivermos nos atentado aos detalhes, maior a chance de fazermos com que ela acredite."
Malfoy alargou as narinas e hesitou por alguns instantes, antes de jogar as mãos para o alto em rendição.
"Que seja. Mas se Weasel fizer outra brincadeirinha, vai pra fora imediatamente. E não mexam em nada."
Harry rolou os olhos e fez sinal para que seus amigos o seguissem enquanto mostrava os demais cômodos da casa. Malfoy os seguiu, ainda que mantendo distância, como se os fiscalizasse. Hermione se mostrou bastante madura, como sempre, fazendo comentários apropriados sobre a mobília ou a decoração. Ron manteve a careta de desdém durante a maior parte do tempo, mas não pôde conter um palavrão quando viu a banheira.
"Você já tomou banho nisso?" perguntou baixinho para que Malfoy não os escutasse, depois de tentar disfarçar sua reação.
"Não. Está fora dos meus limites" Harry falou e trouxe-os de volta ao corredor. "Bem, é isso."
"Faltou este" Hermione apontou para a porta em frente à suíte, como Harry devia ter imaginado que faria. Malfoy abriu a boca para falar, porém Harry se adiantou. "Este é o quarto de visitas, mas está inutilizado. Venha, vamos para a sala."
Malfoy levantou uma sobrancelha quando passaram por ele, mas seguiu-os algum tempo depois e se sentou na poltrona enquanto os três se acomodavam no sofá maior.
"Então?" Harry perguntou, lançando um olhar ansioso para a amiga.
Hermione mordia a parte interior da bochecha e tinha a testa franzida.
"Bem, não é de se admirar que Umbridge tenha desconfiado" ela falou, ao que Malfoy fez um muxoxo. "Do jeito que as coisas estão, está claro que vocês são dois indivíduos forçados à convivência, e não um casal. Mas acredito que algumas medidas simples podem mudar esse ponto de vista. Começando pela cozinha. Imagino que atualmente cada um faça as próprias compras?" Harry concordou com um aceno. "Bem, eu sugiro que vocês vão juntos ao supermercado ou revezem, mas que comprem tudo de uma vez só, nem que tenham que rachar o valor no final. Isso forçaria vocês a conhecerem sobre os gostos um do outro. Pode ser que um de vocês queira uma sobremesa só para si, ou até tenha certas manias, como preferir tomar o leite direto da garrafa, não é mesmo Ron?" ela lançou um olhar duro na direção do marido, que encolheu os ombros enquanto Malfoy fazia uma careta de nojo.
"Bem, nós já chegamos em um acordo quanto a isso, não é mesmo, querida?" Ron se defendeu.
"Claro, claro" ela suspirou. "E isso é exatamente onde quero chegar. Vocês precisam chegar a um acordo, ou utilizar um código para passar uma mensagem: deixar na porta da geladeira, de cabeça pra baixo, ou no cantinho inferior direito, qualquer coisa. O importante é que vocês saberão o que aquilo significa e ninguém mais precisa saber. Não há necessidade de etiquetas, entendem o que quero dizer?"
"Sim, claro" Harry acenou, esperando que Malfoy visse sentido naquilo também. Pela expressão desgostosa que ele mantinha, era difícil saber o que se passava na cabeça dele.
Hermione continuou.
"Harry, as suas coisas terão que ser acomodadas todas no quarto de Malfoy, é óbvio. E há espaço suficiente para isso. Mas não precisam ficar misturadas. Aliás, é natural que não fiquem. Vocês poderão dividir o espaço da maneira que acharem mais conveniente. Mas vão ter que dividir todo o resto também, inclusive o banheiro e a cama..."
"Nem fodendo" Malfoy falou, meneando a cabeça como que para reforçar sua posição a respeito.
"Mione..." Harry também não estava pronto para ceder àquele respeito, mas Hermione o interrompeu.
"Harry, não estou falando que vocês tenham que dormir juntos, mas de alguma maneira têm que passar a impressão de que dividem a cama. E o melhor jeito, é fazendo exatamente isso. Mesmo que não simultaneamente."
"Como?" Harry franziu as sobrancelhas, confuso.
"Preste atenção" Hermione umedeceu os lábios, adquirindo seu tom mais professoral. "Se você realmente fosse se mudar em definitivo para o quarto de Malfoy, o que você faria? Você colocaria coisas suas no criado do seu lado da cama, manteria seu travesseiro lá, um chinelo confortável aos pés, o despertador" ela apontou para o radio-relógio, que permanecia no mesmo lugar desde a visita de Umbridge: no chão da sala, do lado em que Harry costumava se deitar, no sofá. "Então, digamos que vocês escolham revezar as noites que cada um vai passar na cama ou no sofá - o que eu acho mais justo, claro -, na hora de dormir, você - ou Malfoy - traz o travesseiro, o cobertor e o que mais precisar, para a sala. Mas, pela manhã, leva de volta ao seu lugar, do seu lado da cama. Pronto, uma vez que vocês fizerem disso uma rotina, não tem mais como a Umbridge desconfiar!"
"Faz sentido..." Harry assentiu lentamente. "Eu poderia viver com isso."
Olhou para Ron, que encolheu os ombros.
"Eu faço isso, às vezes" Ron concordou. "Quando Hermione está roncando demais. Quando ela fica muito cansada, ela... Ouch!" ele esfregou o braço agredido.
"Tem certeza que é de mim que estamos falando, Ron?"
Malfoy limpou a garganta.
"Só para o caso de vocês não terem me ouvido na primeira vez, vou repetir" ele limpou a garganta. "Nem. Fodendo. Não vou revezar a minha cama com ninguém. Muito menos com Potter."
"Quer dizer que você aceita o resto?" perguntou Ron e Malfoy torceu o lábio superior em sua direção.
"Não, eu não aceito o resto. Mas não preciso aceitar para perceber que não tenho muita escolha. Eu não precisava da ajuda de ninguém para chegar a essa conclusão. Umbridge não vai se convencer por menos que isso. Mas Potter pode muito bem fingir que dorme na cama todas as noites."
"Eu posso. Mas não vou" Harry falou com firmeza. "Vou ter que abrir mão do meu apartamento por causa dessa farsa e não há nada no mundo que me faça dormir todas as noites no sofá, Malfoy. Nem mesmo dez milhões de dólares."
"Cinco" Malfoy corrigiu, mas Harry continuou como se não tivesse sido interrompido.
"Nós vamos revezar ou eu estou fora."
"Ei, pensei que você tinha dito que eu poderia não concordar com as ideias desses... seus amigos" Malfoy olhou para os dois como se não passassem de insetos.
"Eu menti" Harry se inclinou para trás no sofá, tranquila e confiantemente. "É pegar ou largar."
Malfoy abriu a boca, provavelmente para dar alguma resposta espertinha, porém tornou a fechá-la. Ficou em pé.
"Se vocês já acabaram de dar sua indispensável contribuição, a porta é logo ali. Com licença" ele acrescentou com uma levíssima mesura, como se fosse um perfeito cavalheiro, antes de lhes dar as costas e sumir pelo corredor adentro.
Harry lançou um olhar apologético na direção dos amigos, porém até que as coisas haviam corrido melhor do que imaginava.
"Você não falou sério sobre abrir mão do seu apartamento, falou, cara?" Ron franziu a testa, preocupado. "Não está pensando em vender, está?"
"Não. Estou pensando em alugar. Pelo menos até isso acabar. Quero dizer, não é como se eu fosse viver aqui para sempre..."
"Graças a Deus..." Ron completou por ele. "Ei, você não disse que Seamus estava procurando um lugar para morar com a namorada?"
"Sim. Pretendo oferecer para ele. Quero dizer, apenas provisoriamente, até ele encontrar uma opção melhor. Ele vive dizendo como eu tive sorte em achar um apartamento bom e bem localizado..."
Ron e Mione não se demoraram depois que Malfoy os abandonou. Eles buscaram mais algumas caixas no carro com o que restava de seus pertences que ainda estavam no apartamento e se ofereceram para ajudar na arrumação, mas Harry dispensou a ajuda, agradecido. Assim que saíram, Malfoy apareceu, vestido para sair.
"Vou dar uma volta" anunciou secamente após um olhar de puro desagrado para as caixas que tinham se acumulado na sala. Harry saiu de seu caminho, porém se lembrou de algo.
"Espera... Malfoy, vou aproveitar para... arrumar minhas coisas."
"Tanto faz" Malfoy rolou os olhos. "Mas não toque nas minhas."
Foi a vez de Harry rolar os olhos.
"Não posso prometer isso, mas vou tentar não tirar tudo do lugar, está bem?"
Malfoy vestiu seu casaco e saiu sem responder. Harry levantou as mãos para o alto pensando no que teria feito para merecer aquilo.
-oOo-
O domingo passou sem que Harry se desse conta enquanto arrumava seus pertences na suíte. Alguns itens não tanto pessoais, ele optou por deixar no escritório, onde antes guardava algumas de suas roupas. O restante foi organizado no closet de Malfoy, num dos criado-mudos e no banheiro. Quando terminou, já passava das cinco horas e Harry estava morto de fome. Tinha perdido o almoço na pressa de acabar com aquilo de uma vez, antes que Malfoy chegasse e começasse a dificultar as coisas. Mas optou por tomar um banho antes de pensar no que comer.
A ducha do banheiro de visitas não era tão ruim, apesar de pequena e com jatos de água em ângulos irregulares. Mas a ducha de Malfoy era divina! Harry achou ter entendido por que Malfoy costumava demorar tanto para se arrumar depois de alguns longos minutos ensaiando para sair do banho sem conseguir. A água quente, além de tornar a barbeação mais fácil, relaxou seus músculos e, se Harry tinha intenção de fazer alguma coisa para comer, já havia desistido ao enrolar a toalha na cintura para sair do banheiro.
Então reparou em algo estranho ao colocar os óculos. A banheira estava cheia e soltando vapor. Harry tinha certeza de que estava vazia quando entrara no chuveiro. Girou a chave da porta e congelou ao ver Malfoy jogado de costas sobre a cama, com os sapatos para fora e vestindo as mesmas roupas daquela manhã, apesar da camisa estar meio aberta. Ele levantou a cabeça ao ouvir a porta se abrir e o encarou com reprovação.
