Ela caminhou até a cadeira mais próxima e se jogou na mesma. Ao menos suas pernas pararam de tremer descontroladamente. Tudo quer precisava fazer era contar de seu namorado, sem dar mais informações e nem deixar que eles invadissem sua mente usando a legilimencia.

- O que acha? – indagou entediada. Nem mesmo em situações críticas como essa ela conseguia deixar de lado o seu lado irônico. Sua convivência com Sirius não parecia ter diminuído isso, pelo contrário, somente o acentuou.

- Eu te fiz uma pergunta – ele estava sério, sem dar brecha para a loira contestar. Sabia que ela usaria todos os artifícios possíveis para fugir. Se ela escondeu a verdade por tanto tempo não veria por que ela contaria agora.

- Não sei porque pergunta se sabe a resposta – devolveu com os nervos a flor da pele. Como fugir da verdade numa situação dessas? Seus traumas passados ainda persistiam, não deixando que ela confiasse em ninguém, nem mesmo em seus próprios amigos.

- Quem é ele? – indagou nervoso. Gostava de saber tudo que se passava ao seu redor. A mínima possibilidade de não conhecer algo o atormentava. Para ser sincero, a própria auror o atormentava. Nunca havia encontrado outro ser na face da Terra que o intrigasse tanto e que o desafiasse tanto.

- Receio que isso você não vai saber – ela desviou o olhar do auror propositalmente. Sabia que se seus olhares se encontrassem ele conseguiria invadir sua mente e descobria a identidade de seu amado. Não estava preparada para assumir seu relacionamento com Sirius na frente de um bando de bruxos que provavelmente não aceitariam esse envolvimento.

- Se esse relacionamento estragar as coisas para a Ordem... – ameaçou, contudo foi interrompido por ela antes mesmo que chegasse a fim da ameaça.

- Quanto a isso você não precisa se preocupar. Ele está morto! – disse desgostosa. Preferia dar um bom motivo para a Ordem desconfiar dela do que ter que viver sem o calor do corpo do moreno envolvendo o seu.

- Mesmo assim, Kammy. Você pode fazer alguma besteira – foi Lupin quem falou. Era o único que sabia do envolvimento dos dois. Claro que ele não aprovava, mais não poderia negar que os dois faziam um bem enorme ao outro. Ele acompanhou todo o sofrimento da garota, desde que Sirius havia morrido. Certamente preferia vê-la com um sorriso bobo e apaixonado no rosto a vê-la triste e melancolia do jeito que ela estava.

- Engraçado ouvir isso de alguém que não se envolve por medo de perder – rebateu a loira. Definitivamente a convivência com Sirius só aumentou seu humor que já não era doce. Ela afinou ainda mais sua língua.

- Me deixe fora disso – pediu Tonks num fiapo de voz. Sabia que a loira referia-a a ela. Agradecia o apoio que a companheira dava para os dois, porém preferia manter sua vida pessoal longe das conversas, assim como Kammy queria manter a sua.

- Tudo bem – respondeu com um sorriso – Eu não vou fazer nada que prejudique a Ordem, não se preocupem – era um pouco difícil ela controlar seu gênio e agir sem ser impulsivamente, contudo lealdade era um de suas maiores qualidades. Realmente não prejudicaria a Ordem de jeito nenhum, ainda mais sabendo o que aconteceria se por acaso eles perdessem a guerra.

- Falando em Ordem – Arthur tentou aliviar o clima – Kingsley já falou com você – perguntou educadamente. Tinha noção que ela não falaria mais nada. Não tirava sua razão, ainda mais sabendo que o único amor da vida dela era realmente Sirius Black, o único com quem ela não poderia se envolver.

- Já, mas o querido do primeiro-ministro não quer me ver nem pintada de ouro – disse contrariada. Pelo seu tom de voz dava para perceber que o sentimento era recíproco. Definitivamente ela não deveria ter convivido tanto com Sirius.

- Kammy – retomou Moody – É essencial que você o proteja – já tinha desistido de tentar descobrir a identidade de seu namorado. Ela era uma auror afinal de contas. Só revelaria essa informação se quisesse e ela já tinha deixado claro que não queria.

- E como vou fazer isso? – o observava pelo cantos dos olhos. Já estava irritada o suficiente para pensar num jeito de fazer o velho idiota aceitá-la.

- Você é uma auror ou não é? – disse atravessado. Não estava com paciência para aturar o mal-humor dela. Se não queria contar tudo bem, mais pelo menos que fizesse suas missões corretamente.

