– Não é tão ruim quanto pensa – disse um Scorpius bastante otimista.
– Eu acho que é bem ruim. Há quantas horas estou aqui?
– Quatro horas. O esquadrão está analisando todas as áreas do andar de baixo para localizar o dispositivo da bomba no teto, abaixo de você. Assim que eles encontrarem o dispositivo, eu faço a minha mágica e voltamos pra casa.
– Parece um bom plano.
– E é, confia em mim?
Entortei a boca, com má vontade.
– Como assim, não confia?
– Eu tenho algumas provas de que é difícil confiar em você. Você apenas não é o cara mais confiável do mundo.
– Como assim? Certo, Weasley, isso é realmente animador.
– Só acho que eu deveria ser sincera, não pretendo mentir hoje.
– Tudo bem, tem razão. Mas hoje preciso que confie em mim.
Ele andou ao meu redor, pensativo. A verdade era que eu não confiava em ninguém daquele lugar, exceto ele.
– Quanto tempo acha que vai conseguir desativar a bomba?
– Dois minutos – respondeu baixinho.
– Por que estão demorando tanto para achá-la?
– Eles precisam de toda a cautela do mundo para cavarem o teto embaixo de você sem explodir todos nós aqui dentro. E sabe como os japoneses são, bem calminhos, sem pressa.
Olhei para ele.
– Não é necessário ficar esperando aqui, Scorpius, está correndo risco.
– Não é uma decisão sua.
– Tudo bem, então, se quiser explodir.
– Ninguém vai explodir – ele disse com veemência. Nos encaramos.
Pressenti que alguém estava se aproximando, porque eu não ousava me mexer para verificar com o olhar. O celular em minha mão tinha acabado a bateria, o que indicava que Winky não estava mais lá. Mas eu não podia derrubá-lo, eu não podia soltá-lo de nenhuma maneira porque, segundo Scorpius, a bomba encontrou o ponto neutro com o peso do meu corpo porque eu estava segurando um celular e uma arma (Scorpius ainda não perguntou por que eu estava segurando uma arma, mas era só uma questão de tempo).
O chefe esquadrão de antibombas se aproximou de mim, tirando o capacete.
– Achamos a bomba, Rose.
Os caras estavam tão preocupados comigo que já me chamavam pelo nome.
Meu coração saltou de alívio. Mas havia algo mais na expressão do japonês. Uma notícia ruim.
– É uma bomba relógio, o que indica que não existe dispositivo – acrescentou, olhando para Scorpius.
Quis analisar a expressão dele, mas Scorpius cruzou os braços, franziu a testa e coçou a barba rala do queixo. Ele não mostrou nenhum sinal de pânico, apenas de alguém pensando em como resolver um complicado quebra-cabeça. O japonês falou baixinho:
– Sinto muito, Rose.
– Quanto tempo ainda tem? – perguntou Scorpius.
– Trinta minutos. Conseguimos encontrá-la em cima da hora e provavelmente ela foi plantada ontem e estava contando o tempo desde então.
– Eu quero ver a bomba – disse Scorpius.
– Acompanhe-me, então, senhor.
Trinta minutos. E o pior de tudo? Eu não tinha nada profundo para dizer como últimas palavras. Eu não estava preparada para isso. Fechei os olhos, percebendo o quão suada, desidratada eu estava. Meu tio me visitou constantemente, embora ele tivesse também que lidar com o Ministro. Albus estava se esforçando tanto para não dar na cara que éramos conhecidos, ou melhor, família. Foi profissional o tempo todo nos gestos, mas no olhar era meu primo preocupado. Daqui a pouco todos sairiam para evacuar o ginásio. Eu sabia que a essa altura tinha viaturas de bombeiros ao redor do quarteirão, esperando pelo pior. Eu já tive treinamentos assim, em que eu passava cinco, seis horas parada, mas nos treinamentos você tinha a chance de desistir.
Aqui não. Aqui é real.
O que eu poderia ter evitado se não tivesse tentado dar uma de heroína e ido atrás do sniper? Eu estaria deitada na minha cama, sabendo que fiz o certo para proteger Scorpius. Mas decidi ser ousada e corajosa. Decidi salvar muitas vidas. Como Scorpius dissera: "Não me entenda mal, você salva o meu traseiro toda vez, mas sabe... eu te via como alguém que salvaria muitas outras vidas."
Eu me vi sorrir um pouco, em um desespero imenso para chorar. Mas eu não podia chorar, era ridículo. Talvez o segundo rifle que o cara estivesse preparando fosse para Scorpius. Minha missão não foi completamente um desperdício. Astoria, quem deveria ter protegido Draco Malfoy, falhou há oito anos. Eu não falhei... Mas isso não me deixou aliviada, não me fez sentir nobre ou algo assim. Scorpius ainda tinha alvos em suas costas e eu precisava estar lá por ele.