"Finalmente! Achei que nunca mais sairia daí!" disse, ao apoiar os braços para se sentar.
"Você entrou no banheiro enquanto eu tomava banho?" perguntou, sem saber se devia ficar furioso ou preocupado.
"Claro que não. Você trancou a porta!"
"Mas... a banheira..."
Malfoy fungou e sacou o celular do bolso.
"Eu programei a banheira para que estivesse pronta quando eu chegasse. Devia ter programado o banheiro contra intrusos também" ele se levantou, descalçou os sapatos e pôs as mãos na cintura, encarando-o de cima abaixo. "E aí? Vai sair da frente ou não vai?"
Harry deu um passo para o lado, deixando o acesso ao banheiro livre e Malfoy passou por ele de nariz erguido, batendo a porta do banheiro. Em seguida Harry ouviu o clique da fechadura. Harry abanou a cabeça, sua mente ainda tentando aceitar o fato de que a banheira de Malfoy obedecia comandos via celular, e se vestiu para passar o resto da noite sem mais nada para fazer.
Pensou em ir assistir TV na sala, mas parou no meio do caminho e deu meia-volta. Ligou a TV de Malfoy e se sentou do 'seu lado' da cama. Alguns detalhes da arrumação anterior do quarto haviam feito com que deduzisse que Malfoy preferia o lado esquerdo da cama, portanto tomou para si o outro lado, que ficava mais próximo da porta do banheiro do que da porta do quarto.
Suspirou ao se lembrar do seu notebook, que optara por manter no escritório para não ceder à tentação em momentos como aquele, e em tudo que poderia ter feito durante o fim de semana. Aquela fora sua verdadeira provação: ficar no próprio apartamento a maior parte do tempo, sem nada para fazer e a cabeça cheia de pensamentos que não levavam a lugar algum. Por outro lado, havia sido produtivo no sentido de que Harry sabia o que devia fazer dali em diante e estava satisfeito por saber que já tinha conquistado metade do que se propusera a fazer. Mas ainda havia muito a ser feito e tinha certeza que Malfoy ainda iria espernear e xingar muito antes que o dia acabasse.
O celular de Harry tocou e ele franziu a testa ao ver o nome de Malfoy no identificador de chamada. Atendeu, ainda que hesitante.
"Potter, onde está o meu shampoo?"
"Está no mesmo lugar, Malfoy. Não, espera... Talvez eu tenha deixado a cesta de produtos em cima da pia depois que..."
"Você usou meu shampoo, Potter?"
"Não, eu só estava tentando organizar as coisas para ver se cabia..."
"Já estava organizado! Eu disse para você não mexer em nada! Estava bem ao meu alcance daqui da banheira! Agora eu vou ter que levantar pra pegar a droga do shampoo."
Malfoy desligou, mas não sem que antes Harry ouvisse alguns de seus xingamentos.
Alguns minutos depois, o estômago de Harry roncou e ele olhou para o relógio. Já fazia quase meia hora que Malfoy havia entrado no banheiro. Estava prestes a desistir de seu plano e ir para a cozinha quando a porta se abriu e Malfoy saiu, de toalha na cintura, juntamente com uma nuvem de vapor.
"Eu realmente espero encontrar tudo em seu devido lugar no meu closet, Potter" ele estreitou os olhos para Harry, que sustentou seu olhar com desafio, e sumiu dentro da porta do guarda-roupa. Harry se suspirou e se preparou para mais meia hora de espera.
Felizmente, Malfoy levou apenas alguns minutos para vestir uma roupa confortável e emergir do guarda-roupa com as mãos na cintura novamente, encarando-o de cima com as narinas alargadas. Provavelmente não havia encontrado nada que valesse a pena brigar, apesar de Harry ter certeza de que ele tinha se esforçado ao máximo.
"Já jantou?" Harry perguntou depois de abaixar o volume da televisão. Malfoy levantou uma sobrancelha e Harry encolheu os ombros. "Eu poderia ter pedido alguma coisa para entrega, mas não faço ideia do que você gosta, além de que tem preferência pela culinária francesa."
Malfoy fungou, permanecendo onde estava e Harry meneou a cabeça e deu uns tapinhas no colchão ao seu lado.
"Por que você não se senta enquanto nós resolvemos isso?"
"Nós?" Malfoy repetiu, incrédulo.
"Malfoy, não faz sentido nós dois morarmos sob o mesmo teto e sequer comermos a mesma comida! Vamos lá, eu estou disposto a deixar você escolher hoje. Qualquer coisa que você quiser. Se preferir, eu faço o pedido" Harry pegou o próprio celular na cabeceira da cama. "Então? O que vai ser?"
Malfoy fingiu pensar.
"Estou pensando em tacos, hoje. Ou, quem sabe, um burrito."
Harry não era particularmente fã de comida mexicana, mas se preparou para pesquisar as opções de delivery.
"Sem problemas. Algum restaurante em especial?"
"Não, na verdade acho que prefiro um Coq au Vin. Ou melhor, um Fagiano al Forno con Tartufo Nero."
"Eu não faço ideia do que isso seja, mas posso experimentar" Harry falou, tentando passar mais coragem do que realmente sentia. É claro que Malfoy poderia estar apenas exibindo seu conhecimento linguístico e que o que dissera não passasse de 'frango à passarinho', mas isso não impedia que imaginasse algum prato exótico com polvo vivo e gafanhotos crocantes. Estremeceu só de imaginar.
O lábio de Malfoy se crispou e ele pareceu decepcionado.
"Ah, foda-se. Quero pizza" disse, por fim. "Metade Marguerita, metade Pepperoni. Mas não pode ser qualquer pizza, tem que ser... Ah, deixa que eu peço" Malfoy deu a volta na cama e pegou o próprio celular. Só então, pareceu se lembrar. "E você? O que vai querer?"
Harry encolheu os ombros, meio divertido.
"Peça uma de cada. Eu pago metade."
Malfoy pareceu satisfeito e fez a ligação. Enquanto isso, Harry não pôde evitar se sentir satisfeito consigo mesmo. Quando Malfoy desligou, se sentou do seu lado da cama, as pernas esticadas à frente e as costas apoiadas num travesseiro, como Harry. Ele voltou a parecer desconfortável.
"Vai ficar assistindo essa chatice?" ele resmungou.
Harry, que sequer estava prestando atenção ao documentário sobre máquinas, desligou a televisão e se virou para Malfoy.
"Precisamos conversar, Malfoy."
Malfoy abriu a boca, provavelmente para dar uma resposta torta, porém tornou a fechá-la.
"Precisamos conversar na minha cama?" disse, por fim.
"Não. Vamos para a sala, se preferir."
"Eu prefiro."
"Escuta..." Harry começou, assim que eles se acomodaram, um de frente para o outro na sala. Harry no sofá e Malfoy na poltrona de sempre. "Andei pensando sobre o último mês..."
"Isso não pode ser bom" Malfoy murmurou, porém Harry não lhe deu ouvidos.
"... e cheguei à conclusão de que temos que mudar algumas coisas. As refeições, por exemplo. Como eu falei, não faz sentido a gente continuar fingindo que não moramos juntos. Nós dois temos que comer, certo? Então por que não dividirmos? Quero dizer, não precisamos nos sentar à mesa de jantar e fingir ser uma família tradicional, mas podemos economizar o frete do delivery, por exemplo. Tudo bem se você não gostar do que eu cozinho, estou disposto a aceitar sugestões e posso tentar fazer coisas de que você goste, mas você não precisa ir tomar o desjejum no Café na esquina quando eu faço meu café-da-manhã aqui todos os dias. E, acredite se quiser, eu sei o que estou fazendo. Posso não ser um chef profissional, nem conhecer a culinária requintada que você provavelmente conhece, mas sei me virar. E estou disposto a aprender e a melhorar. Na verdade prefiro comer comida caseira, qualquer que seja - não necessariamente tradicional inglesa -, do que pedir comida pronta."
"Não vejo problema com comida pronta" Malfoy deu de ombros. "Passei a maior parte da minha vida comendo fora."
"Bem, eu passei a maior parte da minha vida fazendo minhas próprias refeições. Mas podemos chegar a um acordo. Alguns dias nós pedimos comida, outros eu cozinho... ou, quem sabe, nós poderíamos sair um dia ou outro."
Malfoy deu um pulo, como se tivesse levado um susto, e seus olhos se estreitaram.
"Não, não como um encontro" Harry se apressou em corrigir. "Apesar de que não seria ruim passar essa impressão, caso Umbridge esteja nos espionando. Mas o fato é que nós não sabemos nada a respeito um do outro... bem, pelo menos eu não sei nada a respeito de você além do que já sabia na época da escola" Harry deu um suspiro frustrado. Não costumava falar tanto, nem tinha jeito com as palavras. Quando pensava nas palavras elas faziam todo sentido, mas quando colocava para fora, parecia não ser suficiente. "Olha, o fato é que nós precisamos passar algum tempo juntos, se quisermos ficar... confortáveis um com o outro. Ou melhor, para que eu fique... Droga!" Harry se levantou e começou a andar de um lado para o outro. "Não sou bom nisso, em conviver com as pessoas. Estou acostumado a viver sozinho, preciso de algum tempo pra me acostumar com a ideia, entende? E sei que nós dois não funcionamos quando estamos juntos e que as coisas tendem a sair fora de controle, mas talvez se isso passasse a ser comum..."
"Cala a boca e senta, Potter" Malfoy explodiu e Harry obedeceu, aliviado por finalmente poder se calar. A expressão de Malfoy estava difícil de ler. "Eu entendo aonde você quer chegar, apesar de você não ter facilitado para mim com toda essa... eloquência."
"Você concorda, então?"
"Bem, não tenho muita escolha, tenho? Não tenho problemas em fingir que somos íntimos, mas você claramente é incapaz de mentir."
"Não sou incapaz de mentir" Harry se defendeu, remexendo-se no sofá como se as palavras de Malfoy o estivessem incomodando fisicamente. "Eu só preciso de algum tempo para... me habituar com a... situação."
