Chuva
- Não há a mínima chance de sairmos de casa hoje. - Avery olhou pela janela, observando a forte tempestade que caía - A não ser que seja para pegarmos um resfriado.
Nelson deu de ombros, como se não se importasse.
- Pelo menos compramos os ingressos pelo site. Podemos reaproveitá-los para outro dia.
- Lá se foi nosso cinema. - ela suspirou, desapontada.
- Bem, ainda podemos fazer algo legal. - ele aproximou-se de Avery e da janela - Basta ter imaginação.
Avery notou a malícia em sua voz e riu. Nelson franziu a testa.
- Ei... Não me entenda mal! Eu não estava me referindo a... Bem, você sabe. Não que eu pense que é uma má ideia...
Avery negou com a cabeça.
- Não é uma má ideia. Mas agora eu realmente quero ver um filme. Se não no cinema, aqui mesmo está ótimo.
- Precisa ser necessariamente um filme? Podemos ver aquela série que você fala o tempo todo. Como é o nome? Criminal Minds?
Avery assentiu.
- Tem certeza de que quer ver comigo? Já estou na 8 temporada, você não entenderá muita coisa.
- Sem problemas. Você pode me explicar o essencial ao longo dos episódios.
Avery sorriu.
- Certo. Mas antes, vamos colocar roupas mais confortáveis.
Eles passaram a tarde toda no sofá, abraçados embaixo de um cobertor com uma bacia de pipocas no colo vendo uma maratona de Criminal Minds.
Pararam no 5º episódio, quando seus olhos ardiam de encarar a tela da TV e seus corpos estavam doloridos de ficar na mesma posição. A chuva ainda não havia parado.
- Acho que vi o suficiente para dizer que gosto muito dessa série. Os personagens são geniais, os casos, a dinâmica da equipe. Não é sem motivo que já está no ar há 12 anos.
- Foi renovada para mais uma temporada, então serão pelo menos 13.
Nelson moveu-se no sofá, buscando uma posição mais confortável para ficar de frente a ela.
- De fato, a série é ótima, mas não consigo entender por que você a vê. É tão próximo da nossa realidade...
- É exatamente por isso. - Avery respondeu, apoiando a cabeça em seu ombro - Às vezes é bom ter algo com o que se identificar. Torna mais fácil acreditar que o que fazemos vale a pena, mesmo que nem sempre tenhamos finais felizes.
- Mesmo sabendo que nunca vamos conseguir pegar todos os vilões. - Nelson completa.
- Sim. Isso também.
- Qual o seu personagem favorito? - ele perguntou, realmente curioso.
- Eu gosto de todos eles, mas tenho uma simpatia a mais por Hotch. Quer dizer, ele já sofreu tanto, de maneiras inimagináveis e permanece uma rocha. Sua esposa, Hayley, ela foi...
- Não, não, não! - Nelson a interrompeu agitando as mãos - Por favor não me dê spoilers.
Avery franziu a testa.
- Você vai ver a série?
- Sim. Estou convencido de que vale a pena. Além disso, vai ser bom termos algo em comum para conversar.
- Esteja preparado. - ela alertou - Como você viu, não é uma trama muito feliz. Há episódios que irão literalmente arrasar seu coração. E sua alma.
- Eu sei. Não é isso o que todas as séries fazem?
Eles compartilharam uma pequena risada.
- De certa forma, é sim.
Depois de um curto silêncio, ele se inclinou, cobrindo a curta distância entre eles, e capturou seus lábios. O beijo era suave e preguiçoso. Não havia luxúria naquele beijo, não havia o ardor que experimentavam pouco antes de começarem a tirar as roupas. Havia apenas calor e conforto, como sentar-se em frente a uma lareira num dia frio. Os dedos de Nelson deslizaram em seu pescoço e em seus ombros enquanto ele a beijava, e Avery suspirou de prazer, correndo as mãos por seu peito quente.
Para ela ainda era estranho tocá-lo e ser tocada daquela forma, tão amorosamente. Era ainda mais estranho que o sexo em si. O sexo era um ato básico, cego, instintivo. De certa forma menos complexo que o carinho, a ânsia de proteger, a necessidade angustiante de tê-lo por perto o tempo todo.
Era estranho de um jeito bom. Algo que ela não trocaria por nada, se pudesse.
- Agora eu quero saber. Qual o seu personagem favorito até agora?
- Reid, sem dúvida. - Nelson respondeu de imediato - Quer dizer... O cara é um computador humano. Tem um banco de dados inteiro na cabeça! Sabe dados estatísticos sobre qualquer coisa sem nem pensar. Você já imaginou o quanto isso seria útil?
Avery abriu um sorriso.
- Eu sabia que você gostaria de Reid. Todos o amam. Mas há uma desvantagem que você não iria querer.
- E qual é?
- Ele não leva jeito nenhum com as mulheres. - ela deu uma piscadela travessa e o puxou para outro beijo.
- Se você vai ver a série desde o começo, - Avery murmurou depois que o beijo foi interrompido - por que não começamos agora?
- Você já viu a primeira temporada. Tem certeza que quer ver de novo?
- Para mim é um prazer. Já vi alguns episódios mais de duas vezes. Nunca fica entediante.
- Então está pronta para mais cinco episódios?
Avery sorriu, presunçosa.
- Estou pronta para mais seis.
Do lado de fora, a chuva continuava caindo.
