DIA 03

- ONIX & LEXCI -

Eu já fui ao Castelo do Esquecimento

muitas vezes. Há um lugar especial naquele

castelo. Mas não são muitos os membros

da Organização que sabem sobre isso.

Alex arrumou suas roupas e deixou seu quarto.

Eu não verei este quarto

por um tempo.

Enquanto andava pelo corredor, Alex ouviu uma voz atrás de si.

?: Alex. Eu tenho uma mensagem do Lorde Milnuxos.

Asïx.

Ele se virou em silêncio para encontrar Asïx, que o observava, sem qualquer expressão em seu rosto.

Asïx: Temos razões para crer que um ou mais dos membros que foram designados ao Castelo do Esquecimento pretendem nos trair. Encontre-os e livre-se deles.

Alex percebeu que Asïx falava em círculos, como se não quisesse dar uma conclusão direta dos fatos. Alex girou levemente os olhos.

Não tem nenhum outro membro por perto,

então não acho necessário que ele se

desse ao trabalho de dizer algo dessa forma.

Mas pensando bem, o Asïx gosta de usar

esse modo de falar, evasivo e indireto.

Alex: E suponho que isso saiu direto dos lábios do Lorde Milnuxos, huh?

As palavras praticamente saltaram de sua boca. Asïx ergueu ambas as suas sobrancelhas.

Asïx: Seja como fosse, daria no mesmo, não é verdade?

Alex: Não exatamente.

Alex ressaltou, e Asïx se permitiu um suspiro.

Asïx: Não importa. Você deve cuidar dos traidores.

Alex: Tá certo.

E então, Alex deu as costas para Asïx e partiu.

São seis os membros que vão

pro Castelo do Esquecimento,

contando comigo. Quantos serão

traidores? E o que define um "traidor",

afinal? Parece que eu vou ter que

julgar tudo sozinho. O que será

que vai acontecer por lá?

Isso está ficando interessante.

Inconscientemente, a boca de Alex começava a formar um sorriso.

{ . . . }

Acordando, Lexci guardou em seu bolso o palito de picolé que havia deixado ao lado do travesseiro, e então saiu de seu quarto. Ele queria saber o significado da tal palavra "VENCEDOR" que havia visto estampada nele, ontem. Seguindo para o salão apressadamente, Lexci olhou em volta. Ele não encontrou Alex.

Lexci: Alex...

No mesmo instante, Asïx passou por ele.

Asïx: Se está atrás de Alex, ele já partiu.

Lexci: Oh...

Lexci tocou o palito de picolé em seu bolso.

Parece que eu não cheguei

a tempo de vê-lo partir.

Asïx: Precisava dele para alguma coisa?

Asïx o ficou encarando. Lexci abaixou o olhar, como se para manter os olhos afastados de Asïx.

Lexci: Na verdade, não...

Asïx: Enfim — a partir de hoje, você executará missões ao lado de Onix. Essa será sua primeira vez numa missão juntos. Precisamos de vocês para eliminar um Sem-Coração específico. Lexci, você estará no comando.

Lexci: Eu? Oh...

Lexci desviou seu olhar para Onix, que estava no canto do salão, seu capuz erguido sobre o rosto.

Lexci: — Tá certo.

Ele consentiu, mas Onix não pareceu reagir de forma alguma, quer estivesse escutando ou não.

Lexci: Vamos.

Lexci lhe chamou, mas Onix não se moveu nem uma polegada. Ignorando o fato, ele abriu um Corredor das Trevas diante de si entrou no mesmo. No canto de sua visão, ele percebeu que Onix estava se movendo.

Agora sim — lá vamos nós.

Dentro do Corredor das Trevas, ele se virou para trás, e viu que Onix estava lhe seguindo, ainda com seu capuz sobre a cabeça. Sentindo que não havia nada em especial para dizer, Lexci continuou andando.

A missão de hoje, como sempre,

é na Cidade Crepuscular.

{ . . . }

Lexci empunhou sua Chave-Espada. Enquanto corria apressadamente por uma ladeira da Cidade Crepuscular, Lexci seguia derrotando alguns Sem-Corações do tipo planta.

Onix está me seguindo, mas não está

fazendo absolutamente nada. Não usa uma

arma, nem magia. Só fica lá, olhando.