"Que seja" Malfoy se recostou novamente em sua poltrona, apesar de Harry não saber precisar quando ele havia se inclinado para frente. "Então, o que vai ser? Passeios românticos aos sábados e cinema aos domingos?"
"Cinema não é uma má opção" Harry escolheu ignorar o comentário sobre romance.
"O que mais? Boates? Clubes?"
"Isso foge um pouco do intuito dos programas, Malfoy, que é o de conversar e conhecer um ao outro. Não creio que isso seja possível numa boate. Além do mais, eu não danço."
"Claro que não" Malfoy soltou uma risada pelo nariz e lhe lançou um olhar penetrante que fez as bochechas de Harry esquentarem ao cutucarem suas lembranças da noite que passaram em Las Vegas. Harry limpou a garganta.
"Posso ir ao supermercado, se você quiser. Faça uma lista das coisas que gostaria que eu compasse e passo lá depois do expediente algum dia da semana."
"Bem, faço minhas compras por telefone ou internet, a maior parte das vezes" Malfoy encolheu os ombros. "Por mim não faz diferença."
"Quanto ao quarto, posso começar com o sofá esta noite, mas amanhã a cama é minha" Harry falou com firmeza, fazendo questão de não desviar os olhos enquanto Malfoy o encarava. "Vai ser dia sim, dia não. E não vou discutir sobre isso."
"Bem, parece que você já resolveu tudo" Malfoy comentou, fingindo indiferença.
Eles ficaram em silêncio por algum tempo enquanto os pensamentos voavam na cabeça de Harry e ele finalmente colocou em palavras a pergunta que vinha incomodando-o durante todo o fim de semana.
"Malfoy, como você sabia todas aquelas coisas sobre mim?"
"Eu diria que sou uma pessoa observadora, se fosse modesto. Mas não sou. Modesto, quero dizer. Gosto de pensar que sou mais perspicaz do que a maioria das pessoas."
"Você simplesmente adivinhou baseado no que você tem observado sobre mim?" Harry viu Malfoy acenar afirmativamente. "Certo. Não seria difícil nem para os vizinhos adivinharem meu gosto culinário depois dos últimos dias. Mas... e o resto? Porque eu tenho certeza que nunca disse nada a respeito do meu trabalho."
"E precisava dizer? Potter, você passa horas mergulhado no computador trabalhando. Duvido que notaria se um elefante caísse no seu colo, a menos que ele bloqueasse sua visão da tela. Não foi difícil para mim perceber o que estava fazendo."
"Então você ficou bisbilhotando?"
"Dificilmente" Malfoy desdenhou. "Estava tudo lá, para quem quisesse ver. Você tem o logo da Commetic em tudo que usa: caneta, mochila, chaveiro..."
Harry franziu o cenho. Era verdade.
"E minha cor favorita?"
"Você sempre está usando algum detalhe em vermelho desde... desde o ensino médio. Meia, gravata, camiseta... Sempre! Até aquela sua namorada do colégio, Weasley, vestia vermelho quando estava com você."
"Era o uniforme do time de vôlei!" Harry se sentiu compelido a se defender, apesar de no fundo reconhecer a verdade daquilo que Malfoy dizia. Mas como é que ele podia ter reparado naquilo quando nem mesmo Harry havia reparado até aquele momento?
"Pensando bem, talvez foi por isso que você namorou ela, afinal" Malfoy disse, pensativamente. "Garota mais sem graça. Parecia mais um moleque, tanto pela ausência de curvas femininas quanto pela língua suja."
"Vamos deixar Ginny fora disso, por favor?" Harry atalhou, antes que se irritasse. "E o meu aniversário? Vai me dizer que chutou esse também?"
Malfoy franziu a sobrancelha levemente e de repente estava muito concentrado em uma bolinha que havia se formado na malha de sua camiseta.
"Acontece que eu tenho uma ótima memória, Potter. Todo mundo sabia o dia do seu aniversário, na época do colégio."
"E você se lembra até hoje?" Harry perguntou, meio incrédulo, meio espantado. "Quando é o seu aniversário, afinal?"
"Cinco de junho" Malfoy falou e então adquiriu uma expressão pensativa. "Sabe o que mais me irritava? Era que o seu aniversário era durante as férias e todo mundo se lembrava e ficava tagarelando, enquanto o meu era durante o ano letivo e eu tinha que ficar lembrando meus amigos um mês antes" Malfoy tentou parecer apenas irritado, mas Harry notou uma ponta de ressentimento em sua voz e pensou se Malfoy alguma vez havia superado o fato de que Harry era mais popular do que ele na escola, apesar de todos os esforços dele pelo contrário.
"Você sabe que eu teria trocado com você a qualquer momento, certo?" Harry falou, e então pensou melhor. "Na verdade, não. Aposto como seus pais faziam festas com direito a anúncio no jornal e eu não poderia suportar isso. Além do mais, duvido que você gostaria de ficar no meu lugar. A maior parte do que eu ganhava eram olhares azedos dos meus tios, tapinhas nas costas dos meus amigos e coisas de valor sentimental, enquanto você provavelmente ganhava vídeo games e helicópteros de controle remoto da sua família."
Por algum motivo, a expressão de Malfoy havia se fechado como uma ostra no meio de seu discurso e Harry estava prestes a perguntar se tinha dito alguma coisa errada quando o porteiro interfonou dizendo que o entregador estava subindo.
"Deixe que eu atendo" Malfoy falou, já se levantando. "Se o entregador ver você com essa roupa esfarrapada, pode achar que estou sendo assaltado e chamar a polícia."
Harry revirou os olhos, mas entregou sua parte em dinheiro para Malfoy, que voltou com duas embalagens de pizza e deixou uma em frente a Harry, com seu olhar desdenhoso de sempre.
"Posso ir para o meu quarto agora, ou ainda não tricotamos o suficiente para uma noite?"
"Mas as pizzas..." Harry começou, sem saber qual era qual.
"Eu pedi as duas iguais: metade de cada sabor" Malfoy respondeu, parecendo satisfeito consigo mesmo e Harry encolheu os ombros.
"Como quiser..."
Malfoy se fechou em seu quarto e Harry comeu, assistindo TV. Ou fingindo assistir, já que sua mente havia voltado no tempo com lembranças de sua época no colégio. Malfoy não parecia muito diferente daquela época, apesar de não ter mais seus amigos brutamontes ao seu lado, Crabbe e Goyle. Mas havia algo que Harry não soubera precisar até então, mas que começava a ficar nítido em seu pensamento. Naquela época, Malfoy costumava falar sempre de seus pais, principalmente de Lucius Malfoy, se vangloriar de sua posição e influência política. Agora, Harry não se lembrava de Malfoy tê-los mencionado sequer uma única vez. Na verdade, Harry se lembrava de ter trazido o assunto numa outra ocasião, talvez em Las Vegas, e ter provocado uma reação semelhante.
Seria possível que os pais de Malfoy estivessem mortos? Não, Harry teria ficado sabendo. Ou mesmo Ron, cuja família inteira os detestava. Afinal, Lucius Malfoy era rico o suficiente para ter ganhado meia página no The Times, caso alguma tragédia tivesse acontecido. Então o que teria acontecido?
Quando Harry tirou os óculos e se preparou para dormir no sofá, entretanto, seus pensamentos já tinham vagado para outro acontecimento mais recente. Assim que fechou os olhos, a imagem de Malfoy o beijando na boca fez com que arregalasse os olhos novamente e xingasse enquanto afofava o travesseiro com socos pouco delicados. Mas lá estava a lembrança novamente, quando tornou a fechar os olhos. Fora apenas um selinho, uma coisa completamente fora de contexto. Na hora, Harry nem havia parado para pensar no assunto, diante dos acontecimentos mais urgentes, mas agora parecia se lembrar da textura dos lábios de Malfoy e até do perfume de suas roupas. A verdade era que tinha pensado mais naquilo do que era saudável, durante o tempo que passara em seu apartamento pensando no que faria da sua vida. Aquele simples beijo acordara lembranças cuidadosamente escondidas no labirinto de sua mente, coisas que Harry nem sabia se eram lembranças de verdade, ou pensamentos induzidos pelo álcool. Coisas que Harry sequer achava possíveis de terem acontecido.
Harry demorou a pegar no sono e teve sonhos confusos e tensos.
-oOo-
(9 de setembro, terça-feira)
"Vinho?" Harry perguntou e Malfoy deu uma olhada no rótulo da garrafa antes de encolher os ombros em aceitação e Harry serviu-lhe uma taça.
Eles estavam sentados em frente à TV e Harry havia colocado sobre a mesinha de centro travessas com peixe, batata frita e ervilhas, além de um pirex com patê para molhar as batatas. Eles se serviram em silêncio e se sentaram em seus lugares de costume para jantar. A TV estava ligada, porém num canal qualquer e com o volume baixo.
"Então..." Harry falou quando ficou claro que Malfoy não diria nada. "Está bom?"
"Não está mal" Malfoy tomou um gole do vinho e fez uma careta. "Mas o vinho definitivamente poderia ser melhor."
Harry suspirou. Aquele era o prato favorito de Ron e ele costumava lamber os dedos e repetir durante toda a refeição como estava delicioso. Mas não poderia ter esperado mais de Malfoy. Harry havia passado no supermercado na noite anterior para fazer as compras do mês, que incluíam os itens que Malfoy relacionara - até mesmo, para completa mortificação de Harry, um gel íntimo lubrificante -, por isso acabara chegando tarde em casa, e Malfoy já havia pedido comida. Pelo menos pedira o bastante para ambos. Mas eles mal trocaram duas palavras durante todo o dia, por isso Harry combinara desde aquela manhã que faria o jantar à noite. Como Malfoy não restringiu o cardápio - nem se manifestou, na verdade -, Harry optara pelo bom e velho 'peixe com fritas'¹.
"Fique à vontade para escolher e marca do vinho, da próxima vez. Eu não costumo ligar para essas coisas."
Malfoy torceu o lábio superior, mas não fez nenhum comentário, voltando a se entreter com seu prato e a TV. Harry conteve a vontade de rolar os olhos.
"Então..." tentou novamente. "Como foi seu dia?"
A pergunta soou tão antinatural quanto possível e Malfoy respondeu com um curto e previsível:
"Normal."
