IV.
Astrid chegou. Continuava bonita. A pele impecável e os olhos escuros brilhantes. O que havia mudado era o jeito dela me olhar. Não havia mais a antiga benevolência. Ela começou a conversar comigo, mas o tom era um tanto seco. Que estranho, todas as pessoas que no passado haviam torcido para que eu e Olivia ficássemos juntos, pareciam agora tão reticentes... Ficara evidente que coisas ruins tinham acontecido depois da minha partida. Era um ideia que nunca me ocorrera. Pensava que Olivia tinha ficado em Boston, trabalhando na equipe e amparando Walter, junto com Astrid.
-Obrigado por concordar em falar comigo.
-Sem problemas. Eu venho semanalmente a Nova Iorque. Trato de assuntos de trabalho, nós utilizamos muito a tecnologia da Massive Dynamic. Aproveito também para dar uma olhada em Walter.
-Não tenho como agradecer o seu cuidado com ele. Pensei que Olivia faria isso depois da minha partida.
-Ela ficou muito doente, Peter.
-Rachel já me disse.
Seus olhos se estreitaram. Ela agora me olhava com severidade. Sim, a palavra correta, justa, era severidade.
-Não, você não sabe. Ela desabou. Teve uma depressão muito séria. Não saía de casa, não se alimentava, bebia muito... Quase morreu.
Eu engoli seco. Cada vez eu ia me sentindo pior. Talvez fosse melhor parar de revirar o passado. O que estava saindo dali não era bom. Possivelmente eu descobriria coisas piores, coisas que eu não sabia se conseguiria encarar. Eu viera pelo meu filho. Não era prudente sair do meu roteiro. Mas eu começara a indagar, então tinha que escutar as respostas, por mais que incomodassem.
-Eu sinto muito Astrid. Mas o que vocês queriam que eu fizesse? Abandonasse o meu filho? Olivia sempre foi forte. Achei que superaria.
-Superou, Peter. Mas o preço foi alto demais. O único com quem ainda mantém contato é Broyles.
Percebi na entonação de Astrid a mesma admiração , o mesmo orgulho que sentira em Rachel ao se referir a Olivia.
-Eu estou preocupado com uma coisa, Astrid. Acho que estão me escondendo algo.
Astrid continuou impassível. Eu avancei sem pestanejar.
-Qual a idade da menina de Olivia?
Ela me encarou fixamente. Notei a censura em seu olhar. Colocou-se de pé, apanhou a bolsa.
-Não sei. Pergunte a ela, se conseguir encontrá-la . Com licença...
Astrid saiu aborrecida do bar. Ainda gostava muito de Peter. Ele era uma boa pessoa. Mas naquela situação específica, toda a sua preocupação, a sua solidariedade , as suas simpatias, estavam com Olivia. Não tinha como ser diferente. Ela acompanhara o seu sofrimento. Os meses de solidão e abandono .
"Você não estava se prevenindo?"
"Estava, mas durante o tempo que Bell estava no meu corpo, ele não se deu ao trabalho de tomar os meus anticoncepcionais. Quando eu voltei, estava tão atordoada que nem prestei atenção. Foi culpa minha, Astrid. Eu me descuidei."
"Pare com isso, via. Nada disso é culpa sua. Aconteceu. Você sempre está exigindo muito de si mesma."
"Só sinto vontade de sumir daqui e nunca mais voltar."
"Mas seria um consolo para Walter se ele soubesse da criança. Vocês seriam como uma família."
Ela teve um olhar apagado, descrente.
"Não Astrid. Eu não sou a nora de Walter. Acho mesmo que apesar de me amar, Peter nunca pensou em casar e ter uma família comigo. O meu filho foi um acidente. É problema meu. "
Broyles não me mandou sequer sentar. Mas eu não tomei conhecimento. Sentei assim mesmo. Resolvi tentar um blefe.
-Já soube de tudo. Preciso falar com Olivia.
Ele não se abalou, pelo menos aparentemente. A expressão era sempre impenetrável.
-Não tenho nada com isso. Olivia Dunham não trabalha mais comigo.
Aquilo realmente me irritou. Retruquei imediatamente.
-Não tente me culpar por algo que eu não sabia, Broyles.
Ele deu de ombros. O tom de voz era cínico.
-Você iria abandoná-la do mesmo jeito. Lembra do que me disse há sete anos atrás?
-Claro que não.
-Mas eu lembro, infelizmente. Então é melhor ir embora. Não temos mais nada a tratar.
"Tem certeza do que está fazendo, Bishop?"
"A certeza vem da falta de opção. Não posso abandoná-la e ao meu filho. O meu pai verdadeiro é um homem muito perigoso."
O outro homem olhou-o com seriedade. Não valia a pena discutir algo já decidido.
"Então o assunto está encerrado. Resolva a sua vida. Não se preocupe com seu pai, não vamos mandá-lo de volta para o Saint Claire. Nina Sharp será sua curadora.Vá cuidar de sua família do outro lado. "
"Eu queria poder me despedir de Olivia, Broyles. Ela sumiu. Não quero ir embora deixando as coisas desse jeito."
"Esqueça Olivia, Bishop."
"Preciso falar mais uma vez com ela."
A irritação transpareceu na voz de Broyles.
"Posso lhe fazer uma pergunta?"
"Se acha que deve, faça."
"E se você tivesse uma vida com Olivia... Casamento, filhos, uma vida em comum. Como faria? Largaria tudo como está fazendo?"
"Não posso trabalhar com hipóteses. Mas provavelmente eu agiria da mesma forma. Olivia é forte, altruísta. Tenho certeza de que ela sempre faria tudo dar certo."
"Diante disso..."
"Não vai me dizer onde ela está?"
"Na verdade não sei, e mesmo se soubesse não falaria. O melhor que ela tem a fazer é juntar os cacos e tentar sobreviver com o que sobrou. Suas despedidas não vão ajudá-la em nada."
Dois meses depois, Broyles maldisse a própria boca quando soube que Peter havia partido deixando Olivia grávida. Desnecessário dizer que nunca falou da conversa com ninguém. Mas
achou que o mínimo que poderia fazer era apoiar a sua melhor agente naquilo que ela decidisse.