Um dos Sem-Corações do tipo planta lançou uma semente contra Onix, que caiu no chão sem sequer emitir algum tipo de som. Lexci hesitou por um momento, pensando se devia ajudar ou não. Mas então, ele lançou sua Chave-Espada contra o Sem-Coração, que continuava a atirar sementes para todos os lados. Enquanto o Sem-Coração desaparecia, um coração foi libertado e flutuou em meio ao céu.

Lexci: — Isso é tudo, eu acho.

Onix apenas se levantou, sem reagir às palavras de Lexci. O casaco negro de Onix estava sujo de poeira, mas isso nem sequer parecia lhe importar.

Isso foi bem estranho, mas nós

conseguimos terminar a missão a salvo.

Lexci: Eu tenho que ir num lugar primeiro, então você... já que RAC logo?

Sem fazer nada além de lhe dar um breve consentimento, Onix começou a tomar seu rumo, provavelmente seguindo para o Corredor das Trevas. Lexci deu as costas para Onix, e partiu para a loja de doces na praça do bonde.

Agora que eu terminei a minha

missão, quero tomar um picolé. É uma

chatice ficar só pulando do castelo pro

trabalho e do trabalho pro castelo.

Lexci foi atendido por uma moça na loja de doces.

Lexci: — Um picolé de sal-marinho, por favor.

Moça: Certo, são 20 dinheiros.

Lexci pagou com duas moedas de 10 dinheiros e recebeu o picolé embalado num embrulho transparente.

Sabe, essa é a primeira vez

que eu compro picolé nessa loja.

Alex sempre compra pra mim.

Lexci já ia embora, o picolé em mãos, quando de repente ele parou. O palito de ontem estava no seu bolso. Lexci o mostrou para a moça.

Lexci: O que isso significa?

Moça: Oh, é um palito premiado! Parabéns!

Lexci: Parabéns...?

Ele nunca havia ouvido essa palavra antes.

Moça: Com isso, eu posso lhe dar mais um picolé.

Lexci: Mas e quanto ao dinheiro...?

Eu não entendo bem o que significa

"dar". Você consegue coisas em troca de

um número de dinheiro ou de corações,

foi definitivamente isso o que eu ouvi.

Moça: Não, este será sem custo algum. Afinal, você venceu! Tem algum amigo com quem gostaria de dividir seu picolé?

No mesmo momento, Alex veio em sua cabeça.

Lexci: — Eu tenho, mas... ele não está aqui hoje.

Moça: Bem, use o palito quando puder vir tomar picolé com o seu amigo. Você vai acabar com uma dor de estômago se tomar os dois sozinho, querido.

Lexci: Com o meu amigo — entendi.

Quando o Alex voltar, eu vou

mostrar o palito para ele, e aí a gente

vai poder tomar picolé juntos.

Com o picolé em mãos, Lexci seguiu para a torre do relógio.

{ . . . }

O Castelo do Esquecimento se encontrava num mundo entre mundos.

Um mundo de intermédio se refere a um tipo de mundo que não pertence nem ao Reino da Luz e nem ao Reino da Escuridão — ele se situa entre os dois. É um espaço deixado para seres que não existem, que não são nem de luz e nem de trevas, como o próprio mundo. Era um mundo sombrio, envolto em névoa, com um caminho que passava por ele. Os membros da Organização eram capazes de viajar pelos mundos anteriormente separados utilizando-se de suas intransitáveis trilhas obscuras — denominadas Corredores das Trevas — e seguiram para o tal mundo de intermédio.

Numa sala em particular do Castelo do Esquecimento, Alex estava sentado em um sofá. Era exatamente igual ao que havia no salão do Castelo que Nunca Foi, até mesmo no desconforto. O Castelo do Esquecimento era um lugar desagradável.

Cada andar daquele castelo, dividido entre as sessões denominadas topo e subsolo, era controlado pela memória — a forma de suas salas mudava de acordo com as memórias daquele que entrasse nelas.

E também havia no castelo uma bruxa manipuladora de memórias que não tinha permissão para sair — Maiko.

A Organização planeja reescrever as

memórias do herói, usando o poder

de Maiko. Para falar a verdade, a Maiko

não é nem um Sem-Coração e nem

uma humana. Talvez ela não seja

nem um Incorpóreo, e nem exatamente

uma garota. Uma bruxa nascida de

uma forma especial — isso mesmo, uma

garota — ou melhor, uma futanari — que

nasceu de uma Princesa de Coração.

Alex observou a bola de cristal diante de si, uma que Luxarmia havia deixado no meio da sala. A bola de cristal mostrava o Mestre da Chave-Espada, Sora.