"Bem, o meu foi tão normal quanto ontem. E ontem, definitivamente não foi normal. Não sei quanto a você, mas eu usei minha aliança essa semana."
Aquilo fez com que Malfoy desgrudasse os olhos da TV por um instante e encará-lo com uma sobrancelha levantada.
"E daí? Achei que tinha ficado bastante claro que nenhum de nós dois tinha opção quanto a isso."
"Sim, mas os meus amigos costumam reparar quando alguém aparece de aliança de um dia para o outro" Harry falou amargurado, lembrando-se de como suas esperanças de que ninguém reparasse foram por água abaixo assim que entrara no escritório.
Neville, Seamus e Parvati já haviam chegado e os dois últimos estavam debruçados sobre a mão de Neville, que parecia satisfeito, apesar de ruborizado pela atenção.
"Harry!" Parvati exclamou, vindo em sua direção assim que o viu. "Veja só, Neville ficou noi..." ela se interrompeu no meio da frase, aspirando o ar com força e levando a mão ao peito, seu olhar seguindo a mão que Harry tentou esconder atrás do corpo, tarde demais. "Harry! Sua mão!"
"O quê?" Harry se fizera de desentendido.
"Deixe-me vê-la. Agora!"
Harry mostrou a mão esquerda a contra-gosto, enquanto lançava um olhar culpado na direção de Neville, que fora abandonado por Seamus também.
"O que está acontecendo?" era Dean, que havia acabado de chegar com Colin e ambos se enfiaram no meio dos outros dois.
"Harry! O que significa isso? Se não conhecesse você, poderia achar que você se casou!"
"Bem... eu..." Harry gaguejou e aquilo pareceu ser resposta suficiente para Parvati, que fingiu um ataque cardíaco.
"Ai. Meu. Deus! Harry!"
"Chefe!" daquela vez foi Seamus quem exclamou, cheio de mágoa. "Achei que fôssemos amigos, cara! Tudo bem você preferir o Ron como padrinho, mas não se dar ao trabalho nem de convidar...?"
"É verdade, Harry?" Neville se aproximara, também soando magoado. Colin tinha os olhos arregalados e parecia prestes a chorar.
"Quem é a sortuda?" Parvati o segurara pelo braço, forçando-o a se sentar enquanto os outros fechavam o círculo ao seu redor. Harry afrouxou a gravata. "É aquela irmã do seu amigo? Vocês tinham voltado e mantiveram em segredo? Meu Deus, isso é tão romântico!"
"Não! Não é a Ginny" Harry se apressou em dizer, antes que alguém ligasse para ela para dar os parabéns.
"Então quem é? A gente conhece?" Harry abrira a boca para responder, mas Parvati continuara com um gritinho. "Não! Não diga nada! Eu já sei! É a Chang!"
"Chefe!" Seamus exclamou, assombrado. "O que aconteceu no almoço de sexta-feira? Eu sabia que você estava escondendo ouro..."
"Não, não, não!" Harry se exasperou. "Não é a Cho! Não é ninguém que vocês conheçam..." o que era uma mentira, já que Seamus havia estudado junto com eles. Mas estava mais do que satisfeito em lhes poupar os detalhes. Tudo que eles precisavam saber, era que tinha se casado. Aliás, não precisavam nem saber que se tratava de um cara.
"Então quem é? Como se chama? Como vocês se conheceram? Por que mantiveram segredo? Conta tudo!" Parvati insistiu, alucinada.
"Pessoal, sério, não quero falar sobre isso, está bem?"
"Eu sabia" Dean falou, finalmente. "Você engravidou ela, não foi?"
"Não! Ninguém está grávida!" Harry se levantou, forçando os outros a se afastarem de uma vez. "Chega! Não quero ouvir mais nem um pio sobre isso. Neville, meus parabéns. E mande um abraço para Hanna. Agora quero todo mundo trabalhando. Já!" eles ficaram todos olhando para ele com caras de espanto. "Vocês se lembram do que eu disse sexta-feira sobre levar o trabalho a sério, certo? Que tal começarem imediatamente?"
Aquilo pusera fim ao assunto, porém estabelecera um clima desconfortável entre eles e, pela primeira vez desde que fora designado supervisor de sua equipe, sentiu como se uma barreira houvesse se levantado entre eles.
De volta ao presente, Harry percebeu que não ouvira a resposta de Malfoy. Aproveitou a deixa para abaixar ainda mais o volume da TV.
"O que você disse?"
Malfoy fez uma careta de contrariedade. Ele poderia reinar sobre o controle remoto no quarto dele, mas na sala quem reinava era Harry.
"Eu disse que também repararam na minha aliança, mas não é como se eu devesse satisfação da minha vida pessoal para ninguém."
Harry realmente não conseguia imaginar Malfoy tagarelando sobre sua vida pessoal com seus colegas de trabalho. Ou sobre qualquer outra coisa, na verdade. Provavelmente teria bastado um olhar atravessado dele para desencorajar os xeretas.
Já Harry não tivera tanta sorte assim. A notícia correu rapidamente pela empresa, e no horário do almoço as pessoas já estavam arrumando pretexto para falarem com ele, algumas perguntando e outras simplesmente encarando sua mão, como se precisassem ver para acreditar. Naquela manhã, a própria McGonagall o procurara para perguntar se os rumores eram verdadeiros. Quando Harry confirmou, ela o parabenizou e alertou-o para que entregasse a certidão de casamento e os documentos de sua esposa para o RH, para que ela fosse incluída em seu seguro. Apesar de ter prometido fazê-lo, Harry não conseguia se imaginar dizendo aquilo para Malfoy. Além do mais, todos haviam presumido que se tratava de uma mulher, obviamente. Provavelmente sequer seria possível a inclusão de cônjuge do mesmo sexo.
"Quer dizer que você trabalha na McNair & Yaxley?" Harry perguntou, determinado a aproveitar o tempo para cobrir as lacunas do conhecimento que tinha do outro.
"Sim."
"Desde quando?"
"Desde que deixei a faculdade."
"Malfoy, por que você não seguiu a carreira de advogado?"
Malfoy molhou uma batata no patê com lentidão deliberada antes de responder com um meio sorriso.
"Porque as pessoas não me dariam sossego, todas fazendo questão de contratarem os meus serviços."
"Então você preferiu o sossego de uma empresa imobiliária?" Harry fez questão de soar sarcástico.
"Sim."
Harry suspirou, frustrado. Malfoy também fazia questão de não facilitar sua vida.
"E qual é a sua cor favorita?"
"Verde" Malfoy respondeu, sem pestanejar e Harry se viu desapontado.
"Algum tom de verde em específico? Deixe-me adivinhar: verde-dollar?"
Malfoy depositou o prato vazio na mesa e limpou as mãos num guardanapo.
"Na verdade, o tom é exatamente o dos seus olhos num dia claro" ele levantou os olhos de um jeito predador e Harry teve que fingir indiferença.
"Você poderia levar isso a sério, por favor?"
"Me desculpe, mas é difícil levar você a sério quando você se veste... assim" Malfoy falou, lançando um olhar depreciativo aos furos em sua camiseta de dormir. Não que fossem rasgos imensos, apenas dois pequenos furos na barra da camiseta gasta pelo uso e um pouco manchada pelas diversas lavagens. Mas não era a primeira vez que ele implicava com seu pijama.
"Malfoy, se eu não puder ficar confortável dentro de casa, aonde mais eu poderia?"
Malfoy torceu o nariz, mas não disse mais nada. Apesar de ter reclamado, ele tornou a encher sua taça de vinho e se empertigou novamente em sua poltrona.
"Muito bem. O que mais você quer saber?"
"Vamos ver..." foi a vez de Harry dispensar seu prato e se acomodar melhor, com a taça de vinho na mão. "Você tem algum hobbie?"
"Suponho que ajudar gatinhos abandonados a encontrar novos lares não conte?" Malfoy zombou, ao que Harry respondeu com um olhar firme. Malfoy ainda levou algum tempo antes de responder. "Eu desenho."
"Você desenha?" Harry levantou uma sobrancelha.
"Nem todo mundo é tão obvio quanto você, Potter. Deixe-me adivinhar..." Malfoy fingiu pensar. "Seu hobbie é... cozinhar, talvez?"
"O que você desenha?" Harry perguntou, intrigado demais com a nova informação sobre Malfoy para dar atenção à provocação. Estava acostumado a trabalhar com desenhos para suas animações e às vezes até se arriscava a desenhá-los, mas a maior parte das criações em design gráfico era feita por Dean e Parvati. Além do mais, Malfoy parecia estar se referindo a desenhos artísticos manuais, não digitais.
"Nada demais" Malfoy encolheu os ombros. "Pessoas. Homens, para ser mais específico. De preferência nus."
"Ah... certo" Harry empurrou os óculos pela ponte do nariz, sentindo o rosto esquentar e teve impressão que não tinha nada a ver com o vinho. Desconfiava que Malfoy estava inventando aquilo, mas não poderia dizer com certeza.
"Posso mostrar alguns dos meus melhores trabalhos, se você quiser..."
"Ah, não, não, obrigado. Talvez outra hora..." Harry respondeu apressadamente, optando por não arriscar que fosse tudo verdade, e acenou para a louça suja sobre a mesinha. "Acho que vou..." começou, porém, antes que se levantasse, Malfoy fez um gesto para que permanecesse sentado.
"Eu gostaria de propor um brinde" ele falou, se inclinando para servir mais uma taça de vinho e se oferecendo para encher a taça de Harry também. "Tecnicamente nós nos casamos na madrugada do dia dez de agosto, mas acredito que você não se importa em adiantar algumas horas..." ele levantou a própria taça teatralmente. "Ao nosso primeiro mês de casamento."
Harry arqueou uma sobrancelha, mas levantou a própria taça num gesto cerimonioso.
"Aos próximos cinco!" completou amargamente antes de beber e em seguida começou a recolher a louça, evitando olhar para o outro. "Aliás, gostaria de lembrá-lo que nós combinamos revezar a sua cama e que essa noite, mesmo se você se esquecer e cair no sono sem querer, como ontem, vou fazer questão de acordá-lo. Nem que para isso eu tenha que derrubar você da cama, entendeu?"