- Okay – suspirou derrotada – Eu dou um jeito – é claro que ela daria um jeito, ela sempre deu um jeito para fazer as coisas, não o jeito que todos esperavam, mais ela nunca deixou uma missão inacabada.

- Você precisa protegê-lo – implorou Tonks – É melhor vocês contarem toda verdade a ela – era uma das únicas pessoas da organização que confiavam plenamente nela. Todo esse tempo que conviveram juntas foi o suficiente para a metamorfomaga se tornar o mais próximo de uma amiga que a loirinha já teve. Elas também eram parentes, talvez fosse isso que as tivesse aproximado ainda mais.

A auror olhou significantemente para todas e Arthur foi o primeiro a se recuperar. Nymphadora tinha razão. Até agora a auror não havia dado um motivo para desconfiar dela, ela merecia isso.

- Talvez o garoto não seja filho dele – o Sr Weasley disse. Tinha certeza que se dependesse de Olho-Tonto ele deixaria a garota trabalhar no escuro, sem dar uma pista do porquê dele estar sendo perseguido mesmo sendo somente um trouxa, filho de um trouxa importante para a sociedade, mais não seria motivo suficiente para Voldemort persegui-lo com tanto afinco.

- Eu o protegerei nem que isso custe a minha vida – garantiu a auror. Ela melhor do que ninguém sabia o que era sofrer nas mãos de comensais da morte. Sua vida foi destruída por eles e ela ainda não havia recuperado de todos os seus traumas.

- E não deixei – avisou Lupin – O ódio que sente por Bellatrix Lestrange comandar a sua vida – frisou o lobisomem. De todos, ele era o único que sabia de toda a história de amor dos dois primos. Sirius era seu melhor amigo e havia lhe contado tudo. Ele ainda era o único que sabia de todos os motivos que a levaram a odiar sua irmã.

- Já isso eu não posso garantir – sorriu tristemente a garota – Você, melhor do que ninguém, sabe o que eu sofri nas mãos delas – ela lhe era grata por tudo que ela havia feito, mais não tinha como esquecer o que havia passado.

- O Sirius não ia querer que você acabasse com sua vida desse jeito – murmurou, pois tinha certeza que ela não ia querer que a Ordem inteira soubesse que Sirius era seu único amor.

A loira pareceu não escutar, pois no instante seguinte desapareceu pela porta. Não tinha como esquecer que era por causa de Bellatrix que ela não tinha mais o moreno ao seu lado. Tantas datas especiais que ela teve que passar sozinha porque ele tinha morrido. O aniversário de namoro, seu aniversário, o aniversário dele, Natal, Ano-Novo... Lágrimas já se formavam em seus olhos. Ela precisava ser forte e impedir que sua querida irmãzinha destruísse mais uma vida.

oOoOoOoOoOo

Neowën acordou cedo na manhã seguinte, mais cedo que costumava acordar. Levantou-se ainda levemente sonolento, trocou o short de dormir por uma roupa social que o deixava mais belo e pegou as chaves do Volvo. Afinal, não ganhou um carro para deixá-lo as moscas na garagem. Ultimamente estava acordando mais cedo só para não ter que cruzar com seus pais e ouvir mais alguns sermões. Definitivamente ter um pai famoso não era nada divertido como parecia. Sorriu vitorioso ao constatar que seu pai não havia trancado sua saída.

Abriu a porta do carro e ligou a ignição. Pretendia dirigir devagar para fazer o tempo passar e apreciar a bela música que saía do seu fone de ouvido, todavia não conseguiu. Apreciava demais a velocidade para conseguir dirigir devagar, mesmo que seja numa cidade movimentada como Londres. Chegou cedo à universidade e estacionou o mais próximo da entrada. Andar e fazer exercícios físicos não eram seus hobbies. Retirou as chaves e preparou-se para sair, até que notou a bela morena encostada na porta de seu carro.

- Belo carro – disse ela com os cotovelos apoiados na janela já baixa. Um belo sorriso adornava seu rosto bem delineado.

- E o que você entende de carro? – mergulhou nos olhos ferozmente azuis dela. Nunca havia conhecido alguém que possuísse olhos tão azuis quanto os dela. Aqueles olhos o fascinavam, muito mais do que Anne o havia fascinado.

- O suficiente para saber que é lindo e caro – ela sorriu – Okay, eu não entendo nada de carro – ela jogou a cabeça para trás, rindo graciosamente. A única coisa que ela entendia era como dirigir um carro, não apreciar a beleza de um.