O poder de um portador da Chave-Espada

é necessário para a Organização, que

busca por corações. Só que nós já temos um

portador da Chave-Espada — Lexci. Acho

que a Organização está tentando obter

outro. O que é uma Chave-Espada, afinal?

Dizem que apenas pessoas especiais

são capazes de usá-las, mas apenas dois

portadores da Chave-Espada — Lexci e Sora,

um Incorpóreo e um humano — foram

confirmados de poderem usá-la.

Luxarmia, que também assistia à bola de cristal, se virou para Alex.

Luxarmia: Ah, sim... como está se saindo o grupo do subsolo?

Encobrindo um bocejo, Alex se levantou.

Parece que há certa tensão entre o

grupo do topo — novatos, com Luxarmia

e Nerlaxe no comando — e o grupo

do subsolo — Ixenzo, Xeven e Aelexus,

membros veteranos da Organização e

antigos aprendizes de Luminos o Sábio.

Como sou novato, fui designado ao

grupo do topo, e venho ficado de olho

no grupo do subsolo, de acordo com as

ordens que recebi de Luxarmia.

Alex: Parece que o pessoal do subsolo também tem companhia. Yami — já ouviu esse nome antes?

Eu ouvi dizer que Yami já

foi controlado pelo Sem-Coração

de Vourath, antes conhecido

como Luminos. Vourath... em outras

palavras, trata-se de alguém

extremamente próximo à Milnuxos.

Luxarmia: Oh... aquele que foi impregnado pela escuridão...

Alex: Então você sabe.

O castelo de repente foi

lançado num grande tumulto,

desde que recebemos relatórios

de que Sora havia invadido o

topo, e Yami o subsolo.

Luxarmia: Gostaria de saber o que eles pretendem.

Alex: Beeem... você sabe sobre a pesquisa que eles estão fazendo no subsolo, né?

Só porque fomos designados ao mesmo

castelo, não significa que todos os

membros saibam de todos os objetivos

e missões no local. Quando se trata

disso, os membros da Organização

meio que agem de forma independente.

Milnuxos: Está falando sobre a pesquisa inútil do Xeven?

Alex: Bem, eu não sei se é inútil.

Luxarmia: Não imagino como aquelas marionetes possam ser úteis. Bem — tenho que ir. O herói está aqui.

Mesmo no interior do Castelo do Esquecimento, os membros da Organização podiam se mover através dos Corredores das Trevas. Seguindo Luxarmia, a figura de Alex também desapareceu.

{ . . . }

Na manhã seguinte, logo que entrou no salão, Lexci se deparou com Edmyx e Braxig, parados diante de Onix. Eles falavam sobre algo no meio do salão.

Edmyx: Esse lugar é, tipo, um milhão de vezes melhor sem aquele povo chato pra ficar enchendo o saco, não é verdade?

Onix, de capuz erguido como sempre, nem moveu a boca para responder.

Lexci: Povo chato...?

Lexci se aproximou dos outros, e Edmyx deu de ombros, olhando para Braxig como se buscasse consentimento.

Edmyx: É, o "time dos sonhos" que foi mandado para o Castelo do Esquecimento. Bom, é um sonho pra mim, agora que eles se foram!

Lexci: Oh...

Braxig: É uma pena você e a boneca não terem tido a chance de passar mais um tempinho com eles.

Lexci inclinou a cabeça ao ouvir aquele nome que não lhe era familiar.

Lexci: Boneca? Quem é isso?

Por alguma razão, Braxig pareceu se entreter com aquilo.

Braxig: Onix, é claro. Quem mais podia ser, garotão?

Lexci: Garotão...? Esse não é o meu nome.

Será que ele está se

referindo a mim?

Quando ele começara a pensar sobre o assunto, alguém lhe interrompeu.

?: Lexci, ao trabalho.

Era Asïx.

Asïx: Hoje, você se juntará a Onix novamente. Vão para a Cidade Crepuscular para exterminar Sem-Corações.

Lexci: — Entendido.

Lexci respondeu, mas, como sempre, Onix não disse nada. Entretanto, não parecia que Asïx tinha qualquer problema com a falta de respostas de Onix. Lexci lhe lançou um olhou, e abriu um Corredor das Trevas.

Se eu seguir em frente, acho

que Onix virá por vontade própria.