"E ainda dizem que o casamento acaba com o romance..." Malfoy zombou.
-oOo-
(22 de setembro, terça-feira)
Apesar do começo pouco promissor, Malfoy acabou cedendo ao rodízio da cama e Harry conseguiu melhorar sua disposição com as noites bem dormidas. Malfoy, por sua vez, parecia cada dia mais rabugento, agarrando qualquer oportunidade para reclamar da sua 'bagunça'. Mas a verdade era que eles ainda estavam longe de seguir a proposta inicial. Suas tentativas de conversa sempre terminavam mal, fosse por causa das provocações de Malfoy ou de seus melindres. Harry percebeu que ele sempre apelava para um ou outro artifício quando não estava a fim de falar sobre o assunto - e aquilo cobria a maior parte dos assuntos.
Harry também tentou algumas vezes convidá-lo para ir ao cinema, mas Malfoy simplesmente se recusava a escolher o filme e colocava defeito em todos que Harry propunha. Certa noite, Harry ficou tão irritado que foi ao cinema sozinho.
Pelo menos eles haviam se acertado em relação às refeições. Não comiam juntos todas as vezes, já que Malfoy não perdia uma oportunidade de fugir das seções interativas e ir comer no próprio quarto.
Com todo esse drama e o fato de que Harry estava proibido de trazer serviço para casa, não era de se admirar que ele também estivesse ficando com os nervos à flor da pele. Sua equipe de trabalho estivera bastante concentrada nos últimos dias, mas Harry não sabia precisar se foram suas palavras na reunião ou seu temperamento curto que havia causado a mudança. Até mesmo Ron e Hermione repararam em sua mudança de humor e, depois de algumas sugestões, Harry acabou concordando em começar a fazer academia. Numa demonstração de amizade sem tamanho, Ron se ofereceu para acompanhá-lo, ainda que a contra-gosto. Ele nunca fora fã de exercícios físicos, apesar de ter participado do time de Rugby no colégio.
E, para piorar a situação, Harry vinha tendo alguns pensamentos conflitantes a respeito de sua sexualidade. Antes de Las Vegas, Harry sequer cogitara a possibilidade de ser algo além de hétero. Na verdade se sentia seguro o suficiente a respeito disso para poder olhar para outros homens e dizer se eles eram bonitos sem se sentir afetado por isso, de alguma forma mais profunda. Naquele primeiro mês depois da viagem à América, Harry tentou não pensar a respeito, pois cada vez que parava para pensar se perguntava como poderia ter feito sexo com Malfoy - três vezes, aliás - sem que tivesse se sentido atraído por ele.
Mas a convivência forçada, principalmente depois que passaram a dividir o mesmo quarto - com Malfoy passeando sem camisa depois do banho - e a passar mais tempo juntos - com Malfoy aproveitando para provocá-lo sempre que possível -, já não conseguia mais manter os pensamentos trancados em corredores escuros de sua mente. O fato de ter mais tempo livre após o trabalho também não ajudava nesse sentido.
O fato era que, de tanto procurar, Harry acabou encontrando o que o atraíra fisicamente em Malfoy e sua primeira reação foi negar tudo. Mas já não conseguia mais esconder aquilo de si mesmo. Malfoy o atraía. E ele não era nada feminino, nem tentava ser, apesar de suas feições terem certo grau de androgenismo. Ele tampouco era gritantemente másculo, com músculos definidos e ombros largos, pelos por todo o corpo, barba cerrada e voz grossa, coisa que Harry sabia não ter atração. Ele era... suave, se é que se poderia dizer isso de um homem.
Claro que a personalidade não ajudava no conjunto todo, mas agora que descobrira, Harry não conseguia evitar seu corpo de reagir a cada insinuação de Malfoy. Obviamente aquilo o deixava ainda mais irritadiço, o que remetia novamente à necessidade de se ocupar.
"Ah, cara..." Ron falou quando entraram no salão da academia devidamente vestidos para a malhação.
"Cuidado para não contagiar os outros com sua animação, Ron" Harry falou e apontou para algumas esteiras vazias. "Que tal começarmos por ali?"
"Bem... acredito que não vão me devolver o dinheiro agora, não é mesmo?"
Fazia alguns anos que Harry não pisava numa academia e os aparelhos haviam se modernizado um pouco, desde então. Ele e Ron desperdiçaram algum tempo conhecendo as funções da esteira antes que uma instrutora se apresentasse. Uma garota loira, bonita, com o cabelo comprido num rabo de cavalo e parecendo um bebê recém-saído da faculdade.
"Primeiro dia?" ela perguntou com um sorriso que revelou alguns dentes levemente desalinhados. Ela tomou um gole de água de sua garrafinha e Harry se repreendeu mentalmente por não ter pensado em trazer uma também. Nem mesmo Ron.
"Sim" Ron respondeu, e sua expressão de sofrimento deu lugar à dúvida. "Estamos fazendo algo errado?"
"Não, não, de maneira alguma" ela balançou a cabeça, fazendo seus cabelos esvoaçarem levemente de um lado para o outro. "Mas seria bom se vocês se alongassem um pouco antes de começar a se aquecer. Posso mostrar alguns exercícios, se vocês quiserem."
"Claro" Harry concordou e eles passaram alguns minutos copiando as posições da garota enquanto Ron entremeava olhares nada discretos em sua direção, como se o cutucasse com os olhos, toda vez que achava que ela não estaria olhando. "Pare com isso" Harry falou por entre os dentes cerrados e mostrou-lhe a aliança com um gesto que seria pouco decoroso caso tivesse usado um dedo diferente. Ron devolveu o gesto, mostrando a sua aliança, com uma careta.
"Isso não me impede de olhar" Ron sussurrou em resposta.
Bem, Harry também não estava impossibilitado de olhar, mas já sabia que se sentia atraído por garotas. Portanto, enquanto Ron estava sem fôlego para conversar e correr na esteira ao mesmo tempo, Harry aproveitou para olhar. Foi difícil encontrar quem o agradasse, em meio ao exibicionismo de corpos bombados suados. Até as mulheres pareciam mais masculinas ali. Mas acabou encontrando dois garotos, ambos mais novos e completamente diferentes, mas atraentes. Ou melhor, do tipo que Harry achava atraente. Um tinha o cabelo castanho e a pele clara, rosto bonito e corpo bonito, sem nenhum exagero. O outro era loiro, bem mais magro, mas também de feições mais bonitas, do tipo que fazia as mulheres num raio de dois metros lançarem olhares sem que conseguissem se conter. Harry também se pegou encarando o tempo todo, enquanto ele conversava com seu instrutor sarado, sorria de um jeito angelical e fazia força para trabalhar os braços magros.
A instrutora deles, Mary, apareceu novamente para convidá-los a se mudarem para as bicicletas e Harry acabou ficando de costas para o loirinho. Mas, para sua surpresa, ele logo foi para um dos aparelhos à sua esquerda e Harry ficou olhando enquanto ele passava uma toalha na testa suada antes de se debruçar num aparelho para trabalhar a parte posterior da perna. Aquilo significava que ele tinha que se ajoelhar e debruçar o corpo para frente, traseiro para cima, enquanto esticava e dobrava uma das pernas com visível esforço, fazendo Harry suar.
"Ei, cara, tudo bem?" Ron chamou e Harry piscou, voltando a atenção para o amigo.
"O quê?"
"Tudo bem? Você está parecendo um pimentão."
"Não, não, está tudo bem" Harry se apressou em dizer, arrumando os óculos no rosto suado e pedalando mais rápido.
"Se você quiser, podemos parar por hoje..."
"Estou bem, Ron. Vamos, só fizemos... sete minutos."
Ron gemeu e Harry fixou os olhos no mostrador de sua bicicleta ergométrica pelo restante do tempo.
Tudo bem, ele se sentia fisicamente atraído por homens. Podia viver com isso. Mas não era qualquer um que o excitava. Mas também não se sentia atraído por qualquer mulher. Por exemplo, agora que se concentrava nos dentes desalinhados de Mary, já não a achava tão bonita assim, apesar de ter um corpo bacana. Já o loirinho...
Harry se estapeou mentalmente.
-oOo-
Harry tomou um banho demorado ao chegar em casa. Somente ao sair se deu conta de que havia se esquecido de trazer seu pijama para o banheiro. Não que Malfoy parecesse se importar com ele passeando pelo seu quarto só de toalha, mas o problema era exatamente esse. Malfoy fazia questão de encará-lo, não exatamente de maneira reprovadora, o que fazia com que ficasse desconfortável.
Harry saiu do banheiro após se enxugar, com a toalha firmemente enrolada na cintura. E lá estava Malfoy, esticado sobre sua cama, assistindo House como um gato preguiçoso. Seu olhar passou da TV para Harry instantaneamente, como se não houvesse nada antinatural naquilo. Harry passou rapidamente para o closet, antes de xingar e se lembrar que seu pijama tinha ficado sobre a cama. Pelo menos pode vestir uma cueca, para não se sentir tão vulnerável enquanto voltava para o quarto, usando a toalha para secar as orelhas e, assim, cobrir boa parte de seu peito.
Mas acabou descobrindo as pernas, o que descobriu ser um erro quando os olhos de Malfoy se fixaram instantaneamente nelas. Harry pensou em pegar seu pijama e voltar para o closet, mas acabou ficando por ali mesmo, fingindo prestar atenção na televisão enquanto vestia o pijama com sua plateia.
"Já jantou?" perguntou para Malfoy, que teve que desviar os olhos da última brecha de pele coberta pela camiseta antes de responder.
"Já. Pedi chinesa. Está no micro-ondas. Espero que você não tenha deixado cabelos na pia do banheiro hoje."
Harry rolou os olhos, preferindo não fazer nenhum comentário. Aquilo acontecera um único dia, em que Harry se esquecera de limpar a pia após se barbear e teve que lidar com um Malfoy histérico durante uma semana toda. Só quando foi procurar pelos chinelos é que Harry notou os papéis em seu criado.
"O que é isso?" perguntou ao folheá-los.
"As contas do mês" Malfoy respondeu.
"O que..." Harry passou para a próxima conta, sem conseguir acreditar. "Malfoy, por acaso você tem alguma fábrica de bebidas escondida dentro de casa? É isso que vem escondendo naquele quarto trancado? Porque é impossível você usar tanta água assim..."