- Você é sincera – o moreno devolveu o sorriso – Eu gosto disso nas pessoas – quando se é filho de um político importante como ele era você começa a apreciar pequenas coisas como sinceridade e a odiar o interesse.

- Nas pessoas ou nas mulheres? – o sorriso brincalhão continuava lá, como se estivesse testando-o. Cada vez mais essa garota o intrigava.

- Você é direta! – definitivamente ele gostava dessa garota. Era totalmente oposta a todas as garotas que ele conhecia, com exceção de Belle e Rose, que o bajulavam e o agradavam só para ficar em sua companhia e aproveitar o dinheiro de seu pai. Já essa desconhecida não. Não importava o que ele dissesse, ela somente falava o que realmente queria e não media as palavras. Adoraria saber o seu nome.

- Catherine Hegel – como se tivesse lido os seus pensamentos ela finalmente se apresentou, sem contudo estender a mão para ele apertá-la ou aproximar seu rosto para beijá-la.

- Neowën Lancaster – como dever de cortesia ele também se apresentou embora essa fosse uma parte que ele não gostava de jeito nenhum. As pessoas sempre o olhavam diferente depois de saber seu nome e sua linhagem.

- Você tem sangue nobre! – aparentemente ela não era diferente. Apesar que seu tom de voz não havia mudado nem um pouco. Quer dizer, havia mudado sim. Mais para surpresa e não deslumbramento como sempre acontecia.

- Como se isso importasse – revirou os olhos e abriu a porta deixando claro eu não se importava nem um pouco com sua linhagem – Entra ai.

A morena escancarou a porta, sentou no banco e fechou a porta em seguida. Retirou um dos fones do ouvido do garoto e inseriu no seu. Ele ficou intrigado com o seu comportamento. Era a primeira garota a entrar no seu carro e roubar um de seus fones sem o menor constrangimento ou arrependimento.

- Hallelujah, Paramore? – ela o olhou pelo canto dos olhos, a espera de uma resposta. Se estivesse certa aquele era um de suas músicas preferidas da banda.

- Conhece? – ele voltou a sorrir. Cada vez mais aquela garota o surpreendia. Não esperava encontrar alguém que curtisse o mesmo gosto musical que o seu.

- Claro – ela cantava baixinho, acompanhando a música. Não que cantasse bem ou possuísse dotes artísticos, contudo adorava cantar suas músicas preferidas mesmo que não o fizesse bem.

- Faz que curso? – ele estava decidido a conhecê-la. Era a primeira vez que conhecia alguém que não se importava com sua descendência, quer dizer, sua aparente descendência.

- Medicina e você? – Cath agora cantava Bring me to Life do Evanescence. Música era uma de suas paixões.

- Agronomia – ela o olhou surpresa. Certamente não esperava por uma profissão tão diferente para alguém que era filho de um político importante.

- Você não tem cara de agrônomo – novamente ela foi sincera. Não conseguia imaginar o jovem a sua frente como agrônomo. Ele era bonito demais para isso.

- Nem você de médica – rebateu o moreno. Não conseguia imaginar como uma garota bonita, simpática e inocente como ela poderia ter coragem para mexer com sangue.

- E se eu dissesse que capturo bruxos das trevas – ela virou o rosto para encará-lo, o que fez com que ficasse muito próximo do dele. Ele quase ficou tentado a acreditar se não tivesse visto o sorriso debochado em seu rosto.

- Eu pediria para você me ensinar – os dois riram com a brincadeira – Acha mesmo que ainda existem bruxos? – talvez não devesse ter feito essa pergunta a uma desconhecida, porém havia horas que ele realmente chegava a acreditar que os bruxos eram reais e estavam muito mais próximos do que ele gostaria que estivessem.

- E se eu dissesse que sou uma? – seus narizes estavam quase se tocando. O sorriso debochado deu lugar a uma expressão séria. Parecia que ela não estava brincando e sim falando sério. Antes mesmo que ele tivesse chance de interrogá-la, alguém os interrompeu.

- Neowën – uma voz irritada o chamou. A garota que o chamara ela morena, cabelos lisos, olhos escuros e uma expressão feroz em seu rosto. Olhava atravessado para a garota que estava dentro do carro.

Os dois se afastaram e encontraram os amigos dele do lado de fora. Fora Rose que o chamara. Mais afastado estava Edward Nixon e Isabelle Tyler, só que a única que parecia não ter ido com a cara da morena era Rosalie.