E assim que ele lhe deu as costas novamente, Onix o seguiu, como fizera no dia anterior.

{ . . . }

A missão era derrotar os Sem-Corações que apareceram num terreno vazio da Cidade Crepuscular. Sem dar nenhuma instrução a Onix, Lexci correu sozinho até o bando de Sem-Corações, golpeando-os com sua Chave-Espada.

Entretanto, foi um pouco diferente do que havia sido no último dia. No meio do combate, Onix, usando uma magia de fogo, entrou em seu campo de visão. Onix não estava mais num canto, sem tomar atitudes, como da última vez.

Após terminarem com o último Sem-Coração, Lexci percebeu que Onix lhe observava com certo interesse.

Lexci: Eu tenho que ir num lugar de novo, hoje. Então, se quiser, pode ir sem mim.

E então...

?: L-Lex... Lexci...

Lexci: Uhm?

Ele se virou — era a primeira vez que havia ouvido aquela voz.

Lexci: O que foi que disse...?

Era a voz de uma garota. Ainda com o capuz cobrindo sua face, Onix não se moveu. Quando Lexci começava a acreditar que era só sua imaginação, Onix abriu a boca novamente.

Onix: O seu nome... é Lexci... não é?

Sim, esse é o meu nome!

Onix — ela disse o meu nome.

Lexci: Sim, Onix... é sim.

Onix balançou a cabeça, e partiu pelo Corredor das Trevas.

Lexci: Meu nome... será que essa foi a primeira coisa que a Onix já disse...?

Ele murmurou subconscientemente, como se pensasse em outra coisa — e então, partiu para a loja de doces.

{ . . . }

O grupo do Mestre da Chave-Espada — Sora, Donald e Pateta — encarava Luxarmia, que tinha seu capuz lhe cobrindo a face.

Empunhando sua Chave-Espada assim,

Sora se parece mesmo com o Lexci.

Furtivamente, Alex estudava a situação, escondendo-se. Estava no primeiro andar do Castelo do Esquecimento.

Luxarmia: E então, Sora? Gostou de se encontrar com as suas memórias?

Sora: É, foi bom ver todo mundo. Mas o que você realmente quer de mim?

Diante da pergunta de Sora, Luxarmia cruzou os braços, pensativo. Alex abriu um sorriu.

Ele quer testar o Sora. Quer tocá-lo,

se tiver a chance — uma aparição minha

aqui definitivamente não está nos planos

de Luxarmia. Mas mesmo assim...

Alex surgiu logo ao lado de Luxarmia. Era possível perceber que, como havia imaginado, Luxarmia não ficara muito satisfeito com aquilo.

Alex: Daê!

Luxarmia: O que você quer?

Alex: Pare de ficar guardando o herói todo pra você!

Alex deu um passo em frente, olhando para Sora mais de perto.

Eles realmente são parecidos...

Sora encarava Alex e Luxarmia com toda a bravura.

Luxarmia: Então talvez você queira de testá-lo...

Luxarmia atirou três cartas para Alex.

Alex: Talvez sim.

Alex riu, implicando com Luxarmia, que desapareceu sem dar nem mais uma palavra. Sora correu em sua direção, como se quisesse segui-lo.

Sora: — Espera!

Entretanto, Alex se pôs em sua frente, bloqueando o caminho.

Alex: Agora é hora do meu show, Mestre da Chave-Espada.

Sora voltou a empunhar sua Chave-Espada.

Alex: Quem sou eu? Oh, meu nome é Alex. Deu pra memorizar?

Eu disse a mesma coisa

para o Lexci, alguns dias atrás.

Sora: Uh... claro.

Sora se ajeitou, olhando para Alex, que riu, fazendo com que seus chakrams surgissem numa onda de fogo.

Alex: Ótimo, você aprende rápido!

Atrás deles, Donald preparou seu cajado, e Pateta ergueu seu escudo.

Alex: Então, Sora... agora que estamos começando a nos conhecer melhor — vê se não morre logo!

Com a declaração, Alex se lançou contra Pateta.

Pateta: A-hyuck?!

E então — Pateta foi jogado longe.

Donald: Wak?!

Continuando, ele atingiu o outro — Donald, lançando-o para trás com cajado e tudo, o que o forçou a recuar. Só faltava Sora.

Após respirar por um instante, Alex ergueu o braço, convocando chamas que avançaram contra Sora, formando uma parede ao seu redor.

Alex: Se ficar aí parado, você tá frito!