"Ei, por acaso eu não moro sozinho."
"Sim, mas eu não gastava nem um quarto disso quando morava sozinho! Além do mais, não sou eu quem toma banho de banheira todas as noites. Aquilo é uma piscina olímpica! Imagine quantos litros de água..."
"Acontece que, com cinco minutos ou meia hora, eu gasto a mesma quantidade de água, enquanto você gasta o dobro quando deixa o chuveiro ligado por quinze minutos. A diferença é que você não vê a quantidade de água que gasta, e por isso..."
"Aquilo foi um único dia, Malfoy. E eu estava merecendo um banho demorado. Aliás, eu bem que merecia todos os dias por ter que aturar você."
"Você também insiste em cozinhar" Malfoy continuou. "O que suja a louça, que tem que ser lavada e..."
"Ora, cale a boca se não tem nada de inteligente para falar" Malfoy pareceu em choque, mas Harry não se abalou. "Ainda estamos falando de sua hidromassagem e OLHA ESSA CONTA DE ENERGIA!" Harry balançou a conta na cara de Malfoy, que teve que afastar o corpo para trás. "E não venha me dizer que é a bateria do meu celular ou o forno elétrico que estão fazendo esse estrago."
Malfoy deu de ombros e aumentou o som da televisão, como um maldito adolescente. Harry pegou as contas e já ia saindo quando Malfoy falou.
"A toalha molhada!"
Harry voltou pisando duro, levou a toalha até o banheiro e saiu do quarto antes que o esganasse.
Apenas depois de ter comido seu jantar foi que voltou a pegar as contas, ainda que relutante. Além do gás usado na calefação, da água e energia, Malfoy havia anexado o contracheque da faxineira e a taxa absurdamente cara do condomínio, que incluía a internet e a TV a cabo. Mesmo somando tudo e dividindo por dois, Harry quase trincou os dentes de tanto apertá-los. Mas se forçou a relaxar o maxilar, antes que tivesse que pagar pelo dentista também.
E pensar que Malfoy ainda tinha que pagar a hipoteca e a contribuição autárquica²! E provavelmente o seguro... Harry não poderia imaginar como ele conseguia pagar por tudo aquilo trabalhando como consultor jurídico. Se bem que ele provavelmente só trabalhava para ocupar o tempo, enquanto seus pais - ou pelo menos o dinheiro deles - pagavam por tudo.
Harry lembrou de seu apartamento, que agora estava ocupado por Seamus Finnigan e sua namorada, Katie Bell, e pensou que poderia chorar.
-oOo-
(1º de outubro, quarta-feira)
Assim que Harry entrou em casa, seus sentidos foram invadidos, fazendo com que parasse de súbito, pensando se não teria entrado no apartamento errado - o que não fazia nenhum sentido, afinal a chave servira perfeitamente. Havia risadas altas, um perfume adocicado e uma mulher loirano sofá em frente a Malfoy. Ambos pareciam estar se divertindo muito com alguma coisa, o que fez com que Harry ficasse um tanto constrangido em interromper. Principalmente porque não via Malfoy gargalhar com frequência.
"Harry Potter!" a mulher exclamou, seu sorriso se transformando em cara de espanto. "Ah meu Deus, não posso acreditar. Porra, Draco! Era isso que você estava escondendo esse tempo todo?"
"Hmmm... Olá" Harry murmurou, terminando de entrar e apoiando as sacolas no chão para tirar o casaco. Havia algo incomodamente familiar na mulher, apesar de Harry não conseguir distinguir o quê. Então ela jogou o cabelo para trás e ele se lembrou. "Parkinson?"
"Acho que o marido de Draco pode me chamar de Pansy. Afinal, você deve ter feito alguma coisa certa pra conseguir por uma coleira nele."
"Claro" Malfoy havia voltado ao seu desdém habitual.
"Ahm, me desculpe, eu não sabia que teríamos visitas" Harry falou enquanto levava as sacolas até a cozinha, aproveitando para lançar um olhar inquisidor para Malfoy, que se limitou a torcer o nariz.
"Ah, nem Draco sabia que receberia visitas" Parkinson comentou tranquilamente. "Se eu contasse, ele provavelmente arranjaria uma desculpa para que eu não viesse. Diria que o prédio estava pegando fogo, que estava com gripe asiática ou coisa do tipo. E eu não podia mais me aguentar de curiosidade para saber quem era o marido misterioso."
Harry havia voltado para a sala e ficara meio sem jeito, sem saber se a cumprimentava propriamente ou não. Mas, como ela não fez menção de se levantar do sofá, Harry dispensou os bons modos. Pansy havia se tornado uma mulher muito bonita, apesar de ainda haver algo pretensioso em suas feições. Ele não pode evitar encarar as pernas nuas cruzadas, que a minissaia fazia pouco para esconder.
Malfoy limpou a garganta e Harry perguntou, como que sobressaltado:
"Você vai ficar para jantar?"
"Ah, não! Não me diga que você cozinha? Draco, onde foi que você o encontrou?" ela olhou para Malfoy de um jeito caçoador e este fungou. "Talvez outro dia, querido. Tenho um encontro dentro de uma hora" ela olhou de um para o outro, cheio de expectativa. "Qual é, não vai rolar nenhum beijinho? Ora, vamos, eu me considero uma pessoa de casa!"
Harry gaguejou alguma coisa, sem saber se ela estava tirando sarro ou falando a sério, mas foi Malfoy quem respondeu, com sorriso cafajeste.
"Ele é tímido."
"Bem, vou deixar vocês conversarem à vontade. Com licença" Harry falou e ela o dispensou com um aceno desapontado.
Harry foi para a cozinha, a cabeça zumbindo com a realização de que, mesmo depois de todas aquelas conversas forçadas, mesmo depois de Harry cutucar e cavocar, ainda não sabia praticamente nada sobre Malfoy. Não fazia ideia de que ele ainda mantinha contato com Pansy Parkinson, muito menos que eram ainda tão próximos. Aquilo era frustrante, para dizer o mínimo.
"Humm o cheiro está bom."
Harry teve um sobressalto quando Pansy apareceu ao seu lado, se debruçando no balcão de mármore e jogando os cabelos para trás.
"Obrigado" Harry limpou as mãos no avental e deu uma espiada para a sala, mas Malfoy havia sumido.
"Ele foi trocar de roupa. Você sabe como ele é..." Parkinson explicou. "Pra ser sincera, eu não acreditei quando ele apareceu no trabalho de aliança. Achei que só estava inventando aquilo para que chegasse aos ouvidos de Blaise que ele tinha seguido em frente e essas babaquices todas" ela torceu o nariz de um jeito que lembrava Malfoy. "E, como ele nunca falou uma palavra sobre com quem havia se casado, eu bem que desconfiei, mas não custava tirar a prova. Mas, se tinha alguém que poderia causar um reboliço na vida de Draco em tão pouco tempo, esse alguém só poderia ser você mesmo. Ou George Clooney" ela riu escandalosamente.
"O que... o que você quer dizer?" Harry perguntou, como quem não quer nada, enquanto forrava uma assadeira com a massa da torta.
"Ora, o nome George Clooney costuma ser auto-explicativo, Potter..."
"Eu quis dizer a parte sobre mim" Harry a interrompeu.
"Bem, ele nunca admitiu... Porra, ele provavelmente nunca vai admitir, mas eu bem que desconfiava que toda aquela raiva no colégio só podia significar isso" ela apontou para ele como se aquilo explicasse a situação.
Harry levantou uma sobrancelha com ceticismo, mas felizmente estava de costas para ela, acrescentando água fervente ao ensopado. Só não conseguia entender por que Malfoy não teria contado a verdade a Pansy, se eles eram tão próximos.
"Então" Harry mudou de assunto. "Vocês trabalham juntos?"
"Cara, ele sabe ser calado quando quer, não é mesmo?" ela quase pareceu solidária. "Na verdade eu não trabalho para a empresa, mas temos uma parceria, Yaxley e eu. Sou arquiteta independente e cuido de alguns detalhes dos imóveis sempre que eles precisam. Draco não deve ter contado, mas fui eu quem conseguiu essa preciosidade para ele" ela fez um gesto abrangente e Harry imaginou que ela estava se referindo ao apartamento. "Apesar de que eu teria caprichado melhor na sala de jantar, se fosse ele. Mas não é como se ele recebesse muitas visitas em casa. Ainda mais depois que até mesmo os pais dele... bem, você sabe..."
Ela olhou ao redor e Harry teve que engolir sua frustração. O que é que tinha acontecido com os pais dele? Teriam mesmo morrido? Mas Parkinson continuou, sem perceber sua confusão.
"Fui eu também quem conseguiu o emprego para ele, quando ele falou que não queria nada que fosse indicado pelo pai. Minha família e os Yaxley são aparentadas, ainda que distantes. Eu só não imaginava que ele iria criar raízes lá. Quero dizer, o lugar é deprimente e o salário, uma afronta" ela bufou.
Aquilo também o intrigava.
"Também não consigo entender isso" Harry confessou, querendo perguntar mais, mas sem saber como fazê-lo sem ser indiscreto. "Ele não fala muito sobre o trabalho. Ele tem outros amigos senão você?"
"Dificilmente" Parkinson soou desdenhosa. "Um bando de velhos carcomidos e rabugentos. Draco detesta aquele lugar. Ele diz que não quer sair de lá, mas eu sei que não é verdade. Só que ele é teimoso demais para admitir" de repente ela mudou de assunto. "Então, o que você está fazendo aí? O cheiro está realmente ótimo."
A resposta de Harry foi interrompida quando ele se assustou com o que percebeu depois ser Malfoy o abraçando.
"Malfoy, seu idiota, eu quase me escaldei!" nem mesmo seus xingamentos fizeram com que Malfoy o soltasse ou parasse de rir às suas costas, acompanhado de Parkinson. Malfoy beijou a sua nuca e Harry enterrou os cotovelos com força nos lados de Malfoy, que o largou, apesar de ainda estar rindo.
"Eu disse que ele iria fazer um escândalo."