- A gente se vê por ai – ela beijou a bochecha do moreno e saiu do carro. Por ora preferia não entrar em conflito com ninguém, muito menos com o moreno.

Os garotos ficaram observando até a morena se afastar. Ambos tinham que concordar que a garota era bonita demais. Como também sabiam que a morena não aceitaria tão fácil a presença de outra garota no grupo.

- Tá podendo, hein? – zombou Ed – Só falta a Angelina Jouli largar o Brad Pitt para ficar com você! – era óbvio que não perderia uma oportunidade de rir as custas de seu amigo.

- Eu não sou rico nem famoso além de duvidar que ela o largasse para ficar comigo – como sempre o moreno não aceitava brincadeiras. Definitivamente humor não era o seu forte.

- Também acho – comentou Belle – Como a achou? – perguntou curiosa. Havia algo nessa garota que fazia sua pele se arrepiar. Sendo quem ela era, havia aprendido a confiar plenamente em sua intuição. Esta nunca falhou.

- Ela comentou sobre o carro – ele ainda olhava abobadamente para onde ela tinha sumido, embora já tivesse saído do carro. Tudo estava indo tão bem. Seus amigos não poderiam ter demorado mais um pouco para chegar?

- E ela por um acaso sabia alguma coisa a respeito? – Rose queria encontrar algum motivo para criticá-la, além de saber muito mais de carro do que a maioria das garotas da sua idade.

- Na realidade não – ele sorriu. Na sua lista de exigências que uma garota deveria possuir saber de mecânica e de carros não era uma delas.

- Não vê que ela só está interessada em você por causa do seu pai! – bradou Rose, enciumada. Apesar do ciúme ela tinha uma ponta de razão. Não foram poucas as garotas que se aproximaram do moreno em conseqüência do dinheiro da família Lancaster.

O moreno riu e a abraçou em seguida. Sabia do ciúme da garota, afinal foram criados juntos, eram melhores amigos. Quanto ao outro motivo ela não precisava se preocupar. Havia visto um interesse genuíno no olhar da garota. Podia estar enganado, mais tinha quase certeza que ela não estava atrás do seu dinheiro.

- Ela não vai substituir seu lugar – beijou o topo da sua cabeça – Acho melhor irmos, temos aula agora – ele não tinha a menor vontade de estudar no momento, mais era uma ótima desculpa para fugir do ciúme doentio de sua melhor amiga. Os outros dois o seguiram imediatamente, porém Rose ficou para trás.

- Eu não quero só ser sua amiga – apressou o passo para alcançá-los logo. Quando é que ele finalmente iria perceber que o amava e que não queria somente ser sua amiga e sim a mulher da sua vida?

oOoOoOoOoOo

Hegel suspirou aliviada. Quase colocou tudo a perder. O moreno não poderia suspeitar nem por um minuto da sua verdadeira identidade. Demorou um pouco para encontrar o local que desejava. Sua cabeça estava a mil por hora. Entrou na secretária e deu de cara com o secretário sentado em uma cadeira olhando diretamente para si.

- Oi – ela jogou os cabelos para trás levemente, o que deixou o homem babando discretamente – Eu sou nova por aqui. Gostaria de saber qual será a minha nova sala? – sorriu como se fosse inocente.

- É... É... Já entregou a documentação? – ele não ficaria tão abobalhado assim se soubesse da verdade. Ela poderia parecer inocente, contudo era uma das pessoas menos inocentes da face da Terra.

- Sim. Então? – ergueu uma das sobrancelas tentando parecer ansiosa e preocupada ao mesmo tempo. Nessas horas que valia a pena ter ficado sob a guarda de comensais.

- Eu te acompanho – disse uma voz a porta. Ele era loiro e muito mais alto do que ela.

- Obrigado – voltou-se para o recém-chegado e despediu-se do secretário com um aceno – Você não vai perder as aulas por me acompanhar? – ela pareceu preocupada com isso. Não queria atrapalhá-la.

- Na realidade eu também faço medicina. Estou na 6ª fase.

- Uau – a morena estava espantada – Já nos vimos antes? – parecia que ele era conhecido, entretanto não sabia onde o tinha visto.

- Na realidade sim. Eu sou amigo do Neowën, Edward Nixon – pelo menos isso explicava o fato dele não ser um completo estranho.

- Nossa... Como essa universidade é pequena! – apesar de parecer inocente e indefesa ela sabia que havia muito mais coisas nesse pequeno encontro. Não confiava nem um pouco no rapaz a sua frente.