Ao invés disso, diante do golpe de Alex, Sora chamou de volta os seus dois amigos que haviam recuado, Donald e Pateta, os tomou pelas mãos, e correu para cima das chamas. Eles passaram pelo fogo, girando.

Alex: Você tá indo bem, uhm?

Sora correu na direção de Alex, que continuava com um sorriso no rosto, e o golpeou com sua Chave-Espada. Alex rapidamente aparou a Chave-Espada com seus chakrams — mas desapareceu, fingindo ter levado o golpe.

Eu não preciso derrotar

o Sora aqui. Pelo contrário, eu

não tenho que derrotá-lo.

Ainda escondido, Alex lançou as cartas que havia recebido de Luxarmia para Sora, que parecia pensativo.

Sora: Então eu acho que vamos precisar delas para seguir em frente...

Alex: É isso aí.

E então, Alex reapareceu.

Sora: Alex?!

Alex: Você pensou mesmo que, depois de uma apresentação daquelas, eu ia me dar por vencido, oh, tão facilmente assim?

Ele sorriu, como se quisesse provocar Sora e os outros. Rapidamente, Sora voltou a empunhar sua Chave-Espada.

Sora: Você só estava nos testando.

Alex: E você passou. Meus parabéns, Sora! Agora você está pronto — pronto para enfrentar o Castelo do Esquecimento. Você precisará seguir suas memórias. Confie no que se lembra e busque o que se esqueceu — e só então, vocês encontrarão alguém muito especial.

Pateta inclinou a cabeça.

Pateta: Se refere ao Rei Mickey e ao Yami?

Alex: Acho que vocês precisam pensar um pouco mais em quem de fato é — mais importante para vocês. Nossas memórias mais preciosas situam-se tão fundo em nossos corações, que ficam fora de nosso alcance. Mas tenho certeza de que você consegue encontrar as suas, Sora.

Sora: Por que eu?

Sora aliviou a força com a qual erguia sua Chave-Espada. Enquanto tentava mexer com a cabeça do jovem, Alex parecia pensativo.

Incorpóreos são controlados

pelas memórias. E como elas nos

controlam, nós deixamos de ser

capazes de nos lembrar. Talvez isso

tenha acontecido comigo. E agora

que o Sora entrou nesse castelo,

Luxarmia está usando o poder

da bruxa — Maiko para mexer com

as suas memórias. Nós devemos

substituir as memórias de Sora, aqui,

nesse castelo. Todas essas minhas

palavras fazem parte desta estratégia.

Alex: Você perdeu de vista a luz dentre a escuridão. E parece que você esqueceu de que se esquecera.

Sora: A luz... dentre a escuridão...?

Sora murmurou. Parecia que ele havia se dado conta de alguma coisa.

Alex: Gostaria que eu te desse uma dica?

Alex ergueu a mão, convidativo — era parte de sua jogada. Duvidoso, Pateta desviou o olhar para o rosto de Sora.

Pateta: Sora — você precisa mesmo disso?

Mas então —

Sora: Eu vou descobrir por mim mesmo! E se você ficar no meu caminho —

Sora declarou, empunhando sua Chave-Espada novamente.

Alex: — Uma bela resposta. É exatamente o que eu esperava do Mestre da Chave-Espada. Mas já esteja avisado... quando suas memórias adormecidas despertarem, você pode não ser mais quem é agora.

E dizendo isso, Alex desapareceu.

{ . . . }

Fazem três dias desde

que o Alex saiu.

Onix estava lá, parada no mesmo e velho salão, assim como no dia anterior. Não, havia algo diferente, Lexci notou. No momento em que ele entrou no salão, Onix pareceu se moveu um pouco, e olhou para ele por debaixo de seu capuz... ou pelo menos foi o que ele sentiu.

Lexci: Bom dia, Onix.

Ele se aproximou dela, mas Onix permaneceu completamente imóvel. Sem saber o que fazer, Lexci se sentiu perdido.

Deve ter sido só minha

imaginação, então,

ela ter reagido para mim.

Mas — Onix estava olhando para ele, de uma forma definitivamente diferente do dia anterior. Foi quando ele, sem pensar, deixou palavras saírem de sua boca.

Lexci: Uhm... algum problema?

Eu cumprimentei ela e tudo, mas sei

lá — até pensar em perguntar

algo desse tipo me parece estranho.

Mas eu não soube o que fazer.

Mas —

Onix: — Bom... dia, Lexci.

