CAPÍTULO 4 - POR SORTE, TALVEZ...

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Para o azar de Tenko, o animal que ela havia escolhido para montar em sua fuga era um Peco jovem, ainda indomado e muito forte. O pássaro cor de fogo corcoveava e se sacudia, tentando se livrar daquele incômodo peso que tinha nas costas. A garota se agarrava ao pescoço da ave com toda sua força. Nunca tinha aprendido a montar, muito menos em pena, e a única coisa que lhe restava fazer era se agarrar com todas as forças ao PecoPeco, sem chance alguma de controlar sua direção.

Algum tempo depois, Tenko notou que não estava mais nas florestas e campos verdes dos arredores de Prontera, e sim em algum tipo de deserto. Estava exausta, e o frio do deserto enregelava seus dedos, tornando ainda mais dificil se agarrar ao pássaro selvagem. Até que não pode mais resistir. O Peco sacudiu o corpo violentamente, arremessando contra uma parede rochosa a fugitiva, que caiu desacordada.
Tenko abriu os olhos, mas logo os fechou novamente. O sol brilhava alto no céu. Tentou se levantar, mas seu corpo doía demais.
-Que ótimo, todo esse trabalho para acabar morta em um deserto!

Pensou a garota. Tentou se levantar outra vez. Sentia uma dor insuportável no ombro esquerdo, e sua cabeça latejava. O deserto agora estava quente e seco, e Tenko sentia sede. Conseguiu sentar na areia, apoiando o peso no braço direito. Abriu os olhos devagar, dando tempo para se acostumarem com a luz. Então olhou ao seu redor.
Areia por todos os lados, alguns cactos aqui e ali, rochas secas, algumas plantas amareladas que de tão secas cheiravam a folhas de chá. Virou o pescoço dolorido de um lado para outro, massageando-o com a mão direita. Tentou mover o braço esquerdo. Mas ao primeiro movimento, sentiu de novo a dor no ombro. De repente, Tenko sentiu que era observada. Virou para trás e viu uma criatura se aproximando.

Tenko ja havia visto os lobos na floresta perto do castelo de seu pai. Esse animal era definitivamente um lobo. Mas os lobos da floresta tinham pelagem grossa e cinzenta, e só atacavam quando eram provocados. Este tinha pêlos castanho-claro, da cor da areia, e andava diretamente ao seu encontro. Estava muito magro, com as costelas ressaltadas por baixo da pele. Sua grande boca entreaberta, com a língua pendurada entre as presas afiadas. Tentou recuar, mas sentiu outra presença atrás dela. Era outro lobo. Ao lado desse, vinha outro. E atrás deles, mais dois.

A garota se levantou com algum esforço, e firmou sua base no chão, abrindo um pouco as pernas. Era apenas uma menina inexperiente, e estava ferida, mas seu era orgulhosa demais para morrer sem luta. Puxou a Main Gauche e se preparou para o combate. O primeiro lobo saltou sobre ela. Tenko avançou com a lâmina na direção do animal. Mas antes que o movimento se completasse, o lobo caiu no chão com um ganido de dor.

Um jovem de cabelos castanhos havia interceptado o salto do lobo. Ele havia apunhalado a fera pelas costas, derrubando-a no chão. O jovem cravou sua adaga no dorso do animal mais duas vezes, e logo em seguida saltou na direção dos outros quatro. Com um movimento brusco, rasgou a garganta de um dos lobos. Os outros três avançaram para cima dele, mas ele se esquivou facilmente dos três, fato que causou grande admiração em Tenko. Atingia uma das feras com a adaga, enquanto se defendia com o broquel que tinha no braço esquerdo. Matou mais um lobo. Chutou areia nos olhos de um dos dois lobos que restavam. O animal ficou enlouquecido, atacando a esmo. Suas mordidas passavam longe do ágil guerreiro, que aproveitou o tempo para acabar com o quarto lobo. Por fim, saltou para trás do lobo cego e o apunhalou com força entre as omoplatas. Assim, o ultimo lobo caiu. O jovem olhou por um segundo para os animais mortos, e em seguida puxou um lenço do bolso e começou a limpar o sangue da adaga. Virou-se para Tenko, que ainda estava parada, de pé, com a Main Gauche na mão.

-Isso aqui não é lugar para aprendiz! É melhor você voltar logo para Morroc!-, Disse o jovem, sem olhar diretamente para a garota, ainda limpando a adaga ensangüentada.