- Na realidade não – ele sorriu misteriosamente – Você que é bonita demais para passar despercebida – ele tentou descontrair um pouco o clima, pois viu como ela havia ficado tensa com sua presença.

- Galanteador, não?

- Tento – ele manteve o sorriso – Gostou de conhecer o Neowën? – ele era direto demais para adiar a pergunta por muito tempo. Esse foi o verdadeiro motivo de ter vindo ao seu encontro.

- Por que a pergunta? – ela parou e Nixon mergulhou pela primeira vez nos orbes azulados da garota. Realmente havia algo em seus olhos que atraiam atenção.

- Se você não fosse uma total desconhecida eu diria que você esconde um grande segredo – novamente o sorriso misterioso estava lá, como se realmente soubesse que ela guardava algum segredo.

- Se você não fosse um estranho eu diria que você tem o sangue mágico correndo nas veias – seus olhos faiscaram, deixando claro que não era um simples ameaça. Ela parecia ter certeza do que dizia.

- De onde você tirou essa idéia? – seus olhos demonstravam uma ponta de medo. Como uma simples desconhecida podia suspeitar de seu segredo?

- Como você disse eu escondo um grande segredo – ela não mudou sua pose séria, mesmo sabendo que poderia se meter numa baita encrenca.

- Se você machucar o Neowën vai se ver comigo – ele puxou seu braço esquerdo repentinamente, apertando-o.

Sua face enigmática transformou-se rapidamente numa expressão de dor. Ela sentia a pele se comprimir. Ao notar a súbita mudança no semblante da garota, Ed afrouxou o aperto e a morena soltou-se rapidamente. Mesmo que ele não estivesse mais apertando seu braço, este ainda doía. Parecia que a dor somente aumentava com o passar do tempo em vez de diminuir. Não gostava nem um pouco disso.

- É melhor você sair daqui, AGORA! – mesmo que ele fosse mesquinho e traiçoeiro, ela não poderia deixá-lo correndo perigo, ainda mais o grande perigo que a dor em seu braço denunciava.

Catherine correu. Sabia do perigo que estavam correndo. Abriu a porta de sua sala e sentou, atraindo a atenção de todos. Seu coração estava disparado. O braço esquerdo ainda ardia dolorosamente e tinha noção que em alguns minutos ficaria ainda pior. Dito e feito. Mordeu seus lábios para não gritar de dor. A chegada do professor desviou a atenção de seus colegas e foi isso que a salvou. Ninguém tornou a olhá-la, o que a mesma agradecia. Não seria nada fácil explicar sua expressão de dor. A garota respirou fundo e esperou que a marca deixasse de ser negra com o coração na mão.

oOoOoOoOoOo

Eles se separaram. Neowën seguiu sem prestar atenção em nada. A figura da bela garota não saía de sua mente. Nem suas aulas conseguiram captar sua atenção. Uma estranha figura entrou em seu campo de visão próximo a biblioteca. Adentrou no aposento, encontrando a morena lá. Ele caminhou nas pontas dos pés até ela para não denunciar sua presença

- Estamos fadados a nos encontrar – sussurrou no ouvido da morena. Ele a observou levantar-se levemente da cadeira.

- Você me deu um susto – Cath levantou os olhos, assustada. Já imaginava que iria reencontrá-lo, só não pensou que seria tão rápido.

- Desculpe – ele se afastou e contornou a mesa – Posso me sentar? – ele estava com as mãos no encosto da cadeira, prestes a puxá-lo.

- Deve – ela sorriu antes de voltar aos estudos. Adoraria poder ficar olhando para ele sem ter que fazer seus deveres. O moreno era uma paisagem que merecia ser observada.

- Fazendo o quê? – tentou puxar assunto. Não queria perder a oportunidade que o destino havia dado. Aquela era sua chance de finalmente conhecê-la já que mais cedo foi interrompido por seus amigos.

- Relatório de 30 páginas – respondeu sem desviar os olhos da folha de papel. Precisava terminar isso o mais rápido possível, já que tinha outras obrigações a cumprir.

- Tudo isso? – estranhou. Talvez porque seus trabalhos não tinham mais do que 15 páginas, se é que chegavam a isso – Meu maior trabalho teve 15 páginas – riu graciosamente.

- 15 páginas tinham meus trabalhos escolares – ela escrevia furiosamente no papel. Tinha o dom de conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo. No caso escrever, ouvir e conversar com o moreno, tudo ao mesmo tempo.

- Então você era cdf – ele constatou visto que demorava para fazer um simples trabalho com 10 páginas.