"Sumam daqui, vocês dois" Harry os enxotou, arrumou os óculos no rosto e apoiou-se no balcão para recuperar o fôlego enquanto os dois ainda se acabavam de rir na sala.
Quando seus pensamentos pararam de ecoar juras de morte a Malfoy, Harry apurou os ouvidos ao perceber que a conversa havia passado para um tom sério.
"... que você iria superar, Draco. Aquele filho da puta do Blaise não merecia que você ficasse sofrendo por causa dele."
Pelo jeito, Pansy continuava com a boca suja de sempre. Houve uma pausa e Harry fechou a torneira para ouvir melhor.
"Você tem tido notícias dele?" Malfoy perguntou, claramente tentando disfarçar qualquer vestígio de interesse legítimo.
"Muito pouco. Ele me deixa algumas mensagens de vez em quando, mas eu nunca mais atendi às ligações dele."
"Ele ainda está com aquela vadia?"
Alguém suspirou.
"Você sabe como ele é. Se ainda não se cansou dela, vai se cansar logo, logo" houve um curto silêncio."Seus pais sabem disso?"
Bem, aquilo respondia à sua pergunta anterior. Aparentemente, eles estavam bem vivos, apesar de se manterem distantes. Harry apurou os ouvidos, mas não conseguiu ouvir a resposta, se é que houve alguma, antes que Parkinson fizesse outra pergunta.
"Você está feliz, Draco?"
A resposta de Malfoy demorou um pouco e Harry deixou os ombros caírem.
"Estou. Claro que estou" foi a resposta pouco convincente de Malfoy. Mas talvez aquilo tivesse convencido Pansy, que logo apareceu na cozinha para se despedir com toda a sua exuberância.
"Droga" Harry resmungou ao encostar o dedo na panela quente enquanto despejava o ensopado na assadeira depois que ela partiu.
Enquanto a torta assava, Harry aproveitou para tomar um banho, se sentindo péssimo. E amaldiçoando Pansy por fazer com que ele se sentisse daquele jeito em relação a Malfoy. Estaria completamente feliz ignorando qualquer traço de humanidade em Malfoy, se não fosse por ela.
Lembrava-se de Blaise Zabini no colégio e não se espantava ao saber que ele estava com uma garota. O que o espantava era saber que ele havia namorado seriamente. Com Malfoy! O cara era o maior mulherengo de toda a escola!
Durante o jantar, Harry demorou para colocar os pensamentos em ordem o suficiente para começar um diálogo.
"Por que você não contou a ela?" perguntou, só então percebendo que a pergunta não fazia tanto sentido fora do contexto de seus pensamentos.
Malfoy suspirou, provavelmente desapontado por não poder comer sua torta em paz, para variar.
"O que você disse?"
"Por que você não contou para Pansy? Sobre nós?" ele queria dizer 'sobre a farsa', mas esperava que Malfoy entendesse sem que fosse necessário.
Malfoy encolheu os ombros, mas não disse nada.
"Malfoy, você contou aos seus pais?" Harry cutucou, quando ficou claro que não obteria resposta.
Aquilo fez com que Malfoy quase derrubasse sua torta, xingando ao deixar cair um pouco de molho na gola do pijama.
"Por que diabos eu sairia espalhando todas as tolices que faço na vida?" Malfoy respondeu, irritado, largando o prato sobre a mesinha enquanto pisava duro até a cozinha para limpar a mancha na roupa. Quando voltou, Malfoy pegou seu prato, e anunciou: "Vou comer no meu quarto."
Ele já tinha dado alguns passos quando voltou, pegou mais um pedaço de torta e saiu. Apesar de contrariado, Harry não pôde conter um pequeno sorriso.
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(6 de outubro, segunda-feira)
Apesar de ser apenas segunda-feira, Harry chegou em casa exausto. Era prazo final para entrega de um vídeo promocional e por pouco não conseguiram finalizá-lo a tempo. A sexta-feira havia sido corrida e completamente improdutiva e Harry havia passado o fim de semana inteiro como se tivesse apertado o 'pause' do controle remoto e estivesse louco para apertar o 'play', mas impossibilitado. Fizera sua equipe trabalhar como louca para concluir naquele dia, mas também tinha se esgotado. Mal via a hora de tomar um banho, vestir seu pijama e...
"Malfoy, você viu meu pijama?" perguntou, depois de revirar o closet, as gavetas do criado e o cesto de roupas sujas. Tinha até mesmo sacudido as cobertas para ver se não ficara embolada no meio delas, mas tinha quase certeza de tê-lo deixado dobrado sobre a cama.
"Aquele trapo velho?" Malfoy falou, sem dar muita importância. Ele havia passado a maior parte do fim de semana trancado no misterioso quarto de visita e parecia relaxado como um gato preguiçoso, deitado no seu lado da cama enquanto lia um livro, vestindo seu próprio pijama impecável. "Como é que eu vou saber, se você deixa suas coisas jogadas por aí?"
"Eu não deixei jogado. Deixei dobrado sobre a cama. Tenho quase certeza disso..." Harry falou, voltando a vasculhar as gavetas do criado.
"Bem, eu não peguei nada de cima da cama, mas hoje de manhã vi um monte de trapo no chão e joguei no lixo."
"Você fez o quê, seu...?" Harry prendeu a respiração, para evitar uma torrente xingamentos. Duvidava que seu pijama tivesse pulado para o chão, mas o simples sacudir da colcha da cama poderia tê-lo jogado no chão, ou talvez Malfoy estivesse simplesmente mentindo sobre aquele detalhe. Harry tentou contar até dez, mas desistiu no quatro. "Malfoy, você jogou meu pijama no lixo?"
"Já disse que..."
"Malfoy, seu bastardo, você jogou a DROGA do meu pijama no lixo?"
"Bem, pelo menos nós concordamos que é uma droga mesmo, e agora você tem uma desculpa para comprar um novo..." Malfoy repuxou o canto da boca num sorriso de escárnio e aquilo foi a gota d'água para Harry.
"Ora, seu..." ele se lançou na direção de Malfoy, punho primeiro.
Malfoy demorou alguns milésimos de segundo para perceber o que estava acontecendo e outros para se defender, mas acabou revidando. Eles caíram no chão, engalfinhados, entremeando socos e xingamentos. O interfone tocou em algum momento durante a luta, bem no momento em que Harry torceu um braço de Malfoy atrás das costas, empurrando seu rosto contra o chão e falando bem próximo ao seu ouvido.
"Você vai pegar o meu pijama do lixo e vai me entregar lavado e passado, entendeu?"
"Mas..." Malfoy começou, um filete de sangue escorrendo do lábio cortado para dentro da boca tingindo seus dentes de vermelho, mas Harry aumentou a pressão em seu braço, fazendo com que ele gemesse, o rosto vermelho de dor e humilhação.
"Não quero saber. Você vai fazer isso ou eu vou deslocar o seu braço..."
"A empregada já deve ter colocado o lixo para fora, merda. Eu compro um pijama novo... ah-haha" Draco choramingou, batendo a mão livre no chão como se aquilo de alguma forma desviasse a atenção do braço atacado. "PORRA, está bem, eu vou lá embaixo fuçar na porcaria do lixo, se você faz tanta questão. Agora, se você puder fazer o favor de me soltar..."
Harry largou o braço de Malfoy e saiu de cima dele, a respiração ofegante pelo esforço. Recolocou os óculos, que haviam caído em algum momento durante a luta e limpou o sangue do nariz. O interfone tocou pelo que pareceu ser a vigésima vez e Harry foi até ele, movimentando lentamente os músculos do rosto para se certificar de que não havia quebrado nada.
"O que foi, Sir Nicholas?"
"Sr. Potter... Céus, Malfoy vai fazer com que eu seja despedido até amanhã" gemeu o senhor, parecendo positivamente alarmado. "Aquela senhora esnobe do Serviço Social..."
"Umbridge?" Harry exclamou, seus olhos se arregalando conforme uma nova descarga de adrenalina o assaltava. "O que tem ela?"
"Ela insistiu veementemente para subir e os senhores não estavam atendendo..."
"Diga que ela foi embora, Sir Nicholas..." Harry implorou, mas de algum modo já sabia a resposta.
"Sinto muito, senhor. Gostaria de poder dar boas notícias, mas a senhora disse que sabia que vocês estavam em casa. Ela... simplesmente subiu... Não pude fazer absolutamente nada..."
Harry praguejou. Estava prestes a desligar na cara do homem quando se lembrou de seus bons modos e o tranquilizou, dizendo que estava tudo bem, que Malfoy não iria reclamar com o síndico.
"Malfoy!" Harry gritou ao desligar no mesmo instante em que a campainha tocou. "Merda... Malfoy..." ele correu para o quarto, quase tropeçando no livro de Malfoy.
"Que diabo..." Malfoy estava encolhido no pé da cama, massageando o braço agredido. Harry teria sentido pena se não estivesse tão apavorado.
"É Umbridge!" Harry falou, ao que se seguiu uma profusão de xingamentos.
"Ele que vá para o inferno. Não pode me obrigar a atender a porta."
"Não acho que ela vá desistir facilmente" Harry falou, correndo para o banheiro para lavar o rosto. Até que não estava tão mal, na verdade. O sangramento já havia estancado, mas sua maçã do rosto dolorida logo começaria a escurecer. Fazia tempo que não perdia a cabeça daquele jeito. Normalmente, Harry era uma pessoa muito pacífica, mas se tinha alguém que conseguia tirá-lo do sério a ponto de fazer com que partisse para a ignorância, essa pessoa só podia ser Malfoy.
Umbridge já estava atacando a campainha sem sossego quando Malfoy passou por ele a caminho do banheiro.
"Abra logo a porta antes que essa vaca a derrube" Malfoy resmungou. "Vou vestir alguma coisa decente."
Harry respirou fundo antes de abrir a porta.
"Srta. Umbridge" Harry cumprimentou com forçada naturalidade. "Desculpe a demora. Nós..." Malfoy provavelmente teria inventado um motivo plausível rapidamente, mas Harry se limitou a repetir: "Desculpe. Gostaria de entrar?"
A expressão impaciente de Dolores Umbridge se suavizou e ela logo mostrou um de seus sorrisos mais assustadores enquanto seus olhos se fixavam instantaneamente no nariz latejante de Harry.