-Mo...Morroc?-, respondeu a jovem atônita.

-Você se perdeu então?- O rapaz revirou os olhos e bufou. -É por isso que aprendizes me irritam! Estão sempre se perdendo! Vem cá, eu te levo pra Morroc, tô indo pra lá mesmo.

Tenko hesitou. Não sabia se podia confiar naquele homem.

-Tá esperando o quê? Aparecer mais lobo?

Era um bom argumento.

-E guarda essa faquinha miserável!

Tenko irritou-se com este ultimo comentário, mas teve de reconhecer que o rapaz estava certo. E não estava com a mínima vontade de encontrar mais lobos. Guardou a Main Gauche na bainha e começou a seguí-lo.
Enquanto andavam, começou a observar o jovem. Ele tinha cabelos curtos, castanhos, e olhos da mesma cor. Sua pele morena, de ficar no sol do deserto. Era bem musculoso, e usava uma espécie de jaqueta curta, aberta no peito, junto com uma calça justa.

-Quê você tanto olha? Tá me achando gostoso, né?-, disse o jovem, seguido por uma gargalhada espalhafatosa.

A garota, indignada com tal vulgaridade, respondeu rispidamente:

-Só estava imaginando que tipo de guerreiro usa essas roupas esquisitas...

O jovem gargalhou ainda mais alto.

-Olha, pro que eu sou cada um dá um nome. Mas quem não é do nosso "meio" diz que nós somos "arruaceiros"!

E continuou rindo espalhafatosamente.

Durante a caminhada, Tenko se animou a perguntar mais algumas coisas ao seu estranho salvador. Descobriu que o deserto onde estavam se chamava Sograt, que ficava no extremo sul de Rune-Midgard. O arruaceiro, apesar de grosseiro e um pouco vulgar, não era má pessoa. Quando chegaram aos portões de Morroc, parou e falou:

-Olha, esse lugar é mais fácil pra você treinar, se você quiser. Os bichos aqui são fraquinhos. Tem filhotes de PecoPeco, os Pickys, uns bichinhos chamados Drops que parecem gelatina, e uns insetinhos que se chamam ChonChons.

Tenko agradeceu a gentileza. Para seu primeiro dia fora de casa, teve muita sorte. Pensou em pagar ao rapaz pela ajuda, mas quando estendeu o braço para o saco de moedas, sentiu uma pontada no ombro, e não pode conter um gemido de dor. O arruaceiro percebeu.

-Ei, você tá machucada?

Imediatamente ele se inclinou e para examinar o ombro da garota. E nesse momento, pela primeira vez, seus olhares se cruzaram. O arruaceiro soltou um palavrão ao ver os ferozes olhos vermelhos de Tenko, e recuou um passo para trás. Logo em seguida se desculpou.

-Ahn... foi mal... é que eu nunca tinha visto olhos assim!

Ele olhava fascinado para as íris cor-de-sangue da garota. Tenko também estava surpresa. Nunca tinha lhe passado pela cabeça que não era normal ter olhos vermelhos, já que ninguém nunca tinha falado nada a respeito disso em sua casa.
O arruaceiro sacudiu a cabeça com força, várias vezes, como se quisesse se livrar de algum pensamento incômodo. Depois, abriu sua bolsa e entregou para Tenko algumas garrafinhas que continham um líquido vermelho.

-Aqui, bebe algumas dessas que seu braço vai ficar melhor. Se você se machucar durante alguma luta, elas te curam também.

-Agradeço!-, disse Tenko, e pela primeira vez em muito tempo, abriu um sorriso. O arruaceiro sorriu também, e depois partiu em direção aos portões de Morroc. Antes de atravessá-los, voltou-se para Tenko e gritou:

-Gostei de você, Olhos Vermelhos! Se precisar de mim, me chamam de Shi no Toge. Pergunte por mim nas ruas de Morroc!
Sorriu para ela, e em seguida atravessou os portões da cidade.

Tenko bebeu tranquilamente o conteúdo de uma das garrafinhas. Pouco depois, seu ombro parou de doer. Depois, começou a caminhar em direção aos portões da cidade. Procuraria algum lugar para passar a noite hoje, e amanhã recomeçaria seu treino. E também, seria bom matar monstros e pilhar alguma coisa. Seu dinheiro provavelmente só daria para uma noite, já que sentiu sua bolsa ficar bem mais leve depois que encontrou Shi no Toge.