- Nem tanto, somente uma aluna aplicada – ergueu os olhos um pouco e deixou que ele visse o belo sorriso que adornava o seu rosto.

- Posso te fazer um convite? – perguntou receoso. Na realidade tinha medo da resposta que ela lhe daria. Talvez ela achasse cedo demais.

- Claro – ela largou o papel que escrevia e olhou diretamente nos olhos dele. Aqueles olhos amendoados pareciam lhe esconder algo. Ela ficou tentada a descobrir o que era.

- Aceita sair comigo hoje? – perguntou rapidamente antes que perdesse a pouca coragem que conseguirá arrumar.

- Só nós dois? Para onde? – ela não pareceu julgá-lo precipitado. Parecia realmente curiosa a cerca do convite. Talvez ele tivesse uma chance de mantê-la por perto. Sorriu com a perspectiva.

- Na realidade meus amigos vão junto. Show do Paramore hoje à noite, topa? – agora já tinha quase certeza que ela toparia. Pelo que deu para ver mais cedo, era uma das bandas que ela gostava, além do fato que não era propriamente um encontro visto que seus amigos também iam.

- Claro, nos encontramos lá, uma hora antes – sorriu. Definitivamente não queria que ele fosse até a sua casa. Iria exigir perguntas embaraçosas com respostas constrangedoras. O melhor era deixá-lo afastado de sua casa, ao menos por enquanto.

- Na verdade eu... Esquece – ele balançou a cabeça – Nós encontramos lá. É na frente da King Cross, conhece? – apesar de ter o típico sotaque londrino, ele ainda não estava inteiramente convencido que essa garota poderia ser de sua cidade. Nunca havia conhecido alguém como ela.

- Sim – sorriu – "Mais do que imagina" – completou em pensamentos.

Ela voltou aos estudos e ele somente a observava sem saber como retomar a conversa. O cabelo dela não se balançava nem com o vento, porém havia algo de encantador no modo com ela escrevia. Parecia que ela precisava de carinho e atenção assim como ele.

- Pode perguntar, eu não mordo, a não ser que você queira – o moreno segurou o riso. Ao que parecia, ela havia lido a sua mente e estava lhe dando a oportunidade que ele tanto ansiava.

- Você é daqui? – foi a primeira pergunta que ele deixou escapar. Precisava ter a prova definitiva de sua origem. Não era possível existir uma garota como ela numa cidade como Londres.

- Na realidade não. Vim dos Estados Unidos – era uma meia-verdade, mais ele não precisava saber disso no momento.

- Não parece. Você fala sem o sotaque norte-americano – isso porque fazia anos que não retornava aquele país.

- Faz quatro meses que estou aqui – isso sim era uma mentira completa, contudo ela precisava omitir muitas coisas dele naquele momento, pelo menos até ganhar a confiança do pai dele.

- Por que se mudou para cá? – ele estava fazendo perguntas cada vez mais complicadas. Se não parasse logo ela iria se enrolar e ele acabaria descobrindo a mentira.

- É uma história longa e complicada – optou por uma forma delicada de dizer que não queria tocar no assunto.

- Eu tenho tempo se quiser dividi-la – só que aparentemente ele não se tocou disso. Precisava mudar de assunto urgentemente.

- Não, não quero falar disso – era complicado demais para ela ligar com aquilo. Trazia-lhe lembranças que ela preferia que ficassem ocultas no canto mais fundo de sua mente.

- Okay, qual sua cor favorita? – ele era compreensivo o suficiente para saber que não deveria mais tocar no assunto. Aquilo nem importava tanto assim. Resolveu optar por um assunto mais light.

- Preta e você? – ela largou de vez os estudos e agora olhava fundo nos olhos dele. Aquele olhos a fascinavam tanto quanto os seus o fascinavam.

- Também. Banda? – gosto musical era um dos pré-requisitos para a mulher ideal. Não adiantaria de nada se ela gostasse de pagode e ele de rock.

- Isso está parecendo um interrogatório – ambos sorriram. Foi ai que ela notou que estava sorrindo demais em uma conversa. Tirando a parte que ele perguntou de sua origem, não lembrou nem uma vez do moreno de olhos azuis – Linkin Park – adorava a miscigenação da banda.

- Tem show mês que vem – ele deixou implícito no seu tom de voz que também iria convidá-la para esse show.

- Eu sei – ela fingiu que não notou o convite impresso na voz. Queria ver até onde iria esse interesse dele.