Aquilo definitivamente era um cumprimento. Ele não conseguia acreditar que aquela era a mesma Onix de ontem.

Lexci: Oh, sim...

Foi uma resposta automática, ele havia se perdido em palavras. E foi então que Asïx lhes interrompeu.

Asïx: Hoje, vocês dois executarão uma missão de enorme importância. Vocês vão estar subjugando um Sem-Coração gigante.

Lexci: — Um Sem-Coração... gigante?

Já me mandaram em missões que

consistiam em derrotar um determinado

número de Sem-Corações antes, mas

acho que essa é a primeira vez que

estarei subjugando um Sem-Coração que

possa ser receber o título de "gigante".

Asïx: Não deixem a guarda baixa.

Diante de Asïx, Lexci consentiu, voltando-se para Onix.

Lexci: Vamos, Onix.

Ela pareceu ter consentido.

{ . . . }

Lexci e Onix deixaram o Corredor das Trevas, tendo enfim chegado à Cidade Crepuscular. No espaço aberto que havia ao topo das escadarias, o pôr-do-sol era realmente ofuscante.

Onix: Lexci.

O jovem se virou ao ouvir seu nome ser chamado, e então notou que Onix estava olhando para ele.

Como sempre, não posso

dizer qual é a expressão em

sua face, sob esse capuz —

— e interrompendo o pensamento dele, Onix abaixou seu capuz, revelando por debaixo dele uma garota de cabelos negros.

Eu sinto como — se já tivesse

me encontrado com ela antes, ou

algo do tipo. Mas essa é a primeira

vez que eu vejo o rosto da Onix.

Onix: Boa sorte hoje.

Onix estava sorrindo.

Lexci: O-obrigado — pra você também, Onix.

Eu não sei aonde esse Sem-Coração

gigante pode estar. Mas não há muitos

lugares por onde um Sem-Coração

gigante poderia andar. Tem — a área

na frente do torre do relógio da

estação seria um desses lugares.

Lexci começou a correr.

{ . . . }

O sino da estação começou a tocar assim que eles chegaram lá. Como se fosse algum tipo de sinal, ao tocar do sino, o ar vibrou. E então, no mesmo instante, alguma coisa pareceu rugir atrás deles.

Virando-se para trás num reflexo, eles se depararam com um Sem-Coração de forma humana, completamente negro — um Lado-Negro, como era chamado — surgindo do chão.

Lexci: O que é isso?!

Onix: Nosso alvo!

Lexci invocou a Chave-Espada em sua mão. Tendo se erguido por completo, o inimigo era tão grande quanto a torre do relógio.

Lexci: Tá pronta?

Onix: Claro — vamos!

Onix não tem nenhuma arma

em mãos, mas acho que vai me dar

suporte mágico, como fez antes.

Seguido por Onix, Lexci saiu correndo na direção do Lado-Negro. No peito da criatura havia um buraco em forma de coração, que espantosamente mostrava o cenário que havia do outro lado.

Será que esses Sem-Corações,

os Lados-Negros, atacam

em busca deste coração perdido?

Tentando se livrar de pensamentos inúteis, Lexci pulou, acertando o braço da criatura com sua Chave-Espada. Voltando ao solo, Lexci sentiu uma nítida resposta do corpo do Lado-Negro, que se envolveu numa névoa sombria.

Enquanto isso, aos fundos, Onix lançava uma bola de fogo contra a cabeça do Lado-Negro. A criatura liberou um lúgubre urro, e atingiu o chão com ambos os seus punhos. Trevas se espalharam pelo solo, se ampliando a cada impacto.

Lexci: Ugh...

Lexci, que de alguma forma havia resistido ao golpe, correu aos punhos que atingia m o solo, tentando acertá-los com a Chave-Espada. Mas, ao ser atingido, o braço do Lado-Negro lançou Lexci e sua Chave-Espada ao longe.

Lexci: Essa não!

A Chave-Espada defletida derrapou pelo chão, parando aos pés de Onix. E então — no momento seguinte, a Chave-Espada estava sendo portada pelas mãos de Onix.

Lexci: Huh...?!

Diante de Lexci, que continuava atirado ao chão, Onix correu na direção do Lado-Negro, a Chave-Espada em suas mãos, e deu um grande salto. Manejando a Chave-Espada com total perfeição, ela desferiu um golpe fatal contra o Lado-Negro.