Ele apareceu dois minutos depois.
– O que está fazendo aqui ainda? – eu perguntei severamente. – Saia daqui, Scorpius, pelo amor de Deus.
Ele ficou bem a minha frente e achei que ele ia dizer que era impossível, mesmo para ele, desativar a bomba. E que era a hora de nos despedirmos.
– Folga terminou, Weasley, vamos para casa.
Não acreditei nele.
– Você conseguiu?
– Dois minutos, como te prometi. Pode sair.
– Não sinto minha perna. Eu não...
– Por mais que eu adore uma explosãozinha de vez em quando, eu prefiro você viva. Vamos, temos muitas coisas para resolver em Londres e não pretendo voltar para Tóquio por um bom tempo.
Eu comecei a chorar. De verdade.
– Eu não consigo sair.
– Ok. – Ele suspirou, voltou a me encarar e se aproximou de mim, bem a minha frente. – Sim, todos estão longe daqui, só estamos nós dois. Temos dez minutos até a mina explodir. Eu fiquei para desativá-la, porque aparentemente sou o único que conhece o código. Então no momento em que eu te abraçar, duas coisas podem acontecer. Fiz algo errado e nós vamos explodir juntos. E a outra é que fiz algo certo e você vai adorar o meu abraço.
– Prometa uma coisa?
– O quê?
– Se sairmos daqui, não pergunte por que eu estou segurando uma arma em cima de uma bomba.
Ele concordou e, então, me abraçou, sem que eu estivesse realmente preparada. Se alguma coisa explodiu ali, não foi o ginásio. Foi meu peito. Eu explodi de alívio, apertando a cabeça perto do pescoço dele e envolvendo meus braços em seu pescoço. Há tempos que não abraçava alguém assim, como se eu estivesse me segurando para não cair literalmente. Nós nos afastamos um do outro, e fomos embora.
Aquele dia foi um exemplo de que nem tudo acontece como tememos ou esperamos. Desconfiei dos homens errados, pois Karkaroff não tinha intenção de entrar em conflitos com a empresa de Scorpius. No entanto, a empresa iniciar uma aliança com a Irlanda poderia trazer grandes problemas políticos e econômicos, especialmente agora com o ataque contra Karkaroff... era provável que mostrasse indícios de entrar na guerra, pois a Irlanda estava preparando ataques não somente bélicos, mas também digitais, começando pela invasão do sistema dos projetos de armas de Malfoy. Pelo menos, Zabini estava vivo, embora com os dedos das duas mãos quebrados.
– Obrigado, Malfoy, agora nós devolveremos seu amigo e os seus arquivos digitais – essa foi a última mensagem que Scorpius mostrou para mim no avião, enquanto voltávamos para casa. Ele estava lendo, baixinho, enquanto todos os outros dormiam.
– Não deveria ter feito isso – disse Blaze.
– Então, eu deixaria seu filho morrer?
Blaze era frio o suficiente para dizer:
– Agora, mais pessoas irão morrer com aqueles monstros segurando nossos mísseis e armas! Sabe o que seu avô dizia, Scorpius, sentimentos nos deixam fracos.
– Se essa constatação fosse verdadeira, Zabini, eu estaria procurando uma nova secretária pela manhã. E um novo amigo.
Eu não estava exatamente dormindo quando ele disse isso.
Era noite quando chegamos ao aeroporto. Scorpius não me deixou entrar em seu carro.
– Quero que vá para casa, Weasley, merece descansar.
Eu estava sem forças alguma para relutar. Fiquei tão agradecida quando Albus fez um aceno simples com a cabeça, como de alguém que estava assumindo o controle dessa vez.
– Você tem alguém para vir te buscar? Só entra aqui se for querer carona – ofereceu Scorpius.
– Sim, não se preocupe comigo. Eu sei exatamente aonde preciso ir.
– Ótimo, te ligo amanhã então – e entrou no carro, sério, como se não tivesse desarmado uma mina bem abaixo dos meus pés em dois minutos lá no Japão.
Ser secretária de Scorpius podia ser entediante, mas ser uma agente secreta definitivamente não era.
Eu esperei que desaparecesse de vista para me aproximar do Dodge vermelho de Dominique, no outro lado da esquina. Ela estava me esperando com as mãos no volante, seus belos cabelos esvoaçando pelo vento.
Quando entrei no carro, apoiei minha cabeça no encosto do assento e fechei os olhos, dando um longo suspiro.
– Qual o destino, prima? – perguntou.
– Sabe, eu estive a literalmente um passo de morrer hoje, Dominique. E a última coisa que quero é descansar na minha casa. Vamos nos divertir.
Essa era a língua que minha prima gostava de ouvir.
– Eu sei o lugar perfeito.
Ligou o carro e aproveitamos a vida que, para muitos de nós, era estranhamente curta.
Semana que vem começará a leva de capítulos maiores...
Beijos!