Eles passaram o resto da tarde conversando e Cath, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se segura e feliz. Ao lado do moreno ela não precisava fingir nada e mostrou a ele o lado que somente seu primo conheceu. Seu lado doce e sensível. E ao contrário do que ela imaginava, não ficou triste por não pensar nele.

- Posso ser indiscreto? – eles agora caminhavam pelo campus, a caminho do Volvo – ou as aulas já haviam acabado ou estavam prestes a acabar. Nenhum dos dois havia se ligado no horário. A conversa entre eles fluía tão bem que se esqueceram do passar das oras.

- Depende – torcia para ele não fazer a única pergunta que poderia estragar o clima de felicidade que pairava sobre eles.

- Você já namorou? – ela engoliu em seco. Essa era a pergunta que ela tanto temia que ele fizesse.

Seu semblante mudou na hora. O sorriso sumiu dando lugar a expressão séria. Seus olhos, antes brilhando de felicidade, estavam tristes e opacos. Sem contar o nó em sua garganta que a impedia de falar. Ele pareceu notar a mudança na fisionomia da garota.

- Desculpa, eu não deveria ter falado – tentou se desculpar e fazê-la sorrir novamente. Preferia muito mais ver um sorriso adornado aquele rosto.

Hegel nada respondeu. Ela o abraçou com força e finalmente deixou as lágrimas tracejarem seu rosto. Apesar do choro, ela sentia segurança em sentir o calor que emanava do corpo de Neo.

- Vai ficar tudo bem – o moreno acariciava o topo da cabeça da mesma ao mesmo tempo em que apertava a garota contra seu corpo. Jurava que era capaz de sentir todas as curvas do corpo dela.

- Quem dera – as lágrimas continuaram a descer, encharcando a blusa dele. Ela não se livrou do abraço apertado, pelo contrário, parecia que queria que o moreno a apertasse ainda mais contra ele.

- Vai ficar, confie em mim – beijou sua testa – É melhor eu te levar para casa – ele era gentil e cavalheiro demais para deixá-la sozinha numa situação dessas.

- Eu prefiro ficar sozinha – beijou sua bochecha, soltou-se de seus braços fortes e saiu caminhando – Nos vemos mais tarde.

Cath se afastava a passos lentos, como se deslizasse pelo campus. Antes de sumir completamente do campo de vista dele, ela se virou e lançou um beijo para ele no ar. Ele ficou abobalhado com essa atitude dela que nem notou a presença de outra pessoa perto de si.

- Já reencontrou sua garotinha? – a voz carregada de sarcasmo pertencia a sua melhor amiga. Pela expressão que estava no rosto dela, a morena tinha quase certeza que os dois já havia se reencontrado e isso não a agradou nem um pouco. Por que raios o moreno fazia questão de não notar o seu amor?

- Você não precisa ter ciúmes, Rose – puxou a garota para seus braços na tentativa de acalmá-la. O corpo dela não parecia tão quente e suave como o de Cath. Balançou a cabeça tentando afastar tais pensamentos. Não queria encrenca com Rose além de não ter a mínima noção dos sentimentos da morena.

- Por que não a convidou para ir ao show hoje? – seu tom continuava o mesmo. Sabia que ia dar merda. Respirou fundo antes de responder.

- Eu já convidei – preparou seus ouvidos para o escândalo. Queria muito entender por que Rosalie jamais aceitou que ele saísse com as garotas. Nem mesmo Anne ela aprovou.

- Você o que? – a voz saiu mais alta do que o normal. A raiva corria muito forte em suas veias. Qualquer uma que se aproximava ele caía de amores, agora ela que o amava há tempos não. O que ela não tinha que todas as outras pareciam possuir?

- Oi Neo, Rose – Belle os chamava. Eles nem tinham ouvido-a se aproximar.

Os dois voltaram-se para ela. Lancaster aliviado e Rosalie furiosa. Atrás da Tyler estava Edward. Pela expressão no rosto do loiro ele sabia muito bem que os dois andaram brigando. Conhecia muito bem os seus amigos.

- O que aconteceu? – perguntou a loira. Ela também notou as expressões nos rostos de Neowën e Rosalie e assim como Ed também sabia que os dois andaram brigando, contudo adoraria saber o motivo.

- Ele convidou aquela estranha para ir com a gente no show – dava para perceber pelo seu tom de voz que ela estava com raiva, muita raiva. Os outros três queriam saber o motivo de tudo isso.

- Sinceramente, você está fazendo tempestade num copo d'água – comentou Edward – Você não é namorada do Neo, ele tem todo o direito de convidar quem ele quiser – definitivamente o loiro possuía a sensibilidade de um rato, ou seja, nenhuma.