"Sr. Potter. Obrigada" ela entrou e Harry gesticulou para que se sentasse. "Espero não ter interrompido nada importante."
"De modo algum. Aceita chá?"
Quando Malfoy se juntou a eles na sala, Umbridge já segurava uma xícara fumegante. De algum modo, Malfoy conseguira disfarçar um pouco o lábio cortado, mas seu olho esquerdo estava ficando roxo. Ele cumprimentou Umbridge e tomou seu lugar ao lado de Harry no sofá, como da última vez.
"Então..." Umbridge falou e deu uma de suas características risadinhas, enquanto passava a mão carinhosamente em seu medalhão. De fato ela parecia muito contente e Harry logo imaginou o porquê. "Posso perguntar por que vocês dois estão machucados? Se não os conhecesse melhor, poderia imaginar que andaram brigando..."
"Ah, isso não foi nada" Malfoy falou casualmente. "Estávamos experimentando alguma coisa mais... apimentada, mas acabamos descobrindo que a teoria é mais excitante do que a prática, não é mesmo Harry?"
"Hm-hum" Harry se limitou a resmungar, não confiando em sua voz.
Longe de parecer escandalizada, Umbridge levantou uma sobrancelha e mudou de assunto.
"Estou bastante ansiosa para analisar o progresso de vocês. Vocês se importam se eu der uma olhada ao redor?"
Obviamente ela só estava perguntando por causa do protocolo. Harry duvidava que alguma coisa impediria aquela mulher de xeretar por tudo.
Umbridge revisitou os pontos críticos da casa, observando tudo atentamente e fazendo uma ou outra anotação. Harry e Malfoy a seguiram de perto, braços cruzados e cara fechada, mas a mulher parecia à vontade. Secretamente, Harry torcia para que ela forçasse Malfoy a abrir o quarto de visitas novamente, mas ou ela se esqueceu do aposento, ou achou que não valia a pena, para seu desapontamento.
"Sr. Malfoy" Umbridge falou de maneira casual enquanto examinava meticulosamente a suíte. "Há muito tempo não ouço falar de seus pais. Seu pai costumava se lembrar das minhas causas sociais todos os anos, e era muito generoso, mas sumiu de uma hora para outra sem deixar rastros..."
Alguma coisa na maneira como ela falou aquilo disse a Harry que ela dava muito mais importância àquilo do que aparentava. E que não estava tão à vontade quanto parecia. Talvez porque aquilo desafiava suas próprias palavras sobre estar sempre um passo à frente deles. Mas o fato era que Harry também estava curioso a respeito da reação de Malfoy.
"Bem, se eles não deixaram rastros, provavelmente não querem ser encontrados" Malfoy retorquiu, sem se abalar. Mas Harry achou ter percebido certa tensão em seu maxilar.
O sorriso de Umbridge não poderia ter sido mais amarelo, porém ela não protestou. Felizmente, ela pareceu não encontrar nada em que se agarrar ao final da inspeção, fato que a deixou ligeiramente mau-humorada.
"Me digam" Umbridge falou quando voltou a se sentar no sofá, se servindo de mais chá. "O que vocês descobriram um sobre o outro durante esse tempo?"
"Ora, essa o meu esposo vai tirar de letra" Malfoy começou e Harry mal pode acreditar em seus ouvidos. "Ele é tão interessado na minha vida que eu até emagreci durante o último mês, tentando responder a todas as suas perguntas durante o jantar."
"Ah, claro" Harry concordou, sarcástico. "Descobri tantas coisas a respeito dele que nem sei por onde começar. As pessoas normalmente têm alguns assuntos como tabus, mas não o meu marido. Ele é capaz de falar sobre qualquer coisa sem ficar cheio de melindres."
"Bem, eu descobri que Harry é bastante desorganizado" Malfoy falou, ignorando sua alfinetada. "Mas, como tudo a respeito dele, até seu desleixo é... fofo."
Harry decidiu não deixar a peteca cair.
"E eu descobri que Draco é bastante compreensivo quando se trata de dividir seu território. Na verdade, eu duvido que haja uma pessoa mais fácil de lidar na face da Terra."
"De maneira alguma, você é que torna tudo mais fácil, querido" Malfoy insistiu de maneira pouco natural, em seguida se dirigiu a Umbridge. "Por exemplo, ele não costuma dar descarga ao usar o banheiro durante a noite. Mas não tem problema, porque a urina dele cheia a margaridas e luz do sol."
Harry trincou os dentes.
"Na verdade eu não dou descarga para economizar água. Assim ele pode aproveitar a banheira todos os dias sem culpa."
Malfoy forçou uma risada.
"Esse é o meu marido... Tão preocupado com a nossa situação financeira que prefere usar pano de chão como pijama do que comprar um novo..."
"Ora, seu..." Harry resmungou entredentes, os punhos cerrados automaticamente, ao que Umbridge interveio com um suspiro de pura satisfação.
"Basta. Eu não precisava desse showzinho todo para saber que vocês não têm progredido, apesar de terem feito novos arranjos na casa. Vocês não seriam estúpidos a ponto de fazer menos que isso" ela fungou, cheia de desprezo. "Mas também não são muito espertos, se engalfinhando feito dois pré-adolescentes" ela remexeu em sua bolsa e pescou suas anotações. "Deixe-me ver... aqui está. Apesar de aparentemente vocês estarem usando as alianças em tempo integral, tenho aqui o depoimento de muitas pessoas dizendo o que não sabem e o que não viram. E o que elas não sabem é quem são seus respectivos cônjuges. Perece que vocês dois andam fazendo mistério, como se a coisa toda fosse uma situação embaraçosa provisória, e não um casamento. E o que elas não viram foi vocês dois juntos" ela os encarou por algum tempo para dar algum efeito às suas palavras. "Inclusive um dos porteiro desse prédio, que alegou nunca ter visto vocês dois chegando ou saindo juntos..."
"Ah, eu vou matar aquele velho linguarudo..." Malfoy murmurou e Harry já estava prestes a defender Sir Nicholas quando Umbridge interveio.
"Não adianta chorar o leite derramado, Sr. Malfoy. Já disse que tenho os meus meios de ficar sabendo das coisas. Se o porteiro em questão tivesse de alguma maneira sido encorajado a mentir a esse respeito, outra pessoa teria dito a verdade para as minhas fontes. Como, por exemplo, alguém que tenha visto o sr. Potter indo ao cinema sozinho, ou à academia com um amigo" o queixo de Harry caiu, mas Umbridge já estava mirando em outro alvo. "Ou mesmo alguém que tenha acompanhado as idas do sr. Malfoy ao Tate Modern³, ou seus passeios solitários no Hyde Park4."
Malfoy pareceu igualmente chocado, e daquela vez sequer tentou disfarçar.
"Você por acaso tem me seguido?"
"Ora, como se eu não tivesse coisas mais importantes a fazer do que segui-lo. Sou apenas uma pessoa bem informada" Umbridge pareceu ultrajada, mas Malfoy não se abalou.
"É melhor que não esteja mesmo, pois se eu descobrir que venho sendo seguido, por você ou por quem quer que seja, alguém vai sofrer um processo judicial."
"Isso é algum tipo de ameaça, sr. Malfoy?" Umbridge falou, com um de seus sorrisos angelicais. "Porque eu detesto ameaças, e no momento você poderia fazer bom uso da minha boa vontade. Um uso de vários dígitos, eu diria."
Malfoy torceu o nariz, mas não fez mais nenhum comentário. Felizmente, Umbridge deu sua visita por encerrada depois disso.
Alguns minutos mais tarde, enquanto colocava a louça suja na máquina de lavar, Harry ouviu a porta da rua bater, indicando que Malfoy havia saído. Ótimo. O que menos queria fazer naquele momento era encarar a cara arrogante de Malfoy. Estava cansado de se sacrificar por causa daquela farsa de casamento. Se Malfoy quisesse convencer Umbridge, que tomasse alguma iniciativa, para variar.
Era a noite de Harry na cama, e ele adormeceu antes que Malfoy voltasse para casa. Antes que pegasse no sono, teve uma visão de Malfoy revirando sacos de lixo e sentiu uma pontinha de culpa corrompendo sua satisfação. Afinal, não era como se seu velho pijama tivesse algum valor sentimental, ou que não pudesse ser substituído. No entanto, Malfoy não tinha como saber e o simples fato dele se sentir afrontado por suas coisas não lhe dava o direito de se livrar delas.
Logo seus argumentos - somados ao latejar do nariz agredido - cauterizaram sua consciência e Harry escorregou para um sono exausto.
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Notas: ¹ Fish and chips ou fish 'n' chips é um prato típico da culinária do Reino Unido.
² Council Tax: taxa municipal equivalente ao IPTU, porém com maior cobertura.
³ Um dos maiores museus de arte moderna e contemporânea do mundo, situado em Londres.
4 Parque localizado na região central de Londres, que forma uma das maiores áreas verdes da cidade.
Pessoal, sinto muito pelo atraso! Matthew e eu tivemos um pequeno desencontro durante o final de semana, mas aqui está! As coisas já ficaram físicas, embora provavelmente ainda não seja o tipo de contato físico que vocês gostariam uhuahuauahua. Só sei que tenho a impressão que vocês vão gostar do próximo capítulo xD
Obrigada a todos que comentaram! Lis Martin (Nossa, esse foi o primeiro elogio que eu ouvi à Umbridge na vida! Já a McGonagall é amor rss), Pessoa que não se identificou (pode apostar que ainda vai ter muita confusão com esses dois teimosos, mas entendo sua ansiedade uhuahuhauhaua. Como você pode ver, atualizar uma vez por semana já está dando trabalho, imagina duas! Muito obrigada por ler e comentar!), Gabriel H (Ta-dá! Aqui está a continuação!), Ly (bem-vinda de volta! Eu também estou muito feliz por estar de volta, ainda mais sendo recebida com tanto carinho por vocês!), Las (que bom que está gostando! Obrigada!), Milla (muito obrigada! Será um prazer ter a sua companhia ao longo da fic!) e Renan (ownn de maneira alguma que eu abandonaria vocês assim!).
Reviews são muito bem-vindas!