Onix desceu ao chão novamente, e o Lado-Negro se desfez dentre a mesma névoa sombria de antes. Levantando-se, Lexci murmurou.

Lexci: — Whoa!

Então a Onix pode usar a

mesma arma que eu. Cada um

dos membros da Organização tem a

sua própria arma especial, mas eu

nunca tinha ouvido nada sobre um

poder usar a arma de outro.

A Chave-Espada se teleportou da mão de Onix para a de Lexci.

Lexci: Onix, eu não sabia que você podia usar a Chave-Espada!

Onix: Eu — também não sabia.

Onix sorriu, parecendo um tanto inquieta.

Nunca nem sequer se passou

pela minha cabeça que mais alguém

poderia usar a Chave-Espada.

A Chave-Espada cintilou na palma da mão de Lexci, e então desapareceu, como de costume. Lexci se sentia um pouco estranho. Ele nunca imaginou que algo assim poderia acontecer consigo — descobrir algo, e terminar a missão sentindo-se tão bem, prazeroso.

Sendo assim — já sei

o que vou fazer.

Lexci: Você foi ótima. Na verdade, você até merece uma recompensa.

Onix pareceu surpresa.

Onix: Uhm? Uma recompensa...?

Lexci: É, a cereja em cima do bolo. É um lugar que eu conheço. A gente vai lá. Mas antes disso, eu tenho que fazer uns preparativos. Espere aqui, tá?

Lexci sorriu, correndo na direção da loja de doces.

Onix: Calma aí, Lexci —!

{ . . . }

Lexci comprou dois picolés, voltou até o espaço aberto na frente da estação, e levou Onix para a torre do relógio.

Eu até pensei em usar o "VENCEDOR",

mas repensei sobre isso — é claro

que eu vou usá-lo quando o Alex voltar.

Onix: Como é que você encontrou um lugar tão incrível?

Lexci: He, he! Sente-se.

Onix: — Certo.

Onix se sentou na frente da torre do relógio. Seu olhar parecia bastante fixo ao longe — no pôr-do-sol. Lexci lhe entregou um picolé.

Lexci: Beleza, aqui está!

Onix: O que é isso?

Onix olhou para o picolé, com uma expressão estranha em seu rosto.

Lexci: Um picolé de sal-marinho. Vai lá, dá uma provada.

Onix: Tá bem...

Onix deu uma pequena mordida no picolé, e então sussurrou...

Onix: É doce... mas é meio salgado, também.

Lexci: Mó gostoso, né? Eu e Alex sempre nos encontramos aqui para tomar picolé, depois do trabalho.

Enquanto explicava, Lexci também deu uma mordida em seu picolé.

Um picolé especial,

doce e salgado.

Lexci: Sal-marinho é o sabor preferido — do Alex.

Ele falava de seu amigo, que tinha partido para uma missão em algum lugar distante. E então, Onix se virou para ele, sorrindo.

Onix: Parece ser o seu, também!

Lexci: Heh, acho que sim...

Balançando brevemente a cabeça, ele tomou mais um pouco do picolé.

Lexci: Eu não me lembro muito bem, mas o Alex disse que me trouxe aqui no meu primeiro dia na Organização. E daí ele me comprou picolé mais uma vez, depois da minha primeira missão. Ele disse que era "a cereja em cima do bolo".

Onix: — Uma recompensa?

Lexci: Exatamente.

Na verdade, eu não sei ao certo o que

"recompensa" quer dizer, mas acredito que

definitivamente deve ser algo especial,

assim como "VENCEDOR". Sendo assim,

quando o Alex voltar, eu vou dar o palito

premiado para ele como uma recompensa.

Tomando seu picolé ao lado de Lexci, Onix balançou os pés.

Onix: Vocês dois devem ser chegados.

Lexci não soube bem o que dizer por um momento — mas ele logo encontrou a resposta certa.

Lexci: Alex é o meu primeiro amigo.

Onix: Seu... amigo? Lexci — você acha que eu possa ser sua amiga?

Onix olhou para Lexci, inclinando a cabeça para o lado. Ele deu uma mordida em seu picolé.

Lexci: Quando o Alex voltar, vamos perguntar para ele. E daí, nós três poderemos tomar picolé juntos!

O Alex definitivamente vai voltar logo.

E então, nós três podíamos vir aqui para

tomar picolé juntos. Não sei se a Onix

pode se tornar minha amiga, mas — mas

eu acredito que estaria tudo bem.