- Ninguém me entende – bradou a morena antes de sumir.

- Cara, ela é ciumenta demais – criticou Tyler. Ela a única do grupo que percebeu que a morena possuía sentimentos pelo moreno. Sentimentos esses que não eram somente de amizade como eles espalhavam aos quatro ventos.

- Se ela não fosse sua melhor amiga eu diria que ela te ama – o loiro se dirigiu ao outro. Ele poderia não ter nenhuma sensibilidade, porém era observador demais e já tinha notado que Rose não queria somente ser uma amiga.

- É melhor que não porque eu não a amo – ele pareceu preocupado. Prezava demais suas amizades para se deixar envolver por uma amiga.

- É bom irmos, cara. Tem show logo mais – avisou o Nixon depois de olhar o relógio. E também porque queria fazer o amigo esquecer aquele assunto. Talvez ele estivesse vendo coisas que não existiam.

Eles se despediram rapidamente e cada um seguiu seu rumo. O moreno entrou no Volvo, porém ainda demorou uns cinco minuto para ligar o carro e partir. Seu corpo ainda estava sob os efeitos do contato com o corpo de Cath. Era melhor parar de pensar nela se realmente quisesse ir para casa se arrumar. Assim que chegou a sua residência planejava tomar um banho e se arrumar. Não havia nenhum carro na garagem o que o fez supor que o velho ainda não havia chegado.

- Voltou cedo dessa vez – sua bondosa mãe sorriu, como se desaprovasse as atitudes do filho. Ele não deu tanta sorte assim, pois Aileen estava na sala o que o impediu de subir sem ser visto.

- Eu só vim tomar um banho, já estou saindo.

- Seu pai não vai gostar disso – alertou. Já estava cansado de ver esses dois brigando diariamente. Keenan não era tão compreensivo assim e Neowën não tinha uma personalidade que se deixava domar.

- Não sou mais um adolescente mimado. Já tenho 20 anos – rebateu. Seus pais o tratavam como se ainda tivesse 14 anos. Isso o irritava.

- Mas ainda não é dono do seu nariz – repreendeu a sra. Lancaster.

- Eu vou para o show e a senhora não vai me impedir – doía ter que tomar essas atitudes, porém era estritamente necessário se quisesse realmente ter a sua liberdade.

Desvencilhou-se dela e subiu as escadas rapidamente. Trancou a porta do quarto a fim de ter privacidade. Tirou a camiseta no quarto e a jogou em cima da cama. Quando chegou a suíte só estava com as roupas íntimas.

Livrou-se logo delas e tomou um demorado banho. Desligou o chuveiro e enrolou uma toalha na cintura. A água escorrendo de seus cabelos e suas costas. Será que ela iria para o show? Seu corpo já começava a reagir. Precisava parar de pensar nela. Vestiu-se no quarto. Optou por uma camiseta preta e uma calça jeans. Passou um pouco de seu maravilhoso perfume, Kaiak. Ele nunca havia se arrumado tanto somente para ir a um simples show. Pegou sua carteira e o celular. Logo já estava na sala e sua mãe o esperava, nervosa. Sabia o que aconteceria quando o filho voltasse para casa.

- Neowën, você não... – ela começou porém não pode terminar a frase.

Ele saiu antes que ela pudesse encontrar um motivo para prendê-lo em casa. Seguiu com o Volvo para o local indicado. Ao chegar lá, encontrou Edward e Isabelle já a sua espera.

- Vocês acham que ela vem? – perguntou depois de já ter estacionado. Estava ansioso para encontrá-la novamente.

- Acalme-se – aconselhou à loira – Se ela disse que vem, ela vem – sorriu carinhosamente. Fazia tempos que não via o moreno tão preocupado e ansioso por causa de uma garota. A morena estava fazendo bem a ele.

- O problema é esse, eu não sei se ela vem.

N.A.: Novamente o cap foi reescrito *-* Abaixo segue algumas notinhas que vocês podem ter ficado em dúvida xD.

1) O fato do carro do Neowën ser um Volvo é sim influência de Twilight

2) Eu amo Evanescence e adoro Paramore. A minha banda preferida também é Linkin Park então falem mal u.u

3) Eu não sei os efeitos da Marca Negra, então finge que arde quando outro comensal se aproxima.

4) Eu não sei o que ingleses usam e vestem então finjam que eles tem tendências modernistas. Bem, o Neowën tem xD

Por enquanto é só. Comentário viu? õ/